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sábado, 22 de março de 2025

TODO MUNDO MERECE UMA “GOIABEIRA MARAVIÓSA”

(Uma crítica ao filme Chico Bento e a goiabeira maraviósa.)

Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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    Talvez o principal motivo que me leve a escrever sobre minhas impressões de um filme seja o grau de afeto em que ele me põe. “Afeto” vem do latim affĕctus, particípio passivo de afficĕre, e significa “colocação de algo ou de si mesmo em um certo estado” (bom ou mau), e daí, “afeição”, “afeito” (ou “contrafeito”), “aficionado” etc. Pois bem. Já é meia-noite e 57 minutos, e só agora eu consegui domar o suficiente meu estado de euforia e de recuperação da inocência infantil em que Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025) me colocara e posso escrever este artigo com alguma objetividade.
    O cinema “infantil” nacional sempre se apresentou de forma, no mínimo, questionável. Se analisarmos as duas principais fontes desse subgênero, que são os Trapalhões e a Xuxa, e mesmo considerando as épocas e os contextos socioculturais dos trabalhos resultantes, temos produções que variam entre um romance brega disfarçado de pastelão de péssimo gosto e um pastelão descarado, de pior gosto ainda, ou seja, temos filmes com intenções e estéticas “infantis”, porém com inúmeras características de comédias para o público adulto, a maioria, desgraçadamente realizada. Parece que o comprometimento principal desse segmento era mais com as figuras públicas de seus atores, fossem estes apresentadores, comediantes, humoristas, cantores ou dançarinos, que com aqueles que deveriam ser a finalidade desses filmes: o público infantil. Algumas dessas obras e de outras, tentando atingir esse público, tornaram-se infantiloides, visando a crianças arquetípicas, imbecilizadas pela idealização feita por roteiristas, diretores, produtores e também atores.
    Contudo, nada disso ocorre com essa “maravía” que é Chico Bento e a goiabeira maraviósa. Estava esperando assistir a esse filme desde que vi o primeiro trailer, ano passado (ele começou a ser filmado em 2023). Na ocasião, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o ator principal, Isaac Amendoim, que não me deixou dúvidas de que ele, sim, era o Chico Bento verdadeiro, mais que o de seu criador, Maurício de Sousa. Esse menino ganha a gente na primeira cena, antes mesmo de abrir a boca. Mérito dele, óbvio, mas também dos escaladores de elenco Luciano Baldan e Fernanda Schaefer, que escolheram muito bem todos os atores mirins e adultos do filme. O roteiro, escrito por Elena Altheman, Raul Chequer e pelo diretor Fernando Fraiha, também é responsável pela precisão das interpretações, que acertam em cheio em fazer um filme infantil sem a estupidez com que alguns realizadores (gringos ou conterrâneos) imaginam seus públicos-alvo.
    A história tem como enredo o impacto da construção de uma estrada asfaltada proposta por Dotô Agripino (Augusto Madeira), que é anunciada como uma proporcionadora do progresso a Vila Abobrinha, pois substituiria as vias de terra esburacada, conectaria o lugarejo e todas as propriedades dos moradores ao seu redor com as fazendas dele e viabilizaria um aumento do comércio da produção geral, incrementando o lucro de todos, mas que consiste na realidade em uma estratégia de Agripino para explorá-los, pois ele aumentaria imoralmente o custo e a quantidade do asfalto, sendo ele o único fornecedor de matéria-prima, maquinário e mão-de-obra. Além disso, a sua falta de escrúpulos levaria à destruição dos rios e de boa parte da natureza da região para a realização da obra, intento que ele havia ocultado de todos. Contudo, o verdadeiro deflagrador do conflito é a insistência de Agripino em derrubar a goiabeira pertencente a Nhô Lau (Luis Lobianco), árvore cuja semente foi plantada no mesmo dia do nascimento de Chico e com a qual este tem um vínculo não só lúdico e telúrico, mas, essencialmente, afetivo, tratando-a ele como sua “melhor amiga”. A partir daí, desenvolvem-se os principais temas do filme: a destruição ambiental em virtude de um avanço que beneficia quase unicamente o detentor do capital e dos meios de produção; o impasse entre o “atraso” atribuído à vida em comunhão com o meio ambiente e o “progresso” relacionado à urbanização; o telurismo e o valor da amizade; e a falta de comunicação geracional, fator que impede que os adultos considerem as perspectivas das crianças.

Nhô Lau (Luis Lobianco) e Chico Bento (Isaac Amendoim)
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    Quase todos os atores estão na medida certa das personagens de Maurício de Sousa (que deu uma de Stan Lee e fez uma pontinha) e entregaram um texto quadrinhesco sem ser antinatural, deixando o espectador confortável. Isso acontece (acredito eu) em boa parte porque crescemos todos lendo e amando as revistinhas do Chico, e o filme respeitou bastante este nosso arcabouço cultural. São criados logo nas primeiras cenas não só um encanto com o “Isaac-Chico”, mas, principalmente, um vínculo afetivo com milhões de “chicos” que leram e releram e passaram essas leituras para seus filhos e netos (a personagem foi criada em 1961) de tal maneira que Chico Bento tornou-se um elemento identitário nosso, assim como Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali. Os outros atores mirins se encaixaram muito bem nas suas respectivas interpretações, destacando-se Anna Julia Dias (Rosinha) e Pedro Dantas (Zé Lelé), mas quero salientar aqui a participação dos adultos. É comum vermos em filmes com personagens interioranas (especialmente, as comédias; principalmente, os infantis) uma estereotipagem agressiva que nos desconecta com o que eles poderiam ser. Atribuo isso em maior parte aos preconceitos de classe, de região e até mesmo de raça, mas também à escalação de elenco, que prioriza atores que se mostram limitados ao sotaque de sua própria região e que, quando se propõem a interpretar personagens “regionais”, fazem-no de maneira macaqueada, grotesca e hedionda. Claro que há exceções, porém, nesse filme, senti que houve uma bastante curiosa: por se tratar de personagens que já nasceram caricatas nas HQ, o limite que deveria, como de hábito, ter sido monstruosamente cruzado não o foi. Os atores adultos se mantiveram na linha entre o caricaturesco e o real, mas o fizeram com bastante generosidade. Luis Lobianco (Nhô Lau), Guga Coelho (Nhô Bento, este, um pouco exagerado), Livia La Gatto (Dona Cotinha), Augusto Madeira (Dotô Agripino), Thaís Garayp (Vó Dita), Débora Falabella (Professora Marocas), Taís Araújo (Dona Goiabeira) e os outros entregaram personagens tanto críveis dentro do espectro quadrinhesco quanto representativas de suas classes e região. Dessa forma, a trama, que é contada de uma forma bem simples e típica de uma historinha em quadrinhos, convence apesar da singeleza, pois o filme consegue o que todo bom leitor de HQ, no fundo, espera: “ler” um filme.

Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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    E que filme bom tecnicamente! Produzido por Bianca Villar, Fernando Fraiha, Karen Castanho, Daniel Rezende, Marcio Fraccaroli e Marcos Saraiva, ele tem uma cinematografia caprichada (Gustavo Hadba, ABC), com uma paleta de cores vivas e ensolaradas, sem o exagero que, muitas vezes, filmes infantis tendem a cometer. A direção de arte (Marinês Mencio) se preocupou com os detalhes no limite entre o plausível e o cartunesco, ou seja, eu acreditei que todo o figurino (Leticia Barbieri) condizia com a realidade, assim como as locações e os objetos em cena, mas também não me afastei em nenhum momento da sensação de estar dentro de uma HQ do Chico Bento, o que, garanto, me grudou na narrativa o tempo inteiro. Até mesmo a inserção das sequências animadas em 3D e 2D (François Puren) no meio e nos créditos se alinha com a qualidade da obra, pois não rompe o fluxo do live-action, pelo contrário, a fusão é perfeita, justificada e motivadora da trama e não destoa do que este vinha apresentando. A edição (Daniel Weber, AMC) é bem feita, dando à gente o tempo certinho de cada ação, assim como as elipses entre elas, o que deixou as transições muito parecidas com as de uma HQ longa. A única ressalva que faço é à qualidade do som dos diálogos dos atores mirins, que se ouvem bem, mas não se entendem às vezes. Mesmo assim, apesar de ser uma pequena falha técnica, eu atribuo mais à naturalidade com que eles empregaram o sotaque do interior de SP do que a uma possível incompetência do som direto (Abrão Antunes).

Chico Bento e a goiabeira maraviósa (Fernando Fraiha, 2025)
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    Chico Bento e a goiabeira maraviósa deixou difícil a incumbência que me dei de escrever pondo um pouco de lado a subjetividade de quem ama aquilo que vê e se vê naquilo a que assiste. É um filme que me sobrecarregou de afeto desde o trailer, pois trata de alguns dos tesouros mais preciosos que carrego comigo: minha criança interior, minha identidade de menino da cidade que cresceu com raízes no sertão e minhas primeiras leituras, minha bacia cheia de revistinhas que meu pai, principalmente, comprava para mim. Porém, não unicamente por isso. É uma história que faz sorrir com a autenticidade própria dos espíritos simples um espectador que vive em tempos de horrores e flagelos, pois, apesar de se tratar de um embate da sordidez contra a inocência, ela desenvolve isso de modo inocente, além de singelo e muito bem-humorado. Em vários pontos, eu me peguei literalmente “maraviádo”, boquiaberto de riso e choro. Adulto, vi um filme que não fizeram para mim, mas que também fizeram para mim. Quando criança, produções assim, feitas na minha língua, não existiam, por conseguinte eu não existia no meu cinema. Entretanto, eu existia nas revistinhas, e foi aí que Chico Bento me acertou, bem no cerne do meu afeto de criança, ainda existente, mesmo que bem escondido, no coração do adulto. Mal posso esperar para mostrá-lo aos meus filhos e ver nos seus olhinhos que há um lugar que eles e eu coabitamos — uma Vila Abobrinha com um vizinho de boa alma, ainda que ranheta, possuidor de uma goiabeira onde podemos subir e roubar os melhores frutos de nossas inocências. Uma goiabeira “maraviósa”, enraizada no melhor de nossos afetos.
    Assistam “maraviádos”

22/03/25

quinta-feira, 6 de março de 2025

DO LADO OPOSTO DO MAR

Raimundo Cela
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    Lembro de ouvir meu pai dizer, num desses diálogos que não têm âncora no tempo, que eu tinha uma bomba na perna esquerda. É dessas coisas que só pai nota e que só pai diz. E foi dita na hora certa, pois ficou. Atestou-me. Eu, apesar de destro, era um canhoteiro, decretara meu pai. Muita coisa importante virou vento, muita virou furacão: assim é a palavra, quando o portador é alicerce, coluna e teto. O vento motiva a vela, afresca a pele, seca a lágrima. Torna o dia um dia bom. O furacão averte o mar e cria homens de terra, de pedra, homens-recife. Dos ventos, eu me lembro disso e de ouvi-lo dizer coisas como “o mar não tem cabelos” e que nunca me deixaria afundar. Já aos furacões, resisto, e só.
    Que homem só foi o meu pai. Que homem só eu me tornei. Minha perna esquerda, que hoje é o meu tronco, o meu mourão, ainda me suporta. Na beira do mar, é ela que me ancora. Fateixa de pau-e-pedra, guardando as minhas partidas. Ainda assim, quando olho o mar, procurando não ver ninguém, eu os encontro no sargaço, na maresia, nas vagas. É na ausência que estão meu pai e todos os meus fantasmas. É no obscuro das saudades que arrebenta o furacão de quem não partiu.
    Digo isso da perna esquerda porque, há dias, as dores da direta me dilaceram. Há uns quinze anos, tive nesta um derrame que me custou a sustentação e causou o subsequente definhamento muscular. Além disso, quando tinha uns sete de idade, meu pé direito foi moído pelos aros de uma roda de bicicleta e nunca teve os ossos soldados corretamente, o que me fez conviver com a dor de ficar em pé desde então. Bem recentemente, talvez resultado da má prática de esportes, a articulação do meu ombro direito vive em eterno estado de inflamação, o que me limita os movimentos consideravelmente. Além do mais, tive as duas fraturas na mão direita: uma, resultado de um jogo de vôlei de rua; outra, de uma surra que dei num dos dois únicos ladrões que me roubaram. Isso, sem levar em conta os inúmeros acidentes com facas, anzóis, ferramentas e outras pequenas mutilações ao longo dos anos. Tudo, do lado direito. Agora, espasmos elétricos de punção e fogo na perna direita me agoniam e me fazem pensar se não é nesse lado, à guisa de tiracolo, que carrego meus furacões. Ou se é por aí que eles me carregam. Será que é o mar, o mar alto, a rota aonde eles me fustigam? Será que a minha firmeza, que me finca e sustenta, não me estaria negando o desdobramento de um confronto real com a procela? O que eu seria depois de todos os embates e massacres que nunca me foram impostos lá, após a arrebentação, passando a costa, no além da ausência dos espíritos?
    O que meu pai talvez sentira e nunca me dissera é que aquilo que resta ao homem que evita o mar é a erosão. É ir se desmanchando em areia e fazer parte do chão da praia, parte do mar, parte da terra. Talvez, por outro lado, existam muitos mares menores onde navegam os homens que são o que são, e nada mais: funcionários, pais, bêbados, vagabundos — homens de poucas metáforas. Ou ainda, que o mar grande seja uma maneira de existir ausente, um lar reservado apenas para o depois.
    Eu amei o mar por meio do meu pai. Pela sua mão, perdi e ganhei o medo dos afogamentos; pelo seu olhar, aprendi o respeito e a medida segura de atrevimento. Porém, hoje, aqui, seguro, sou fustigado pelos furacões que deveria haver apenas lá. Gostaria de lhe dizer que, como na maioria das coisas de que me lembro dele e das quais aprendi com ele, existem no homem e na vida dois lados, duas forças que se encontram sem muito conflito, mas cujos violência e desastre se acentuam conforme nelas se adentra. Sobretudo, quando essas forças são menosprezadas no cotidiano, na paciência com que a onda converte o recife em areia fina, na agressividade imóvel de quem olha o mar dolorosamente.
    Sem esse modo de amar, contudo, o outro que eu seria — talvez sem dores, talvez sem senso — não saberia o que é esse cruzamento da fronteira divisória do homem: tudo que sei de mim foi costurado e ponteado pela dor de permanecer e pela angústia de não partir. É possível que essa seja a condição real do homem e que não existam marinheiros, exceto em fantasias e delírios de poder. É possível, portanto, que a natureza da vida sejam este fremir de nervos e tendões, estes ossos tortos e toda a sorte de concretudes físicas que me ancoram na rocha do cais.
    Entretanto, é também possível que este modo de amar o mar seja a única coisa que possibilite a existência do mar. O largo imenso donde olho o mais imenso; e, nesse mais imenso, o verdadeiro outro lado. Não os sei, mas suponho os ventos que sopraram meu pai. Todavia, é da natureza dos homens sós, isso eu sei por certo, costurarem eles mesmos os farrapos de suas velas ao mesmo tempo em que trançam os cabos de suas fateixas. Resistir também é um modo de navegar.

06/03/25

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

POLÍTICA INTERNA

Fonte da imagem: @iwanttoleaveok (Instagram)
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é difícil criar um país sobre outro
sempre resta alguma edificação
uma estrutura de linguagem
um nadinha de cultura

o povo teima
a terra teima, até a fauna teima

deixar continuar a ver se melhora
é a covardia que renite
como única forma possível de apaziguamento

ou isso
ou virar cometa
bomba H onipresente
peste e obliteração

pensar que ser país é democracia, diplomacia
e outras louçanias
não cola mais na catastrófica vida em comum
lugar de despotismos e ditaduras imperiais

mas aqui se teima
e aguardar no sofrimento o cansaço da guerra
tornou-se o que se tem para hoje
e amanhã
e depois

a ver se há um modo mais digno
de não perder fronteiras
de não queimar constituições
de manter os invasores visitantes
a quem, um dia, há de se dizer adeus

24/02/25
 
P.S.: Poucas coisas são mais empobrecedoras em literatura do que explicar as alegorias de um texto, mas, dadas as circunstâncias sociopolíticas atuais, achei necessário explicitar aqui que a “política interna” de que trata este poema é uma metáfora para as angústias pessoais de um indivíduo a cujas sanidades mental e emocional a vida em sociedade e as crueldades e atrocidades do cotidiano têm se tornado fatores nocivos, ou seja, não há nele nenhuma expressão de defesa de ditaduras, nem de xenofobias, nem de nenhuma conduta reacionária, menos ainda de apologia ou de incentivo a elas. Trata-se de um poema íntimo, que aborda as dificuldades que uma pessoa tem de lidar consigo mesma e com as circunstâncias em que se insere. A codificação extrema nada mais é do que marca de estilo e assim deve ser considerada.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

AGORA, A NOITE

Criança amazonense no embalo da rede. - Divulgação/Caminhos da Reportagem (Modificada.)
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Bebo o café que é possível
com o pó da manhã e a água das horas.
Lá fora, tudo cidadeia,
e o espaço me comprime em minha casa verde,
velha e resistente.
Os urubus que me vigiam
pragalham da carne imputrefata
sitiando todas as vias de felicidade possível.

Não há madeira em minha porta,
ou horizonte, na janela.
Minha cortina de trepadeiras ainda tenta;
minhas espadas de Ogum ainda tentam;
e as de Iansã, também;
mas, aqui, neste quintal de trasantontem,
adormeceram já todas as guerras

— a paz que resta é mofo e cupins
e mijo de gatos nas calhas.

Amanhã, quando o sol me encontrar,
será de nós ambos o ocaso:
tempo em que nos deixaremos finalmente anoitecer
da noite que veio me buscar quando menino,

quando o paquete de minha rede me embalava sem fateixa
pelo Estige e pelo Pacoti,
pelo espaço e pelos abismos,
sem sonhar que as tempestades dormiam comigo
fetalmente, no porão sem escotilha.

Na casa velha, as tralhas acordarão limpas,
embaladas no porão da jangada que ela se tornou.
Um mar vesperal crepuscula prestes,
e um terral desancora a terra
de que já não sou mais feito.

Agora, a Noite.

30/01/25

domingo, 15 de dezembro de 2024

A DELICADEZA DE MARCEL

Dean Fleischer Camp - Marcel the Shell with Shoes on, 2021
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    Marcel, the Shell with Shoes on (Marcel, a Concha de Sapatos) é um filme estadunidense de 2021, distribuído pela A24, que mistura live action com animação em stop-motion e que concorreu ao Oscar, ao Bafta e ao Globo de Ouro de 2023 nessa categoria. Ele se enquadra no subgênero mockumentary (mistura da estética de documentário com uma perspectiva ficcional tradicional, geralmente, humorística, como em Borat), e é dirigido, corroteirizado e atuado por Dean Fleischer Camp, em sua estreia em longas. Ele narra a história de Marcel (Jenny Slate, também uma dos roteiristas), uma conchinha que se vê apartada de sua comunidade e vive com sua avó Connie (Isabella Rossellini) em uma casa que foi alugada por Dean (Dean Fleischer Camp), que resolve filmar um documentário sobre ele e publicar no YouTube.


Dean Fleischer Camp - Marcel the Shell with Shoes on, 2021
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    A delicadeza e a profundidade na simplicidade elementar de Marcel e sua rotina quebram completamente as expectativas sobre uma possível narrativa waltdisneyiana da premissa de uma concha antropomorfizada como uma criança sobrevivente num mundo perigoso e imenso. Fleischer Camp trouxe a ideia de uma série de curtas que já havia produzido sobre Marcel, e desenvolve no longa, por meio da perspectiva de “descobrimento do mundo” do protagonista, uma análise sobre nosso tempo, nossa superficialidade, nossa indiferença e, principalmente, nosso egocentrismo e nosso individualismo. O paradoxo de ser uma concha (o símbolo do ensimesmamento) quem denuncia por meio da observação a precariedade de nossas relações e a quase total ausência do nosso senso de comunidade é o elemento principal na alegoria dessa narrativa. É um filme tão cativante que não se deseja que acabe mais, apesar de ser totalmente centrado numa rotina repetitiva e monótona de uma conchinha numa casinha de uma cidadezinha.
    Assistam encantados.

15/12/24

sábado, 14 de dezembro de 2024

VINTE POR NOVE


escrever é um trabalho que me dou
sem a preposição a
objeto direto regido por verbo
bi
tran
si
ti
vo

presente que se dá
num acontecimento
maior que eu

porém e porque
carrega uma vida inteira pretérita
e imperfeita

não sou como o homem
que vai ali e compra pão
que atravessa a rua
que banha a quinta-feira
com sabonete para a sexta

monto o meu calendário de cubinhos
e o dia virado
é quando digiro o pão
comprado amanhã

a fome não cabe no texto
a fome é o texto
devorando tudo

enquanto escrevo, observo
como se não fosse só
a palavra que me veste

escrever é o trabalho de queimar
as roupas na fogueira
a identidade
os dentes de leite

é montar vigília à espera
da escuridão

14/12/24

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE

 Kaouther Ben Hania - “The man who sold his skin”, 2020
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    Um artista belga chamado Wim Delvoye finalizou, em 2008, após 40 horas de trabalho distribuídas em dois anos, uma tatuagem de costas inteiras em Tim Steiner, um suíço que hoje ganha a vida se apresentando como “tela viva” desse trabalho de Delvoye, que foi vendido a um colecionador de arte alemão chamado Rik Reinking, em um acordo que garantiu a Steiner um terço do valor de compra de sua própria pele, em troca de sua participação em exibições. Steiner concordou, além disso, em ceder seu corpo, após sua morte, para ser esfolado a fim de que suas costas sejam estiradas e enquadradas numa moldura que será adicionada permanentemente à coleção de Reinking, à maneira do antigo costume japonês de colecionar peles tatuadas de pessoas mortas.


Wim Delvoye - “Tim”, 2008
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    Essa história, que, por si só, já é uma amostra do quão patológica é a condição humana, principalmente, no que diz respeito à objetificação, à fetichização e à decorrente desumanização de nós mesmos, serviu de livre inspiração para um filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania chamado “The man who sold his skin” (“O homem que vendeu sua pele”), lançado em 2021, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, vencedor de melhor roteiro (inspirado no curta “Skin”, de Roald Dahl, de 1952) no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo e de melhor ator (Yahya Mahayni) no Festival internacional de Cinema de Veneza, no mesmo ano.
    O filme de Ben Hania usa a premissa da história de Steiner como os seguintes pontos de acontecimento na vida de Sam Ali, personagem interpretado por Mahayni: as costas tatuadas pelo artista famoso, as exibições em museus e a venda da pele a um colecionador rico. Contudo, o que ela adicionou ao enredo é o que torna essa obra algo muito maior do que Hollywood seria capaz de fazer. Sam é um homem sírio que é preso porque, em uma declaração de amor à sua namorada Abeer (Dea Liane), com quem vivia um amor não aceito pelos pais dela, disse, em um trem, em alto e bom som aos outros passageiros: “Senhoras e senhores, esta é uma revolução. Queremos a liberdade, então vamos ser livres”. Naquele momento, eles haviam decidido se casar, porém, no contexto do genocídio promovido pelo governo de Bashar al-Assad, no qual a repressão era onipresente, uma filmagem feita e postada por um dos passageiros leva a polícia a prender Sam. Um primo policial facilita sua fuga da prisão, e sua irmã o atravessa clandestino em seu carro pela fronteira com o Líbano, ao passo que Abeer, diante da situação, aceita o casamento forçado pela família com Ziad (Saad Lostan). Em Beirute, num trabalho miserável, ele costumava entrar de penetra em eventos para se alimentar e, numa dessas festas, foi abordado pelo artista Jeffrey Godefroi (Koen De Bouw), que lhe propõe ser moldura viva de seu trabalho em troca de um visto para ir para a Bélgica, onde seria, finalmente, “livre”, porém às custas de ter o próprio Schengen, o documento de imigração, tatuado nas costas e ser exposto em exibições em museus, pelo que receberia um bom pagamento. De início, Sam, que vê naquilo uma chance de fugir para o “lado certo do mundo” e reencontrar Abeer, que trabalhava como tradutora juramentada em Bruxelas, acredita ter dado início à sua felicidade, entretanto vai descobrir que comprometera muito mais do que a própria pele para poder atingi-la.
    “O homem que vendeu sua pele” transforma uma inspiração em uma história real numa alegoria da coisificação do ser humano. Sam é tratado como uma coisa criminosa em Raqqa, sua cidade, por manifestar o seu amor. Em Beirute, não tinha identidade de indivíduo: era um refugiado sírio e, posteriormente, uma tela viva, ou seja, um homem-coisa, ou uma coisa-homem a ser usada pelo artista mediante contrato. Em Bruxelas, é abordado por membros de um movimento pelos direitos civis dos sírios, que veem em seu caso mais um abuso contra aquele povo e tentam cooptá-lo, sem perceber que o livre-arbítrio com que Sam tomou sua decisão de ser livre era maior que sua causa, ou seja, foi-lhe proposto ser um símbolo.
    Pessoa genérica, estrangeiro sem identidade, fetiche artístico e símbolo despersonalizado, tudo isso foi atribuído a Sam, porém sua trajetória em busca de si mesmo como homem livre e de seu amor com Abeer é o centro de toda a narrativa, a qual, como eu mencionei anteriormente, poderia ser convertida na coisa mais rasa e desimaginativa que uma produção hollywoodiana tanto costuma conceber aos borbotões. O filme é preciso em focar no drama pessoal do protagonista de forma que suas costas tatuadas acabam sendo mais um deflagrador da trajetória e das peripécias de Sam do que o propósito da narrativa, conforme se nota no que diz Jeffrey, pouco antes de tatuá-lo, a um documentarista que lhe pergunta “Mas, por quê, um visto Schengen?”:
    “— Mais uma vez, vivemos em uma era muito escura, onde, se você é sírio, afegão, palestino etc., é ‘persona non grata’. Os muros sobem. E eu só fiz de Sam uma mercadoria, uma tela, e agora ele pode viajar pelo mundo. Porque, nos tempos em que vivemos, a circulação de mercadorias é mais livre do que a circulação de seres humanos. Daí, transformando-o num tipo de mercadoria, ele agora será capaz, pelas convenções de nosso tempo, de recuperar sua humanidade e sua liberdade.”
    O filme de Ben Hania denuncia os horrores da guerra civil e os limites reais e abstratos que pessoas na condição de vítimas dela são capazes de cruzar. Todavia, metalinguisticamente, o que me parece que ela conseguiu com seu filme foi propor uma reflexão de como a pele de Sam e a própria película são objeto de fascínio enquanto composições (aquela, vendida por milhões de euros; esta, vencedora de prêmios em festivais internacionais de cinema), ao passo que aquilo que está retratado nelas é descartado enquanto denúncia, enquanto análise das tragédias impostas por governantes de ditaduras ou por multimilionários às pessoas comuns, cujos corpos são objetificados ou como indivíduos desprovidos de direitos, no caso das vítimas de Bashar al-Assad ou como, no caso de Sam, fetiche artístico para a apreciação de “elites” europeias, principalmente. O visto Schengen tatuado em Sam e o filme “O homem que vendeu sua pele” chamam a atenção, são vistos, valorados, comerciados, viram objetos de apreciação e de ostentação, mas a realidade que eles denunciam, não. Esta é, como costuma acontecer com os espíritos, invisibilizada pelo “glamour” dos corpos, das formas, do produto. Ben Hania me pareceu consciente de que a sua obra seria vista, mas o espírito dela, a sua essência, o seu teor, seria obliterado tanto pela exploração comercial do mercado cinematográfico quanto pela nossa preguiça de pensar a respeito dela.
    Obviamente, não vou estragar a experiência do filme, entregando aqui o seu desfecho, mas vou transpor o último diálogo entre Sam e Jeffrey, o qual ilustra muito bem a metalinguagem da obra:
    “— Claro, é... uma boa história para contar. Para a posteridade. Como derrotamos o sistema, Sam.
    — Jeffrey, você é engraçado, sério. Você, falando sobre derrotar o sistema? A pele será exibida nos mais prestigiados museus do mundo e, ainda que descubram um dia, só irá valorizar mais. O sistema o ama, Jeffrey. É idolatrado, faça o que fizer.
    — Sabe o que é pior do que ser parte do sistema? É ser ignorado por ele.”
    “The man who sold his skin” é desses filmes que se utilizam de uma trama para despertar uma percepção bem mais ampla do que a nossa própria realidade é capaz de incorporá-la. A narrativa fala de um homem em busca do amor e da liberdade, mas também trata de denunciar a guerra e o mercantilismo dos corpos, mas o que ela quer mesmo é dizer a nós que, num sistema que tudo reifica, que tudo devora e converte em mercadoria, nós mesmos, enquanto consumidores (ou espectadores), optamos por permanecer invioláveis aos verdadeiros sentidos que, de quando em quando, um “produto” esfrega em nossa cara. Dessa forma, consumimos e somos consumidos, teimando em ignorar que somos partes de uma cadeia exploratória e moedora de gente, confortáveis e indignados com aquilo que nos é exposto, como apreciadores de “Guernica”, ou da pele de Sam, ou do próprio filme que esta crítica analisa.
    Assistam, pelo menos, atentos.

11/12/24

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

PAISAGEM COM MÃO INVISÍVEL


    Paisagem com mão invisível, filme estadunidense de 2023, dirigido por Cory Finley, é uma alegoria sobre o modus operandi da dominação e da exploração do mercado (a “mão invisível” é um conceito estabelecido por Adam Smith em Teoria dos sentimentos morais, bibliazinha “farialimer” escrita em 1759) sobre a sociedade e o cidadão comum. Vale cada segundo empregado, embora seja suave na ironia e no sarcasmo. Aponta, sem ser agressivo (tem leves doses de bom humor), a conversão patética e humilhante da humanidade em “bovinidade” ante a falácia do neoliberalismo. Excelente pedida pra se refletir sobre o nosso presente sem que isso cause queimaduras de 3° grau na alma.
    Assistam de sapatênis.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

O MENINO E A NOITE

    Quando comecei a escrever poesia, tinha um pouco menos que a idade atual de meu filho, Miguel, e um pouco mais que a de minha Clarice. Fui incentivado pela minha irmã Malu a datilografar meus textinhos na velha Remington 25 que papai comprara para as filhas, na qual eu brincava de ser escritor. Honestamente, eu me divertia com isso muito mais que hoje. Era um pequeno calhamaço de poeminhas bobinhos que eu intitulei Poemas de uma criança, da Editora Estrelinha, meu único empreendimento digno. Nessa época, eu também comecei um romance que chamei de A guerra dos meninos. Nunca terminei. Talvez, porque já começava a me bandear ao lado do exército inimigo. Também me aventurava em histórias em quadrinhos que eu mesmo diagramava em bloquinhos que confeccionava com folhas velhas de meus cadernos escolares. A principal era a da águia Cry, que sempre mudava de forma entre os quadros. Desenhava o que me vinha à mente, fosse concreto ou abstrato. Peguei gosto pelos super-heróis, pela anatomia humana, animal, pelas formas geométricas, pelas flores. Sempre tentei, sem sucesso, desenhar a noite, mas foi na poesia que tive êxito. O caso é que, nesse momento, a Noite já era outra. A escuridão e o espaço, uma vez palavras, ganharam gravidade, peso, forma e força. Entendi, então, que eu era mais da Noite que do dia, que a ausência do meu amado sol de litoral era muito maior, muito mais íntima que minha relação com ele. Dei a Ela minhas mãos de já pré-adolescente e, a partir daí, ainda que sem saber, passei a dar a tudo que escrevia um tom de ausência, um adeus. Minha escrita caótica foi motejada pela despedida como se, em cada poema, eu me despedisse de mim, ou dos outros, ou das palavras, ou de tudo.
    Hoje, minha literatura tem o encargo de me explicar, de me narrar. O peso do testemunho de quem sou e fui, do que sinto, vejo, amo, penso e odeio tornou-se monumental de tal forma que escrever, há muito, vem deixando de ser produzir e passando a ser descarregar. Escrevo como se tirasse autoesculturas malfeitas de minhas costas, peças que me decompuseram e que me espedaçaram porque são feitas de mim, e que, por isso, me enfraqueceram o espírito mais que me aliviaram de sua sobrecarga. É por esse motivo que não me encontro mais no que escrevi. Em cada texto, em lugar de haver um reflexo ficcional do eu-autor, há os meus pedaços que ele deveria refletir. Eu estou lá, pois sei que eles são meus, mas sei sem sabê-los, sem me lembrar deles. Eu fiquei lá, esculpido, forjado, amalgamado, e a memória do que eu fui não os alcança mais. Ela ficou lá, encapsulada, criptografada. E é esse mistério, essa antologia de lacunas das quais também fui me despedindo, que me pesa ainda mais que quando elas estavam preenchidas aqui, em forma de lava. Lá fora, como vidro vulcânico, são obsidianas cortantes que me sangram ao toque. Revisitar velhos poemas, como fiz há pouco, é como um masoquismo, uma automutilação, uma nostalgia de algo que sempre me espanta e fere, pois o encontro com quem fui é sempre um encontro de estranhos: o eu-cá, curioso e pasmo; o outro, expatriado, arredio, indignado, beligerante.
    Mas, nem sempre. Há vezes em que escrever é confeccionar uma roupa, um uniforme ou um disfarce — às vezes, apenas um cobertor, quando preciso me apartar da Noite. Tirar a própria pele apenas para ver como sou. Depois, vesti-la sobre um eu-novo ainda anônimo e amorfo. Andar, então, pelo presente, vestido de passado, protegido por mim, disfarçado de mim. Escrever, assim, pode ser vestir-me com meu próprio fardo e crescer a carne nova em paz, sem que ela seja cicatrizes.
    Tão diferente vim me tornando quanto vim me descrevendo. À medida que me livrava de mim, vim me acumulando, obrigando-me a reconhecer-me em minha trilha de migalhas de pão. Quanta saudade de quando escrever era como acender velas na escuridão da casa, revelando a mim mesmo nas sombras projetadas na parede. Foi assim com o desenho, com a música e com os primeiros textos, antes que a Noite obsoletasse as paredes, a casa, a cidade, até mesmo, a noite lá de fora. Assim, toda tessitura e toda composição foram estruturando uma nova casa, que cresceu a uma cidade, que evoluiu a um país, assim como o reino dos cheiros de Jean-Baptiste Grenouille, com a diferença de que, lá, todos foram capturados, ao passo que, cá, fomos todos abandonados. Dessa forma, escrever também pode ser um fenômeno biológico como um tipo de meiose, por meio do qual cada texto, ainda que um haicai, é um eu diferente de mim, porém, um componente de mim exteriorizado, e, ao me fragmentar para compô-lo e livrar-me dele, acabo por tornar-me um organismo formado inteiramente de corpos estranhos, células oriundas de uma tentativa de amputação que culminaram numa espécie de eu-colônia ou eu-mosaico.
    Escrever sempre é tentar definir-me por meio de mim e do alheio. Coisas, lugares, pessoas ou experiências, por mais que eu tenha a intenção de denotá-las, acabam por ser uma escusa para falar de mim por intermédio delas, como se fossem todas lentes ou janelas que sempre dão aos cômodos da casa do eu-autor, incluindo-me eu próprio nessa mediação. Nesse último caso, a composição é uma viagem em que o eu-autor é o mar, o barco e o barqueiro, e, chegando lá, nessa terra nova, tenho a sensação muito nítida de descoberta e desbravamento, pois aportei numa revelação de mim mesmo completamente inédita: um eu-mesmo que é outro. Provavelmente, a cada novo texto, a cada novo desenho e a cada nova música, eu vinha criando a mim mesmo, gerando um eu-que-seria, mas, simultaneamente, vinha me despedaçando em vários eus-textos que deixava para trás. Por isto, é tão preciosa aquela criança que datilografava como quem pavimenta o próprio caminho: é dela que não posso me perder; é ela que busco nas releituras; é com ela que preciso me integrar para vagar na Noite. Portanto, escrever é o paradoxo de destruir-me para criar(-me). É multiplicar-me para diminuir-me. É sobrecarregar-me para ser leve. É crescer para tornar-me novamente criança.
    Procurei, outro dia, aquele calhamaço da Editora Estrelinha, sem sucesso. Sei que não o perdi. Está em alguma caixa ignorada em várias mudanças. Gosto de pensar, porém, que não é uma caixa ou um envelope. Gosto de pensar que é uma casa oculta nessa cidade que virou país, uma casa toda feita de lembranças, de onde foram retirados os tijolos para a construção de todas as outras, e, por isso mesmo, imaterial que se tornou, é tão difícil de se encontrar. Lá, quando regressar, vou reler os quartos, o quintal, os vãos de sonho que foram originalmente dormidos. Vou deitar novamente na rede em que as palavras me embalaram pela primeira vez e vou reconhecer-me como o mais distinto semelhante, o mais próximo distante, o mais eu-mesmo que o outro pode ser. A Noite, como agora há pouco, vai parir o dia, e poderemos, talvez, escrever sobre o sol que nasceu no mar e sobre a primeira vez em que nos vimos cara a cara.

21/11/24

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

BEIRA

Beira da estrada,
beira do mar:
um olhar abraça o outro,
e duas solidões se beijam
— duas partidas sem porto,
duas jornadas sem retorno,
dois confins.
E uma só ida para viver.

26/09/24