Número de sílabas (desde 11/2008)

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

CORTEJO


Parece que morreu alguém.
Tudo se sente, menos a parte que faz a gente não perceber que sente.
É um acordar definitivo, um desvelar das inocências, uma epifania clariceana.
Falta alguma coisa que era a mais importante, mas o que era?
Quem era?
Um pedaço, um membro amputado?
Deve haver, em algum lugar do coração, pálpebras.
E essa morte de charada mais me parece como se essas minhas pálpebras tivessem sido rasgadas com tesoura cega, e o peito quisesse fechar os olhos, mas não pudesse.
Onde, esse cadáver vivo?
Quando, esse presente morto?

24\09\14

terça-feira, 23 de setembro de 2014

DOS MISTÉRIOS ABSURDOS


Meu espírito é míope: não vê um palmo diante do nariz.
Tateia tudo e sai de narinas ao vento, como uma alma,
mas sem o azedume religioso das almas.
Meu espírito é homem, feito de terra,
e padece da cegueira solitária dos homens,
essa cegueira de raiz, que, se enxergasse,
não enraizaria.
Contudo, mesmo não sabendo, procura, e esse não saber de nada
é que o ala.
Saboreia o mundo, cansa a língua na sensaboria,
à qual prefere, às vezes, o amargor ou a amargura,
conforme a fonte.
E, toda noite, cansado dos sentidos, cala-os,
abre os olhos negros e estrelados, cegos, vítreos
(olhos de espelho de cabaré antigo)
e dorme uma escuridão cintilante, salpicada de meteoritos
e outros mistérios absurdos.

23\09\14

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

The cool, cool river

19\09\14

COLEÇÃO


Colecione o mundo com seus olhos, e seu silêncio será repleto das vozes que você quer ouvir. A solidão não é a ausência das gentes, mas sim a cegueira do próprio espírito.

16\09\14

O jardim da alma



(Para Mateus Linhares, poeta e amigo, que tem uma rosa despetalando lindezas no papel)
Tire a alma da gaveta, lave-a e estenda-a no varal, como o fazem as pessoas muito pobres, em fios de arame, à porta de casa. A poesia deve ser limpa e honesta como roupas íntimas balançando no vento coletivo.
Amigos, este é um poeta novo, de uma safra de ótimos corações, que tenho o grande orgulho de conhecer pessoalmente e cujos textos conversam muito bem comigo. Prestigiem, por favor, a sua página, pois é, sem dúvida, um jardim de sentimentos muito bem cuidado: O jardim da alma.

https://www.facebook.com/pages/O-jardim-da-alma/323678117812485?ref=notif&notif_t=fbpage_fan_invite

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CABARET FRANCÊS


Quando amar, deixe o ser amado saber-se.
Esconder o amor sob os véus da prudência
Ou deixar que dele o silêncio contemplativo diga a malha,
O cheiro e o gosto através dos olhos austeros
Não o engrandece,
Nem há fumaça romântica de cabaret francês que lhe heroicize as faces.
Ame às claras, que é no escuro que o amor dorme,
E não há paz maior que um amor de permanente aurora.

27/08/14

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

LITERATURA E LINGUÍSTICA


Comparar Literatura a Linguística é como comparar uma casa às ferramentas que a construíram, ou uma pintura às tintas e aos pincéis. A ferramenta existe para inúmeras tarefas, incluindo a arte. Pessoas que deificam os livros, mas pisoteiam as palavras, sempre me pareceram aquelas caricaturas azedas existentes nas igrejas: adoram o ouro das estátuas e as filigranas dos escapulários, mas afetam-se diante das chinelas roídas dos pobres que ergueram o templo.
Estudantes de Letras, melhorem! Vocês não existem por tributos, não nasceram para adorar um Olimpo de deuses, porque são humanas as palavras, e é suor o que as une nos textos. Escrever, meus caros idiotas, nada mais é do que verbalizar o mundo invisível por trás da mera existência humana, processo no qual as ferramentas e a obra partilham igual importância; e por meio do qual são igualmente sublimes.

21/08/14

sábado, 16 de agosto de 2014

MOIRÃO

Clique no autor para acessar a página e na imagem, para ampliá-la.

Ser a Europa no verão;
No inverno, a Argentina?
Ou subir essa campina,
Seio e braço do sertão,
Que é mãe, e pai, e filho, e irmão,
Que é sede, e fome, e sina,
Mas é mestre que me ensina
Que mais forte é o moirão
Quão mais firme, a areia fina?

16/08/14

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

REGISTRO

O passado, essa coleção de letras, sons e imagens gravados, é o único que me interessa. Porque há um outro, um passado que me bate na porta das experiências presentes, alterando-lhes o sabor, fazendo delas memórias falsas.
Este é nada mais que fantasmas, cadáveres de gaveta que perambulam dentro dos olhos, arrastando correntes, gemendo frases alteradas que se confundem com as minhas, redizendo-as cheias de culpa e rancor.
Quando me sobra o tempo, falta-me; quando sou em paz, amarga-me; feliz, entristece-me. Viver bem é esquecer e lembrar sempre à toa, sempre sem querer, como se lembra e esquece um sonho. O resto é registro e tempo presente, e só.

01/08/14

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ESCOLHAS

Prefiro a implausibilidade da vida
Que me leva de cá para Sabe-Se-Lá
À morte arquimédica, muda e polida
Da certeza de tudo o que se fará:

Uma fila hemofílica de horas contadas,
Em negras cadentes de um dominó
Cujo arranjo esbanja a linha traçada
Na górdia e trançada cegueira de um nó.

Monto na bala de um tiro no escuro;
Nado num ocaso de ocasião.
Tanja-me ao inalcançável dos muros
O gume hidrofóbico vindo do cão!

Prefiro que o olho nublado da morte
Por dentro me olhe em perscrutação
E eu escape por engenho ou por sorte
Na pergunta ou no corte que lhe pare a mão;

Prefiro isso tudo de que é feito o talvez
E que fez o acaso do não e do sim
Pintar-me na pele a insensatez
Com a tinta da alma empoçada em mim;

A ter de meu tempo a carne encarnada
Na carne de um corpo cujo coração,
Pêndulo lógico, máquina inchada,
Não passe de um pulso sem palpitação,

Sem sístole, diástole, sangue nas veias,
A temperatura excitada do amor,
Sem jamais ter jorrado na vida alheia
Nem susto, nem paz, nem espinho, nem flor.

Prefiro ser isto: a quase euforia,
A quase tristeza, a imprecisão;
À sensaboria de achar-me, um dia,
Perdido em viver no miolo de um não.

09/07/14