Número de sílabas (desde 11/2008)

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

O DIA DA SAUDADE PLENA


Amanhã também amanhecerá
O dito que digo hoje dentro da noite destas palavras
Mas talvez de mais tempo precise
A verdade dentro do dito dormente
Para acordar a aurora definitiva
Em que o sol mais não se nuble
E o dia de mim mais não se crispe:

Estou pronto finalmente
Nada mais me falta
E, de tudo, a falta sinto

Os pedaços que apresento, completos!
O sertão deserto, esmiudado!
Estou pronto, meus senhores, e estou prestes!
Nada mais deixo, levo ou trago!

Há de chegar o dia
Em que o amanhã amanhecerá o homem
Em que o dito dirá distinta
A verdade plena desta saudade

04/06/14

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O REGRESSO A ÍTACA


Entrei.
Dei um bom-dia cor de adeus,
abri a carta e li,
diante dos centímanos,
meu Prometeu sem anéis
do cabeçalho ao rodapé,
sem pausas nas vírgulas, sem tons sur tons,
e despachei minha antiga mala de infâncias e ensaios
para a boca aberta de dentes
que sempre me costumou engolir as odisseias.

— Vão!, minhas desgraças…

De página em página, esfreguei a borracha de cinzas
e queimei-as ao contrário,
desfazendo o gozo de fênix em folhas brancas, imaculadas,
inéditas como virgens,
patéticas como virgens,
tristes como virgens.
Morro ao contrário toda vez,
toda vez, desfaço a fiadura da angústia
de construir-me para morrer
fio a fio, trama a trama,
página a página.
E não há Penélopes que me esperem
nas ilhas dos além-gentes
nem nada que me conte
nos portos de aquém de mim.
Junto as laudas raspadas num calhamaço de escolar,
amarro o nó da garganta firme,
espero a primeira vela e volto
— mas tudo já me parece tão novo…

05/05/14

terça-feira, 1 de abril de 2014

GRIS


Gris, adjetivo sem gênero ou número, base de outro adjetivo (grisalho), significa cinza, opacento, envelhecido. O dia já estava velho às cinco e meia, quando um som antigo dentro dum sonho de desertos e areia me acordou antes que o despertador tocasse. Vesti roupas velhas, encaixotei-me com elas. A cidade aqui fora é velha, os ônibus são velhos, a estrada para o interior e este mesmo são velhos. Somente a chuva, que chumba o mundo e enche de impossibilidades a vida, é jovem, jovem como um deus que acabara de se revelar em dilúvios recriadores, como um demônio insurgente na multidão, como uma gigantesca sombra deitada por um sol covarde. Tudo o mais é velho, mais grisalho, menos vivo. Envelhecer é proteger-se inutilmente dessa chuva-deus-diabo, dessa sombra, pois é aqui dentro, nos desertos sem gentes, nos campos de cinzas, nas cidades destruídas do que antes fomos, que ela cai e enlameia as veias de uma saudade, de uma inevitável maniconia, de uma paixão sem chagas. Ficar velho é apodrecerem-se sob a chuva, enjaulados em treliças de arame, o tronco e os galhos que, ironicamente, vestem-se do limo mais verde e mais jovem de que jamais se ouvira falar.

01/04/14

sábado, 15 de março de 2014

CRUZAMENTOS


Somos todos cães atravessando ruas
De cidades sem semáforos.
Não latimos
Não temos rabo
Somos coxos
E aqui é o lado onde nos tangem.
Mas somos cães
E nossas almas sabem tudo
Que deve saber uma alma.

Nossas almas comem bem
Tomam banho de rio todo dia
E têm sempre oito anos de idade.
Olham para tudo
Como se tudo as merecesse
E não desaparecem sob os mistérios 
Do céu ou do inferno.

Elas simples e pacientemente
Sentadas do outro lado da rua
Nos esperam.

15/03/14

domingo, 9 de março de 2014

DEIXA EU IR DEVAGARINHO


Deixa eu ir devagarinho
Que eu quero só ver
De mansinho
As coisas irem de mim
De onde estive
De quem eu fui
Para os braços de quem me teve
Para os olhos que me choraram
E descerem pelas bocas
Que me negaram adeuses.

Deixa eu ir bem de mansinho
Que uma moça paciente me espera
Nas curvas adiante
Que nem sequer não foram ainda
Dobradas nos sinos
Badaladas nas horas
Curvadas nas raias
Desses raios de sol
Que pastam preguiças de verão.

Deixa eu ir quietinho
Que tanto já se grita: vive!
Acorda! Corre! Cresce!
E eu já nem sei mais ser menino
Desses de três horas da tarde
Quando ainda não é tardinha
E se tem tanto o que fazer.

No meio das horas, nas antessalas do agora
Armo uma rede macunaímica e verde
E durmo a impossibilidade do instante
Que a todos chama!
— Vou mais tarde. Não me esperem.

Que eu quero sentar no pôr do sol
Que nasce em algum lugar:
É manhã na terra que me espera.

Deixa eu ir sozinho
Que lá não se entra de dois
Porque dois não é bom; é muito
Para caberem um coração
E todas as suas avenidas e ruas e favelas
Lotadas de batentes
Coisas que bateram sabe-se lá quando
E não encontraram senão eco
No oco da jaula do peito.

O peito é enorme
Mas mais enorme ainda é a carne que o peito veste
É o pé que leva o peito ao espraiado
Cheio de vento e de ondas
Onde não há eco
E se pode enfim dormir.

09/03/14

quinta-feira, 6 de março de 2014

ADESTRAMENTO


— Nada é mais difícil que amansar um coração.
— Para quê?, pergunta-se, para comê-lo?
— Não. Para dar-lhe de comer.

05/03/14

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ABESTIATUM


07\02\14

ENGRENAGENS


Perguntar a quem escreve o porquê de escrever é doído. Não basta haver tanto o que se dizer sobre tanta coisa… Aí, a pessoa argumenta que escrever não leva a nada, é inócuo, inútil, que as engrenagens sociais sempre se movem pelos interesses da minoria dominante. Treplico. Todo chef sabe que, por maiores que sejam o requinte, a raridade e a frescura de seus pratos, eles vão virar merda. Porém, o chef é um artista. Um artista não faz arte para que a arte tenha um sentido além de si. Isso é com os gourmets, que o saberão com sua alma, sua língua e suas tripas. Um artista faz arte para que ela dê sentido a ele mesmo. E ele a faz porque o sabe e porque o pode.
Uma crônica existe não somente para que a leiam. Ou um poema, ou um romance. Eles existem para que o autor coloque-se diante de si e dos outros, sem pele, sem escudos, a fim tanto de que conheça a si próprio como de que outros se reconheçam nele. Escreve-se porque a palavra une. Unidos, quem sabe, movamos alguma engrenagem…


07\02\14

O BRASILEIRO, E O LINCHAMENTO COMO UM DEVER CÍVICO


Foto: Reprodução/Facebook/Yvonne Bezerra de Mello (Vítima de agressões, Yvonne Bezerra de Mello desiste das redes sociais. “Coordenadora e fundadora do Projeto Uerê, musa do triste episódio da chacina da Candelária, na década de 90, a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello deixou ontem o Facebook. Desde que impediu que o adolescente preso a um poste do Morro da Viúva (Flamengo, zona sul do Rio) fosse linchado por jovens da classe média, sua caixa de correspondência lotou com xingamentos e agressões as mais diversas. Diante da virulência do ataque, ela anunciou que está se retirando das redes sociais.” Veja a notícia aqui)

Fortaleza, anos 80. Era uma época em que ainda havia ladrões que roubavam roupas do varal e que assaltavam usando apenas cacos de vidro como arma. Era também uma época violenta, não se enganem. Havíamos acabado de “sair” da ditadura militar (para entrar em outra, mas só viríamos saber disso depois), e aquele espírito que misturava a ideia de virilidade, justiça, manutenção da ordem, violência e territorialismo (o “-ismo” é proposital) permeava o inconsciente coletivo do meu bairro, e o de todos os que estavam num “primeiro” anel periférico imaginário da Fortaleza boa, a Aldeota, ou seja, de todos os bairros em que havia gente pobre, mas não pobre o suficiente para serem chamados de favela. Éramos pouco mais que remediados. Não se ouvia falar de ladrão que assaltava de moto, que dirá, de carro. No máximo, de bicicleta. Era também época de linchamentos, os quais eram particularmente efusivos, cheios de espírito de coletividade, quase utópicos. Todos os homens disponíveis no momento e que fossem capazes de correr o suficiente por uns 500m, reservando força suficiente para lutar sozinho contra outro, recebia um chamado quase biológico para a contenda. É claro que “sozinho” é força de expressão. Juntos, somavam mais de vinte, sempre.
Lembro-me bem de alguns casos. Houve um em que um adolescente magro e mulato foi capturado e arrastado até o local do roubo, na rua perpendicular à minha, onde foi surrado pelos homens familiares ou amigos da vítima. As mulheres sempre se dividiam em incentivos à surra e apiedamentos suplicantes em prol do massacrado, embora nenhuma interferisse nunca para uma coisa ou para outra. Depois da surra, veio a humilhação. Um dos vizinhos, um dos maiores, mais fortes e mais famosos pelos maus bofes que tinha, dono de uma oficina mecânica, apareceu com uma garrafa de óleo queimado de motor, que nós lhe pedíamos às vezes para “envenenar” nossas bolas Dente de Leite. Agarraram o adolescente, esfolaram sua cabeça enfiando-a no vão de duas grades de ferro de um portão de modo que ele ficasse de costas para a rua, sem poder ajoelhar-se nem ficar de pé. Naquela posição, derramaram-lhe o óleo no corpo e começaram as lambadas com qualquer coisa que não precisasse ser lavada depois. Chinelos, tábuas, até mesmo boladas foram desferidas. Eu me lembro muito mais dos gritos dele do que da surra em si. Pareciam-me os gritos de porco que me traumatizaram na infância, quando meu pai me levava com ele para o Mercado São Sebastião, sempre muito cedo, e eu via bacorins amarrados pelas quatro patas unidas debatendo-se no chão imundo e gritando horrorosamente, talvez, que queriam viver. Eu me lembro também da sensação de justiça e de limpeza que tomava conta de todos, inclusive de mim, e da euforia excitante que era aquilo. Era como estar no limite, na corda bamba sobre o fosso do errado. Era maravilhoso.
Sempre me penalizava intimamente por não poder participar daquele ato cívico. Era muito novo, não tinha força física o suficiente, não era ainda homem o bastante. Anos mais tarde, aconteceu. Apareceu um homem também muito magro, negro, visivelmente alterado, gritando palavrões na direção do baluarte da nobreza da rua Gustavo Sampaio, a elite branca e varicosa que sempre sentava a bunda azeda nas cadeiras de balanço da calçada da esquina: as famílias e os circunstantes mais eméritos do meu bairro. Vale ressaltar que o “branco” não se refere à cor da sua pele somente. Suas almas pareciam ter sido lavadas com cândida nas caravelas. Seus narizes e olhares eram sempre judiciários, e seus gestos sempre oscilavam entre a benevolência de atirar pães a mendigos e a fatalidade do indicador apontado à imundície vicinal. Foi contra essa estirpe que o negro gritou. Não me lembro do quê nem do porquê. Estávamos na calçada a umas cinco casas de distância e vimo-lo tirar uma faquinha serrilhada de mesa não se sabe de onde e riscá-la no asfalto. Apesar do gesto, ele não avançou contra ninguém. Parecia estar marcando um território ou uma ideia, uma noção de que não tinha coxas brancas varicosas, cadeiras de balanço nem bunda azeda que nelas assentasse, mas sim uma existência, que comprovava a todos com os gritos e com a faca. Já íamos resolver aquele desequilíbrio estamental na mão, quando vimos a faca. Um de nós pegou da bicicleta e foi à guarita da PM, a fim de chamar a ordem a cumprir sua função. O negro magro percebeu. Começou a andar desconfiado como quem pressente, sem largar a faca, mas gritando menos. O policial chegou, e finalmente, deu-se o espetáculo. Corremos todos como cães, dentes arreganhados, ávidos pela pele a ser rasgada. Pegamo-lo. Apanhou de todos por um minuto, mais ou menos, menos, curiosamente, do policial, que não sabia sequer usar as algemas. Fui eu que o algemei. Tomei-as da mão do PM e disse-lhe, expus-lhe como era que se fazia. Quase quebrei o braço magro do homem nesse exercício de virilidade, de civilidade e de justiça que simbolizava que eu fazia parte dos meus pares, que eu era mais um capturador de maus elementos, mais um aplicador de penas, mais um justiceiro.
Ele foi preso, mas não por muito tempo. Quando o vimos novamente, na rua, andava torto, curvado, bodejando ofensas contra todos, porém mais baixas, mais sofridas, como se aquilo fosse o que restara do grito e da faca, que também foram entortados e diminuídos como a uma mola que nunca mais se expandiria, como se também tivessem lhe entortado a alma, mas não o espírito.
A essa época, eu já era outro. Já vinha me tornando outro. Desde quando, desde sempre, acho. Havia em mim um asilamento, um caminho pela margem da matilha, consciente de que não era dela, mas covarde demais para afastar-me. Busquei duas coisas a minha vida inteira: ser de um grupo e ser eu mesmo. Nunca fui nenhuma.
Na faculdade, enfim, em uma aula de Sociologia, o assunto do linchamento veio à tona. Alguns falamos o que pensávamos, casos surgiram. Calei-me quanto a isso. O professor, então, propôs um raciocínio. O que aconteceria com o linchado quando retornasse à sociedade? Em meu silêncio, eu sabia. Porém, o meu linchado em questão não era um bandido. O que nós havíamos feito foi tirar talvez para sempre a fé de uma pessoa nas outras, em si, em sua própria existência. Nós havíamos lhe dado o inferno. Quanto ao bandido, segundo o professor, deveríamos imaginar uma situação bem simples: ele cometeria de novo o mesmo erro? “Não”, gritaram alguns. “Ele aprendeu”. Aprendeu, obviamente, mas o quê? Não a mudar de vida. Não a entender o conceito social de “honestidade”, inculcado nele a custa de mãos e pés entrando por suas costelas. O que ele realmente aprendeu foi o que lhe ensinamos: a semântica exata da palavra piedade. Temos piedade entre nós. Com os nossos, com nós mesmos, somos ótimos em sentir piedade de nós mesmos. Mas, com ele, não.
A piedade foi o que ele aprendeu a não ter. Nunca mais ele se colocaria de novo nas mãos de linchadores, mas não porque aprendera o valor da honestidade. Ele só aprendeu que mãos mortas não batem.
E, assim, aprendi tão tardiamente o que tínhamos feito, o que meus vizinhos e pares tinham feito a vida inteira. Nós havíamos pegado o ladrão de varal e, a custa da tortura civil, do espírito coletivo do horror, transformamo-lo no que está aí hoje.
Perguntamos a nós mesmos “de onde saiu tanta violência?”, “como pode alguém fazer isso?”, “por que o Estado não toma providências?”. Não, não perguntamos a “nós mesmos”, porque “nós mesmos” teríamos a resposta. Criamos um Estado pós-ditadura repleto da representação de nosso espírito covarde, corrupto, desumano. Delegamos a esse Estado o poder de “limpeza social” que adoraríamos ter sobre os locais onde vivemos. “Bandido bom é bandido morto”, “reduzam a maioridade penal”, “implantem a pena de morte” são o nosso verdadeiro brado retumbante. Nós, os covardes, nós, os pseudofilósofos, nós, os que cruzamos os braços (mas mantemos os punhos cerrados e uma mancha de conforto nos olhos por alguém estar matando por nós), nós!

Foto: Google

Nesta semana, fomos representados por uma voz televisiva. Alguém que disse o que cada “brasileiro de bem” pensa sobre o que fizeram com o menor negro alvo de linchamento e preso nu a um poste em via pública por uma tranca de aço para bicicleta (veja a notícia aqui: “Adolescente é agredido a pauladas e acorrentado nu a poste no Rio”; o vídeo, aqui: “Adote um bandido”; e a apologia, aqui: “Direito de expressão”). Não pode haver uma imagem melhor do espírito cívico do brasileiro.


Em uma mesma fotografia (feita pela artista plástica Yvonne Bezerra de Mello), estão os ícones do crime e do castigo. Do castigo, é óbvio, mas, do crime…? Para a “âncora” (adoro essa catacrese, ela, em si só, já diz tudo sobre o telejornalismo) e para a grande maioria dos brasileiros, o crime está tão vinculado ao jovem que, ao fazermos uma analogia de outro comentário “cívico” também da autoria da “paladina”, este sobre a “crise de pós-adolescência” de Justin Bieber, que foi preso nos Estados Unidos por dirigir drogado e sem licença e resistir à prisão (assista ao vídeo aqui), percebemo-lo claramente! Bieber é americano, branco, jovem, artista, rico, lindo e idolatrado pelas fãzocas brasileiras. Bieber tem direitos que o jovem negro e inominado pela menoridade jamais terá. O linchado brasileiro já nasceu criminoso. Bieber tem o direito à piedade.
A “jornalista” pergunta com a sua melhor cara de representante do brasileiro reacionário: “o que resta ao cidadão de bem?”. Talvez, tornar-se, primeiro, cidadão; depois, se possível, entender o que significa “bem”.

07/02/14

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

DO TEMPO DO HOMEM


O tempo não é só aquilo que passa do lado de fora
que a chuva arrasta, que o chão traga
que vive na morte das árvores e mata o homem.

Tempo é aquilo que as casas emparedam
que o peito humano empareda
que a pele contém e apodrece
e que embota nódoas na parede dos olhos.

O que acontece fora
aconteceria ainda
se não fôssemos.
Mas, sendo, o que acontece cá dentro
é mais bonito que o panteão das estrelas
é mais triste que um planeta seco
é mais vazio que o vácuo entre os corpos.

O que acontece aqui dentro não cabe nos dias e nas noites
contadoras da história dos homens e de sua ausência.
Viver é uma coisa maior que a própria vida
e o tempo dentro da casa em que se vive
é mais que a eternidade inteira que nos bate à porta.


05/02/14