Por acaso
há quem goste de acaso?
No fortuito encontro no ônibus,
no encontrão de desencontros,
encontram-me a mim, que tanta força faço
por ser perdido...
Dão-me sorrisos expectantes, cheios de minha ausência,
junto aos quais me dão a obrigação de preenchê-la,
o encargo pesadíssimo de continuar sendo quem fui,
mas já nem lembro!
Nomes soltos num rodamoinho,
rostos-fantasmas num malassombro de esquecimento,
e eu, ali, vivíssimo na expectativa da resposta onde nunca estive,
e eu, cá, contorcido como um cágado sem o luxo de seu casco
— cascos que funcionem são artigos preciosíssimos!
Odeio obrigações.
A pior de todas é a de situacionar as circunstâncias,
pois tudo que não é o que há de silêncio maciço e fulgurante,
tudo que não me enverga o arco da poesia
é circunstância!
— mas não me entendam mal:
colho muito trigo no chão ordinário e rotineiro e comum
que vira pão neste papel.
O papel da circunstância é o mesmo da visão periférica:
evitar a monomania de uma vida de tiro ao alvo,
ainda que este seja uma tatuagem no peito.
Não posso suportar a obrigação
de ter meu silêncio roubado.
Não planejei, não desejei o compromisso de me tornar palavras.
A palavra é a roupa pesada no dia quente da contemplação,
e é tempo de naturismos semióticos.
Encontrar é verbo consecutivo:
é ação deflagrada por outra.
Para haver felicidade no encontro,
há que se, primeiro, procurar,
caso contrário como reconhecerei o achado?
Porém, principalmente,
como serei eu mesmo reconhecido?
24/05/17
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
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quarta-feira, 24 de maio de 2017
domingo, 27 de março de 2016
CANTEIRO DE OBRAS
Huub Keulers - Old Tools
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)
Tentar escrever com os sentidos desatentos ao que é interno,
ao que só pode ser transcrito por meio de um estado isolado, insular,
clandestino,
ilegal no que diz respeito às relações humanas,
é apelar para a memória muscular do espírito
e esperar que ele vença a camisa de força do cimento da razão.
Para o caso de ser frustrado pela solidez do jazigo,
escrevo com marretas e pás,
ainda que me sangrem mãos e palavras
e que o braile resultante dos golpes seja o que grite no papel.
Antes o grito tátil que uma mudez mumificada.
27/03/16
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Metalinguagem,
Pensamento.,
Poema
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
SÓ SAUDADE
“Pessoas vivem todas muito com desgostos e a tentar esquecer coisas. Eu penso que a vida é muito curta e que não se pode esquecer nada. (…) Parece que há um despojamento existencial que perpassa essa comunidade da língua portuguesa que tem a ver com a possibilidade de lidar com pessoas que se dispõem à alegria e à tristeza. (…) O mal d'amor, na nossa sociedade (…) da língua portuguesa, é uma coisa que o indivíduo tolera, e chegamos então a essa chave extraordinária da vida, que é a saudade, essa ideia de saudade, que é essa autorização que conferimos a nós próprios para ficar tristes se tivermos razões para isso.”
Pedro Ayres Magalhães, in Língua - Vidas em português, 2002
Hoje, sou todo saudade. Daquela das boas. Saudade de amigos e de inimigos. Saudade que não rima com amplidão, mas é com ela de mãos dadas. Saudade que é só bondade com tudo e com todos. Meus amigos, meus caros amigos, se vocês todos soubessem o quanto me enche o coração de paz lembrar-me de vocês e querer-lhes bem, querer-lhes vinicianamente…
Os longes do mundo e a miopia da alma, que tem os olhos sujos da fuligem das horas, não desfazem a mesa posta e a cerveja gelada, a música e a poesia, as confidências e as brutalidades deste coração de paredes grossas, tão sincopado no sambinha da memória de nossas noites espalhadas por aí, feito vira-latas, desfeitas pelas manhãs como chuva em ladeira.
Sinto falta de todos, porque sinto falta de mim com vocês. Evoco em fotografias, músicas, poemas, souvenires que a mudança esqueceu nas gavetas, rimas de meu nome, ainda que o verso tenha quebrado o pé… Deslizo o disco na agulha, e as ranhuras me cantam. Meus ouvidos se enchem do que transbordamos. Um livro com poemas do Bandeira vertidos para o espanhol, um porta-uísque, duas bolas de sinuca, um chaveiro, uma camiseta velha, tudo é saudade. Tudo sou eu, e vocês estão por toda parte.
Saibam disto, meus amigos: não há saudade maior que a que deita no peito misantropo, nem mais dolente. Solto sem medo meus borrachos no céu das possibilidades, que são todas fecundas de destinatários. Minhas cartas, se não chegarem, desenharão para que todos vejam os traços líquidos de minha escrita de chuva, torta e enviesada, mas carregadinha do sereno da memória: aqui, não estia; plantei-os em canteiros que deram ervas com que tempero meus pratos todo dia, e são todos deliciosos.
06/11/15
Hoje, sou todo saudade. Daquela das boas. Saudade de amigos e de inimigos. Saudade que não rima com amplidão, mas é com ela de mãos dadas. Saudade que é só bondade com tudo e com todos. Meus amigos, meus caros amigos, se vocês todos soubessem o quanto me enche o coração de paz lembrar-me de vocês e querer-lhes bem, querer-lhes vinicianamente…
Os longes do mundo e a miopia da alma, que tem os olhos sujos da fuligem das horas, não desfazem a mesa posta e a cerveja gelada, a música e a poesia, as confidências e as brutalidades deste coração de paredes grossas, tão sincopado no sambinha da memória de nossas noites espalhadas por aí, feito vira-latas, desfeitas pelas manhãs como chuva em ladeira.
Sinto falta de todos, porque sinto falta de mim com vocês. Evoco em fotografias, músicas, poemas, souvenires que a mudança esqueceu nas gavetas, rimas de meu nome, ainda que o verso tenha quebrado o pé… Deslizo o disco na agulha, e as ranhuras me cantam. Meus ouvidos se enchem do que transbordamos. Um livro com poemas do Bandeira vertidos para o espanhol, um porta-uísque, duas bolas de sinuca, um chaveiro, uma camiseta velha, tudo é saudade. Tudo sou eu, e vocês estão por toda parte.
Saibam disto, meus amigos: não há saudade maior que a que deita no peito misantropo, nem mais dolente. Solto sem medo meus borrachos no céu das possibilidades, que são todas fecundas de destinatários. Minhas cartas, se não chegarem, desenharão para que todos vejam os traços líquidos de minha escrita de chuva, torta e enviesada, mas carregadinha do sereno da memória: aqui, não estia; plantei-os em canteiros que deram ervas com que tempero meus pratos todo dia, e são todos deliciosos.
06/11/15
quinta-feira, 28 de maio de 2015
BAR
O que é o mundo,
Senão esta pergunta?
E a vida, que junta
Homens no fundo
De copos imundos
A beberem resposta e pergunta
Enquanto esperam?
26\05\15
Senão esta pergunta?
E a vida, que junta
Homens no fundo
De copos imundos
A beberem resposta e pergunta
Enquanto esperam?
26\05\15
sexta-feira, 22 de maio de 2015
MISTER
Ensinar é a única eternidade que conheço. Além de, talvez, ser pai (especulo). Contudo, boto mais fé na minha gramática que em meus genes. O deeneá do professor é uma coisa que codifica o espírito. A carne que trema, que se estrebuche e goze, mas é em outras almas que eu gozo a engravidá-las. Nelas, vivo como vivem na minha todos os que me ensinaram e os que a estes o fizeram, numa cadeia que reboca o grande início, quando éramos todos menos que promessas, grãos no húmus da mesma gnose, sinapses do mesmo sonho, letras da mesma palavra.
Ensinar é presentar, passadear e futurar. É deixar-se no tempo, sabendo que o tempo apaga a existência, mas esperando que a palavra, como o homem, subsista ao tempo.
22\05\15
Ensinar é presentar, passadear e futurar. É deixar-se no tempo, sabendo que o tempo apaga a existência, mas esperando que a palavra, como o homem, subsista ao tempo.
22\05\15
sexta-feira, 1 de maio de 2015
SALA DE AULA
Vão costurar tua carne, vão-te banhar o corpo, limpar-te as manchas de gás dos olhos.
Vão-te dar tantos-por-cento, sabatinar-te no domingo do bispo, entregar-te lauréis de bastião e oferecer-te palavra na Câmara.
Vão-te gritar o nome e gritar-te nomes.
Vão-te entregar desfraldada a flâmul'auriverde.
Vão-te chamar num canto, talvez, para um conchavo.
Vão-te comprar. Vão-te vender.
Vão-te em vãos donde serás caminho de reis.
Só não te vão, mestre, limpar a marca da bota na cara que deste a tapa, em troco de verem nela os estigmas do País: fileiras imensas de marginados da Ordem e do Progresso, vidas atrofiadas pelo gás e pelo nó, pela imprensa e pela prensa, pelo baile e pela cela.
Só não te vão dizer que acertaste em educar o filho errado, o bastardo dos sonhos, o aborto ambulante das caravelas fedidas.
Vão-te, sim, pesar os feitos no prato austero da virtude dos que "se entregam" pela educação.
Só não te dirão que se entregar e se render são verbetes gêmeos no que diz respeito a ti e que a bala de borracha em tua costela é para que te cies de teu lugar na cadeia alimentar do Estado: és tu quem prepara os quitutes e as marmitas que alimentam os leões desta nação!
Vai-te, professor, que é hora da merenda, e o País tem pressa!
01\05\15
Vão-te dar tantos-por-cento, sabatinar-te no domingo do bispo, entregar-te lauréis de bastião e oferecer-te palavra na Câmara.
Vão-te gritar o nome e gritar-te nomes.
Vão-te entregar desfraldada a flâmul'auriverde.
Vão-te chamar num canto, talvez, para um conchavo.
Vão-te comprar. Vão-te vender.
Vão-te em vãos donde serás caminho de reis.
Só não te vão, mestre, limpar a marca da bota na cara que deste a tapa, em troco de verem nela os estigmas do País: fileiras imensas de marginados da Ordem e do Progresso, vidas atrofiadas pelo gás e pelo nó, pela imprensa e pela prensa, pelo baile e pela cela.
Só não te vão dizer que acertaste em educar o filho errado, o bastardo dos sonhos, o aborto ambulante das caravelas fedidas.
Vão-te, sim, pesar os feitos no prato austero da virtude dos que "se entregam" pela educação.
Só não te dirão que se entregar e se render são verbetes gêmeos no que diz respeito a ti e que a bala de borracha em tua costela é para que te cies de teu lugar na cadeia alimentar do Estado: és tu quem prepara os quitutes e as marmitas que alimentam os leões desta nação!
Vai-te, professor, que é hora da merenda, e o País tem pressa!
01\05\15
terça-feira, 28 de abril de 2015
ID
Perder o documento de identidade é como sofrer uma falta de energia elétrica à noite.
Primeiro, uma desorientação e o sentimento de que se foi também desligado do mundo.
Porém, depois, vêm as estrelas.
28\04\15
Primeiro, uma desorientação e o sentimento de que se foi também desligado do mundo.
Porém, depois, vêm as estrelas.
28\04\15
sábado, 27 de setembro de 2014
DESABAFO
Não é fome, nem sono,
Nem a raiva comum aos que veem no meio de cegos.
Não é sublimação do inalcançado,
Nem recalque do que, por minha culpa, se perdeu.
Não é ser xenofóbico natural,
Tampouco não me ufanar sob bandeiras,
Nem ser, porém, telúrico da casa devastada.
Acontece é que eu não gosto mesmo
É de gente.
Nem a raiva comum aos que veem no meio de cegos.
Não é sublimação do inalcançado,
Nem recalque do que, por minha culpa, se perdeu.
Não é ser xenofóbico natural,
Tampouco não me ufanar sob bandeiras,
Nem ser, porém, telúrico da casa devastada.
Acontece é que eu não gosto mesmo
É de gente.
27\09\14
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
CORTEJO
Parece que morreu alguém.
Tudo se sente, menos a parte que faz a gente não perceber que sente.
É um acordar definitivo, um desvelar das inocências, uma epifania clariceana.
Falta alguma coisa que era a mais importante, mas o que era?
Quem era?
Um pedaço, um membro amputado?
Deve haver, em algum lugar do coração, pálpebras.
E essa morte de charada mais me parece como se essas minhas pálpebras tivessem sido rasgadas com tesoura cega, e o peito quisesse fechar os olhos, mas não pudesse.
Onde, esse cadáver vivo?
Quando, esse presente morto?
24\09\14
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
sexta-feira, 20 de junho de 2014
PASSADO
Passo a passo, o passado.
Presente, o passado.
Bem pesado e bem medido,
porém pesado,
o passado.
20/06/14
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