Número de sílabas (desde 11/2008)

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segunda-feira, 11 de abril de 2022

O VAZIO


no quarto, os vãos

a mesa, vazia
os pratos, os copos, as mãos,
tudo vazio
a culpa vazia no fundo da garrafa
o esvaziamento das horas no preenchimento do dia
cada instante, repleto de mim,
mas fora de mim

eu, vazio, contemplo
o tempo e o espaço
aglomerados adiante

entre mim e eles, intermitências:
pausas, síncopes, soluços gástricos,
vazios que se escadarizam em degraus espaçados
— quase palanques —
donde se veem a casa, o quintal, o sertão e o mar,
os resquícios cada vez menores, mais distantes,
e o vazio crescendo entre si

só a chuva une todas as coisas
no vaivém das águas e dos vapores
— inunda e lava os espaços,
arrasta todos os preenchimentos,
concreto, animais e galhos,
em desconstruções que afagam a terra

e eis o vazio do novo,
o ator do preenchimento futuro,
a incongruente continência pronta,
a esperar mais vazios,
mais e mais vazios
copiando na mesa,
nos pratos, nos copos, nas mãos
e nas garrafas
a história do nosso tempo

11/04/22

domingo, 20 de fevereiro de 2022

RECORDAREMOS

Há de chegar o dia em que voltaremos a saber mais do que eles ignoram.
Não há no espaço do mundo agora — este espaço, esta causticidade de tudo que se toca, fala e vê —
lugar para ternuras, canteiro de amizades ou santuário de amores.
A estrada se converteu no destino, e estamos descalços no asfalto quente sem nuvens nem juazeiros.
Contudo, não há estrada hemisférica neste mundo; todas derivam; algumas vicinam;
e nossas mãos e pés constroem aquelas que o chão ignora.
Quase não há flores, mas ainda não houve tempestade nas estórias da noite que extinguisse as borboletas.
Hão de revoar, farfalhando-se como risadinhas de crianças brincando sem medo
nas capoeiras que a chuva recente vicejou.
Com as águas, voltarão os rios e as cachoeiras a mostrar como soa o amor de Oxum,
e tudo aquilo que deve descer para o mar se desmanchará devagarinho, rolando nos seixos até virar pó,
tornado estéril pelo sal marinho de Iemanjá.
Então, poemas serão reescritos e enviados como antigamente,
rangendo nas dobradiças dos peitos e nas juntas das mãos
as emoções ancestrais e os sentimentos renovados.
Amigos, num bar, contarão histórias que não deixarão esquecer quem perderam, quem se perdeu,
e estes, sob o calor das memórias, desmorrerão em árvores e passarinhos
cuja sombra e canto darão a toda parte o que dá um quintal a um menino recém-desperto,
que começa a lembrar como se colhe uma flor que se destina à mãe.
Começaremos a lembrar.
Voltaremos a saber tudo que eles sempre ignoraram.

20/02/22

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

EPIFANIA

Foto: Fernando de Souza
 
houve ali um momento
em que, inteira, a tarde desistiu de anoitecer:
suspensas, as flores e o canto dos pássaros;
mole, o vento;
no céu, o vermelho incipiente do Sol
guardou definitivo a própria forma luminosa
no calor sem corpo da promessa,
e dava para ver
na forma das nuvens
um gotejar ascendente de almas.

durou pouquíssimo,
uns dois segundos,
somente o tempo de um talvez:
revelou-se e desexistiu.
após,
voltaram os pássaros, os automóveis,
e a gosma auditiva da cidade
lubrificou novamente as engrenagens do tempo.

porém, naquele instante tão íntimo
(uma molécula das quatro horas de um novembro
fremindo estática na matéria,
pulsando imóvel nos momentos todos
que faltam vir),
desespero e maravilha
dançaram nus sob a pele da tarde em meu quintal,
e me pareceu alcançar de súbito,
como se houvesse sempre estado ali,
toda a idade entre mim
e aquele instante.

03-04/11/21

terça-feira, 5 de outubro de 2021

ALGUM LUGAR



em algum lugar, alguém está passando um café
por amor, simplesmente.
alguém dorme dentro de alguém
que escolheu ser cama.
em algum lugar, um sino dobra
apesar de não se entenderem mais os sinos.
em algum lugar não muito longe,
um broto novo atende ao Sol,
gretando na calçada imunda
a esperança diária.

sempre há um lugar
para as pequenas inutilidades,
essas que, à luz da Cartografia,
nunca existem nos mapas,
em que pese o fato de os mapas
não serem em nada úteis
a lugar nenhum.

há sempre um lugar que é como o nariz,
o qual do dono o cérebro ignora.
porém, respira, respira…

normalmente, consiste num quintal
ou num chão de sala
onde a casa não tem mais dono,
onde a casa é de todo mundo
— é em casa que não é de ninguém
que habita o imprescindível.

em algum lugar, que eu sei,
jazem maneiras velhas sob a sombra de um juá
o ressono do que já, e nunca mais, é novamente.
em algum lugar,
o novo se recria,
e o que resta ser
começa.

05/10/21

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

ÁGUAS


(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

(lá fora,
uma melodia aquosa e desgarrada
prenuncia as águas.)

— mas é setembro ainda.

— o quase, em meu coração,
é destamanhado.

16/09/21

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

DO TEMPO E DO TRAÇO

Foto: Fernando de Souza
(Clique na foto para ampliá-la.)

o tempo é juntura
com que tudo faço:
do rasgo, um laço
de fina costura,
que, só no momento
em que a faca fura,
cura o ferimento
com seu próprio aço.

novelo de tempo
com que me enlaço:
me cubro o cansaço
e me reinvento
— meu novo modelo
de renascimento
é estar sempre em sê-lo
da cruz ao regaço.

compões o cimento
do chão dos meus passos
— do meu erro crasso
tu és pavimento.
também és mansões
e compartimentos:
silêncio e canções
do fim donde nasço.

25/08/21

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

CURTINHOS

 
(Clique na imagem para ampliá-la.)

I
minha cama é uma jangada
de vela arriada,
por quatro âncoras,
ancorada
no fundo noturno do mar.

II
aqui era bom
quando ainda não era aqui.

III
embaixo dos carros,
gatos mortos e cães e pombos
evaporam.
tão certos são de chegar ao céu
como a água que se despede da lama.

IV
quando tinha dez a doze anos,
não imaginava
que me faria tanta falta.

04/08/21

ENTRE OUTRAS COISAS

(Clique na imagem para ampliá-la.)

desde menino, sei de coisas
que só as coisas sabem, por exemplo:
nadejar e tudejar
no terreiro amplo do espaço das tardes
como as terras, os ventos
e a indiferença das plantas;
andar a esmo nas importâncias
sem me dar delas;
caber no vazio
quando me apercebo dele;
e inexistir
na via expressa dos afazeres humanos.

04/08/21

DE CORPO E ALMA

 (Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

embora a alma dependa intimamente
do que não é alma,
o corpo, essa não-alma, depende
inteiramente
da ausência da alma noutro corpo,
do vazio que por ele será preenchido,
do desejo ardente de si mesmo,
de que é tão ausente.

04/08/21

domingo, 1 de agosto de 2021

AGOSTO

(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar a página de origem.)

por aí, no meio do mundo,
ainda há jogos e lutas rebarbando as pessoas.
nos bares e botecos, meus amigos pelejam contra a morte,
uns com os outros.
todos resistem, todos soterram os silêncios
sob camadas e camadas de palavras encharcadas.

a lama das palavras é fértil.
dela, nascem sonhos de dias melhores
e decapitações públicas.
no topo, no cogulo dos sonhos, um pomo imundo,
vermelho e vagabundo,
serve aos morcegos e periquitos
o sumo vivo da terra molhada,
a carne-e-sangue da comunhão da miséria
com o ódio
de se ver na noite, esparramado e invisível,
de se feder no ar, irrespirável:
a imperceptível hemácia
do sangue da revolução.

triste corpo, pobre corpo, que sangra em silêncio
há tanto tempo,
alimentando vermes e vampiros.

resta o sol, esse dia colonial,
essa alvorada em trombetas que anuncia mais uma marcha,
mais uma jornada de trabalho,
mais um milagre
que nos ressuscita e iguala a todos num mesmo corpo,
numa só máquina
— em que somos tudo, menos gente.

01/08/21