(Uma crítica ao filme Chico Bento e a goiabeira maraviósa.)
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Talvez o principal motivo que me leve a escrever sobre minhas impressões de um filme seja o grau de afeto em que ele me põe. “Afeto” vem do latim affĕctus, particípio passivo de afficĕre, e significa “colocação de algo ou de si mesmo em um certo estado” (bom ou mau), e daí, “afeição”, “afeito” (ou “contrafeito”), “aficionado” etc. Pois bem. Já é meia-noite e 57 minutos, e só agora eu consegui domar o suficiente meu estado de euforia e de recuperação da inocência infantil em que Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025) me colocara e posso escrever este artigo com alguma objetividade.
O cinema “infantil” nacional sempre se apresentou de forma, no mínimo, questionável. Se analisarmos as duas principais fontes desse subgênero, que são os Trapalhões e a Xuxa, e mesmo considerando as épocas e os contextos socioculturais dos trabalhos resultantes, temos produções que variam entre um romance brega disfarçado de pastelão de péssimo gosto e um pastelão descarado, de pior gosto ainda, ou seja, temos filmes com intenções e estéticas “infantis”, porém com inúmeras características de comédias para o público adulto, a maioria, desgraçadamente realizada. Parece que o comprometimento principal desse segmento era mais com as figuras públicas de seus atores, fossem estes apresentadores, comediantes, humoristas, cantores ou dançarinos, que com aqueles que deveriam ser a finalidade desses filmes: o público infantil. Algumas dessas obras e de outras, tentando atingir esse público, tornaram-se infantiloides, visando a crianças arquetípicas, imbecilizadas pela idealização feita por roteiristas, diretores, produtores e também atores.
Contudo, nada disso ocorre com essa “maravía” que é Chico Bento e a goiabeira maraviósa. Estava esperando assistir a esse filme desde que vi o primeiro trailer, ano passado (ele começou a ser filmado em 2023). Na ocasião, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o ator principal, Isaac Amendoim, que não me deixou dúvidas de que ele, sim, era o Chico Bento verdadeiro, mais que o de seu criador, Maurício de Sousa. Esse menino ganha a gente na primeira cena, antes mesmo de abrir a boca. Mérito dele, óbvio, mas também dos escaladores de elenco Luciano Baldan e Fernanda Schaefer, que escolheram muito bem todos os atores mirins e adultos do filme. O roteiro, escrito por Elena Altheman, Raul Chequer e pelo diretor Fernando Fraiha, também é responsável pela precisão das interpretações, que acertam em cheio em fazer um filme infantil sem a estupidez com que alguns realizadores (gringos ou conterrâneos) imaginam seus públicos-alvo.
A história tem como enredo o impacto da construção de uma estrada asfaltada proposta por Dotô Agripino (Augusto Madeira), que é anunciada como uma proporcionadora do progresso a Vila Abobrinha, pois substituiria as vias de terra esburacada, conectaria o lugarejo e todas as propriedades dos moradores ao seu redor com as fazendas dele e viabilizaria um aumento do comércio da produção geral, incrementando o lucro de todos, mas que consiste na realidade em uma estratégia de Agripino para explorá-los, pois ele aumentaria imoralmente o custo e a quantidade do asfalto, sendo ele o único fornecedor de matéria-prima, maquinário e mão-de-obra. Além disso, a sua falta de escrúpulos levaria à destruição dos rios e de boa parte da natureza da região para a realização da obra, intento que ele havia ocultado de todos. Contudo, o verdadeiro deflagrador do conflito é a insistência de Agripino em derrubar a goiabeira pertencente a Nhô Lau (Luis Lobianco), árvore cuja semente foi plantada no mesmo dia do nascimento de Chico e com a qual este tem um vínculo não só lúdico e telúrico, mas, essencialmente, afetivo, tratando-a ele como sua “melhor amiga”. A partir daí, desenvolvem-se os principais temas do filme: a destruição ambiental em virtude de um avanço que beneficia quase unicamente o detentor do capital e dos meios de produção; o impasse entre o “atraso” atribuído à vida em comunhão com o meio ambiente e o “progresso” relacionado à urbanização; o telurismo e o valor da amizade; e a falta de comunicação geracional, fator que impede que os adultos considerem as perspectivas das crianças.
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Quase todos os atores estão na medida certa das personagens de Maurício de Sousa (que deu uma de Stan Lee e fez uma pontinha) e entregaram um texto quadrinhesco sem ser antinatural, deixando o espectador confortável. Isso acontece (acredito eu) em boa parte porque crescemos todos lendo e amando as revistinhas do Chico, e o filme respeitou bastante este nosso arcabouço cultural. São criados logo nas primeiras cenas não só um encanto com o “Isaac-Chico”, mas, principalmente, um vínculo afetivo com milhões de “chicos” que leram e releram e passaram essas leituras para seus filhos e netos (a personagem foi criada em 1961) de tal maneira que Chico Bento tornou-se um elemento identitário nosso, assim como Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali. Os outros atores mirins se encaixaram muito bem nas suas respectivas interpretações, destacando-se Anna Julia Dias (Rosinha) e Pedro Dantas (Zé Lelé), mas quero salientar aqui a participação dos adultos. É comum vermos em filmes com personagens interioranas (especialmente, as comédias; principalmente, os infantis) uma estereotipagem agressiva que nos desconecta com o que eles poderiam ser. Atribuo isso em maior parte aos preconceitos de classe, de região e até mesmo de raça, mas também à escalação de elenco, que prioriza atores que se mostram limitados ao sotaque de sua própria região e que, quando se propõem a interpretar personagens “regionais”, fazem-no de maneira macaqueada, grotesca e hedionda. Claro que há exceções, porém, nesse filme, senti que houve uma bastante curiosa: por se tratar de personagens que já nasceram caricatas nas HQ, o limite que deveria, como de hábito, ter sido monstruosamente cruzado não o foi. Os atores adultos se mantiveram na linha entre o caricaturesco e o real, mas o fizeram com bastante generosidade. Luis Lobianco (Nhô Lau), Guga Coelho (Nhô Bento, este, um pouco exagerado), Livia La Gatto (Dona Cotinha), Augusto Madeira (Dotô Agripino), Thaís Garayp (Vó Dita), Débora Falabella (Professora Marocas), Taís Araújo (Dona Goiabeira) e os outros entregaram personagens tanto críveis dentro do espectro quadrinhesco quanto representativas de suas classes e região. Dessa forma, a trama, que é contada de uma forma bem simples e típica de uma historinha em quadrinhos, convence apesar da singeleza, pois o filme consegue o que todo bom leitor de HQ, no fundo, espera: “ler” um filme.
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E que filme bom tecnicamente! Produzido por Bianca Villar, Fernando Fraiha, Karen Castanho, Daniel Rezende, Marcio Fraccaroli e Marcos Saraiva, ele tem uma cinematografia caprichada (Gustavo Hadba, ABC), com uma paleta de cores vivas e ensolaradas, sem o exagero que, muitas vezes, filmes infantis tendem a cometer. A direção de arte (Marinês Mencio) se preocupou com os detalhes no limite entre o plausível e o cartunesco, ou seja, eu acreditei que todo o figurino (Leticia Barbieri) condizia com a realidade, assim como as locações e os objetos em cena, mas também não me afastei em nenhum momento da sensação de estar dentro de uma HQ do Chico Bento, o que, garanto, me grudou na narrativa o tempo inteiro. Até mesmo a inserção das sequências animadas em 3D e 2D (François Puren) no meio e nos créditos se alinha com a qualidade da obra, pois não rompe o fluxo do live-action, pelo contrário, a fusão é perfeita, justificada e motivadora da trama e não destoa do que este vinha apresentando. A edição (Daniel Weber, AMC) é bem feita, dando à gente o tempo certinho de cada ação, assim como as elipses entre elas, o que deixou as transições muito parecidas com as de uma HQ longa. A única ressalva que faço é à qualidade do som dos diálogos dos atores mirins, que se ouvem bem, mas não se entendem às vezes. Mesmo assim, apesar de ser uma pequena falha técnica, eu atribuo mais à naturalidade com que eles empregaram o sotaque do interior de SP do que a uma possível incompetência do som direto (Abrão Antunes).
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Chico Bento e a goiabeira maraviósa deixou difícil a incumbência que me dei de escrever pondo um pouco de lado a subjetividade de quem ama aquilo que vê e se vê naquilo a que assiste. É um filme que me sobrecarregou de afeto desde o trailer, pois trata de alguns dos tesouros mais preciosos que carrego comigo: minha criança interior, minha identidade de menino da cidade que cresceu com raízes no sertão e minhas primeiras leituras, minha bacia cheia de revistinhas que meu pai, principalmente, comprava para mim. Porém, não unicamente por isso. É uma história que faz sorrir com a autenticidade própria dos espíritos simples um espectador que vive em tempos de horrores e flagelos, pois, apesar de se tratar de um embate da sordidez contra a inocência, ela desenvolve isso de modo inocente, além de singelo e muito bem-humorado. Em vários pontos, eu me peguei literalmente “maraviádo”, boquiaberto de riso e choro. Adulto, vi um filme que não fizeram para mim, mas que também fizeram para mim. Quando criança, produções assim, feitas na minha língua, não existiam, por conseguinte eu não existia no meu cinema. Entretanto, eu existia nas revistinhas, e foi aí que Chico Bento me acertou, bem no cerne do meu afeto de criança, ainda existente, mesmo que bem escondido, no coração do adulto. Mal posso esperar para mostrá-lo aos meus filhos e ver nos seus olhinhos que há um lugar que eles e eu coabitamos — uma Vila Abobrinha com um vizinho de boa alma, ainda que ranheta, possuidor de uma goiabeira onde podemos subir e roubar os melhores frutos de nossas inocências. Uma goiabeira “maraviósa”, enraizada no melhor de nossos afetos.
Assistam “maraviádos”
22/03/25