Decepção é acordar dentro de alguém e estar sozinho.
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
FIANDEIRA
Todo texto é um tecido, uma trama, uma tessitura. Escrever é costurar a roupa, o uniforme da realidade que quisermos, ou somente desfiar os véus que a encobrem e expor-lhe a nudez. E é desse mundo que se retiram o linho e a seda de sobre as filigranas das metáforas, como um avesso diferente de tudo o que se imaginara haver sob os trapos e os andrajos da vida real. Assim, mata-se o frio do mundo: com as palavras.
21/02/12
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
DA MORTE E OUTRAS VORAGENS
Paul Groom - Vortex
Nem os mortos, nem as pedras,
nem o sangue dos cínicos.
Apenas, as coisas da vida se espreguiçam
de seus atritos,
e há uma, às vezes, leve, às vezes,
drástica
queda
na voragem
e no vórtex da morte.
Quando disso, tornamo-nos (e as outras coisas atômicas)
mais propensos à dinâmica da dor e da saudade,
além de outras sentimentalidades.
É aí que se abre (diferente da fome e do medo,
filhos do arrastar dos intestinos)
um espaço dentro do tempo
em que nos aceleramos
em direção a um outro nós
que nos espera de espada à mão
sem nos conhecer.
08/02/12
domingo, 29 de janeiro de 2012
II Blues do Nordeste
A Gambiarra Blues Band convida todos os amigos a compartilharem de ONZE dias de boa música com alguns dos artistas mais representativos do blues feito no Nordeste. Valerá muito a pena participar, galera. Aqui está o link da programação: II Blues do Nordeste.
Bossimbora!
Bossimbora!
domingo, 8 de janeiro de 2012
FORMOSA
Daniele Fernandes - Libre
“Mulher que nega
Não sabe não
Tem uma coisa de menos no seu coração”
Carinho é coisa incompleta.
Por isso mesmo, é nuvem de céu equatorial:
passa, ensombra, esfacela-se meiga e reinventa suas formas
no azul e no negro, igualmente;
porém não chove
e à terra, que sua alma acaricia
— pois a sombra é a alma do que é vazio —,
não lambe a pele com seus rios,
nem se lhe entranha com seus veios.
Não lhe goza na carne triste a renhida temporã
de um amor de macho transformado em força,
em mares despedaçados em partículas de vida.
Carinho é feito moça donzela,
que tem mais valor no guardado da prenda
que têm nas bocetas as humildes prostitutas
que saem pelas esquinas, distribuindo chuvas e sorrisos de meias-noites.
O sazonal da vida do homem
só conhece o beijo lânguido daquela,
ou o outro, negado, desta,
mas, nunca, a primavera!,
quando a terra casa e copula,
e quando nascem dos caroços de manga, enterrados na prenhidão dos amantes,
a doçura de estarem amados
como os amaram no mais profundo de seus corações
suas esperas amargas de tantas e longas estiagens.
08/01/12
Poema escrito em parceria de espírito com minha amiga Daniele Fernandes, que o conheceu talvez até antes de mim. Beijo, Dani.
Poema escrito em parceria de espírito com minha amiga Daniele Fernandes, que o conheceu talvez até antes de mim. Beijo, Dani.
sábado, 24 de dezembro de 2011
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
A MÁSCARA DE APOLO
A noite me agrada porque nela é tudo muito simples.
Não há luzes que me iludam: o céu tem a cor dele, a lua aparece, e as estrelas.
É, e as estrelas…
É simples olhar para elas, pois o que elas são é simples,
como são simples os estilhaços de sol poente — tão diferente de suas irmãs… — na epiderme do mar,
em seu instante mais terno, menos apolíneo:
quando a verdadeira cor das coisas e das pessoas começa a resplandecer
e encher de negro o néon da vida,
mas desse negro de que são feitos os olhos de minha filha,
os cabelos de minha esposa,
o silêncio de meu filho,
a história de minha pele.
O negro transliterado de uma continuidade, de um complexo fio
tramado entre os sons, as pessoas, as palavras e as almas, ligando-os.
Os traços de impessoalidade deixam ao dia o seu anonimato:
somos o que somos somente à noite.
Aquele, intransigente, retira de seu sítio mais íntimo o seu livro de diálogos perdidos e o reexamina escolarmente;
aquela, promíscua, cofia de seus cabelos as imundícies lascivas e se entrega mulher, pura, inteira, a seu homem;
aquele, em mangas de camisa, testosterônico, dança em seus olhos bailes de gala de valsas casticíssimas;
aquelezinho, empedernido em sua resignação humilde ao fel da vida, muda a essência inteira do mundo, dando boa-noite a seu cão;
aqueloutra, doidivanas, sorri pudica diante da ternura pueril de seu pescoço de fêmea;
aquela uma, sem que o nunca lhe houvessem dado, dá de si o mais belo dos sorrisos de “agradecida, senhor” ao lixeiro surdo;
aquele, estroina, olha cheio de amor desesperado o filho, com o pavor absurdo dos que não lhes querem pares de seu futuro;
aquela, burguesa de passamanes de ouro, despe-se da própria pele e se examina só, encastelada em sua tão total ausência;
todos, andrajosos dentro de suas singelezas, cirzem suas verdades
— a única pele que a noite exige, essa noite sem luzes falsas, sem vapores incandescentes de sódio.
Eu, acordado ainda por faróis, desses que salvam navios;
porém eles dormem
como se as máscaras pudessem sonhar os foliões — e os sonhassem.
21/12/11
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
ALUMBRAMENTO
A poesia?
A poesia serve para dar corpo ao caos inominável.
Desatar nós não é de sua lavra;
tampouco o é sistematizar, sequer dissecar a vida.
Não se encontram anéis em seus dedos
nem estolas em seus ombros
— seus ombros não suportam o mundo.
A poesia é o conjunto da incontinência, é o mar da água,
é o coração dos sentimentos.
A poesia é o nome que se soprou dos lábios da fera
pouco antes de suas palavras obstruírem-lhe a alma.
O que se diz
está longe de ser poesia;
um pouco mais perto está o que se pensa;
vizinho, o que se sente.
A poesia mesmo
é o alumbramento espantoso de tudo que queremos ser
diante do mundo que queríamos que fosse.
14/12/11
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