O tamanho exato do mundo eu não sei, nunca saberei
Mas o tamanho exato dele não me espanta nem engana
Porque o mundo é feito da minha mesma matéria
E se não me sei o tamanho nem nunca saberei
Sei-me, entretanto, inteiro e meu, inteiro e teu, inteiro e inteiro!
Tão inteiro que não me caibo e continuo nas coisas que olho, nas que me olham
Continuo no chão que piso e debaixo dele, entre raízes, tanajuras e vermes
No suor, que vira sal e nuvem, e chovo, e continuo no mar, que brilha azul visto da Lua
E na Lua flutuante na poça d’água que chovi
Continuo nos sons e nos silêncios
Que nada mais são que infinitas vozes que me imaginam
Que nada mais são que eu dentro dos ouvidos que emprenhei
E todas as frases que nem me sabem, mas me são misturado a tudo e quanto
Continuo em minha mulher e meus filhos e em meus pais que lhes conto
Carrego minha vida como água nas mãos
E morro regando meu rastro
Continuo mesmo descontínuo
Porque sou da mesma matéria do mundo, e o mundo é em toda parte
Diferente e outro, dentro de si e além
17/02/19
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
domingo, 17 de fevereiro de 2019
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
METASSONETO PRIMAVERIL
Ora-pro-nóbis
Sem forma de estar na carne presente
A elipse sente a hora encarnada
Tatuada na pele, e o corpo sente
A semente da ausência e a da chegada
A palavra que falta é intermitente
E a iminente estação é anunciada
O verso vibra a voz, e a mão pressente
A chuva que o verão tinha guardada
Lacuna e lagoa encheu a enchente
De poesia e prosa agora inchada
A terra é prenhe de estar fluente
Na língua morta, já ressuscitada
Donde letras virgens viçam cadentes
Na orgia floral versificada
13/02/19
LINGUAJOSIDADES
Tem mistério suficiente na língua do povo pra encher um ror de gramática. O espaço entre o que se diz, o que se imagina que se diz, o que se imagina que o outro pensa sobre o que se diz, o que se imagina de si enquanto diz… Haja três-pontinhos! “Avia!”, dizia minha mãe me apressando. Chamar “avia” de interjeição é chamar minha mãe de organismo pluricelular. Ali tinha uma interseção de tudo que é materno, portanto causado por mim, filho. Tinha medo, raiva, afeto, dúvida, educação. Tinha o que só nós, na nossa idiossincrasia linguística, sabíamos. Chamar o “de’stá” cearense de “deixa estar” sincopado-apocopado é usar um microscópio pra olhar a Lua. Temos quase um dialeto de palavras-ônibus, uma frota, uma malha viária apinhada de quer-dizeres, de espaços abertos a interpretações imediatas e certeiras. Só a intenção do pingo já é um i.
Numa viagem de acampamento há umas décadas, aconteceu uma coisa interessante. Um pescador com quem fizemos amizade, chamado Cai-Bala, tava indo pescar camarão no mangue e levava um jererê, como fui acostumado desde criança a chamar. Eu pescava com meu pai, e era assim que se chamava aquele instrumento no nosso universo linguístico. Pois bem!, bastou que eu usasse o timbre fechado nas vogais pra que o Cai-Bala sapecasse de volta: “é jereré, pau na roda!” Pronto! Bastou aquilo pra que tudo que eu sabia sobre pescaria (que era menos que o que ele sabia, óbvio) virasse riso escarnecedor. O pior é que o Houaiss registra as duas formas, mas quem quer saber! Lá era aquilo, e pronto! “Ora, mas tá!”, como diria meu pai, o dono da palavra é o povo, é quem faz dela ferramenta.
É difícil o ofício de ensinar língua portuguesa. É como advogar em defesa de uma ré confessa.
— Ela é linda, é limpinha, cheira bem… mas tem esqueletos no armário.
Alvíssaras (eita, piula!) que os linguistas incrementaram as gramáticas com as variações linguísticas há algum tempo já, caso contrário eu seria um terrorista gramatical, sempre sabotando a fixidez hipócrita das regras. Entretanto, é linda sim, ainda que nada limpinha, nossa língua, e é tudo que temos como fator de integração nos extramuros das variações. É gostoso e desforrado ensinar “isso sim, e isso também”, em vez do maniqueísmo da Tia Amélia (que Deus a tenha, e, se ainda não tiver, que a tenha em breve), segundo a qual eu era burro por achar, aos onze anos, que substantivo era uma coisa. Coisaram bastante com o ensino no início dos anos 80, era a ditadura deixando de coisar, mas ainda querendo, era a Educação Moral e Cívica e a OSPB coisando a História, a Filosofia e a Sociologia, e era a Tia Amélia coisificando os alunos em coisa boa e coisa ruim (eu não gostava muito de fazer parte do primeiro grupo). Acho que era falta de coisar da parte dela mesmo, além do racismo cintilando por trás daqueles olhos azuis.
Acho que a linguagem é muito mais do que uma roupa que se veste conforme a ocasião, como costumo simplificar aos meus alunos. A linguagem é uma grande parte da cadeia do DNA social de um povo mutante e adaptável, melhor exemplo antropológico do darwinismo. Não se muda de roupa linguística; muda-se de pele, de estrutura óssea, de espécie, de estado físico da matéria. E não se enganem, não!: de mansa, não tem nem o rastro. É subversiva até o talo. Ridiculariza-se a todo e quanto, desdiz-se, reinventa-se, dissimula-se, envenena-se, renasce. Não é à toa que é substantivo feminino, abstrato e comum, comum como coisa, palavra linda que a Tia Amélia, sem querer ser, era, mas de um jeito tão feio que era mais coisado que cantiga de anum.
13/02/19
Numa viagem de acampamento há umas décadas, aconteceu uma coisa interessante. Um pescador com quem fizemos amizade, chamado Cai-Bala, tava indo pescar camarão no mangue e levava um jererê, como fui acostumado desde criança a chamar. Eu pescava com meu pai, e era assim que se chamava aquele instrumento no nosso universo linguístico. Pois bem!, bastou que eu usasse o timbre fechado nas vogais pra que o Cai-Bala sapecasse de volta: “é jereré, pau na roda!” Pronto! Bastou aquilo pra que tudo que eu sabia sobre pescaria (que era menos que o que ele sabia, óbvio) virasse riso escarnecedor. O pior é que o Houaiss registra as duas formas, mas quem quer saber! Lá era aquilo, e pronto! “Ora, mas tá!”, como diria meu pai, o dono da palavra é o povo, é quem faz dela ferramenta.
É difícil o ofício de ensinar língua portuguesa. É como advogar em defesa de uma ré confessa.
— Ela é linda, é limpinha, cheira bem… mas tem esqueletos no armário.
Alvíssaras (eita, piula!) que os linguistas incrementaram as gramáticas com as variações linguísticas há algum tempo já, caso contrário eu seria um terrorista gramatical, sempre sabotando a fixidez hipócrita das regras. Entretanto, é linda sim, ainda que nada limpinha, nossa língua, e é tudo que temos como fator de integração nos extramuros das variações. É gostoso e desforrado ensinar “isso sim, e isso também”, em vez do maniqueísmo da Tia Amélia (que Deus a tenha, e, se ainda não tiver, que a tenha em breve), segundo a qual eu era burro por achar, aos onze anos, que substantivo era uma coisa. Coisaram bastante com o ensino no início dos anos 80, era a ditadura deixando de coisar, mas ainda querendo, era a Educação Moral e Cívica e a OSPB coisando a História, a Filosofia e a Sociologia, e era a Tia Amélia coisificando os alunos em coisa boa e coisa ruim (eu não gostava muito de fazer parte do primeiro grupo). Acho que era falta de coisar da parte dela mesmo, além do racismo cintilando por trás daqueles olhos azuis.
Acho que a linguagem é muito mais do que uma roupa que se veste conforme a ocasião, como costumo simplificar aos meus alunos. A linguagem é uma grande parte da cadeia do DNA social de um povo mutante e adaptável, melhor exemplo antropológico do darwinismo. Não se muda de roupa linguística; muda-se de pele, de estrutura óssea, de espécie, de estado físico da matéria. E não se enganem, não!: de mansa, não tem nem o rastro. É subversiva até o talo. Ridiculariza-se a todo e quanto, desdiz-se, reinventa-se, dissimula-se, envenena-se, renasce. Não é à toa que é substantivo feminino, abstrato e comum, comum como coisa, palavra linda que a Tia Amélia, sem querer ser, era, mas de um jeito tão feio que era mais coisado que cantiga de anum.
13/02/19
GEOMETRIA CRUA
O esquadro perpendicula e tangencia linhas
A partir de outra em gradação perfeita
Todas retas e perfeitas
Mas, quando as vejo, não parecem verter…
Sequer as sinto arestas!…
Sinto os traços como acasos geométricos
Ou vetores cujas fontes se ocultaram
Nesta vida espiralada e vertiginosa
De helicoides velocíssimas
A curva é uma ilusão de harmonia parabólica
Apenas a sensação do desvio
Causada pela eterna pressa em destinar-se
Os ângulos nos definem
Em rabiscos que se cruzam e se ignoram mutuamente
13/02/19
A partir de outra em gradação perfeita
Todas retas e perfeitas
Mas, quando as vejo, não parecem verter…
Sequer as sinto arestas!…
Sinto os traços como acasos geométricos
Ou vetores cujas fontes se ocultaram
Nesta vida espiralada e vertiginosa
De helicoides velocíssimas
A curva é uma ilusão de harmonia parabólica
Apenas a sensação do desvio
Causada pela eterna pressa em destinar-se
Os ângulos nos definem
Em rabiscos que se cruzam e se ignoram mutuamente
13/02/19
CÓPIA MANUAL
O mimeógrafo deixa nos dedos a violeta
A azulácea pétala orbicular flamejante de óbitos
Descortinados na folha pálida de copo-de-leite
Repetidas vezes encharcada de oblíquas formas
E desorientados ornatos
Que morrerão amassados em poucas horas
Como as flores esmagadas pelo féretro do tempo.
Como nada, como este poema
Que volve à palavra em busca de si
Ruidosamente, girando-a, girando-a, girando-a…
Tinta que nunca mais sairá dos dedos
Mas trespassara etílica a alma branca do papel de ofício.
13/02/19
A azulácea pétala orbicular flamejante de óbitos
Descortinados na folha pálida de copo-de-leite
Repetidas vezes encharcada de oblíquas formas
E desorientados ornatos
Que morrerão amassados em poucas horas
Como as flores esmagadas pelo féretro do tempo.
Como nada, como este poema
Que volve à palavra em busca de si
Ruidosamente, girando-a, girando-a, girando-a…
Tinta que nunca mais sairá dos dedos
Mas trespassara etílica a alma branca do papel de ofício.
13/02/19
METONÍMIA POBRE
Queria escrever com o coração, mas lhe faltam mãos.
Já as mãos sobejam calos pela falta de cordialidade.
E os laços imaginários entre a tinta e o papel
Desfizeram-se no mata-borrão da vida comum.
Aqui sobra só o desejo de que o espírito ainda esteja
Onde e como de costume:
Além, chamante, incrédulo
Armado de porrete e ódio
Do ridículo de sua mais nova caricatura.
13/02/19
Já as mãos sobejam calos pela falta de cordialidade.
E os laços imaginários entre a tinta e o papel
Desfizeram-se no mata-borrão da vida comum.
Aqui sobra só o desejo de que o espírito ainda esteja
Onde e como de costume:
Além, chamante, incrédulo
Armado de porrete e ódio
Do ridículo de sua mais nova caricatura.
13/02/19
sábado, 10 de novembro de 2018
DOCUMENTO DO MAR
Houve um dia em que o mar se abriu sem cajados
E, depois disso, houve no fundo do mar uma reunião
Em que os homens, e os peixes, e os crustáceos
Decidiram a contragosto de Deus
Que não tinha permitido nada disso
Que, se havia havido um motivo para êxodos
Não haveria deuses no mundo
E que, se havia havido um dilúvio
Em que homens abandonados moraram com os peixes e crustáceos
E que todos esses foram ignorados na Arca
E que um bêbedo devasso determinara o futuro dos filhos de Deus
Também não haveria deus
E que, se a harmonia edênica
Havia sido posta inteiramente à mercê de uma curiosidade infantil
E que, se o destino da Criação houvera estado oscilando na língua de uma serpente
Que nem serpente era
E que, se o destino das mulheres
Havia sido determinado por uma costela masculina
Também não haveria Deus
Este, com D maiúsculo
Pois os peixes não tiveram sua raça multiplicada
Para alimentar famintos a fim de provar milagres
Posto que a luta no mar é dura demais
Para que se banalizem seus nascimentos
Nem bisparam sandálias sobre o mar
Nem emprestaram sua espécie para baleias leviatânicas
Que indigestaram Jonas
Nem acordaram com o ícone pascoal
Nem se hão suicidado graciosamente às bocas cristãs em Semanas Santas
Nem nada disso
Então, de acordo com o movimento ondular daquele dia
O ir e vir do mundo passariam a ser da conta dos mundanos
Que usariam dessa alcunha livremente
Que não mais perfurariam a Terra por fazer velas
Que nunca mais seriam queimadas ante cruzes
Ou túmulos
Visto que o mar é grande
E ressuscita todos
Quer queiram, ou não
10/11/18
E, depois disso, houve no fundo do mar uma reunião
Em que os homens, e os peixes, e os crustáceos
Decidiram a contragosto de Deus
Que não tinha permitido nada disso
Que, se havia havido um motivo para êxodos
Não haveria deuses no mundo
E que, se havia havido um dilúvio
Em que homens abandonados moraram com os peixes e crustáceos
E que todos esses foram ignorados na Arca
E que um bêbedo devasso determinara o futuro dos filhos de Deus
Também não haveria deus
E que, se a harmonia edênica
Havia sido posta inteiramente à mercê de uma curiosidade infantil
E que, se o destino da Criação houvera estado oscilando na língua de uma serpente
Que nem serpente era
E que, se o destino das mulheres
Havia sido determinado por uma costela masculina
Também não haveria Deus
Este, com D maiúsculo
Pois os peixes não tiveram sua raça multiplicada
Para alimentar famintos a fim de provar milagres
Posto que a luta no mar é dura demais
Para que se banalizem seus nascimentos
Nem bisparam sandálias sobre o mar
Nem emprestaram sua espécie para baleias leviatânicas
Que indigestaram Jonas
Nem acordaram com o ícone pascoal
Nem se hão suicidado graciosamente às bocas cristãs em Semanas Santas
Nem nada disso
Então, de acordo com o movimento ondular daquele dia
O ir e vir do mundo passariam a ser da conta dos mundanos
Que usariam dessa alcunha livremente
Que não mais perfurariam a Terra por fazer velas
Que nunca mais seriam queimadas ante cruzes
Ou túmulos
Visto que o mar é grande
E ressuscita todos
Quer queiram, ou não
10/11/18
ASSIM É A VIDA
Assim é a vida:
uma ponte entre duas culpas.
Cruzamos sedentos o rio da redenção,
— que chama ao suicídio coletivo
e é veloz nos afogamentos —
e estreitamo-nos,
e o atrito inevitável produz as faíscas
que deflagram diferentes incêndios.
2018
uma ponte entre duas culpas.
Cruzamos sedentos o rio da redenção,
— que chama ao suicídio coletivo
e é veloz nos afogamentos —
e estreitamo-nos,
e o atrito inevitável produz as faíscas
que deflagram diferentes incêndios.
2018
domingo, 28 de outubro de 2018
NOTA DE ENLUTAMENTO
(Manchas de sangue da travesti morta a facadas no Fortaleza Bar e Bilhar, no Largo do Arouche, SP. Clique na imagem para ampliá-la e aqui, para acessar o site.)
Este foi um dos anos mais difíceis de minha vida, e ainda faltam dias. Hoje, agora, sinto como se houvesse morrido alguém. Uma clausura entreaberta, de onde se sentem o cheiro do horror e o amargo de gritos retorcidos, é o que parece minha janela. Os fogos lá fora fumam à morte. Tudo sabe à morte. Os sorrisos, a histeria a dois dedos de explodir em um ataque de ódio simiesco. Nas avenidas, nas ruas da periferia, os bares têm gosto de morte. Pessoas atravessam as ruas como cães fugindo das toneladas automobilísticas, bólides do sangue urbano. Fogem da morte. Da sacada, um que queria ser militar para defender a pátria dos ladrões de bicicleta saca do 38 escamoteado da Feira dos Pássaros e atira para cima como se alvejasse todos os favelados do mundo, mesmo morando em favela. A noite se contorce moribunda. Estertora-se uma prévia de como será a agonia desta madrugada.
De fato, morreram muitos. Perdi um dos meus melhores amigos, também se foi o meu maior professor. Morreram outros. Morreu Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, morador de uma favela do RJ, por isso e por ser negro. Morreu Charlione Lessa Albuquerque, pacajusense, por manifestar sua cor vermelha e seguir sua estrela. Morreu uma travesti que não pôde ser identificada devido aos golpes de faca que levou no rosto e pelo fato de, para o Estado, ser apenas mais um viado na geladeira do IML. Morreu Mestre Moa do Katendê, baiano, 62 anos, 12 facadas nas costas destinadas a matar tudo que não fosse branco. Morreu Marielle Franco, vereadora carioca, fuzilada junto com seu motorista, Anderson Pedro Gomes, por amplificar a voz das minorias. Morreram outros, ainda. Morreram professores no fundo de seus corações. Morreram negros de todas as cores, morreram quilombolas, indígenas, ribeirinhos, morreram cristãos e ateus, gays e lésbicas, artistas, morreram todos em um lugar irreparável de seus espíritos. Morremos os nordestinos. Morreu Luís Inácio Lula da Silva no seu cárcere, cercado de indignidades e vulturinismos. Morre hoje também a democracia; esta, por suicídio. O Brasil morreu. Mas, que Brasil? O de Chico Mendes, o de Dorothy Stang? Esse Brasil nunca constou no rol da cidadania. Sua morte ou sua agonia não ecoam. Essa pátria sem bandeira vem sendo torturada a frio e a brasas nos camburões, nos quartéis da Marinha, no abandono das periferias e das cidades interioranas do Norte-Nordeste, que é a grande periferia deste país, há muito tempo, mas o tempo da dor causada não se conta. Não se mede a extensão do horror da inanição intelectual. Não se contabilizam os futuros esquartejados no entre-carros das cidades.
Talvez, o que se ouça sejam os gritos de paroxismo oriundos dos porões do Leviatã, reverberados no silêncio dos peitos quebrados, dos olhos arrancados, das genitálias queimadas. Talvez, sejam os gritos dos que sabem da morte vindoura, talvez, os dos que não nasçam. O fato é que a sensação de morte ultrapassa os túmulos e os gavetões dos IML. É palpável. Só nos resta a História, com suas lições de ressurreição. Só nos restam os livros que não foram queimados, os olhos que não foram arrancados, as mentes que não foram apagadas. Só nos restam o trabalho e a resistência de quem carrega nas costas a tarefa de repetir a lição. Talvez, haja num futuro não muito distante um obituário menos cruel e mais justo, e ensinemos o nome dos verdadeiros mortos a fim de que assim permaneçam.
28/10/18, 22h56min
De fato, morreram muitos. Perdi um dos meus melhores amigos, também se foi o meu maior professor. Morreram outros. Morreu Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, morador de uma favela do RJ, por isso e por ser negro. Morreu Charlione Lessa Albuquerque, pacajusense, por manifestar sua cor vermelha e seguir sua estrela. Morreu uma travesti que não pôde ser identificada devido aos golpes de faca que levou no rosto e pelo fato de, para o Estado, ser apenas mais um viado na geladeira do IML. Morreu Mestre Moa do Katendê, baiano, 62 anos, 12 facadas nas costas destinadas a matar tudo que não fosse branco. Morreu Marielle Franco, vereadora carioca, fuzilada junto com seu motorista, Anderson Pedro Gomes, por amplificar a voz das minorias. Morreram outros, ainda. Morreram professores no fundo de seus corações. Morreram negros de todas as cores, morreram quilombolas, indígenas, ribeirinhos, morreram cristãos e ateus, gays e lésbicas, artistas, morreram todos em um lugar irreparável de seus espíritos. Morremos os nordestinos. Morreu Luís Inácio Lula da Silva no seu cárcere, cercado de indignidades e vulturinismos. Morre hoje também a democracia; esta, por suicídio. O Brasil morreu. Mas, que Brasil? O de Chico Mendes, o de Dorothy Stang? Esse Brasil nunca constou no rol da cidadania. Sua morte ou sua agonia não ecoam. Essa pátria sem bandeira vem sendo torturada a frio e a brasas nos camburões, nos quartéis da Marinha, no abandono das periferias e das cidades interioranas do Norte-Nordeste, que é a grande periferia deste país, há muito tempo, mas o tempo da dor causada não se conta. Não se mede a extensão do horror da inanição intelectual. Não se contabilizam os futuros esquartejados no entre-carros das cidades.
Talvez, o que se ouça sejam os gritos de paroxismo oriundos dos porões do Leviatã, reverberados no silêncio dos peitos quebrados, dos olhos arrancados, das genitálias queimadas. Talvez, sejam os gritos dos que sabem da morte vindoura, talvez, os dos que não nasçam. O fato é que a sensação de morte ultrapassa os túmulos e os gavetões dos IML. É palpável. Só nos resta a História, com suas lições de ressurreição. Só nos restam os livros que não foram queimados, os olhos que não foram arrancados, as mentes que não foram apagadas. Só nos restam o trabalho e a resistência de quem carrega nas costas a tarefa de repetir a lição. Talvez, haja num futuro não muito distante um obituário menos cruel e mais justo, e ensinemos o nome dos verdadeiros mortos a fim de que assim permaneçam.
28/10/18, 22h56min
domingo, 21 de outubro de 2018
JUÍZO
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar informações sobre o artista)
As almas estão gordas, obesas,
mórbidas com seus 380kg,
prostradas nas bancadas pentecostais.
O banquete pago a dízimos
dizima fígados, entope as artérias,
ulcera os estômagos das almas,
que cagam dezessete vezes por dia
não pelo reto, obstruído de medo,
mas na mais imunda, abjeta e vociferante
coprolalia.
No céu — posta a imobilidade, lá chegam caindo —
dessas almonas brancas, espessas, celulíticas,
há um Deus ocre ainda mais gordo e suíno,
exsudando adiposidades neoliberais,
meritocratizando em sentenças:
“merecei!, tomai e comei, pois, da minha carne”.
No inferno, estão os outros; ele, não.
Não há diabo cá.
O inferno é feito de diferenças,
cada alma com sua exclusividade:
almas rosa, vermelhas, marrons e negras,
meias-almas,
almas secas, divergentes.
Todas refugiadas.
De cá, esperam por um juízo,
ainda que supremo, ainda que mundano,
ainda que final,
um juízo que desnivele os baixios desse novo céu
que se abriu nas profundezas
e que tudo traga como um vórtice,
na ferocidade do bem dos novos homens.
21/10/18
As almas estão gordas, obesas,
mórbidas com seus 380kg,
prostradas nas bancadas pentecostais.
O banquete pago a dízimos
dizima fígados, entope as artérias,
ulcera os estômagos das almas,
que cagam dezessete vezes por dia
não pelo reto, obstruído de medo,
mas na mais imunda, abjeta e vociferante
coprolalia.
No céu — posta a imobilidade, lá chegam caindo —
dessas almonas brancas, espessas, celulíticas,
há um Deus ocre ainda mais gordo e suíno,
exsudando adiposidades neoliberais,
meritocratizando em sentenças:
“merecei!, tomai e comei, pois, da minha carne”.
No inferno, estão os outros; ele, não.
Não há diabo cá.
O inferno é feito de diferenças,
cada alma com sua exclusividade:
almas rosa, vermelhas, marrons e negras,
meias-almas,
almas secas, divergentes.
Todas refugiadas.
De cá, esperam por um juízo,
ainda que supremo, ainda que mundano,
ainda que final,
um juízo que desnivele os baixios desse novo céu
que se abriu nas profundezas
e que tudo traga como um vórtice,
na ferocidade do bem dos novos homens.
21/10/18
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