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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TEMOR

Ilustração: Dran
(Clique no nome do autor para exibir a página)

Minha preocupação maior é que o PSDB retorne ao Governo. Porém, quase proporcionalmente, o que me assusta é o nível de desinformação, de desonestidade intelectual e a existência para mim cada vez mais clara de um projeto fascista, ultradireitista em mobilização: Feliciano reeleito, alertando Aécio contra as forças sindicais; Bolsonaro, também reeleito, acenando concretamente com pretensões governistas e rebocando um sem-número de conservadorismo e reacionarismo consigo; níveis crescentes e alarmantes de xenofobia, homofobia e ufanismo regional sinalizando que o Sudeste está disposto a comprar essas ideias; ascensão de grupos evangélicos neopentecostais (que servem de modelo a outros) direcionando seus fiéis ao obscurantismo comportamental e cultural, além de encabrestar-lhes os votos para aqueles que os "representam", ou seja, os supracitados; e, entre outras coisas, a conivência e/ou coparticipação da mídia aberta, de alguns segmentos artísticos e de pessoas públicas, dos conglomerados e das instituições de ensino.
Isso é mais que assustador, porque não é uma possibilidade, mas sim já uma realidade. Não estamos regredindo somente politicamente, mas humanamente. Ver gente defendendo a ditadura militar, usando levianamente (palavrinha da moda) o termo "ditadura", advogando abertamente contra os menos favorecidos, segregando-se. Isso sim é o meu grande temor.
As manifestações deram uma mensagem clara e algumas subliminares: primeiro, a de que estamos conscientes e fartos da corrupção; segundo, as de que temos uma raiva cega, manipulável, direcionável como uma arma.
A extrema direita, infelizmente, foi quem melhor percebeu isso.

16\10\14

sábado, 7 de maio de 2011

O 5 DE MAIO


    No dia 5 de maio de 2011, por decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF - http://www.stf.jus.br/portal/principal/principal.asp) aprovou a união estável entre pessoas do mesmo sexo (http://www.band.com.br/jornalismo/brasil/conteudo.asp?ID=100000428967). A data é motivo de comemoração por parte não só daqueles que tiveram real ou potencialmente lesados os seus direitos, mas também de toda a sociedade, que, agora, dá um passo adiante no que diz respeito ao princípio da igualdade perante a lei. No entanto, nos últimos anos, tenho visto algumas específicas manifestações que podem ser compreendidas como extremas e perigosas a esse mesmo princípio.
    Há uma tentativa de conscientização tácita de conceitos que são contrários ao próprio princípio de igualdades de direitos dentro da heterogeneidade. Imagino ser a ideia que todos devamos abraçar o fato de que somos “diferentemente iguais”, ou seja, todos, quanto ao comportamento sexual (que é heterogêneo), são semelhantes, merecem reconhecimento e respeito no que concerne à sua condição. Porém, vejo campanhas nas redes sociais que pedem a todos que exibam em suas páginas um ícone, uma imagem ou mesmo apenas a mensagem do Projeto Eu Sou Gay (#eusougay - http://projetoeusougay.wordpress.com/), que luta contra a intolerância ao comportamento homossexual. A adesão ao projeto, seja apenas em concordância ou aceitação, seja ativa e propagadora, é extremamente louvável, visto que devemos tentar melhorar a nossa cultura nesse sentido. Devemos mudar os estabelecimentos sociais que rezam uma maldição contra quem é diferente sexual, étnica ou economicamente; na verdade, devemos mudar muito mais que isso. O que eu vejo como problema é o fato de estar havendo uma tentativa de homogeneização comportamental. Levantei esta questão ontem em sala de aula: não seria uma retaliação essa tentativa de tratar a todos igualmente? Retaliação, no sentido de que se tentam tratar os heterossexuais como se não o fossem, ou o fossem mediante uma escolha que poderia deixar de ser feita. Ora, esse pensamento não é o que se tem aplicado sobre os homossexuais todo esse tempo, e que é justamente o que se tenta erradicar? Não é o reconhecimento da relevância social das diferenças o ponto? Não é a justiça quanto ao reconhecimento da isonomia que se busca? Não é um fim à violência implícita e explícita contra aqueles que têm direito de exercer livremente seu comportamento sexual o que se almeja?
Outro dia, estávamos reunidos com um professor que ministrava uma palestra sobre critérios de correção de redação para o (extinto) vestibular, e surgiu o tópico a respeito de comportamento difamatório ou preconceituoso na construção textual. O debate foi ótimo, esclarecedor e descontraído, tal que o palestrante mencionou a sentença que virou bordão tanto dos ativistas de movimentos do segmento lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e simpatizantes (LGBT ou LGBTTTs - http://www.abglt.org.br/port/index.php) quanto de rodas de conversas informais em que surgem brincadeiras sobre o tema: “o mundo é gay”.
     Não, o mundo não o é. Não o é como não seria “macho”ou “fêmea”, homo ou heterossexual. Este espaço social que tanto nos esforçamos por destruir e chamamos mundo é o lugar onde todos vivemos igualmente reconhecíveis, igualmente agentes, igualmente indivíduos que têm direitos às suas idiossincrasias, ideias, manifestações, pensamentos, condições sexuais, necessidades, afetividades; direitos que param no ponto onde começam os de nossos semelhantes, que são todos. O mundo não é homogêneo. Sequer o é o indivíduo. Cada um de nós é um universo com forças que lutam contrárias e favoráveis umas às outras. Seria uma atitude adequada tentar imiscuir a ideia de que temos de ser, dessa forma, iguais? Não seria o mesmo que querer que um gênero tenha de ser o outro comportamental ou culturalmente? Mais uma vez, retomo a palavra CULTURA. Nossas interações sociais têm falhas nesse sentido que têm de ser sanadas, ou seja, temos de abandonar essa herança de intolerância ao diferente que recebemos de nossos antepassados. O que eu questiono é: será que temos de abandonar também quem somos? Será que tenho de ter a vergonha de ser quem sou como a sociedade impingiu aos homossexuais que a tivessem? Será que não há espaço nesse “mundo gay” do professor da palestra para os que não o são? E a tão falada tolerância?
    Devemos todos mudar os conceitos de uns quanto aos outros. Há falhas conceituais, preconceitos e intolerâncias de ambos os lados. A observação da história nos mostra que, quando se chega ao fim de uma crueldade, abre-se invariavelmente um espaço para um extremismo. Não abracemos isso. Sejamos lúcidos, sejamos conscientes. Reconheçamo-nos como somos, e não como arquétipos; abracemos o nosso irmão que não é gêmeo. Saibamos, acima de tudo, que o nosso caráter não está vinculado às fisiologias biológicas ou comportamentais. Ser um homem ou uma mulher de valor é ter a capacidade de não piorar o mundo em que se vive, é honrar sua existência com a promoção da própria existência, é cuidar do outro, mesmo que seja no menor dos sentidos.
    Eu ainda me lembro da vez, em uma das pescarias às quais meu pai sempre me levava, em que eu pesquei de anzol o meu primeiro peixe e comecei a gritar de júbilo, ao que disse com toda a minha alma, e, por isso mesmo, imperceptível e inconscientemente: “eu sou filho do Lourival!”. Eu senti a intensidade daquele momento em que meu pai travou na garganta um nó que só o reconhecimento de seu valor e a retribuição de todo o esforço de uma vida são capazes de atar, e eu também o fiz, mas por ter dito, talvez àquele único momento, o que eu sentia por ele. Quantos são os homens e as mulheres que têm esse direito negado? Assim, eu pergunto: são a biologia ou o retrógrado senso comum que ditam quem pode ser feliz àquele ponto?
    Eu compactuo integralmente com a decisão do Supremo, a qual inaugurou um marco histórico. Permitamos que essa felicidade se propague com toda a liberdade que o direito lhe concede, e aprendamos a ser quem somos em relação uns aos outros.

07/05/11

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

RACISMO: FLAGELO BRASILEIRO

Amigos,

Ultimamente, temos visto o racismo e o preconceito sociorregional e cultural tomarem lugar aqui, na internet, e notícias a esse respeito circularem nos meios de comunicação (muito poucas). É notório que algumas empresas de televisão se omitem quanto a algumas notícias (vide ENEM) quando isso lhes interessa, mas eu assumo que reconheci em mim ainda um resto de inocência por achar que a falta de veiculação devida do caso "Mayara Petruso" acontecera em virtude da natural sobreimportância de outros assuntos (depois, eu, burro, perguntei-me "quais?").

Hoje, por exposição de um amigo, entrei em contato com a notícia e com o vídeo a ela incorporado que seguem abaixo:

Conversa Afiada de 16 de novembro de 2010
(ou copiem e colem: http://www.conversaafiada.com.br/video/2010/11/16/video-assustador-globo-de-sc-tem-odio-de-pobre/)

Não venho aqui com o intuito de piorar ainda mais a imbecilidade de generalizações regionais ou municipais. Tampouco venho defender ou atacar o jornalista responsável pelo sítio (Paulo Henrique Amorim), ou, muito menos, a empresa de que ele faz parte (Rede Record). Há outros momentos para a defesa dessas teses. Por agora, o que, para mim, pareceu muito pior, e, por isso, quebrei meu costume de não me envolver, é o teor racista e, por que não dizer, neonazista (SIM, É ESSA A PALAVRA) com que um suposto profissional do telejornalismo (alguém cuja profissão é, acima de qualquer outra coisa, um exercício da defesa do interesse das pessoas menos favorecidas, mais frágeis, mais humildes, mais indefesas) se manifestou numa emissora afiliada à Rede Globo de Santa Catarina.

O motivo pelo qual acho muito mais perigoso o MENSAGEIRO que a própria MENSAGEM é o fato de, meus amigos, não ter sido esta veiculada por um animal de cabeça raspada tatuado com suásticas, e sim por UM PROFISSIONAL DE UMA EMISSORA DE TELEVISÃO ABERTA.

Quando uma sociedade chega ao ponto a que nós chegamos, quando as pessoas já não se sentem mais inibidas ou coibidas a esconder suas bestialidades e defendê-las abertamente em palanque sob a salvaguarda da bandeira do JORNALISMO (perdoem-me os jornalistas sérios), supostamente, fiando-se na racionalidade, ou pior, no senso comum de sua região, então, meus amigos, é hora de temermos.

E de reagirmos.

Não nós, nordestinos (terminologia que defendemos sem saber que nasceu já inventada preconceituosamente), ou os outros habitantes das regiões do Brasil sob a bandeira de suas culturas.

Eu me refiro a nós, pessoas.

Acordemos!

Esses retrocessos não o são de fato. Os pensamentos de superioridades social, racial, cultural, comportamental, artística etc. estão imiscuídos entre nós há tempos. O que vem acontecendo é a erupção de uma lava que nunca esteve adormecida, apenas contida. Entre nós mesmos, independentemente dos fatores citados acima, há esse tipo de comportamento. Percebemos isso diariamente e, por omissão, passamos adiante aos nossos filhos, amigos, alunos, colegas.

Não resolveremos isso com boicotes. Nem com a imbecil represália de Talião.

O caminho é a reconquista de nossa humanidade, que ficou perdida em nossa história desastrada por meio de nossa cegueira consumista, nossa irresponsabilidade eleitoral, nosso hedonismo, nosso egoísmo, nossa corrupção.

A meu ver, a coisa mais difícil que existe é mudar alguém por meio de qualquer coisa que não seja o exemplo. Sei disso porque esse é o meu ofício.

Se quisermos mudar, mudemos a nós.

Vamos recuperar o legado daqueles que morreram martirizados por direitos de que, hoje, desdenhamos (outro dia, vi alguém veladamente defender a ditadura sob o argumento de que seu pai dormia com a janela aberta àquela época).

É com mais tristeza que esperança que eu passo adiante essa notícia, esse vídeo e este comentário.

Porém, podem ter certeza, é com toda a teimosia deste mundo.

Um abraço a todos,

Fernando de Souza

sexta-feira, 12 de março de 2010

O FIM DO "PAI" DO GERALDÃO

    Tiveram fim na madrugada desta sexta-feira, 12 de março de 2010, as vidas de Glauco Vilas-Boas, cartunista brasileiro, e Raoni, seu filho, que foram vítimas de um assalto em Osasco, São Paulo.
     Esse é o teor dos informes que encontrei em várias páginas da internet nesta manhã. Fiquei me perguntando: tirando todo o óbvio peso da violência, da morte e do ultraje, seria essa a definição apropriada pro Glauco? Será que a mídia virtual não poderia dedicar algumas linhas a mais com informações mais pertinentes e justas sobre um dos mais irreverentes artistas críticos da sociedade brasileira? Será que não seria melhor pros fãs e pros leigos um texto mais digno, mais completo, até mesmo mais ácido, como era a visão de Glauco, sobre ele próprio? Senti falta disso. A mim, pareceu que o horror do fim das vidas dos dois e o da carreira de Glauco, destinada à reflexão sobre o cotidiano e seus problemas morais, sociais e políticos, importou menos que o laudo da polícia de Osasco. Crime hediondo, sim. Perda ainda mais hedionda pra todos aqueles que têm os olhos tristemente abertos sobre este país.
    Glauco foi autor de personagens alegóricos e arquetípicos que representam desde o início dos anos 80 as criaturas urbanas das grandes capitais brasileiras. Com sua visão sarcástica, ele idealizou personagens marginais e cômicas que podem ser identificadas em nós mesmos, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, parentes, conhecidos etc.










    Geraldão foi, sem dúvida, sua cria mais popular. Glauco criou uma alegoria do homem hedonista dos anos 80, vagabundo por natureza e edipiano de criação. Com cerca de 30 anos e ainda virgem, Geraldão é um dos melhores símbolos do excesso e do consumismo dessas últimas 3 décadas. Sua mãe, personagem que nunca foi nomeada, tem um relacionamento de rejeição, sarcasmo, obsessão e (entende-se) "amor" com o filho. Muitos dos comportamentos de Geraldão são facilmente identificáveis no homem adulto criado "pela TV" nesses últimos 30 anos. O seu relacionamento com a TV, que, por vezes, cria vida e o persegue, não deixando que se livre dela (sim, Geraldão tem lapsos de consciência); suas bonecas infláveis Sônia Braga e Sharon Stone, seus únicos meios de relacionamento próximos de uma transa (ainda assim, semi-impedidos pela mãe), além de objetos domésticos como a batedeira de ovos elétrica; a sua figura, por vezes desenhada com vários braços (cada um com seu excesso, desde big macs a absinto, muitas vezes, empilhados todos juntos) e várias pernas, sempre em movimento caótico, além de uma seringa espetada eternamente em seu nariz e vários cigarros na boca ao mesmo tempo; e o fato de, em sua evolução hedonista, ter sido retratado primeiramente com calças sem elástico para, depois, surgir completa e despudoradamente nu são algumas das metaforizações do homem moderno, perdido, inseguro, viril, porém frustrado sexualmente, usuário de drogas, irresponsável e alienado.
     Glauco, genialmente, criou uma personagem que expõe um retrato crítico mais ácido sobre a figura humana que as suas charges políticas, mesmo sendo estas sempre muito explícitas, contundentes e revoltantes.



Juntamente com Angeli, Laerte e, mais recentemente, Alan Sieber, foi, entre os cartunistas contemporâneos, um dos melhores a criticar o estilo de vida irresponsável e caótico do homem urbano clássico. A ausência de referências ideológicas e mesmo de ideologias, a ignorância, o oportunismo, a reificação, o hedonismo, o excesso, o vício, a inconsistência dos relacionamentos, a banalização da vida, tudo isso foi exposto de maneira firme, cômica, e, muitas vezes, cínica por Glauco.
    Lamentemos pela perda da sua vida e da de seu filho, sim, muito, enormemente. A violência que, tantas vezes, foi retratada em seus cartuns tirou a sua vida, como a de tantos outros cidadãos de São Paulo, de Fortaleza, de Salvador, do inacreditável Rio de Janeiro. O caos reinou. E reina.
    Geraldão teria ficado de cara com isso.
 
12/03/10