Número de sílabas (desde 11/2008)

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

POEMINHO NOSTÁLGICO

O fabuloso destino de Amélie Poulin

Bicha perigosa é a nostalgia,
que rima tanto com alegria
quanto com melancolia,
mas não passa de uma estria
na carne velha e fria
de quem, se pudesse, voltaria,
mesmo que em agonia,
a ver que fora um dia
o que nunca mais poderia
ser.

27/01/15

domingo, 18 de janeiro de 2015

ORAÇÃO PELA PAZ

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Senhor, se existirdes, fazei que eu descreia em Vós
para que os que creem e os que não creem em mim,
herege notório e lasso de coração,
vejam-me sem a sombra da fé
e me deixem em paz.
Amém.

18/01/15

sábado, 17 de janeiro de 2015

O QUE EU SEI DELA

(Clique no nome do artista para acessar a sua página e na imagem, para ampliá-la)

O que eu sei dela
não cabe nem no corpo nem no desejo do corpo,
nem no gozo real nem no imaginário,
tampouco na real ou na imaginária luta
de mim dentro ou debaixo de sua pele branca
e de sua carne vermelha.
O que eu sei dela
liga os átomos das moléculas do seu suor
que provo escorrido e escorreito
de seu buço, de sua borda, de seu borco.
O que eu sei dela sobeja de adeuses
as partidas de todos que fui, reencarnado desde o início;
e de íntimos encontros, os renascimentos sobre seu corpo
de todas as vidas que vivi
em busca da alma que deixaram para mim dentro dela.
O que eu sei dela
mataria mitologias inteiras
pela descoberta estupefata da divindade residente
no ateísmo de comungar da sua carne molhada
o mistério absoluto revelado:
não há deus nenhum,
exceto o que nasça dentro dela.
O que eu sei dela
move a terra de que sou crosta
como um arado ou como um terremoto,
e não sou nada senão uma constante germinação
de magma e húmus, um canteiro que espera,
um planeta em que ela habita e que orbita em torno dela.
O que eu sei dela me translada.
O que eu sei dela me prende, a despeito do vácuo e do caos,
à gravidade da estrela original
que brilha na seiva de que bebo, e de que me alimento,
e que me faz odiar o espaço entre nós
onde não toco, onde não ocupo, onde não preencho.
O que eu sei dela
é que não há ciência ou fé
que coabitem na plenitude que é quando ela está,
porque tudo, então, simplesmente, deixa de ser,
inclusive eu,
que só sou porque sou imaginado e percebido,
que me materializo apenas quando sou tocado
e que vivo apenas porque a como e bebo,
na festa de ser a criatura feita da argila cozida pela gênese de seu ventre;
de ser o filho único de Gaia,
o Urano permanente que inviabilizará todos os deuses
e que escreverá a sua própria Teogonia
no chão de seu corpo,
que sabe tudo de mim e que me explicará
todos os mistérios.

17/01/15



Gaea

domingo, 11 de janeiro de 2015

À BEIRA-MAR

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

O que não é feito de saudade é feito de ausência.
Costuma, entretanto, que haja das duas uma inexistência breve, e elas, simplesmente, não sejam.
Aí, tudo é o silêncio que dá e tira nome a todas as coisas.
Tu te chamas… Tu és…
Ah, mas como é relativa e inconstante a brevidade da inexistência…
Como gritam todas as coisas, como as pedras, o chão e as paredes, por que se lhe calem para sempre os nomes pedras, chão e paredes, e que as deixem apenas su e comportar!
Não lhes cabe caber.
Meter-se entre elas e caminhá-las é coisa para itinerantes.
Cabe às coisas, na ausência da saudade delas, apenas não serem, ou serem ignotas como a presença dos átomos.
Há quem sinta falta de algum?
Contudo, ao cabo do lapso, retorna como ondas que não têm culpa de ser mar a saudade que tudo-nada traz e deixa na areia o estado de esta nem ser terra nem mar, mas uma coisa-entre, um silêncio de nomes, uma essência que, quando ia ser… não foi.
É disto que é feito o homem: palavras.
É forte, pois entendeu “força”; vive, pois lhe contaram “vida”.
Saudade é quando tudo foi, e as palavras são.
Como a areia que a onda deixa molhada e sedenta.
Sem o silêncio que lhes esquecia os nomes.
O que partiu existe?
Ah, mas como ele grita alto a sua inexistência…

11/01/15

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

MUTIRÃO

(Clique nas palavras amarelas para abri-las e nas imagens, para ampliá-las)

Pois é, o primeiro filho veio por acidente e foi uma criação coletiva, ainda por sinal. Explico. Há alguns meses, uma grande amiga, Nataly Pinho, escritora e artista plástica, pediu-me que lhe enviasse alguns textos para uma antologia a ser organizada por seu companheiro e comparsa, o Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino, chamada Mutirão.

Mutirão, antologia colaborativa de vários artistas, em muito boa companhia
na Bienal do Livro do Ceará de 2014.

Obviamente, aceitei o pedido e chovi-lhe vários textos para que ela escolhesse os que entrariam no livro. E esqueci. Fazer o quê? Final de ano, provas para elaborar e corrigir, mudanças e preparações por fazer… Esqueci.
Outro grande amigo, o poeta Antônio Ortiz, havia me convidado a escrever uma apresentação para o seu A forma do outro, a ser lançado dia 13 de dezembro último, na Bienal do Livro 2014. Aceitei, também obviamente, porém, por conta dos mesmos motivos, também o esqueci. Deu-se que o livro foi lançado regularmente no dia 13, dia do nascimento do Rei do Baião, e eu estava lá, como bom amigo envergonhado, ajudando-o no que fosse.

A forma do outro, de Antônio Ortiz

Eis aqui o “acidente”. No dia anterior ao do lançamento, Nataly me telefona e me pergunta quando, como e onde eu iria pegar MEUS EXEMPLARES. “Exemplares”? De quê? E no plural? Aí então me dei conta do livro, aí então sobrepus uma vergonha à outra. Eu também estaria na Bienal, mas nem sabia.
Bom, assim foi. Ortiz, Nataly, Aquino e eu (incidentalmente) nos encontramos no Centro de Eventos do Ceará, e nossos livros foram lançados. Entre amigos, foi feito, com amigos, surgiu, e, por amigos, existe este Mutirão. Não poderia ser de outra forma.

05/01/14

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MINAS GERAIS


Neste mundo de cavernas,
Sou uma pedra
Dentro da qual dorme o minério,
O único metal que pode me extrair deste solo-parede
Cheio da história pictográfica dos que abriguei,
Dos que vi virarem fantasmas
Antes que pudessem descobrir o fogo que me derreteria.

02/01/15

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

QUANDO MORRE UM POETA

Fotografia: Don Pajata - Mário Gomes

(Texto antigo, de 2005, tardiamente editado em homenagem à iluminação do poeta Mário Gomes ocorrida hoje, o último dia deste ano tão implacável de 2014)

Quando morre um poeta, é como se, à noite, por um instante, sumissem toda a brancura da lua e o piscar das estrelas. Só por um instante, a noite se apaga totalmente, e o mundo mergulha súbita e desastrosamente num nada, como num espasmo, como num ataque epiléptico. Tudo se apaga, tudo se cala, anjos e demônios se refugiam desgraçados nas sombras do mesmo susto. No fundo dos corações, uma espécie de mágoa ao contrário se instala, e um incêndio é ateado nas gargantas, o sangue ferve, o cérebro ferve, os pulsos se trancam, e o peito, miserável, despedaçado, grita sem sucesso uma dor sem nome.
Quando morre um poeta, morre junto um pedaço do tempo da vida do Homem na Terra. Um pedaço que ainda não viera. Nos jarros secos das mesas de vidro das salas de visitas, nas mesas derramadas de bebida velha, nas vaginas das mulheres da vida, nas varandas suicidas emparelhadas, nos rincões ressuscitados das memórias, nas flores de plástico empoeiradas, nos baixios, nos sorvedouros, nas cruzes de concreto e de argamassa das igrejinhas, no sal das lágrimas, em todos os rastros que ainda não foram trilhados, na tua palavra e na minha, em tudo, morre um pouco, quando morre um poeta.
Tudo morre um pouco, ou morre muito, não sei dizer. Porque é como se morressem toda a beleza do mundo que ainda não foi cantada, todas as coisas que não foram ditas, todos os sentimentos que ainda não haviam sido despertados. Num instante, em que tudo se apaga e a megera de todas as coisas se instaura, gritante, gargalhante, escarnecente, torturante, o espírito do Homem se desguarnece do que lhe sustenta e cai, patético e imoral, objeto de chumbo e palha esfacelado no chão. O chão se abre, engole-o e se fecha, e o mastiga com seus dentes de magma. A humanidade morre junto com o poeta por um instante, mas não a morte deste. Ela morre como quem perde tudo, absolutamente.
Nesse instante, nesse átimo antes das coisas da vida se restaurarem nas veias das cidades, o negror de nossa pequena e frágil condição sobre a Terra nos visita. Porque, sem o poeta, não seríamos mais que relógios, máquinas de ponto, placas de silício e armadilhas para peixes. A nossa ausência nos olha no fundo dos olhos, e essa marca fica. Pesada, cruciforme, cancerosa.
Então, as passadas seguem e a vida volta às suas tramas, voltamos às nossas casas e abrigos. Como se nunca nos houvéssemos visto sem pele sob uma chuva de navalhas. As placas de silício voltam a conduzir impulsos elétricos. As armadilhas capturam normalmente. As máquinas de ponto marcam mais um dia. Os relógios tiquetaqueiam.

31/10/05

Mário Gomes

Texto de Mário Gomes (clique no nome do poeta para acessar sua página).
Fotografia de Mika Holanda (clique no nome do fotógrafo para acessar sua página).

MEDICINA

(Clique na ilustração para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Tenho em mim engasgos de natureza emocional.
Vejo o mundo, e ouço o mundo, e leio o mundo dentro das pessoas,
e o mundo dentro de mim quer irromper em erupções de lavas gástricas,
como Gaia parindo seus monstros.
Porém, como Gaia, que é o próprio mundo,
não consigo parir minhas palavras.
Elas germinam, crescem em textos,
enciclopediam-se em compêndios vermelhos,
encapados de paredes esofagianas
e guardam todos os segredos do mundo.
Sou doente de guardar segredos.

31/12/14

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Saturnália!