E se anoitecesse de repente, como uma chuva?
Uma que não se anuncia, uma de verão.
O que seria deste fim de dia interrompido,
sem a catarse do crepúsculo?
Seria… uma morte, sim?
Fecharia os olhos, sem suspiros.
Não divagaria nem seria acometido de saudades
ou arrependimentos.
Viraria estrela.
Sonharia nos sonhos dos outros, interminável.
Há dias — no mais íntimo de minha esperança —
que merecem findar em estrelas.
06/10/19
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
domingo, 6 de outubro de 2019
FRETE SEM VÉUS
Era alta. Morena como o Diabo, maltratada, mas, outrora, recebera dengos. Cabelos indígenas, olhar de capitã do mato. Mãe. O filho vinha ao lado, saracoteando gentil. Junta aos dois, uma parenta circunstante. Olhava se a olhavam. A fêmea antes daquilo tudo era ativada se a olhavam. Ainda que casualmente. Muitas pessoas na estação; algumas, homens; poucos destes, em seu caminho. Calhou de o olhar de um, juvenescido de repente, esgueirar um vetor onde ela estava. A tangente acertou-a na linha da cintura, que aqueceu e serpenteou. O filho, criançando na plataforma, cambiou de status e converteu-se num empecilho inevitável: ele era um documento intransferível de mãe. O homem notou, e seu olhar, como uma parábola, curvou-se desencorajado ao menino, que já tinha uma intuição daquilo: danava-se um pouco mais, a mãe era dele, notasse-o!
A morenice crepusculou súbito, e sua mão respondeu apertando muda o pulso do menino — “ai, mãe, minha mão, mãe!” — e semierguendo-o como uma sacola de lixo que se arrasta para longe, no caso, longe da vista do homem. A parenta limitou-se a um riso meio falado, nervoso e servil, pois já vira e sabia aquilo: também ela já fora mulher. O menino chorava de modo a revoltar os pré-passageiros do metrô. Já o homem, este não via mais uma mulher; via uma mãe, uma merda de mãe, uma que não merecia ser mãe. Lembrou-se da sua: tão santa, só lhe dera uma ou duas surras, nem se lembrava, jazia no céu das mães nas nuvens dos filhos órfãos, coitada. Aqueloutra, a diaba, nem se lhe parecia, nem era mulher! Pobre daquele menino, melhor que nem tivesse pai, que, se houvesse, seria um protocorno. Filho de uma puta com um corno, quem lhe valeria?
Ela, já anoitecida, nem entendia mais a jiboia faminta em seu ventre. Havia quanto? Meses, anos? Arrastava, agora acompanhado de ralhos e xingamentos em voz baixa e dura, o filho catarrento de choro. Não gozara na feitura dele, nem depois se lembraria de tê-lo feito. Amortecia a barriga com a outra mão espalmada, resignando-se àquela castração. O olhar adivinhava ódio. A parenta oscilava aparvalhada os olhos, a cabeça e o sorriso pateta para todos os lados. O trem chegava.
06/10/19
A morenice crepusculou súbito, e sua mão respondeu apertando muda o pulso do menino — “ai, mãe, minha mão, mãe!” — e semierguendo-o como uma sacola de lixo que se arrasta para longe, no caso, longe da vista do homem. A parenta limitou-se a um riso meio falado, nervoso e servil, pois já vira e sabia aquilo: também ela já fora mulher. O menino chorava de modo a revoltar os pré-passageiros do metrô. Já o homem, este não via mais uma mulher; via uma mãe, uma merda de mãe, uma que não merecia ser mãe. Lembrou-se da sua: tão santa, só lhe dera uma ou duas surras, nem se lembrava, jazia no céu das mães nas nuvens dos filhos órfãos, coitada. Aqueloutra, a diaba, nem se lhe parecia, nem era mulher! Pobre daquele menino, melhor que nem tivesse pai, que, se houvesse, seria um protocorno. Filho de uma puta com um corno, quem lhe valeria?
Ela, já anoitecida, nem entendia mais a jiboia faminta em seu ventre. Havia quanto? Meses, anos? Arrastava, agora acompanhado de ralhos e xingamentos em voz baixa e dura, o filho catarrento de choro. Não gozara na feitura dele, nem depois se lembraria de tê-lo feito. Amortecia a barriga com a outra mão espalmada, resignando-se àquela castração. O olhar adivinhava ódio. A parenta oscilava aparvalhada os olhos, a cabeça e o sorriso pateta para todos os lados. O trem chegava.
06/10/19
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
O GUARDA-CHUVA
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do artista para acessar a página original)
Achei a coisa mais triste, hoje, um homem que vi na rua, portando só um guarda-chuva. Imaginem-se a preparação antes de sair de casa, a busca automática pelo essencial: óculos, chaves, documentos, dinheiro, cigarro; em seguida, as circunstâncias: os telefones, os boletos, as agendas, a bolsa, os papéis e a determinação de funcionar novamente. Caso houvesse a chuva ou a possibilidade desta, aí sim, o guarda-chuva. Mas, só o guarda-chuva? Num dia sem chuva e sem essa possibilidade? Imaginei para que aquele homem se preparara. Ato contínuo e maquinal, costume herdado dos antigos, cópia de personagens cinematográficos, necessidade de um objeto fálico nas mãos ou de alguma coisa que se justificasse esquecer e completasse a lacuna que o próprio hábito de esquecer-se criara? Como quem andasse com garrafinhas d’água nas mãos só para queixar-se depois de havê-las perdido?
Nada. Não havia mais nada com aquele homem em suas mãos exceto o guarda-chuva. Teria deixado arraigar-se o uso dele como se o usasse para diferenciar-se do vulgo? Teria a eterna incredulidade dos que duvidam do óbvio ou a dúvida infantil de si mesmo? Talvez. Mas como me incomodou profundamente a tristeza que senti pelo seu desamparo de uma possível preparação frustrada pelo sol! E se o usasse como um guarda-sol? Poderia ser. Não é comum em homens, mesmo os velhos, mas poderia ser o seu caso. Contudo, a sua postura empertigada de quem ia ou vinha de um afazer, o seu movimento laboral estático como um elástico puxado diziam que não. Aquele homem esperava uma chuva na existência de seu dia. Mas, que chuva, meu Deus, em entradas de outubro, ausente mesmo no caos climático deste início de século? Deu-me uma dó tão grande o seu desamparo! Pareceu-me haver procurado no guarda-chuva uma dignidade de homem urbano que não batia com o seu tempo. Seria aquilo um distintivo, uma lança de Quixote, uma lanterna de Demóstenes, um archote de Prometeu? O que aquele homem buscava, senão a proteção óbvia? Talvez o não óbvio: proteger-se dos outros homens ou de uma queda num equilibrismo desastroso numa comédia de praça. Poderia ser esse guarda-chuva uma clava moderna e citadina contra a insegurança da urbe, ou seria mesmo apenas uma forma de preservar-se da ausência em que ficam as mãos sem objetos, o que intuiria nos outros uma pobreza que sairia dos bens e entraria na alma e, mais fundo, no espírito? Não carregar nada é não ter nada, o que é o mesmo que não ser nada aos olhos dos outros, o que vem a ser o mesmo que não ser nada aos próprios olhos. Mas poderia tê-lo achado, poderia estar levando-o para ou de alguém. Poderia tê-lo furtado, escamoteado de uma loja (mas era usado!), poderia tê-lo surrupiado a outro — igual a este ele que eu imagino e de quem tanto me comisero — de dentro de um ônibus, talvez, ou do metrô. Poderiam ter-lho dado, como se faz com um desses estorvos que se ajuntam nas casas de quem quer das coisas o supérfluo e depois o descarta para dar lugar ao supérfluo mais novo — assim como os homens fazem com as mulheres e como as mulheres fazem com os homens e como todos fazem com os velhos, as crianças, os celulares e as rifas de caixas de chocolate. Mas como era dele! aquele guarda-chuva, era tão dele!, e inútil!, como um terceiro braço, negro e atrofiado! ou como uma enorme estrovenga capada, empalhada e envolta em crepom negro e enrugado! Não havia de ter sido roubado, furtado ou transportado. Era dele.
O espelho da rua refletia aquele homem arquetipicamente: um estado natural superior e antigo, elaborado, mas sem retoques, requintado e bruto, comum e específico. Entretanto, a opacidade dos meus olhos não o refletiu. Em vez de um ordinário destaque urbano, um caractere, um homem, senti-o fugente, sobejante como uma guimba caída de um cinzeiro imundo, desculpando-se às cinzas pela imolação. Guardei-o na memória e deixei-o ao expediente ordinário das letras, que são o contar e o recontar as coisas amputadas do tempo da vida dos outros. Segui meu caminho, certo de que nunca mais veria a chuva tão plena de sua tanta onipresença: faltará sempre ela cair sobre aquele homem murcho, dentro de quem, eu bem o sabia, chiavam torrões de estiagem tão secos e estéreis que nem mesmo o próprio sertão, com seus ossuários de desejo, abarcaria.
02/10/19
Nada. Não havia mais nada com aquele homem em suas mãos exceto o guarda-chuva. Teria deixado arraigar-se o uso dele como se o usasse para diferenciar-se do vulgo? Teria a eterna incredulidade dos que duvidam do óbvio ou a dúvida infantil de si mesmo? Talvez. Mas como me incomodou profundamente a tristeza que senti pelo seu desamparo de uma possível preparação frustrada pelo sol! E se o usasse como um guarda-sol? Poderia ser. Não é comum em homens, mesmo os velhos, mas poderia ser o seu caso. Contudo, a sua postura empertigada de quem ia ou vinha de um afazer, o seu movimento laboral estático como um elástico puxado diziam que não. Aquele homem esperava uma chuva na existência de seu dia. Mas, que chuva, meu Deus, em entradas de outubro, ausente mesmo no caos climático deste início de século? Deu-me uma dó tão grande o seu desamparo! Pareceu-me haver procurado no guarda-chuva uma dignidade de homem urbano que não batia com o seu tempo. Seria aquilo um distintivo, uma lança de Quixote, uma lanterna de Demóstenes, um archote de Prometeu? O que aquele homem buscava, senão a proteção óbvia? Talvez o não óbvio: proteger-se dos outros homens ou de uma queda num equilibrismo desastroso numa comédia de praça. Poderia ser esse guarda-chuva uma clava moderna e citadina contra a insegurança da urbe, ou seria mesmo apenas uma forma de preservar-se da ausência em que ficam as mãos sem objetos, o que intuiria nos outros uma pobreza que sairia dos bens e entraria na alma e, mais fundo, no espírito? Não carregar nada é não ter nada, o que é o mesmo que não ser nada aos olhos dos outros, o que vem a ser o mesmo que não ser nada aos próprios olhos. Mas poderia tê-lo achado, poderia estar levando-o para ou de alguém. Poderia tê-lo furtado, escamoteado de uma loja (mas era usado!), poderia tê-lo surrupiado a outro — igual a este ele que eu imagino e de quem tanto me comisero — de dentro de um ônibus, talvez, ou do metrô. Poderiam ter-lho dado, como se faz com um desses estorvos que se ajuntam nas casas de quem quer das coisas o supérfluo e depois o descarta para dar lugar ao supérfluo mais novo — assim como os homens fazem com as mulheres e como as mulheres fazem com os homens e como todos fazem com os velhos, as crianças, os celulares e as rifas de caixas de chocolate. Mas como era dele! aquele guarda-chuva, era tão dele!, e inútil!, como um terceiro braço, negro e atrofiado! ou como uma enorme estrovenga capada, empalhada e envolta em crepom negro e enrugado! Não havia de ter sido roubado, furtado ou transportado. Era dele.
O espelho da rua refletia aquele homem arquetipicamente: um estado natural superior e antigo, elaborado, mas sem retoques, requintado e bruto, comum e específico. Entretanto, a opacidade dos meus olhos não o refletiu. Em vez de um ordinário destaque urbano, um caractere, um homem, senti-o fugente, sobejante como uma guimba caída de um cinzeiro imundo, desculpando-se às cinzas pela imolação. Guardei-o na memória e deixei-o ao expediente ordinário das letras, que são o contar e o recontar as coisas amputadas do tempo da vida dos outros. Segui meu caminho, certo de que nunca mais veria a chuva tão plena de sua tanta onipresença: faltará sempre ela cair sobre aquele homem murcho, dentro de quem, eu bem o sabia, chiavam torrões de estiagem tão secos e estéreis que nem mesmo o próprio sertão, com seus ossuários de desejo, abarcaria.
02/10/19
terça-feira, 1 de outubro de 2019
PRIMAVERA
Fernando de Souza - Chananas no Araripe
a folha em branco nunca me desapontou
praia de minha infância
deserta e repleta como eu
nela, cato conchinhas e finjo afundar
na arrebentação
emerjo para o sol
com a saudade de quem ainda não partiu
e o desamparo do recém-conhecimento
diferente é o sertão
neste, expedições!
ao contrário do mar, onde imergir é morrer
o sertão me abre à medida que o abro
também como o papel em branco
mas diferente
o primeiro é o último segundo magnético
— a hora erma finalmente encontrada —
e o segundo, mesmo seco
é a estação em que floresço
primeiro que todos
e por último
01/10/19
sábado, 28 de setembro de 2019
CANSEIRA
Quando era só espírito,
eu me deixava ficar entre as multidões.
Cada gente tem de líquido
as saudades, os ciúmes e as luxúrias,
mar do qual fui peixe.
Entre elas, escancarava meus opérculos
e me permitia afogar de seus secretos,
e tudo quanto éramos, éramos até a morte.
Daí, nasci,
e, do caldo antes suave,
agora é fel,
e só tenho de mim para beber.
Neste borralho de corpo,
neste borracho de alma,
sou Tântalo afogado
no agreste desta embriaguez.
Cansei desse negócio dídimo de corpo e alma!
Esse compromisso insuportável que o corpo tem
com tudo que o cerca!
Que é a vida senão essa cadência de encontros sem busca,
esse afogar-se no seco do mar de gente?
A vida é essa experiência físico-carnal,
essa obrigatoriedade de ter de achar uma razão que vista a existência
— a três dedos acima do joelho, no mínimo.
Melhor seria ser só espírito e escolher
— ser espírito é escolher —
seres e estares, peles e plasmas, ritos e caos.
Melhor que jamais se sentir completo
e acomodar-se ao incômodo completo do próprio corpo
e suas propriedades físicas
como o equilíbrio e a azia
e essa rústica sentimentalidade do amor seminal
seria pairar sólido num oceano
que se inventa e desinventa apenas para isso.
Melhor seria, a amar, ser amor,
e isso só se pode
evolando-se e chovendo e tornando-se parte do chão
e virando caule e sombra e fim de tarde
e voltando ao íntimo da nuvem e…
Melhor é ser só,
que o espírito é esse só bastante de tudo,
de possibilidades inacreditáveis e íntimas.
23/05 e 26/06/19
eu me deixava ficar entre as multidões.
Cada gente tem de líquido
as saudades, os ciúmes e as luxúrias,
mar do qual fui peixe.
Entre elas, escancarava meus opérculos
e me permitia afogar de seus secretos,
e tudo quanto éramos, éramos até a morte.
Daí, nasci,
e, do caldo antes suave,
agora é fel,
e só tenho de mim para beber.
Neste borralho de corpo,
neste borracho de alma,
sou Tântalo afogado
no agreste desta embriaguez.
Cansei desse negócio dídimo de corpo e alma!
Esse compromisso insuportável que o corpo tem
com tudo que o cerca!
Que é a vida senão essa cadência de encontros sem busca,
esse afogar-se no seco do mar de gente?
A vida é essa experiência físico-carnal,
essa obrigatoriedade de ter de achar uma razão que vista a existência
— a três dedos acima do joelho, no mínimo.
Melhor seria ser só espírito e escolher
— ser espírito é escolher —
seres e estares, peles e plasmas, ritos e caos.
Melhor que jamais se sentir completo
e acomodar-se ao incômodo completo do próprio corpo
e suas propriedades físicas
como o equilíbrio e a azia
e essa rústica sentimentalidade do amor seminal
seria pairar sólido num oceano
que se inventa e desinventa apenas para isso.
Melhor seria, a amar, ser amor,
e isso só se pode
evolando-se e chovendo e tornando-se parte do chão
e virando caule e sombra e fim de tarde
e voltando ao íntimo da nuvem e…
Melhor é ser só,
que o espírito é esse só bastante de tudo,
de possibilidades inacreditáveis e íntimas.
23/05 e 26/06/19
AUTOANÁLISE Nº1
há um pouco de dor dentro dessas tardes
a janela trincada do trem refrata um mundo sempre passante
sempre mais cheio de sofrimento que o meu aqui dentro
e a grandeza da vida dos outros torna ainda menores a pequenez e a miséria
e a mesquinharia e a avareza do meu sofrimento
vejo um aleijado
— poderia ser eu, poderiam ser meus filhos —
um esmoler sem pés gritando Salmos na porta da CEF
— até os pombos da Praça, meu Deus!, até a fauna urbana! —
o mendigo róseo passando fezes na carne podre das feridas
a moça só
o crente alucinado
as crianças de rua
— todos me humilhando a dor com as suas —
e, de todos, o olhar ignoto e a desimportância de mim
— que me orbita aonde quer que eu vá —
me confirmam:
eu não existo fora da minha dor
não penso fora dela
não habito onde ela não esteja
— cavernas minúsculas esfiapadas em salõezinhos e camarazinhas
repletinhas de animaizinhos mortinhos —
e esse eu-não-ser-sem-ela
acaba sendo o que sou
e minha ausência
falto, eu sei
mas não falto de fazer falta
falto sim de deixar a lacuna de minha presença
— como uma cavidade de dente podre na boca
ou um oco de um tronco de castanholeira —
ali, incomodando, exigindo respostas
que só uma existência contígua poderia dar
existo diferente
dor e culpa, apego e sobrecarga
me coabitam
e vivo a punição de não sofrer a mais
de não ser despedaçado ou esquálido,
ulcerado ou putrefato
sou inteiro e quebrado
e não caibo em minha própria ausência
como uma memória viva e renitente
uma dor no dente que apodreceu e caiu
ou um luto impossibilitado pelo cadáver insepulto
27/09/19
a janela trincada do trem refrata um mundo sempre passante
sempre mais cheio de sofrimento que o meu aqui dentro
e a grandeza da vida dos outros torna ainda menores a pequenez e a miséria
e a mesquinharia e a avareza do meu sofrimento
vejo um aleijado
— poderia ser eu, poderiam ser meus filhos —
um esmoler sem pés gritando Salmos na porta da CEF
— até os pombos da Praça, meu Deus!, até a fauna urbana! —
o mendigo róseo passando fezes na carne podre das feridas
a moça só
o crente alucinado
as crianças de rua
— todos me humilhando a dor com as suas —
e, de todos, o olhar ignoto e a desimportância de mim
— que me orbita aonde quer que eu vá —
me confirmam:
eu não existo fora da minha dor
não penso fora dela
não habito onde ela não esteja
— cavernas minúsculas esfiapadas em salõezinhos e camarazinhas
repletinhas de animaizinhos mortinhos —
e esse eu-não-ser-sem-ela
acaba sendo o que sou
e minha ausência
falto, eu sei
mas não falto de fazer falta
falto sim de deixar a lacuna de minha presença
— como uma cavidade de dente podre na boca
ou um oco de um tronco de castanholeira —
ali, incomodando, exigindo respostas
que só uma existência contígua poderia dar
existo diferente
dor e culpa, apego e sobrecarga
me coabitam
e vivo a punição de não sofrer a mais
de não ser despedaçado ou esquálido,
ulcerado ou putrefato
sou inteiro e quebrado
e não caibo em minha própria ausência
como uma memória viva e renitente
uma dor no dente que apodreceu e caiu
ou um luto impossibilitado pelo cadáver insepulto
27/09/19
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
ORIENTAÇÕES FINAIS
deixa uma digital de vestígio nos teus crimes
assim, o Diabo saberá teu nome
na hora de defender-te
almeja a participação entre os párias e as corjas
luta entre teus pares
para que sejais todos irmãos e nunca sós
quando errares no sertão da própria alma
procura com os pés as ferinas das palmas
sangra nos rastros
para que teu espírito te rastreie
e não te percas
afunda-te nos vãos dos prédios
para que tuas asas te encontrem
e no chão do asfalto te registrem
para que sinalizes que viveste
ou permita que te apedrejem na praça
que te erijam um monumento de asco e ódio
pois só assim
pedra
a
pedra
serás o castelo de ti
sobre a montanha sem pátria dos teus dias
26/09/19
assim, o Diabo saberá teu nome
na hora de defender-te
almeja a participação entre os párias e as corjas
luta entre teus pares
para que sejais todos irmãos e nunca sós
quando errares no sertão da própria alma
procura com os pés as ferinas das palmas
sangra nos rastros
para que teu espírito te rastreie
e não te percas
afunda-te nos vãos dos prédios
para que tuas asas te encontrem
e no chão do asfalto te registrem
para que sinalizes que viveste
ou permita que te apedrejem na praça
que te erijam um monumento de asco e ódio
pois só assim
pedra
a
pedra
serás o castelo de ti
sobre a montanha sem pátria dos teus dias
26/09/19
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
ES DECIR
hoy me puso el riesgo
y la creencia
a la merced de la vida
y ella se me sonrió de vuelta
como llamándome
como si no me supiera nada
ni la muerte que le he votado todo este tiempo
hoy comprendí
en la mitad del camino
me comprendí suelo
no caminante
no andarillo
sino que suelo
donde risas y ternuras son semillas muertas
cáusticas y maldichosas
cómo úlceras en la piel
donde vi romerías y éxodos
y carretas llevándome en procesión
pero aquí soy
y desde aquí me veo huyendo
nunca y siempre solo
nunca y siempre adiós
la vida, sonriéndome
ojos mudos
al que me tartamudeo en cuestiones
cuyas respuestas sé
— siempre y nunca
nunca y siempre
son lo mismo yo —
el suelo estéril
lleno de vida muerta
y de muerte vívida
lleno y vacío de mí
porque soy suelo y cielo
secos los dos
de la Primavera que me mira
sin decirme fresco ni color
sin lloverme
sin quererme
sin dejarme
sin embargo me hace sonidos
testigos de mí
y ellos son el són
Montecristos que me suenan bueno
aunque no sepa bailar
ni a ellos
ni a nadie
ni para nada
la danza llena de vida de la Primavera
que se me dá sin que me quepa
me encuentra un Colón asesinando taínos
los cuales vomita de rodillas al padre
en confesión
19/09/19
y la creencia
a la merced de la vida
y ella se me sonrió de vuelta
como llamándome
como si no me supiera nada
ni la muerte que le he votado todo este tiempo
hoy comprendí
en la mitad del camino
me comprendí suelo
no caminante
no andarillo
sino que suelo
donde risas y ternuras son semillas muertas
cáusticas y maldichosas
cómo úlceras en la piel
donde vi romerías y éxodos
y carretas llevándome en procesión
pero aquí soy
y desde aquí me veo huyendo
nunca y siempre solo
nunca y siempre adiós
la vida, sonriéndome
ojos mudos
al que me tartamudeo en cuestiones
cuyas respuestas sé
— siempre y nunca
nunca y siempre
son lo mismo yo —
el suelo estéril
lleno de vida muerta
y de muerte vívida
lleno y vacío de mí
porque soy suelo y cielo
secos los dos
de la Primavera que me mira
sin decirme fresco ni color
sin lloverme
sin quererme
sin dejarme
sin embargo me hace sonidos
testigos de mí
y ellos son el són
Montecristos que me suenan bueno
aunque no sepa bailar
ni a ellos
ni a nadie
ni para nada
la danza llena de vida de la Primavera
que se me dá sin que me quepa
me encuentra un Colón asesinando taínos
los cuales vomita de rodillas al padre
en confesión
19/09/19
sábado, 14 de setembro de 2019
MAÑANA TARDANA
eis que amanhece
e a palavra verde amadurece
no pé
amarelando o dia
do ocaso vermelho do horror
14/09/19
e a palavra verde amadurece
no pé
amarelando o dia
do ocaso vermelho do horror
14/09/19
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
CLÁUSULAS PÉTREAS
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página original.)
os homens não se sustentam
em sonhos
é nas pedras que estamos
nos penhascos
a um passo da estatística
ou da lenda
carregamos nas cabeças
os pedregulhos basilares da sociedade
cimentados uns aos outros
com a argamassa dos mortos
é nos rins que carregamos
doendo na uretra
sangrando na glande
as pedriscas anuréticas
pavimentadoras da sociedade
é nos calcanhares
dos pés ensapatados
que teimam as pedras escrupulosas
da memória arenosa dos homens
e as palavras e os silêncios
são areia e pó
detritos que o vento leva
e se acumulam nas gretas lacrimais dos homens
enlameando as bocas
erodindo-se em sertões
desertificando os homens
portanto
não são sonhos
muito menos palavras
nem nada transcendental como a arte
ou deus
o que muda a sociedade dos homens
o que muda a sociedade dos homens
são pedradas
disparadas certeiras
arremessadas com ódio
e amor
no espaço oco e salgado
na cal estéril
que virou o coração dos homens
é o sangue
mineral vermelho
ancestral do magma
que sequer sonhou a rocha
a mulher humilhada
enterrada até os joelhos
apedrejada na têmpora
que fará o levante
e a redenção
da pedreira dos homens
04/09/19
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