Número de sílabas (desde 11/2008)

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terça-feira, 27 de agosto de 2024

O GOSTINHO CERTEIRO DE "FARAWAY"

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    Será que é bobagem ser sentimental? Ou é o nosso sentimentalismo que se pasteurizou, que foi embalado em caixinhas de papelão vermelho e é vendido com fritas e coca? Talvez por isso mesmo, a melosidade de diuréticos hollywoodianos me caia tão mal, deixando um azedume na memória depois de o açúcar sintético abandonar as veias. Não sou ingênuo, toda arte e todo entretenimento são produtos mercantis pelo menos em algumas etapas do processo. Contudo, ainda estamos falando de arte, portanto o que está em tela deve transcender suas primeiras camadas e se ressignificar como mensagem, para muito além do beijo, do sexo, da traição, do abandono, essas coisas tão ordinárias que teimamos em querer ver copiadas em melodramas, doramas e romances cinematográficos. Faraway (Em uma ilha bem distante), filme alemão de 2023 dirigido por Vanessa Jopp, encaixa-se nessa categoria de filmes que conversam com a gente sobre essas trivialidades universais, porém adocicadas e suavizadas para nos dar um bem-estar de final feliz, de esperanças e possibilidades depois de um grande trauma. Contudo, há várias pequenas excelências que fazem esse filme se destacar na prateleira de doces em que a Netflix o colocou.
    A história se inicia na Alemanha, onde uma família de origem turca e croata se prepara para o funeral da sua matriarca. Naomi Krauss interpreta Zeynap, sua filha, que é ignorada pelo pai, pelo marido e por sua própria filha adolescente. Zeynap descobre durante os preparativos que sua mãe havia comprado em segredo uma casa na ilha em que nascera, na Croácia. Durante o enterro, seu marido, que se havia comprometido em ler a elegia, não comparece porque preferira ficar no restaurante da família, onde começava um romance com a nova chef que havia contratado recentemente, muito mais jovem que Zeynap, que tem 49 anos. Ao descobrir, ela parte em direção à casa comprada por sua mãe, que se opõe diametralmente à sua: é bucólica, rústica e ensolarada, compondo a paisagem do alto de uma colina, de frente para o mar. Daí, Zeynap passa a questionar toda a sua vida, ao ir descobrindo a história de sua mãe e reconstruindo a sua própria.

    Em qualquer página de crítica cinematográfica, é possível encontrar uma sinopse semelhante a essa, e logo vem a sensação de que, excetuando-se as locações, é uma trama como dezenas de outras que se clonam por aí. Porém, o que me fez sentir que se tratava de uma singularidade no meio da mesmice foi a carga de verdade com que Naomi Krauss diz, com sua personagem, muito mais do que um texto de autoafirmação e de resiliência. Ela impõe legitimidade às condições que lhe são impostas enquanto filha, mãe, esposa, dona de casa e mulher, a ponto de tornar críveis a história, o drama, o romance e o humor do filme. Ela consegue dar aos próprios olhares, gestos, nudez e diálogos a medida certa de intensidade para que acreditemos que ela é o que a personagem precisa que ela seja: uma pessoa real, uma mulher de 49 anos num mundo que não a leva a sério.
    Além disso, a diretora conduz o filme de modo a nos contar essas duas histórias (a do estereótipo e a da mulher real) com precisão e leveza, criando, assim, junto à cinematografia, às locações, à trilha sonora (pontualíssima), ao figurino (que, diga-se de passagem, consagram as transições de Zeynap) e à edição, um filme gostoso e quentinho, porém verdadeiro e honesto, desglamorizado, que deixa sua mensagem muito bem plantada ao final.
    A despeito de se resultar de uma fórmula mais batida do que a da massa de pão doce, Faraway se laureia por nos proporcionar uma comida que alimenta e que desperta a vontade de comer novamente daquela “novidade”, que nada mais é do que uma sobremesa deliciosa e honesta, preparada com a intenção de fazer o espírito sorrir, como deveriam ser todas. Que pena que o cinema de entretenimento tenha se esquecido de que as melhores refeições são aquelas que nos fazem sentir em casa, e não em um shopping center. Assistam acolhidos.

27/08/24

domingo, 7 de julho de 2024

A FOGUEIRA INVISÍVEL

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a fogueira invisível
traz as chamas multicoloridas
flameja ocra e vermelha
pungindo ardor
na íris vária e escancarada

porém
a grande noite é a todos
espetáculo melhor que o incêndio
e a estrela distantina
deu de sequestrar todos os olhos

ascendem nela sublimíssimos
desatmosferizam-se purificados
projetam-se na matéria escura
para longe do mundano
e do escrutínio terrenal
que a pele inquere ao cérebro
a todo o tempo
— olha! que é?

a fogueira invisível
coitadinha
não tem quem lhe sente ao redor
e lhe asse estórias
não tem quem lhe sinta o calor
não tem quem se lhe sirva na pele
nem quem lhe ceda o frio
em sacrifício

queima e arde
inexistente na noite enorme
ignota na transcendência dos corpos
e inútil para o além insensível das almas

mas há no chão
e há no lenho e no fumo
e no ar dos mosquitos

há pequena
na noite pequena
das coisas pequenas

a fogueira invisível
compõe com o mato inútil
com a árvore macha, a pedra de seixo
com as cigarras e os grilos
a multitude das ausências
que permite às coisas inúteis
a inutilidade de serem belas

e o desgosto orgulhoso
de existirem sujas
e puras

07/07/24

quarta-feira, 26 de junho de 2024

DICIONARIZAÇÃO

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    A cada dia, a palavra se distancia um pouco mais do que seria saudável a si mesma. Pensar e rememorar de acordo com o que dói e com o que se ama vão se encorpando em textos tanto mais físicos quanto fugentes e incapturáveis. O pensamento é um corpo que nasce adulto e velho, broca nas paredes, range-se nas portas e se escalavra em vincos e cunhas nas linhas do teto, substituindo a casa, impossibilitando-se como lar, para, em seguida, fragmentar-se em vapores de mormaço e amuo que enodam a garganta e criam afasias irrecuperáveis, além de cujos danos ele não deixa registro de sua existência.
    A palavra surge como sempre se processou: retratista, descritiva, exploradora, ousada, irresponsável. Contudo, rareia. Deve ser parte do fim da cadeia de eventos sobre os quais ela tem tentado iluminar sentidos, ou apenas um cansaço de existir sozinha, tendo nesse fim sua principal razão de ser. A palavra diz sem dizer há tempo demais, em sua opinião, talvez. Entretanto, como aqui, ela falha e tem falhado, criando mais confusão verborrágica do que a reflexão, provavelmente, precise. Já o pensar, sozinho e autônomo, sem sequer recorrer à memória e aos traumas, encorpa-se inconfundível, utilizando-se destes mais como adereços, sendo ele mesmo pai de sua própria pele. Ele se faz no desfazimento. Cria-se na desconstrução. E, nesse trânsito, no tempo dado à palavra para que ela o converta em corpo, o que fica são, no máximo, rastros, uma pedra virada pelo calcanhar, uma capoeira, uma vereda breve, tornada logo pelo mato no nada verde da inexistência de forma.
    Então, deixa-se para trás, passo a passo, o que motiva a palavra: a vida para além da experiência, o registro que, aos outros — o alheio, o relativo, o amigo, o circunstante —, certifica, informa e ressignifica a própria vida. Obsoleta-se vagarosamente a palavra, e o mundo que ela descreve vai perdendo a necessidade, assim como se insignificam os seus eixos mais profundos: os relacionamentos, as filiações, os afetos e desafetos. O pensar torna o viver uma espera por ondulações de diferentes intensidades e comprimentos que afligem os sentidos e tangem a vida para cada vez mais longe do próprio viver. São ermos em que a palavra, vendo-se inútil, recorre à sua subsequente única forma possível: nomes para as coisas; verbos para as ações; adjetivos para os estados; advérbios para os modos. O enorme mausoléu do vocabulário, o cálcio dos ossos das palavras. O verbete. O lexema.
    A palavra se esvaece e dá-se a compor túneis e câmaras, às quais recorre primeiro como abrigo, depois, como residência, para, enfim, passar à existência de dicionário. Dicionários são túmulos: um memorial de esqueletos descarnados, uma aula de anatomia que desconsidera as vidas que a palavra encarnou.
    Nessa caverna, o então pensamento — agora fantasma —, livre da necessidade alheia de que tivesse forma, segmentos, sintaxe, livre do próprio pensar, oscila sem juízo ou fim, explorando a profundidade sem se dar conta de si, do tempo e dos limites — foi vária a palavra. No fim, os termos são outros: o próprio fim, assim como foram ela mesma e a vida, é só uma palavra.

26/06/24

terça-feira, 25 de junho de 2024

INESCAPÁVEL


o dia está lindo
não há mortos nas ruas
nem abandonos nos bares
todos os animais têm seus donos, e todos os bebês, seios
não há fome nos pratos
nem pobreza nas mãos
os carros, gentis, trafegam com o único ruído inevitável
os escritórios acolhem
as escolas acolhem
as igrejas sublimam
e tudo, cada qual com sua paz, resulta
na harmonia e na intransmutabilidade das almas
com os corpos
o ódio, a miséria dos homens,
a soberba e a egolatria
são contos em histórias de muito longe,
quando o mundo era apenas aqui
e nada era possível

hoje, o dia é lindo
e a vida é a grande certeza
inescapável

07/05/24

domingo, 23 de junho de 2024

O ESPELHO DA SALA


o espelho da sala precisa de mim
por isso, permito
que me desfragmente no conjunto imperfeito
das partes que, tão cuidadosamente,
rendi ao despedaçamento
de ir esquecendo-me
aqui e ali
no alheio dos cromos de espelhos estranhos
onde deixo refletidas
coisas que vou deixando de ser

todas, inúteis
talismãs num relicário
nenhuma, digna de fé

mas o espelho me agride
o espelho da sala me comprime
à unidade compreensível e inequívoca:
uma imagem para um nome
um papel-carbono certificante
de uma certidão de nascimento
de pequeninos diplomas
de menores ainda documentos
incontáveis e obsoletas células cartoriais
componentes do reflexo
de que precisa tão desgraçadamente
o espelho de minha sala

verifico as aranhas e suas teias
o mofo e o grelado
as gretas e os cupins:
tudo está conforme

asseio o cabelo e a barba
enchapelo-me
asseguro-me de meus patuás
e o abandono como de costume

mas o espelho sempre me aguarda
no escuro ou no claro de minha sala
no ofício pueril de precisar de mim
como se em si me resguardasse
como quem sabe, mais que eu,
a preciosidade de existir

22/06/24

domingo, 9 de junho de 2024

LAPSOS

Fabrizio Torchia - The Phantoms of the Brain
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a memória é isto:

fantasmas de afetos e desafetos
em corpos que não se lembram mais de mim;

é existir em lugares
que não existem mais;

é ser um país de apátridas
em exílio;

é a súbita queda findando um sonho,
que não é súbita nem é queda,
mas continua caindo e caindo;

é dormir sem remissão;

é acordar sem consciência;

é esmolar sem esperança;

é viver sem a matéria;

é morrer sem a matéria
e deixar que a matéria me resgate;

é um corromper-se sádica
em punição a mim;

é um ser exata e maquinal
em detrimento de mim;

é, quando o agora colapsa,
o amontoado de lapsos
de todos os colapsos anteriores;

é, por fim, um disfarçar-se
em pensamento intrusivo,
em ideia desastrada,
em consideração absurda,
em projeção fantástica,
em autoanálise impiedosa,
em fantasia de poder,
em escape,
em fuga,
em mim.

08/06/24

terça-feira, 21 de maio de 2024

NÃO ESPERES DEMASIADO DO FIM DO MUNDO

Radu Jude - Nu aştepta prea mult de la sfîrşitul lumii 
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    Termos no Brasil uma dimensão geográfica continental nos faz esquecer como deve ser a organização social de países que são menores que muitos de nossos estados. A Romênia tem 238.397km2 (menor que o Piauí), por exemplo, e é um dos países mais pobres da UE. Isso posto, parece um disparate qualquer comparação justa entre a percepção de nacionalidade deles com a nossa, ou até mesmo as percepções de lutas e conflitos de classe, pois nós, dado o nosso tamanho, temos uma quantidade muito maior de variáveis sociais e culturais, logo temos uma identidade nacional, social, política e econômica muito mais complexa que a deles, certo? Nem tanto.


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    Nu aştepta prea mult de la sfîrşitul lumii (Não esperes demasiado do fim do mundo), uma coprodução de Romênia, Croácia, França e Luxemburgo, de 2023, acaba por tratar de temas como a crise do capitalismo e a exploração trabalhista; o conflito geracional e político interno e externo; o absurdo da internet e a sociedade do espetáculo; o racismo, o machismo e a xenofobia; e, principalmente, o abismo entre os indivíduos e a sua própria sociedade, numa alienação de sua cidadania. O filme é uma comédia irônica e sarcástica, porém de um humor muito mais reflexivo que risível. O diretor e roteirista Radu Jude conduz a narrativa num estilo quase documental, em que seguimos durante as suas 2h43min as ações de Angela (Ilinca Manolache), durante quase dois dias no ano de 2023, dirigindo pelas ruas de Bucareste. Ela é assistente de uma produtora de filmes e está encarregada de entrevistar vítimas de acidentes de trabalho para um documentário sobre segurança do trabalho bancado pela própria empresa em que estas trabalham e a qual, por exploração e negligências, foi a responsável por eles. Ela própria é também explorada, tendo de trabalhar por até 20 horas diárias como motorista e faz-tudo da produtora. Durante essa rotina, Angela grava vídeos para o TikTok em que o personagem criado por ela, Bobiţă (pronuncia-se “Bobitsa”), faz críticas em tom racista, misógino e xenofóbico a fatos e pessoas relevantes e irrelevantes, todas elas hiperbolizadas ou, como ela diz, como “uma caricatura exagerada” da realidade.


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    As críticas vão desde a morte da Rainha da Inglaterra, o neonazismo austríaco e ucraniano e o ex-ditador Nicolae Ceaușescu à venda de livros nos sinais e ao caos urbano e à superficialidade da sociedade contemporânea. Paralelo a isso, o filme mostra a trajetória de outra Angela (Dorina Lazār), no ano de 1990, durante os mesmos quase dois dias, nos mesmos lugares onde transita a primeira. Ela é taxista numa Romênia mergulhada no atraso e, nesse período, conhece o seu futuro marido e pai de Ovidiu, que acabaria por ser a vítima escolhida para dar o seu depoimento no documentário de 2023. Nesse contexto, as vidas das duas Angelas se cruzam, e o filme nos mostra que existe mais em comum entre elas do que a superfície das mudanças sociais, políticas e tecnológicas poderia permitir. Aqui, dois adendos: primeiro, Radu Jude mesclou fragmentos de um filme de 1981 chamado Angela merge mai departe (Angela vai mais longe, em tradução livre), com Dorina Lazār (então com 41 anos), dirigido por Lucian Bratu e roteirizado por Eva Sârbu, cuja história em flashback é o ponto paralelo ao qual se dá a principal; e segundo, ele manteve a mesma atriz na narrativa de 2023, agora com 83 anos, dando sequência ao drama de 81.

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    O diretor conta uma história numa cadência que pode (e vai) entediar bastante o espectador que espera um filme comum, coisa que esse filme não é nem de longe, apesar de contar histórias ordinárias de pessoas ordinárias que poderiam acontecer em quase qualquer capital do mundo. Bobiţă é criado com filtros masculinos caricaturescos do TikTok, e suas interferências na narrativa se assemelham bastante às da figura arquetípica do pícaro, da literatura espanhola, ou à do parvo, no Trovadorismo, ou seja, são intervenções que, além de pontuá-la com humor ácido, marcam o ritmo da própria narrativa. Contudo, o ordinário da vida das Angelas é imenso. Cria-se uma identificação com a nossa própria vida ordinária a ponto de dizermos, em alguns pontos, “sim, é assim mesmo”, ou “olha, eu já passei por isso, do mesmo jeito”. As Angelas são pessoas comuns de vidas comuns, sem nada de especial nelas que valha a pena ser contado. Entretanto, o diretor/roteirista nos mostra que é nesse ordinário, nessa malha de fios todos iguais, de um tecido cinza sem estampas (a história da Angela de 2023 é narrada em P&B, a de Bobiţă é em cores de baixa resolução, e a da Angela de 1990, com uma paleta que nos remete aos nossos anos 1970), que se dá a grande profundidade dos temas desse filme: a inevitabilidade do fim da sociedade causado por quem tem poder sobre ela; a inescapabilidade de um indivíduo dentro de um “rebanho”, por mais esclarecido que esse indivíduo seja; e a perpetuação do ciclo que culmina nesse fim.

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    Não esperes demasiado do fim do mundo é uma obra-prima com um corpo moderno, com cicatrizes e úlceras modernas, que fede modernamente, mas tem um DNA atemporal e comum a todos nós. Um sistema massacrante, uma estrutura de preconceitos e uma angústia onipresente podem ser, como ele nos mostra, pontos semelhantes entre povos que compartilham muito mais que uma origem linguística comum. Não somos os mesmos, não partilhamos as mesmas culturas; não sofremos as mesmas dores, mas, ao mesmo tempo, somos, partilhamos e sofremos. Um pobre é um pobre, e um poderoso é um poderoso em Teresina, Bucareste ou Fortaleza. Essa obra transita pelos paradoxos e pelas semelhanças entre culturas da mesma forma como as Angelas pelas ruas de Bucareste: uma, com seu táxi; outra, com sua minivan; ambas, exaustas e maquinais na rotina de serem mulheres numa máquina de moer gente que é o capitalismo patriarcal. É genial, sendo ordinário; é atual, sendo antiquado; somos nós, sendo elas.
    Assistam descansados.

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21/05/24

sexta-feira, 17 de maio de 2024

NÓS LÁ EM CASA


Luli e Lucinha - Nós lá em casa
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    Em 1978, conjuraram-se as vidas e as carreiras de Luhli e Lucina no seu primeiro elepê, intitulado Luli & Lucinha – Nós lá em casa (ambas mudaram os nomes artísticos posteriormente), gravado nesse ano, mas lançado em 1979 e vendido mão a mão pelas duas, que rodaram o Brasil numa Kombi adaptada, com a vida, a família e os sonhos nas costas. Luhli e Lucina são pioneiras em muitas coisas. Nós lá em casa foi o primeiro disco completamente independente gravado no País, bancado inteiramente pelas duas, que venderam na estrada mais de 50.000 cópias somente nesse ano. Elas foram o primeiro duo de cantoras/instrumentistas com total protagonismo no palco, com os tambores à frente da banda, ogãs que eram. Principalmente, elas foram as primeiras artistas brasileiras a peitar e sobrepujar as gravadoras, as quais decidiam quais músicos teriam de ser silenciados para que se lucrasse com aqueles que eram “eleitos” para o sucesso.
    O disco é íntimo, confessional, de uma autoralidade pouco encontrada de forma tão autêntica e legítima. Elas viveram naqueles primeiros anos de dupla a experiência hippie totalmente raiz, e não havia intenção maior que viver a música no sonho de verter nela a própria vida. Como disse a própria Luhli, as músicas são como o vento e o mar, e a experiência de ouvi-las é também multissensorial, tais as evocações que elas atingiram não somente com as letras, mas também com o casamento perfeito entre arranjos instrumentais e vocais, além dos timbres e das técnicas desenvolvidas para, como disse Luhli, “duas parecerem muitos”, quando cantam.
    Esse disco tem a capacidade rara de transportar para uma atemporalidade o apreciador que tem vocação para se deixar ser passageiro, mas não se limita a ninar ninguém: ele é uma proposta, uma provocação à viagem. Muitas vezes, é a Kombi; noutras, a estrada; mas gosto de ouvi-lo como a um destino. Maravilhoso, o disco, maravilhosas, as duas, desde sempre.

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17/05/24

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A CAVERNA DE GRENOUILLE

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    Em seu romance Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders (Perfume - a história de um assassino), de 1985, Patrick Süskind cria uma personagem descrita por ele, exegeticamente, monstruosa desde o nascimento, quando, com seu primeiro choro por vida, condenou a mãe à morte pela tentativa de infanticídio. Porém, o autor também denota que a mãe era uma vítima da miséria, tendo, sifilítica que era, parido vários natimortos, com um dos quais, naquela ocasião, havia confundido Jean-Baptiste Grenouille, o qual deixara cair como supostamente morto entre as vísceras de peixe sob a sua banca de feira num dos lugares mais imundos da Paris do século XVIII. Essa dicotomia entre a “inata” maldade de Grenouille e suas posteriores misantropia, sociopatia, egolatria e, finalmente, psicopatia e criminalidade; e os fatores ambientais e sociais que tornavam a sua sobrevivência praticamente um milagre — os que não o tentaram matar tinham-lhe um asco imediato, o que lhe atribuía uma subumanidade — criou uma alegoria riquíssima de um continente, de uma época e das relações entre a marginalização e a criminalidade condensada em uma só personagem.
    O realismo mágico da história tem lugar na descrição dos “superpoderes” de Grenouille: seu olfato, que tinha uma apuração fantástica, transpondo os limites da realidade desse sentido a ponto de perceber tudo (inclusive o que, para pessoas normais, sequer tem cheiro) até mesmo através de paredes e a distâncias enormes; e sua resiliência a uma sociedade que lhe era ininterruptamente cruel e assassina. Esse superolfato tem sua contrapartida em outra característica mágica de Jean-Baptiste: a sua total ausência de cheiro, e isso, que era inexplicável a quem quer que tivesse contato com ele, visto que era impossível, tinha outra consequência, também mágica: a rejeição imediata àquela criatura, até mesmo pelo padre responsável por atribuir a alguma ama a manutenção da vida de Jean-Baptiste quando bebê.
    “Terrier tinha a impressão de que a criança o olhava com as narinas, o examinava sem complacência, mais implacavelmente do que poderia fazê-lo com o olhar, como se absorvesse pelo nariz algo que emanava de Terrier e que ele próprio era incapaz de reter ou dissimular… Esta criança sem odor passava impudentemente em revista os odores dele. Era bem isso! Farejava-o dos pés à cabeça! E Terrier sentiu-se repentinamente fedorento, a tresandar a suor e vinagre, a couve-roxa e a roupas sujas. Teve a sensação de se encontrar em toda a sua nudez e fealdade, perscrutado pelo olhar de alguém que o fixava sem nada revelar de si. Era como se esta exploração olfactiva lhe atravessasse a pele e lhe devassasse o íntimo.”
    A existência de Jean-Baptiste Grenouille, enquanto ser que tudo sente das pessoas pelo seu olfato e que, por sua vez, é imperceptível a elas pelo mesmo sentido, é a existência da nudez compulsória dos pecados da humanidade; da revelação forçosa de tudo o que é mais oculto, contra a qual nada se pode fazer; e da subsequente tentativa de eliminação dessa existência a fim da manutenção da vida aparente, assim como faz um perfume à fetidez do corpo. Grenouille é, como alegoria, aquele de quem nada se pode esconder; de quem ninguém consegue escapar; e quem, conforme se narra no clímax da história, ninguém pode matar, exceto se for de seu desejo morrer. Grenouille é aquele que não tem cheiro próprio, porém condensa em si mesmo todos os fedores do ser humano, e, por todos esses motivos, é uma das personagens mais fascinantes da Literatura.
    Grenouille fica anos ignorante de ser inodoro. Todavia, talvez (na minha leitura) por causa tanto dessa característica quanto dessa ignorância, passa a categorizar o mundo pelos aromas, a despeito de sempre ter sido insensível à vida ou à inanimação daquilo que os emitia. Os cheiros, uma vez sentidos, eram categorizados e possuídos como peças de um universo particular e íntimo, dentro do qual ele existia e imperava como um deus real, onipotente e tirânico. A fuga interna de Grenouille e sua capacidade de sobreviver a praticamente tudo amplificaram sua sociopatia num ódio à humanidade, cujos odores detestava até aquele momento, o que foi o primeiro passo para ele se tornar um assassino em série: a vida que portava o cheiro importava tanto quanto um frasco de perfume e tinha a mesma descartabilidade daquele. Após se sentir patologicamente atraído pela fragrância natural de uma jovem, ele a persegue e a mata a fim de se apoderar daquilo que, até então, era o mais precioso bem de suas posses interiores: o cheiro da beleza e do amor, a essência da única coisa que dava sentido àquela existência infernal à que estava preso (“Cem mil perfumes pareciam nada valer comparados com este. Este perfume único constituía o princípio-padrão a partir do qual se deviam classificar todos os outros. Era a beleza pura.”). A partir daí, seus atos eram todos direcionados à captura dessas essências. Aprendeu a profissão de perfumista, mudou-se para a cidade de Grasse e lá desenvolveu uma técnica particular para a materialização em óleos essenciais dos cheiros das mulheres que matava a fim de extraí-los.
    Porém, há uma chave para que ele se dispusesse a tal empreitada. Süskind cria um momento em que há uma percepção íntima de Grenouille de que era, de fato, um ser miserável, malgrado a divindade que manifestava onipresente em seu mundo interior, o único que, até então, importava. Em Grasse, ele sente o cheiro de uma jovem que se sobrepunha a todos os outros. O pai desta, pressentindo que a filha poderia ter o mesmo fim que as outras mulheres assassinadas misteriosamente até então, empreende uma mudança com ela para um local secreto, porém Grenouille parte em seu encalço, guiado pelo perfume da moça. Essa obra me capturou na primeira página e se mantém em mim desde a primeira leitura, ali no final dos anos 1990. Contudo, é nessa passagem da narrativa que ela se torna especial para mim por identificação e criação de uma intimidade com Grenouille, não, obviamente, pelos seus atos, mas sim por seu inferno. Durante a sua ida a Grasse, ele passa por uma região bastante inóspita e se dá conta de que está num lugar em que não há, absolutamente, cheiro de nenhum ser humano nem de civilização. Estava distante de tudo o que lhe era pérfido e deletério, estava desobrigado de sentir o que lhe sufocava naquela miséria de vida e de forçosa interação humana. Estava livre. Nesse ponto, sente-se inclinado a desistir de seu intento e passa a seguir o seu olfato neste sentido: iria para o lugar onde houvesse a mais intensa esterilidade. É nesse ponto que encontra a caverna. Nela, ele se entoca e ali passa um longo período a existir unicamente em seu reino interior, rodeado e servido pelos cheiros dos quais se apropriara até aquele momento, inclusive e principalmente, o da primeira mulher que matara. As outras funções e necessidades corporais não lhe importavam. Alimentava-se de musgos e bebia água da chuva apenas para manter exteriormente a viabilidade do paraíso interior. Ele mesmo ela um frasco de tudo aquilo que tirara do mundo que tanto tentara lhe tirar a vida. Estava, em suas particulares concepções, em paz. A história foi adaptada para o cinema em 2006, num filme homônimo muito bem dirigido por Tom Tykwer, 
roteirizado por Tom Tykwer, Andrew Birkin e Bernd Eichinger e protagonizado com excelência por Ben Whishaw, porém — não sei se por escolha ou por impossibilidade narrativa —, ele falha em retratar esse recorte. Não há, no filme, as imagens do paraíso interior de Grenouille: a servidão que ele impunha aos cheiros, os quais representavam todo o mundo que lhe era conhecido e dos quais se vingava em seu absolutismo divino; e as fantasias de poder que o assomavam em decorrência de uma vida inteira de sobrevivência a crueldades e à miséria, de privações e de desumanização. No livro, esse é o instante em que se percebe o quanto Grenouille representa a gigantesca “caterva” de miseráveis cuja existência deve ser aniquilada pela “normalidade” do mundo, exceto, é claro, se estes lhe servirem a algum propósito, como ele próprio servira a todos os que foram responsáveis por ele ou seus patrões, desde Madame Gaillard, que era paga para mantê-lo no orfanato, passando por Grimal, que lhe explorava em seu curtume, até Giuseppe Baldini, em sua perfumaria, todos mortos posteriormente ao seu desvínculo com Grenouille. Süskind nos mostra que, quando Jean-Baptiste se percebe vazio, desespera-se, pois há uma ruptura do limite entre o seu corpo, que era vítima do mundo, e seu espírito, que possuía um mundo ideal. Essa epifania o força a uma confrontação. A idealização desse mundo, na qual se dão as suas fantasias de poder e onde o amor e a aceitação por parte das essências escolhidas por ele do mundo acontecem conforme os seus comandos, não significa nada, pois, na realidade do mundo exterior, Jean-Baptiste percebe que nunca foi nem nunca será amado justamente por não possuir aquilo que vinha tornando possível amar o mundo: o cheiro. É, na narrativa, a deflagração dos atos posteriores que culminarão no clímax da obra, que não descreverei aqui.

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    O motivo de O Perfume ter me marcado tão profundamente não se limita à inegável genialidade narrativa de Patrick Süskind. A relação entre o mundo exterior (o real) e o interior (o ideal) de Grenouille pode ser compreendida como a dicotomia significante-significado, ou seja, a dualidade entre a matéria e a transcendência, ou entre o mundo e as palavras, ou entre a crueldade da sociedade e a criação de monstros, ou ainda entre a natureza e a arte. Porém, para mim, ela atinge, quando o retrata, aquele sítio do espírito humano em que se constrói um mundo íntimo que torna possível a existência no mundo real. Esse universo interior começa como o refúgio de uma criança que não é aceita, que se sente deslocada num mundo que não lhe guarda nenhum segredo e que esse próprio mundo passa a tentar usar, a despeito do nojo que este nutre a ela por um medo intuitivo; ou descartar, quando esta não se lhe mostra mais útil. É o refúgio de Grenouille na caverna, para mim, o ponto mais alto da narrativa. Lá, ele abre mão da existência exterior, de seus desejos mais intensos, do trabalho de uma vida inteira, em prol de um isolamento no vazio da idealização. Não consigo encontrar na obra uma desesperança na vida da personagem que seja maior que essa, nem mesmo a desgraça, a miséria, a corrupção da vida e a morte. A fuga de Grenouille para dentro da caverna e para dentro de si é a desistência de si no mundo. A compreensão de que não possui um cheiro próprio é a morte de seu espírito, pois o entendimento de que, mesmo no ideal, a beleza e o amor daquela vida são ilusórios, uma vez posto que não há o que ser amado ou belo, destrói nele a única esperança de existência. A tragédia de O Perfume tem o seu apogeu no meio da narrativa, e todo o resto da história é uma tentativa do protagonista de reexistir, de se materializar, de trazer para o corpo o que, no espírito, era perfeito. Contudo, Grenouille não contava com o fato de que, assim como ele não possuía um cheiro a ser sentido (note-se: uma alma a ser consagrada ou um corpo a ser amado), a própria humanidade não possuía nenhum sentido que percebesse a sua essência (note-se: um céu para a alma ou um amor para o corpo). Aquela desesperança, que ele tentou aniquilar pela própria materialização, concretizou-se no total abandono de si, no vazio de existir num mundo em que a própria existência é vazia.
    Jean-Baptiste Grenouille nasceu só, viveu só e morreu na consumição de seu próprio vazio (atentem ao final do livro), vítima de um encadeamento de decorrências post mortem em vida, como um séquito em que o próprio cadáver carrega o seu próprio caixão. O filme vale muito a pena ser visto, principalmente como uma prévia do livro. Já o livro é uma obra para se ler depois de ser lida, para além de si, dentro de nós, na construção de pontes entre o real e o ideal, ou entre o corpo e os seus cheiros.

09/05/24

quarta-feira, 3 de abril de 2024

PALAVRA SEM NOME

Albert György - Melancholy
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(ah, poesia…
se eu de ti me ria,
o que, sem ti, eu faria?)

procura no som de tua boca,
no texto que te vai no sangue,
o verbo sem letras que evocas,
que nunca disseste, mas ganes.

borraste-o de tuas plaquetas?
queimaste-o quiçá por engano,
ateando nas bibliotecas
o fogo melhor de teus anos?

comeste-o, faminta de ti,
inane de amor e de fúria:
no oco do ventre, o carpir;
na boca e na voz, a loucura?

se a alma que é dele era a tua,
verdade que nunca o disseste?
se é assim, no inferno, procura
o espelho em que tu adormeces.

mataste o que tu não formaras,
mas te sustentava, invisível:
o leito em que ancoraras
teu corpo, tua nave impossível.

ausente, a palavra inda existe:
viver, talvez interpretar…
a ti, o tempo não permite
saudade ou dor que vingará

a morte, que, por ti, mataste;
a vida, que não mais terás.
sem ti, não és mais o estandarte
de tua nação insular.

agora, que a palavra existe,
tu és a ausente que está:
visita sem ter quem visite,
memória sem ter quem lembrar.

03/04/24