Número de sílabas (desde 11/2008)

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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

REGISTRO

O passado, essa coleção de letras, sons e imagens gravados, é o único que me interessa. Porque há um outro, um passado que me bate na porta das experiências presentes, alterando-lhes o sabor, fazendo delas memórias falsas.
Este é nada mais que fantasmas, cadáveres de gaveta que perambulam dentro dos olhos, arrastando correntes, gemendo frases alteradas que se confundem com as minhas, redizendo-as cheias de culpa e rancor.
Quando me sobra o tempo, falta-me; quando sou em paz, amarga-me; feliz, entristece-me. Viver bem é esquecer e lembrar sempre à toa, sempre sem querer, como se lembra e esquece um sonho. O resto é registro e tempo presente, e só.

01/08/14

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ESCOLHAS

Prefiro a implausibilidade da vida
Que me leva de cá para Sabe-Se-Lá
À morte arquimédica, muda e polida
Da certeza de tudo o que se fará:

Uma fila hemofílica de horas contadas,
Em negras cadentes de um dominó
Cujo arranjo esbanja a linha traçada
Na górdia e trançada cegueira de um nó.

Monto na bala de um tiro no escuro;
Nado num ocaso de ocasião.
Tanja-me ao inalcançável dos muros
O gume hidrofóbico vindo do cão!

Prefiro que o olho nublado da morte
Por dentro me olhe em perscrutação
E eu escape por engenho ou por sorte
Na pergunta ou no corte que lhe pare a mão;

Prefiro isso tudo de que é feito o talvez
E que fez o acaso do não e do sim
Pintar-me na pele a insensatez
Com a tinta da alma empoçada em mim;

A ter de meu tempo a carne encarnada
Na carne de um corpo cujo coração,
Pêndulo lógico, máquina inchada,
Não passe de um pulso sem palpitação,

Sem sístole, diástole, sangue nas veias,
A temperatura excitada do amor,
Sem jamais ter jorrado na vida alheia
Nem susto, nem paz, nem espinho, nem flor.

Prefiro ser isto: a quase euforia,
A quase tristeza, a imprecisão;
À sensaboria de achar-me, um dia,
Perdido em viver no miolo de um não.

09/07/14

domingo, 29 de junho de 2014

SOBRESSALÊNCIA

E aqui, neste nada emparedado,
Trancados e sem chave, subsistimos
De roer a parede fina e transparente
Que separa de nós o sobressalente passado.

29/06/14

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PASSADO


Passo a passo, o passado.
Presente, o passado.
Bem pesado e bem medido,
porém pesado,
o passado.

20/06/14

segunda-feira, 16 de junho de 2014

DA DINÂMICA DOS SONHOS

Não me importam quantas nem quais. Qualquer um que realize um sonho sobe um degrau de existência que lhe confere o direito de se sentir bem consigo mesmo a despeito das multidões e das estatísticas. É possível, dessa forma, sair do viver ordinário, esse viver medindo-se e comparando-se a outrem, pois, mesmo em companhia de outro de igual feito, sente a singularidade de seu nome reinventado em sua carne, pela primeira vez, mais que letras impressas numa cédula de identidade ou vocativos de cimento social.
Realizar um sonho é nunca mais precisar do espelho de seu nome para existir.

16/06/14 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

ORAÇÃO


Hei de ser grande para resistir
e pequeno, para evitar.
No meio de todos,
ter o tamanho da prudência e da coragem,
ainda que não caiba no mundo
nem o comporte.
Porém, acima de tudo,
devo me desvencilhar de tudo que não sou,
pois não devo ser estrangeiro
em meu próprio coração.

09/06/14

quarta-feira, 4 de junho de 2014

IDADE


O meu medo é tudo isso se perder.
Tanta coisa se perde…
E não é esse perder de se achar depois, uma geração depois, até;
É esse perder de ter até a memória enterrada,
O nome, comido dos livros pelas traças da imbecilidade.
Eu tenho medo quando me sinto velho,
Porque, quando me sinto velho,
Sou irreconhecível em tudo que me cerca.
Ficar velho é ver, cara a cara, a perdição daquilo que se ama
E não nos ama mais
Porque mais não existe.
Ficamos sós — nós e as febres, ardendo na testa.

28/05/14

O DIA DA SAUDADE PLENA


Amanhã também amanhecerá
O dito que digo hoje dentro da noite destas palavras
Mas talvez de mais tempo precise
A verdade dentro do dito dormente
Para acordar a aurora definitiva
Em que o sol mais não se nuble
E o dia de mim mais não se crispe:

Estou pronto finalmente
Nada mais me falta
E, de tudo, a falta sinto

Os pedaços que apresento, completos!
O sertão deserto, esmiudado!
Estou pronto, meus senhores, e estou prestes!
Nada mais deixo, levo ou trago!

Há de chegar o dia
Em que o amanhã amanhecerá o homem
Em que o dito dirá distinta
A verdade plena desta saudade

04/06/14

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O REGRESSO A ÍTACA


Entrei.
Dei um bom-dia cor de adeus,
abri a carta e li,
diante dos centímanos,
meu Prometeu sem anéis
do cabeçalho ao rodapé,
sem pausas nas vírgulas, sem tons sur tons,
e despachei minha antiga mala de infâncias e ensaios
para a boca aberta de dentes
que sempre me costumou engolir as odisseias.

— Vão!, minhas desgraças…

De página em página, esfreguei a borracha de cinzas
e queimei-as ao contrário,
desfazendo o gozo de fênix em folhas brancas, imaculadas,
inéditas como virgens,
patéticas como virgens,
tristes como virgens.
Morro ao contrário toda vez,
toda vez, desfaço a fiadura da angústia
de construir-me para morrer
fio a fio, trama a trama,
página a página.
E não há Penélopes que me esperem
nas ilhas dos além-gentes
nem nada que me conte
nos portos de aquém de mim.
Junto as laudas raspadas num calhamaço de escolar,
amarro o nó da garganta firme,
espero a primeira vela e volto
— mas tudo já me parece tão novo…

05/05/14

terça-feira, 1 de abril de 2014

GRIS


Gris, adjetivo sem gênero ou número, base de outro adjetivo (grisalho), significa cinza, opacento, envelhecido. O dia já estava velho às cinco e meia, quando um som antigo dentro dum sonho de desertos e areia me acordou antes que o despertador tocasse. Vesti roupas velhas, encaixotei-me com elas. A cidade aqui fora é velha, os ônibus são velhos, a estrada para o interior e este mesmo são velhos. Somente a chuva, que chumba o mundo e enche de impossibilidades a vida, é jovem, jovem como um deus que acabara de se revelar em dilúvios recriadores, como um demônio insurgente na multidão, como uma gigantesca sombra deitada por um sol covarde. Tudo o mais é velho, mais grisalho, menos vivo. Envelhecer é proteger-se inutilmente dessa chuva-deus-diabo, dessa sombra, pois é aqui dentro, nos desertos sem gentes, nos campos de cinzas, nas cidades destruídas do que antes fomos, que ela cai e enlameia as veias de uma saudade, de uma inevitável maniconia, de uma paixão sem chagas. Ficar velho é apodrecerem-se sob a chuva, enjaulados em treliças de arame, o tronco e os galhos que, ironicamente, vestem-se do limo mais verde e mais jovem de que jamais se ouvira falar.

01/04/14