Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 2 de novembro de 2014

LIVRAI-ME

Matej Kren - Idiom
Torre em espiral feita com livros abrigada na Biblioteca Municipal de Praga.
(Clique no nome do artista para ver mais sobre seu trabalho)

Eu, que me achava quixotesco,
Acabei me perdendo clariceano…
E, na multipessoa dividido,
Viniciei-me de não me epicurar
De toda essa gullarte cheia de bandeiras
À ribeira ubalda desse jorgeamado mar.

Colhi do povo a rosa drummondiana
E exuperyei-me na dos saaras
Das cobras e raposas escondidas.
Cheguei a rogar à ariana compadecida
Uma audiência com a moça caetana.
Vestida de sol, a onça suassuna
Deu-me a rosinha por que tanto esperara.

Caminhei pelo agreste das escolas normais
E aprendi das florípedes das fêmeas
Que as capitulinas normas lúcias
Das macabeias das terras anas
Diadorim-homem luzia, que as outras, mais.

Fui seco na vida graciliana
E andante nas saavedras,
Mas, por cem anos me gabo,
 
De buendías me arcadio,
Saramago-me lúcido

No ensaio que me engendra.

Bordejei a besta melvilleana
Qual um ulisses despenelopeado.
Embalei árvores unamúnicas,
E entalhei-lhes o nome ASSIS a machado.

Tudo vi e de tudo fui o tamanho,
Tendo por mim um tanto ficado
Num pequod errante engarrafado
Num’água bukowska e caeira,
Cheia de doçura quintana
E de uma elegante dor leminskeira,
Onde nado nonada
E onde, até hoje, guardo meus rebanhos.

02\11\14

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TEMOR

Ilustração: Dran
(Clique no nome do autor para exibir a página)

Minha preocupação maior é que o PSDB retorne ao Governo. Porém, quase proporcionalmente, o que me assusta é o nível de desinformação, de desonestidade intelectual e a existência para mim cada vez mais clara de um projeto fascista, ultradireitista em mobilização: Feliciano reeleito, alertando Aécio contra as forças sindicais; Bolsonaro, também reeleito, acenando concretamente com pretensões governistas e rebocando um sem-número de conservadorismo e reacionarismo consigo; níveis crescentes e alarmantes de xenofobia, homofobia e ufanismo regional sinalizando que o Sudeste está disposto a comprar essas ideias; ascensão de grupos evangélicos neopentecostais (que servem de modelo a outros) direcionando seus fiéis ao obscurantismo comportamental e cultural, além de encabrestar-lhes os votos para aqueles que os "representam", ou seja, os supracitados; e, entre outras coisas, a conivência e/ou coparticipação da mídia aberta, de alguns segmentos artísticos e de pessoas públicas, dos conglomerados e das instituições de ensino.
Isso é mais que assustador, porque não é uma possibilidade, mas sim já uma realidade. Não estamos regredindo somente politicamente, mas humanamente. Ver gente defendendo a ditadura militar, usando levianamente (palavrinha da moda) o termo "ditadura", advogando abertamente contra os menos favorecidos, segregando-se. Isso sim é o meu grande temor.
As manifestações deram uma mensagem clara e algumas subliminares: primeiro, a de que estamos conscientes e fartos da corrupção; segundo, as de que temos uma raiva cega, manipulável, direcionável como uma arma.
A extrema direita, infelizmente, foi quem melhor percebeu isso.

16\10\14

terça-feira, 7 de outubro de 2014

CAJU

Foto: Alber Uchoa.

(Para Alber Uchoa, mestre, acima de tudo, e colega de especulações bosquejantes)

O caju, cá, jura
que ajuda a sede.
Mas, caju,
que, há justos dez minutos,
juntei nos beiços atrás de doçura,
não me disseste tu na mordida
de tua carne agreste
que ajuntas mais sabor
quanto mais sede tiveste?

07/10/14

sábado, 27 de setembro de 2014

DESABAFO

Não é fome, nem sono,
Nem a raiva comum aos que veem no meio de cegos.
Não é sublimação do inalcançado,
Nem recalque do que, por minha culpa, se perdeu.
Não é ser xenofóbico natural,
Tampouco não me ufanar sob bandeiras,
Nem ser, porém, telúrico da casa devastada.
Acontece é que eu não gosto mesmo
É de gente.

27\09\14

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUANDO A VIDA É MAIS BONITA

Há um cadáver lendo outro para um terceiro,
E este último ilude viver
A quem o vê e ouve,
Porque morte mesmo é ter o espírito surdo
Ou não, a ele, dar ouvidos.
Há mais que vida na vida de quem, assim, morre
Ou desfila sua morte,
Porque a vida sem isso é nada mais que estados profundos de distração de si mesmo,
Um coma esfuziante, uma catalepsia epilética.
Viver é mais bonito
Quando a morte bate à porta
E pede licença para dizer o quanto cansa quando as coisas terminam
Depois de já terem tido, há muito, um fim.

25\09\14

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

CORTEJO


Parece que morreu alguém.
Tudo se sente, menos a parte que faz a gente não perceber que sente.
É um acordar definitivo, um desvelar das inocências, uma epifania clariceana.
Falta alguma coisa que era a mais importante, mas o que era?
Quem era?
Um pedaço, um membro amputado?
Deve haver, em algum lugar do coração, pálpebras.
E essa morte de charada mais me parece como se essas minhas pálpebras tivessem sido rasgadas com tesoura cega, e o peito quisesse fechar os olhos, mas não pudesse.
Onde, esse cadáver vivo?
Quando, esse presente morto?

24\09\14

terça-feira, 23 de setembro de 2014

DOS MISTÉRIOS ABSURDOS


Meu espírito é míope: não vê um palmo diante do nariz.
Tateia tudo e sai de narinas ao vento, como uma alma,
mas sem o azedume religioso das almas.
Meu espírito é homem, feito de terra,
e padece da cegueira solitária dos homens,
essa cegueira de raiz, que, se enxergasse,
não enraizaria.
Contudo, mesmo não sabendo, procura, e esse não saber de nada
é que o ala.
Saboreia o mundo, cansa a língua na sensaboria,
à qual prefere, às vezes, o amargor ou a amargura,
conforme a fonte.
E, toda noite, cansado dos sentidos, cala-os,
abre os olhos negros e estrelados, cegos, vítreos
(olhos de espelho de cabaré antigo)
e dorme uma escuridão cintilante, salpicada de meteoritos
e outros mistérios absurdos.

23\09\14

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

The cool, cool river

19\09\14

COLEÇÃO


Colecione o mundo com seus olhos, e seu silêncio será repleto das vozes que você quer ouvir. A solidão não é a ausência das gentes, mas sim a cegueira do próprio espírito.

16\09\14

O jardim da alma



(Para Mateus Linhares, poeta e amigo, que tem uma rosa despetalando lindezas no papel)
Tire a alma da gaveta, lave-a e estenda-a no varal, como o fazem as pessoas muito pobres, em fios de arame, à porta de casa. A poesia deve ser limpa e honesta como roupas íntimas balançando no vento coletivo.
Amigos, este é um poeta novo, de uma safra de ótimos corações, que tenho o grande orgulho de conhecer pessoalmente e cujos textos conversam muito bem comigo. Prestigiem, por favor, a sua página, pois é, sem dúvida, um jardim de sentimentos muito bem cuidado: O jardim da alma.

https://www.facebook.com/pages/O-jardim-da-alma/323678117812485?ref=notif&notif_t=fbpage_fan_invite