Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
A SUPERFÍCIE EM FUGA
Ando mesmo precisando
ver águas diferentes sob as pontes
passarem correntes
que me libertem daqui.
13/12/12
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
GLOBO DA MORTE
Calendula officinalis
Andava meio assim: “basta me chamarem, que eu vou”. A tormenta dos trinta anos soprada pela calmaria dos quarenta, um emprego no bolso, um homem a tiracolo. Não era de todo seu, sabia, mas não importava. Dava-lhe gozo e ombro, gostava de estar com ela. Todos gostavam de estar com ela, mas nenhum ficava. A cama tinha lençóis trocados de ano em ano, com raras demoras além disso.
Ela iria. Olhava a porta que separava dois mundos iguais — não entrava nem saía em lugar algum. Quando criança — e isso a assombrara muito! — vira um globo da morte num cirquinho de bairro. Pequeno, só duas motos. “Ele e eu”, pensou. Giros, vertigens, sustos, caos ordenado!, mas, depois, os dois saíam, o casal, tiravam os capacetes e faziam a reverência do espetáculo. Ela nunca os aplaudira em todas as noites que os vira desafiarem a morte. Sabia que não havia desafio. Tempo, marcas, velocidade, rotas, tudo predeterminado, uma morte ou um aleijão, sim, viriam se ousassem ir contra a coreografia. Estava farta de parceiros de dança… “Ele, não! Eles! Eles e eu…” Iria para onde a levassem.
Cortou os cabelos, calçou sandálias novas, planejou Franças e Espanhas, procurou por Deus na igreja, na Bíblia, na Cabala, nas mitologias pré-colombianas, cansou, fez tatuagem, o clichê da borboleta, mesmo estilizada em notas musicais, paquerou canalhas, deu, curtiu S & M, amarraram-na, gozou mais, fez ménage, grupal, tântrico, o tradicional romantiquinho num chalé em Blumenau com fondue e lareira… Ao chegar ao apartamento, não sentia nos pés descalços sobre o mosaico que mandara vir de Alcântara a gratidão do lar. Achou outro apartamento. Acarpetado, periférico, condomínio de luxo, térreo, frente para um átrio, estilo mediterrâneo. Covarde, não vendeu o seu. Alugou os dois, pagando um com o apurado do outro. Tentou preencher o novo consigo mesma. Inventou um self, um id, uma nova Madalena que nunca mais se arrependeria. Criou calêndulas porque gostava da sonoridade do nome e de Drummond. Pensou na família, “onde estão?”, convidaria para churrascos de domingos? Haveria de fazê-los?
Deu-se um mês, logo, um ano. O trabalho lhe exigia pouco. Geriatra bem-sucedida, montara uma clínica que levava seu nome e computava ótimos respaldo, qualidade e quadro de funcionários. Estava bem, gerenciava, apenas. Velhos, eram todos velhos, os pacientes e os médicos. Dera a dois de meia-idade de uma vez só, em sua cama, gritos, ótima noite, depois, amigável rescisão de contrato. “Médicos me saem melhor que prostitutos”, resolvera.
Naquela manhã, acordou, sentiu náuseas, “deve ter sido a vodca”, caminhou o corpo nu pela casa a esmo, meio perdida. Uma memória que achava ter deixado nos azulejos de Alcântara lhe servia de sombra pelo carpete branco. Perguntava-lhe… “iria?”. Foi ao lavabo, viu-se no espelho, não se viu em si. Um minuto, dez, meia-hora, celular tocando inaudível, mil mensagens, meio-dia, ela, estática, indo, indo… Sentou-se na cama do lado da edícula que trouxera de Aparecida, olhou a santa negra, beijou-lhe o manto azul, rezou maquinalmente a ave-maria como fizera lá, deitou-se fetal entre as seis almofadas de diferentes fronhas, indianas, sólidas, florais, abraçou-se à única que trouxera da velha cama, pôs entre as pernas outra, a mais dura, que, sob o quadril, arqueou-lhe a bunda tantas vezes para o seu gozo preferido, com as pernas abertas e o corpo descendente, como se estivesse sendo enfiada na cama pelos paus de seus canalhas ocasionais, o último, quando fora, não se lembrava… Como seria se os parceiros largassem o guidão e deixassem-se ao acaso? Iriam como ela? Perdeu-se nisso dando voltas, perseguindo-se, perdendo-se.
Encontraram-na pela denúncia do mau cheiro por parte dos vizinhos ao síndico e dono de seu apartamento e pela subsequente visita de um oficial de justiça como efeito da ação judicial perpetrada por ele junto ao Tribunal de Pequenas Causas. Morta, havia semanas. Nunca lhe bateram à porta, mas “quem era?”, “coitada”, “alguém conhece a família?”. Por interferência do filho do desembargador fulano, morador do mesmo bloco, cobertura, que promovia bacanais perdulários com putas e michês pré-adolescentes encharcados de heroína e crack, encerrou-se rápida a investigação e deu-se o laudo de morte acidental por apneia.
Porém, houve, ainda que nunca se descobrisse, quem não deixasse morrerem as calêndulas que habitavam o átrio comunal junto a samambaias, comigo-ninguém-pode, espadas-de-são-jorge e várias outras flores, dentre as quais, algumas humildes boas-noites-brancas, que, a despeito de sua simples beleza malgaxe, não eram, por ignorância de sua dona, bem-vindas ao requinte proparoxítono de suas flores.
06/12/12
Ela iria. Olhava a porta que separava dois mundos iguais — não entrava nem saía em lugar algum. Quando criança — e isso a assombrara muito! — vira um globo da morte num cirquinho de bairro. Pequeno, só duas motos. “Ele e eu”, pensou. Giros, vertigens, sustos, caos ordenado!, mas, depois, os dois saíam, o casal, tiravam os capacetes e faziam a reverência do espetáculo. Ela nunca os aplaudira em todas as noites que os vira desafiarem a morte. Sabia que não havia desafio. Tempo, marcas, velocidade, rotas, tudo predeterminado, uma morte ou um aleijão, sim, viriam se ousassem ir contra a coreografia. Estava farta de parceiros de dança… “Ele, não! Eles! Eles e eu…” Iria para onde a levassem.
Cortou os cabelos, calçou sandálias novas, planejou Franças e Espanhas, procurou por Deus na igreja, na Bíblia, na Cabala, nas mitologias pré-colombianas, cansou, fez tatuagem, o clichê da borboleta, mesmo estilizada em notas musicais, paquerou canalhas, deu, curtiu S & M, amarraram-na, gozou mais, fez ménage, grupal, tântrico, o tradicional romantiquinho num chalé em Blumenau com fondue e lareira… Ao chegar ao apartamento, não sentia nos pés descalços sobre o mosaico que mandara vir de Alcântara a gratidão do lar. Achou outro apartamento. Acarpetado, periférico, condomínio de luxo, térreo, frente para um átrio, estilo mediterrâneo. Covarde, não vendeu o seu. Alugou os dois, pagando um com o apurado do outro. Tentou preencher o novo consigo mesma. Inventou um self, um id, uma nova Madalena que nunca mais se arrependeria. Criou calêndulas porque gostava da sonoridade do nome e de Drummond. Pensou na família, “onde estão?”, convidaria para churrascos de domingos? Haveria de fazê-los?
Deu-se um mês, logo, um ano. O trabalho lhe exigia pouco. Geriatra bem-sucedida, montara uma clínica que levava seu nome e computava ótimos respaldo, qualidade e quadro de funcionários. Estava bem, gerenciava, apenas. Velhos, eram todos velhos, os pacientes e os médicos. Dera a dois de meia-idade de uma vez só, em sua cama, gritos, ótima noite, depois, amigável rescisão de contrato. “Médicos me saem melhor que prostitutos”, resolvera.
Naquela manhã, acordou, sentiu náuseas, “deve ter sido a vodca”, caminhou o corpo nu pela casa a esmo, meio perdida. Uma memória que achava ter deixado nos azulejos de Alcântara lhe servia de sombra pelo carpete branco. Perguntava-lhe… “iria?”. Foi ao lavabo, viu-se no espelho, não se viu em si. Um minuto, dez, meia-hora, celular tocando inaudível, mil mensagens, meio-dia, ela, estática, indo, indo… Sentou-se na cama do lado da edícula que trouxera de Aparecida, olhou a santa negra, beijou-lhe o manto azul, rezou maquinalmente a ave-maria como fizera lá, deitou-se fetal entre as seis almofadas de diferentes fronhas, indianas, sólidas, florais, abraçou-se à única que trouxera da velha cama, pôs entre as pernas outra, a mais dura, que, sob o quadril, arqueou-lhe a bunda tantas vezes para o seu gozo preferido, com as pernas abertas e o corpo descendente, como se estivesse sendo enfiada na cama pelos paus de seus canalhas ocasionais, o último, quando fora, não se lembrava… Como seria se os parceiros largassem o guidão e deixassem-se ao acaso? Iriam como ela? Perdeu-se nisso dando voltas, perseguindo-se, perdendo-se.
Encontraram-na pela denúncia do mau cheiro por parte dos vizinhos ao síndico e dono de seu apartamento e pela subsequente visita de um oficial de justiça como efeito da ação judicial perpetrada por ele junto ao Tribunal de Pequenas Causas. Morta, havia semanas. Nunca lhe bateram à porta, mas “quem era?”, “coitada”, “alguém conhece a família?”. Por interferência do filho do desembargador fulano, morador do mesmo bloco, cobertura, que promovia bacanais perdulários com putas e michês pré-adolescentes encharcados de heroína e crack, encerrou-se rápida a investigação e deu-se o laudo de morte acidental por apneia.
Porém, houve, ainda que nunca se descobrisse, quem não deixasse morrerem as calêndulas que habitavam o átrio comunal junto a samambaias, comigo-ninguém-pode, espadas-de-são-jorge e várias outras flores, dentre as quais, algumas humildes boas-noites-brancas, que, a despeito de sua simples beleza malgaxe, não eram, por ignorância de sua dona, bem-vindas ao requinte proparoxítono de suas flores.
06/12/12
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
OCULTAÇÃO
Se todos os meus amigos soubessem o quanto são queridos
e o quanto o são mesmo a distância,
mesmo em silêncio, inclusive o silêncio de minha presença,
se todos soubessem o quanto os amo,
talvez amá-los perdesse um pouco do sentido,
talvez, desfeito o mistério da ignorância do amor,
este se apagasse um pouco, ou pouco a pouco,
até sumir-se.
Se todos soubessem tudo,
não haveria por que havê-lo.
Talvez sobrevivamos — ou talvez seja só eu —
no mistério do querer oculto,
esse desejo de ser ignoto em sentimentos
e de esconder-se em esquinas,
observando, de esguelhas, a beleza da vida
como a nudez proibida de uma mulher.
Gosto da vida como um voyeur: clandestinamente.
03/12/12
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
SE EU MORRER HOJE, ENTERREM-ME EM SEGREDO
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo
para que não me achem o corpo, este corpo em que nunca coube inteiro,
nem meu espírito, nem minha alma.
Corpo, não te reconheço! Tampouco quero reconheçam-me na pedra fria!
Deixem-me indigente, anônimo, ignoto, um pedaço sem inteiro, uma peça sem artefato.
Também não me cheguem ao peito em prostrações nem me olhem muito
para que não me achem no estômago as palavras apodrecidas
que não disse nem ouvi, mas engoli secas, a vida inteira, por via errática.
Enterrem-me em segredo, sem lápide, sem reza, sem a lágrima amante desesperada,
para que não me venham depois os anjos — do céu ou do inferno —
murmurar-me o nome que nunca quis.
Memórias, castiçais, choramingos, não os quero.
Declino de todas as palavras, sobretudo as sinceras.
De verdade, quero só o peso definitivo da terra
que me há de livrar os ombros do peso terrível do céu.
Se eu morrer hoje,
deixem-me escoar o sangue todo, não tapem os buracos.
Deixem-me ir, que é por onde partirei.
Deixem-me como estou, com o que estou: comigo, e só comigo.
Eu mesmo me tomarei pela mão e me guiarei por entre os fugentes, os invisíveis, os clandestinos.
Não me permitirei mais neles esbarrar. Sei por onde ir.
Não se importem com os andrajos nem com as mortalhas clownescas.
Deixem-me descalço mesmo. Meus verdadeiros pés não doem.
Minhas mãos de verdade são feitas de sereno,
e o que sou sopra fácil pelo meio das árvores, que nem suas folhas mais maliciosas me sentem.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
para que não me venham amigos, ex-amigos, ex-patrões, ex-tudo,
esfoliando-se obrigados a seus ternos,
ou roupas alugadas,
ou roupas horrendamente falsas ao que são,
fingindo à minha efígie murmúrios pestanejados
— “coitado”, “viveu bem?”, “Deus é que sabe a hora” —,
entre bocejos verdadeiros e falsos abraços.
Deixem que o segredo de minha ausência diga-lhes melhor
que a verdade da morte é que são todos os próximos,
e que da minha não soube, como não saberão as suas,
e que não há nisso espetáculo de heróis, nem éter, nem constrangimentos, nem vergonhas inomináveis.
Há a morte como há a vida,
e ambas há identicamente sem batismo, sem hóstia nem bênção,
sem o ceifeiro negro, sem o fluvial vime messiânico,
sem Ilítia nem Caronte,
sem a prece ao anjo da guarda e sem a incelência merencória.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
porque estou farto da partilha da vida,
em que, ao nos darmos a fórceps,
não mais nos sabemos e somos outros, indecifráveis,
esfíngicos de enigmas que nos levam a própria vida a resolver, tais como
“quanto valho?”, “onde caibo?”, “a quem me confiarei?”…
E morrer compartilhado, repartido em lágrimas e lamentações,
isso eu não quero, isso eu não mereço!
Eu quero a integridade de minha partida, sendo ela só minha,
minha para que eu me veja na estação,
parado na plataforma,
como sempre fui e sempre desconheci:
o eu-morto que me acompanhou cabisbaixo, passo a passo,
magicando por que aceitava eu a vida forçar-me a ir buscá-lo.
Se eu morrer hoje, enterrem-me, por favor, em segredo,
para que eu possa me despedir sozinho de mim num abraço que nunca me dei,
e me beije os olhos, e diga-me de mim, finalmente, aonde ir.
26/11/12
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
LUZ AUSENTE
Raquel Rodrigues - São
(Para Raquel Rodrigues, cuja arte me ilumina)
O sol é mais poético à noite,
quando ele só pode ser imaginado.
E quem imagina sente
com o fantasma de uma presença
lhe cantando verdades mágicas
ao ouvido da alma.
18/11/12
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