Ficou lá pelas quebrada
Mei da mata, oco do mundo
No moirão, mula arriada
Sem governo, o vagabundo
Que de si não tinha rumo
Nem no seu querer jornada
Que não fosse a esparramada
Água no poço sem fundo
Querer bem moça donzela
Tira do home a razão
Num sertão chei de janela
Curiando a sedução
Desatina o ser cristão
Esse mundão de tramela
Gera no peito uã procela
Põe na cela o coração
Sobrante a chama no esprito
Fria facada certeira
Fartante é a voz no grito
Que ecoa na caatingueira
Lamenta a voz verdadeira
Chora de vera o aflito
Traz no infinito o maldito
Ata na vista a cegueira
Vara o mundo a criatura
Vai de a pé ou cavaleiro
Sem sentir as rachadura
Dos gretado nos lajeiro
Sem comida nem dinheiro
Doente apartad' da cura
Que mora na fremosura
Daquele olhar feiticeiro
Vai vivendo o piligrino
A lonjura sem guarida
Cada légua, um desatino
Cada agrado, uma ferida
Leva a vida desvalida
De quem tem como destino
Ser besouro pequenino
Num jardim sem flor nem vida
Inda traz uma viola
Uã dolência em servidão
Que nos dedo desenrola
Esta desamoração
Vai no mei da multidão
De visage que lhe assola
E destrava o nó que esfola
A mola do coração
19/09/18
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
sábado, 1 de setembro de 2018
SE EU TIVESSE O TEMPO DA INVERNADA
(Para meu irmão João, que se mudou de vez para os campos de São Saruê)
Se eu tivesse o tempo da invernada
Um chuveiro do céu desabaria
No sertão, sob o sol do meio-dia
Banharia a caatinga descampada
O roçado daria sem enxada
A boneca do milho afloraria
Jerimum no pau-darco enramaria
E o coentro encheria o chão da estrada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Cheiro verde, quiabo em carreada
No canteiro de cada moradia
O melão-caetano enfeitaria
E o maxixe engordando na ramada
Mandioca torrando na fornada
Mais que muita da roça chegaria
Macaxeira com nata troaria
No festim comensal da farinhada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
O algodão bem branquinho na almofada
A rendeira tramando em cantoria
E na reza tardã d'Ave-Maria
A fartura na voz gratificada
Sertanejo só quer terra emprenhada
Que a semente na mão transformaria
Sem pavor de estiagem ou carestia
Sem dever nem penar vida explorada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Trocaria o vaqueiro a disparada
Pelo trote macio atrás da cria
Folgazão, o alazão relincharia
No verdume da mata recopada
Toda rês passeando apascentada
Novilhada na coreografia
Cavaleiro sua veste trocaria
O gibão por cambraia entrecortada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Verde o pasto e gorda a galinhada
Criação solta em toda a pradaria
O jumento e o sapo, em cantoria
Caboré e carão na luarada
Carcará caçaria em revoada
Asa-branca a avoante ajuntaria
Leite, queijo, coalhada e ambrosia
Carneirada e cuscuz com panelada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Rapadura, cauim, quindim, cocada
De alfenim ruas pavimentaria
Cajuína das bicas verteria
De paçoca, o reboco da calçada
Cantador largaria a embolada
Pois a boca e o bucho encheria
Aluá do olho-d'água brotaria
Na vereda, no pasto e na picada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Flamboaiãs vermelhando em pleno nada
Mata branca não mais se chamaria
Um jardim aflorado de poesia
Brotaria no peito e na chapada
Pluma nova a cada despetalada
A pedra do lajedo adornaria
Xique-xique e mandacaru na pia
Teimariam na flor sua punhalada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Pescador mudar profissão sagrada
Saberia que não precisaria
Pois o rio, de fundo, afundaria
Tudo o mais que não fosse a luta honrada
Desse homem que, a cada tarrafada
Para casa, feliz, carregaria
O fremir escamado em prataria
O milagre da paz multiplicada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Sem credor nem exploração danada
O Nordeste então se livraria
Do grilhão que a fartura quebraria
E da dor da desolação finada
Sua memória seria adorada
Para cá, marchariam romarias
Sanfoneiro faria a liturgia
Cada alma, de amor, revigorada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Se eu tivesse o tempo da invernada
Estação sem colheita não teria
Toda mesa a família espelharia
Toda casa, não faltaria nada
Mulher, homem e toda a filharada
O futuro, enfim, contemplaria
A possibilidade da alegria
Viraria a certeza da jornada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
31/08/18
Se eu tivesse o tempo da invernada
Um chuveiro do céu desabaria
No sertão, sob o sol do meio-dia
Banharia a caatinga descampada
O roçado daria sem enxada
A boneca do milho afloraria
Jerimum no pau-darco enramaria
E o coentro encheria o chão da estrada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Cheiro verde, quiabo em carreada
No canteiro de cada moradia
O melão-caetano enfeitaria
E o maxixe engordando na ramada
Mandioca torrando na fornada
Mais que muita da roça chegaria
Macaxeira com nata troaria
No festim comensal da farinhada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
O algodão bem branquinho na almofada
A rendeira tramando em cantoria
E na reza tardã d'Ave-Maria
A fartura na voz gratificada
Sertanejo só quer terra emprenhada
Que a semente na mão transformaria
Sem pavor de estiagem ou carestia
Sem dever nem penar vida explorada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Trocaria o vaqueiro a disparada
Pelo trote macio atrás da cria
Folgazão, o alazão relincharia
No verdume da mata recopada
Toda rês passeando apascentada
Novilhada na coreografia
Cavaleiro sua veste trocaria
O gibão por cambraia entrecortada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Verde o pasto e gorda a galinhada
Criação solta em toda a pradaria
O jumento e o sapo, em cantoria
Caboré e carão na luarada
Carcará caçaria em revoada
Asa-branca a avoante ajuntaria
Leite, queijo, coalhada e ambrosia
Carneirada e cuscuz com panelada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Rapadura, cauim, quindim, cocada
De alfenim ruas pavimentaria
Cajuína das bicas verteria
De paçoca, o reboco da calçada
Cantador largaria a embolada
Pois a boca e o bucho encheria
Aluá do olho-d'água brotaria
Na vereda, no pasto e na picada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Flamboaiãs vermelhando em pleno nada
Mata branca não mais se chamaria
Um jardim aflorado de poesia
Brotaria no peito e na chapada
Pluma nova a cada despetalada
A pedra do lajedo adornaria
Xique-xique e mandacaru na pia
Teimariam na flor sua punhalada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Pescador mudar profissão sagrada
Saberia que não precisaria
Pois o rio, de fundo, afundaria
Tudo o mais que não fosse a luta honrada
Desse homem que, a cada tarrafada
Para casa, feliz, carregaria
O fremir escamado em prataria
O milagre da paz multiplicada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Sem credor nem exploração danada
O Nordeste então se livraria
Do grilhão que a fartura quebraria
E da dor da desolação finada
Sua memória seria adorada
Para cá, marchariam romarias
Sanfoneiro faria a liturgia
Cada alma, de amor, revigorada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
Se eu tivesse o tempo da invernada
Estação sem colheita não teria
Toda mesa a família espelharia
Toda casa, não faltaria nada
Mulher, homem e toda a filharada
O futuro, enfim, contemplaria
A possibilidade da alegria
Viraria a certeza da jornada
Se eu tivesse o tempo da invernada
Minha terra São Saruê seria
31/08/18
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
DA PERTENÇA
(Para o meu compadre João, que virou música)
Nossa morte não nos pertence.
Conclui-se, portanto, que os que ficamos não comemos da carne
nem dos ossos,
a exemplo de urubus e hienas.
Matamos o intangível.
Não me importo com o espírito;
não tenho onde guardá-lo.
Ele está por aí, onde estive e nem lembro ou nem sei.
Ele mesmo não é meu.
Não o tratei bem.
É como um cão que fugiu, em quem a coleira só serve de insígnia:
tinha dono, coitado.
No dia em que nos reencontrarmos,
direi: ...
Não direi é nada. Terei vergonha.
Serei o medo do pai diante do filho abandonado
ou o nó na garganta do filho
seja de vômito ou de pranto
das saudades corrosivas e das palavras apodrecidas.
Contudo, aos que ficarão
caberá pisá-lo num cadinho com outras especiarias,
misturá-lo às lágrimas concernentes numa lama adocicada
com que, a despeito da incongruência,
untarão meu corpo
até que eu seja quem amaram, odiaram, esperaram e expulsaram,
numa forma totalmente diversa
de quem fui.
Se pertenço?
Pertencer é luxo de coisas,
e sou a ausência delas nos bolsos dos meus.
Guardo o ar no peito só pelo tempo de estar vivo.
Viver é suspirar.
29/08/18
Nossa morte não nos pertence.
Conclui-se, portanto, que os que ficamos não comemos da carne
nem dos ossos,
a exemplo de urubus e hienas.
Matamos o intangível.
Não me importo com o espírito;
não tenho onde guardá-lo.
Ele está por aí, onde estive e nem lembro ou nem sei.
Ele mesmo não é meu.
Não o tratei bem.
É como um cão que fugiu, em quem a coleira só serve de insígnia:
tinha dono, coitado.
No dia em que nos reencontrarmos,
direi: ...
Não direi é nada. Terei vergonha.
Serei o medo do pai diante do filho abandonado
ou o nó na garganta do filho
seja de vômito ou de pranto
das saudades corrosivas e das palavras apodrecidas.
Contudo, aos que ficarão
caberá pisá-lo num cadinho com outras especiarias,
misturá-lo às lágrimas concernentes numa lama adocicada
com que, a despeito da incongruência,
untarão meu corpo
até que eu seja quem amaram, odiaram, esperaram e expulsaram,
numa forma totalmente diversa
de quem fui.
Se pertenço?
Pertencer é luxo de coisas,
e sou a ausência delas nos bolsos dos meus.
Guardo o ar no peito só pelo tempo de estar vivo.
Viver é suspirar.
29/08/18
sábado, 26 de maio de 2018
VAMPIRISMO
Existem dificuldades na vida de qualquer um. O tamanho delas é sim relativo à resistência e à resiliência de quem as encara todo dia.
Tenho as minhas.
Não espero que me ergam do chão nem que me sustentem do outro lado da corda.
Sim, sou orgulhoso.
Herdei isso de meu pai.
Sofro o mais silenciosamente possível.
O que espero daqueles que gastam comigo a palavra amigo é uma memória, um pensamento e, no máximo, um olhar de camaradagem. Empatia. Isso me basta, pois me confirma a amizade.
O que me revira as tripas é me chamarem amigo sem serem capazes de se solidarizarem não materialmente, mas sim (pois é o que me importa) humanamente. O que me enoja é a superfície, o chão ordinário onde arrastam no meio dos egos inflados a palavra amizade e o meu nome, encangados em filigranas e louçanias de falsidades. O que me esgota o espírito é esse egocentrismo radiado em teias que capturam somente o que é agradável ao paladar exigentíssimo de caráteres que espelhem apenas as anuências, as concórdias, os sim-senhores. Não sou comida de ego. Não sou alimento de aranha.
Meus amigos todos são indivíduos. Todos têm defeitos e peças faltantes. Todos são, à sua maneira, inadequados. Mantenho de todos uma certa distância, pois não sou fácil e não quero fatigá-los, mas olho para todos com olhos e coração. Sinto falta deles legitimamente, pois amo-os legitimamente e, também legitimamente, quero-lhes o melhor. Vale-me mais a mão que vai ao peito de seu próprio corpo em meu nome que aquela esfregada na perna da calça após me ajudar a levantar do chão. Sim, entendo a rejeição e aceito rejeitarem-me. É humana a fraqueza e é humana a covardia. Deixem-me onde estou, pois estes são os meus pés. Porém, olhem-me como seus corações me olharam quando estive ao seu lado e vejam quem sou. Não me ergam por obrigação. Nunca os reduziria assim.
Que não se desperdice, enfim, a palavra amigo. Se não os tem, guarde-a honestamente para si. Se é extensa a sua teia e numeroso o enxame de insetos nela, entenda que sou pesado e insustentável. Não me insulte com a magnanimidade de sua esmola falsa. Deixe-me, por fim, em paz, que a minha pobreza é o que tenho de melhor neste mundo de deidades.
Tenho as minhas.
Não espero que me ergam do chão nem que me sustentem do outro lado da corda.
Sim, sou orgulhoso.
Herdei isso de meu pai.
Sofro o mais silenciosamente possível.
O que espero daqueles que gastam comigo a palavra amigo é uma memória, um pensamento e, no máximo, um olhar de camaradagem. Empatia. Isso me basta, pois me confirma a amizade.
O que me revira as tripas é me chamarem amigo sem serem capazes de se solidarizarem não materialmente, mas sim (pois é o que me importa) humanamente. O que me enoja é a superfície, o chão ordinário onde arrastam no meio dos egos inflados a palavra amizade e o meu nome, encangados em filigranas e louçanias de falsidades. O que me esgota o espírito é esse egocentrismo radiado em teias que capturam somente o que é agradável ao paladar exigentíssimo de caráteres que espelhem apenas as anuências, as concórdias, os sim-senhores. Não sou comida de ego. Não sou alimento de aranha.
Meus amigos todos são indivíduos. Todos têm defeitos e peças faltantes. Todos são, à sua maneira, inadequados. Mantenho de todos uma certa distância, pois não sou fácil e não quero fatigá-los, mas olho para todos com olhos e coração. Sinto falta deles legitimamente, pois amo-os legitimamente e, também legitimamente, quero-lhes o melhor. Vale-me mais a mão que vai ao peito de seu próprio corpo em meu nome que aquela esfregada na perna da calça após me ajudar a levantar do chão. Sim, entendo a rejeição e aceito rejeitarem-me. É humana a fraqueza e é humana a covardia. Deixem-me onde estou, pois estes são os meus pés. Porém, olhem-me como seus corações me olharam quando estive ao seu lado e vejam quem sou. Não me ergam por obrigação. Nunca os reduziria assim.
Que não se desperdice, enfim, a palavra amigo. Se não os tem, guarde-a honestamente para si. Se é extensa a sua teia e numeroso o enxame de insetos nela, entenda que sou pesado e insustentável. Não me insulte com a magnanimidade de sua esmola falsa. Deixe-me, por fim, em paz, que a minha pobreza é o que tenho de melhor neste mundo de deidades.
26/05/18
domingo, 25 de junho de 2017
UM OVO CHEIO DE VÁCUO
As cãs, desprotegidas e humilhadas como um cão
de rua,
estéreis:
neve sobre sousas.
Da velhice tudo nasce
ou renasce, porém
sem novidade de vida.
Um cão velho que já errou suicídios
atravessando ruas
não persegue mais a cauda
nem brinca mais com o lixo;
aprendeu já a podridão,
perdeu de si já a curiosidade,
sabe já que é um cão.
Assim, nesse plano sem perguntas,
onde tudo é esconderijo,
retumba enorme o silêncio inventando labirintos.
Todo caminho leva de volta.
Todo pensamento é memória.
Toda criação é distorção de reflexo.
Estar velho é pior que ser velho;
a mão única da transitoriedade
ressignifica o retrovisor
e a poeira
e o mormaço
e o frio da ausência da luz.
Um ovo cheio de vácuo
inclode:
é a vida enganando com a estranheza
e o estranhamento
a expectativa.
O cálcio sem película da casca
perfeitamente involucral
é armadilha semiótica
esquecida na bandeja de ofertório;
não guarda nem esconde nem protege nada;
é o branco de que é feito o glaucoma
destes olhos que a terra há de comer.
23/06/17
quarta-feira, 24 de maio de 2017
PAPEL DE PÃO
Por acaso
há quem goste de acaso?
No fortuito encontro no ônibus,
no encontrão de desencontros,
encontram-me a mim, que tanta força faço
por ser perdido...
Dão-me sorrisos expectantes, cheios de minha ausência,
junto aos quais me dão a obrigação de preenchê-la,
o encargo pesadíssimo de continuar sendo quem fui,
mas já nem lembro!
Nomes soltos num rodamoinho,
rostos-fantasmas num malassombro de esquecimento,
e eu, ali, vivíssimo na expectativa da resposta onde nunca estive,
e eu, cá, contorcido como um cágado sem o luxo de seu casco
— cascos que funcionem são artigos preciosíssimos!
Odeio obrigações.
A pior de todas é a de situacionar as circunstâncias,
pois tudo que não é o que há de silêncio maciço e fulgurante,
tudo que não me enverga o arco da poesia
é circunstância!
— mas não me entendam mal:
colho muito trigo no chão ordinário e rotineiro e comum
que vira pão neste papel.
O papel da circunstância é o mesmo da visão periférica:
evitar a monomania de uma vida de tiro ao alvo,
ainda que este seja uma tatuagem no peito.
Não posso suportar a obrigação
de ter meu silêncio roubado.
Não planejei, não desejei o compromisso de me tornar palavras.
A palavra é a roupa pesada no dia quente da contemplação,
e é tempo de naturismos semióticos.
Encontrar é verbo consecutivo:
é ação deflagrada por outra.
Para haver felicidade no encontro,
há que se, primeiro, procurar,
caso contrário como reconhecerei o achado?
Porém, principalmente,
como serei eu mesmo reconhecido?
24/05/17
há quem goste de acaso?
No fortuito encontro no ônibus,
no encontrão de desencontros,
encontram-me a mim, que tanta força faço
por ser perdido...
Dão-me sorrisos expectantes, cheios de minha ausência,
junto aos quais me dão a obrigação de preenchê-la,
o encargo pesadíssimo de continuar sendo quem fui,
mas já nem lembro!
Nomes soltos num rodamoinho,
rostos-fantasmas num malassombro de esquecimento,
e eu, ali, vivíssimo na expectativa da resposta onde nunca estive,
e eu, cá, contorcido como um cágado sem o luxo de seu casco
— cascos que funcionem são artigos preciosíssimos!
Odeio obrigações.
A pior de todas é a de situacionar as circunstâncias,
pois tudo que não é o que há de silêncio maciço e fulgurante,
tudo que não me enverga o arco da poesia
é circunstância!
— mas não me entendam mal:
colho muito trigo no chão ordinário e rotineiro e comum
que vira pão neste papel.
O papel da circunstância é o mesmo da visão periférica:
evitar a monomania de uma vida de tiro ao alvo,
ainda que este seja uma tatuagem no peito.
Não posso suportar a obrigação
de ter meu silêncio roubado.
Não planejei, não desejei o compromisso de me tornar palavras.
A palavra é a roupa pesada no dia quente da contemplação,
e é tempo de naturismos semióticos.
Encontrar é verbo consecutivo:
é ação deflagrada por outra.
Para haver felicidade no encontro,
há que se, primeiro, procurar,
caso contrário como reconhecerei o achado?
Porém, principalmente,
como serei eu mesmo reconhecido?
24/05/17
terça-feira, 23 de maio de 2017
MÉMOIRE
Todos que amei e perderam seus nomes
Nas curvas dos ônibus, na cachoeira das horas,
Por favor, perdoem-me.
Em meu coração, existem mais sentimentos que pessoas,
E todas viraram impressões, instantes de cores e formas e cheiros
Que me assomam no emaranhado do tempo.
Não as recordo; sou-as.
Suas vidas em minhas horas, nossas histórias num mémoire,
Um patuá de cabelo e sal
Que me protege de me esquecer de mim.
Sou todos conquanto me seja, às vezes, ignorado,
Pois ser é mosaico de encaixe com peças que sempre faltam.
Se me falto, sobram-me; sou mais o que transborda
Que o que o copo serve.
Só sou leve se sobejo;
Se me sou só, peso.
Perdoem-me minha lembrança tê-los feito circunstâncias.
É que sou perene e breve,
A eternidade temporã que sempre já se vai
E não tem nunca tempo que ceder:
Só trago combustível para a ida.
Não levo passageiros. Não dou carona. Viajo só.
Contudo, no meu rádio, são vocês que tocam,
E eu os assobio à noite sob as estrelas
Mesmo sem lhes lembrar os nomes.
15/05/17
sábado, 22 de abril de 2017
RESSACA
O mar dos meus sonhos
é sempre praia e nunca é calmo.
Quebra alto e breve
cheio de força e fúria,
como um chucro matando a víbora.
Na linha, fico a alguns passos:
o coração, como o dele;
respingos de sangue espumoso e vapores de maresia
espargidos
me completam as narinas.
Sou ali a miniatura de um gigante,
o hipônimo do grande mistério violento
que fustiga as próprias costas
com a mesma grande pergunta cheia de dentes.
Devoro o corpo-chão;
como a minha areia;
salgo minhas entranhas;
erodo-me por completo
antes de me compreender.
Nada navega no mar dos meus sonhos,
exceto meus monstros brutos e inocentes,
em cardumes fraternos e canibalísticos.
Do lado de dentro da onda,
um ódio atlântico,
uma beleza monumental
cai e recai numa preamar vomitória,
como um touro de opala casqueando a arena.
A minha onda é murro na mesa,
dentes cerrados e crespos nas pálpebras.
Lá, no meu mar de aquário,
não há tempo nem mundo,
ninguém além de mim:
somente a perfeição da pureza furiosa,
a ausência de tudo
e a impossibilidade da morte por afogamento.
22/04/17
é sempre praia e nunca é calmo.
Quebra alto e breve
cheio de força e fúria,
como um chucro matando a víbora.
Na linha, fico a alguns passos:
o coração, como o dele;
respingos de sangue espumoso e vapores de maresia
espargidos
me completam as narinas.
Sou ali a miniatura de um gigante,
o hipônimo do grande mistério violento
que fustiga as próprias costas
com a mesma grande pergunta cheia de dentes.
Devoro o corpo-chão;
como a minha areia;
salgo minhas entranhas;
erodo-me por completo
antes de me compreender.
Nada navega no mar dos meus sonhos,
exceto meus monstros brutos e inocentes,
em cardumes fraternos e canibalísticos.
Do lado de dentro da onda,
um ódio atlântico,
uma beleza monumental
cai e recai numa preamar vomitória,
como um touro de opala casqueando a arena.
A minha onda é murro na mesa,
dentes cerrados e crespos nas pálpebras.
Lá, no meu mar de aquário,
não há tempo nem mundo,
ninguém além de mim:
somente a perfeição da pureza furiosa,
a ausência de tudo
e a impossibilidade da morte por afogamento.
22/04/17
terça-feira, 28 de março de 2017
A JANELA DO ITINERÁRIO
A primeira gota da goteira
A menina do reflexo na vidraça suja
O rosto zefirino
O sorriso púrpura na banguela caetânica
A pintura velha na parede patinada
O excesso de tudo
A escapatória pela música escapadiça
A captura das ausências pelas fotos publicitárias
A malha suspensa de fios
A trama
A simpatia bêbada na miséria alheia
Galhos árvores folhas mortas asfalto
O assalto
O progresso
A progressão das colmeias
As colônias
As rinhas e as rainhas indelicadas
Onde está Clarice neste mundo de Madonnas virgens?
Os utilitários fora de estrada
Os postos de gasolina
Os penteados clônicos
Os desindivíduos
As impessoalidades egoísticas
— um mendigo limpo —
A máquina triunfal pessoana gggggggirrrrrrrrando
É só mais um moinho cervântico
— prisão aos loucos que nos recontam —
O carro-forte
A escopeta de chinelas Havaianas
As palmeiras imperiais
As sobras de Alcântaras e Bourbons
Os sobejos nas calçadas
Deus
O antagonismo cristão
Os vendedores de balas
Os tiros verbais
A morte travestida
Bancos
As alamedas gardênicas de flores de lixo
A verticalização babélica
A monoglose
A incompreensibilidade
A aula de Português
08/03/17
MAIS QUE PERFEITA
Foto: Talita Laila
(Para Talita Laila, aquela que mudou tudo)
Era uma mulher cheia
A pele estalando como a casca rosamarelada de uma manga-jasmim
O desde que a vira virara um desde sempre desses de infância
E a novidade de tudo acostumou-se a mim e à treva do desconhecido
Então, já não fui, já não era, já não fora:
Virara um todo presente, e meu tempo passou a chamar-se e a mim de JÁ.
O cais sertanejo donde partira meu barquinho
— uma nave desonesta, ignorante das estrelas
porém por elas metida em viagens espaciais —
Viu pela primeira vez o cheiro salgado da onda
E entendeu-se alcançado por uma viagem inédita:
Seria, enfim, ponto de partida
Quando já se tornara expedições
Essa mulher, o meu mais que perfeito presente,
Conjugou meus verbos
Interpretou meus sentidos
Intercalou-se em minha sintaxe
E me reescreveu
Como uma manga altera para sempre o paladar
De quem nunca deixou de ter doze anos.
17/02/17
Assinar:
Postagens (Atom)

