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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

DE RETALHOS


(Texto para De Retalhos, primeiro livro da minha muito querida Bequinha)

     Há pouco menos de dois anos, em uma mesa de bar. Dezenas de pessoas, umas coadjuvantes das vidas das outras. Garrafas de cerveja aterrissando de mãos irritadas e, sob seu lume dourado, uma confluência, uma concentração de amenidades, de alegres tristezas, de amores incipientes e malfadados, de inquietações indignadas, de estados supremos de felicidade, de afirmações de si nos olhares dos outros: “sim, você faz sentido!”.

    Pouco menos de dois anos. Foi ali e então que conheci (do grego que passou ao latim cognoscěre, que, ao pé da letra, significa “saber em companhia”) Rebeca Xavier.
 
     Saber um do outro. Soubemos quase que imediatamente.

    Sempre fui um homem de poucas amizades. Como sou apaixonado por Etimologia, preciso salientar: amīcus, “aquele que ama”, “aquele a quem se ama”. Nesse âmbito, tive, nos últimos dez anos, a sorte, a grande sorte da amizade sincera, aquela que sentimos na infância, mas que, depois, é anuviada pela maldade que nos espreita nas esquinas da vida — já a amizade adulta, esta não me interessa muito, porque não se fundamenta além da razão nem suporta a ausência de contextos.
 
     São poucas as minhas amizades. Resistiram muito. São fortes. A de Rebeca é hercúlea, tão invencível, tão poderosa quanto uma garotinha ruiva de rostinho sujo que acaba de descobrir que duas palavras juntas podem ter um sentido que só ela é capaz de criar. Tão indelével quanto, no ar, o rastro de uma borboleta (as únicas pessoas que importam no mundo são as que se emocionam com as borboletas).

     Rebeca Xavier é uma leitora e escritora que transcreve para a matéria o imaterial do sentimento humano, feminino, inquieto, o fôlego profundo ou asmático que acomete a alma diante das flores e dos estilhaços de uma vida que explode e implode ininterruptamente. Sua literatura tem uma vida íntima, recôndita como uma pérola. Tem segredos que somente se insinuam ao leitor — insinuar-se já é toda a entrega.

    Sim, certo, mas assim é toda boa literatura, e todo escritor que se preze codifica-se em senhas que se revelam como o gosto doce e amargo combinado de um café solitário e amigo que aquece a vida. Qual a marca, qual a identidade da literatura dessa mulher de 23 anos, beletrista em formação, professora de fato, de olhar inquieto e fotográfico e que fabrica os próprios cadernos em que se traduz? O que tem de diferente e de especial em Rebeca Xavier?

     Há suspeição em qualquer resposta que eu dê. Como em falar de Carmélia Aragão, grande amiga, professora e escritora contista que entra no coração desamparado de seu leitor e ali semeia um mistério feminil que perdurará enquanto lhe perdurar a lembrança.

     Rebeca, diferentemente, não semeia mistérios. Suas cores são, paradoxalmente, vivas e opacas, e suas palavras não retumbam nem insinuam: elas deslizam como a água de um riachinho escondido do qual o leitor tem a CERTEZA de ser o pioneiro descobridor. Porém, é um riachinho, como infinitos outros riachinhos. Ah, mas provem de sua água! Experimente-se o seu fluxo em suas veias depois de beberem-no! Então, o leitor terá a certeza de que há em si algo de novo, que de lá não sairá: um gosto e uma tez da terra nova, recém-descoberta, uma pátria somente parecida à que se esperava encontrar, visto que lá residem almas nas palavras, cheias de suavidade e vigor, de luz e de escuridão, de uma tristeza dolente, de elementos coloridos, brancos e negros que, juntos, cosem uma colcha de retalhos de sentimentos comuns a todos, identificáveis, decifráveis, mas irresistivelmente reticentes como a alma frágil e férrea de uma mulher.

     Assim são os contos dessa amiga, dessa que eu amo: feminis. E que não se confunda essa predicação com o “feminino” que atribuem por aí à grande literatura de algumas de nossas grandes escritoras, cuja escrita, assim como a de Rebeca, é HUMANA, e não exclusivamente residente e patrícia da imagética da mulher (exclusivismo que, sinceramente, acho prejudicial a qualquer literatura), aquele conjunto de elementos comportamentais e culturais que munem tantos estúpidos refrões e povoam as mentes machistas e feministas, as quais, a meu ver, são a mesma coisa fisiologicamente bipartida e polarizada. Por feminil, eu categorizo um olhar dela sobre a própria alma, que, por não ter gênero, espelha o comum a todos os que partilham das alegrias e das dores de ser.

     Seu trabalho individual de estreia, o livro de contos De Retalhos, que leva o mesmo título de seu blogue, está para ser lançado pela Paco Editorial dentro da Coleção Novas Letras. Conheço o seu trabalho bem, tanto quanto o Eu Vou Esquecer Você em Paris, de Carmélia Aragão, pois ambas me honraram com o acompanhamento amigo de seu passo a passo.

     Leiam ambas.

18/02/11

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

INVERNO EM QUATRO PARTES


I

Elas estão lá, as nervuras negras no asfalto
pela chuva que rasteja
agora não mais divinal
agora leptospirótica

assim como ainda aqui o agora rastejante amor
— o outrora providencial cadente de um céu benfazejo
que, sem embargo, com trovões, bradara anunciando
aos quatro cantos
desesperada e retumbantemente:
dor!

II

O coração do homem, quando calmo, é como o homem:
não conhece a humanidade.

Quando acuado, retraído,
contrai-se brutamente como um bicho
— uma ratazana de esgoto em seu ninho com sua cria sem pelos —:
mostra os dentes
e se atira à morte com um grito agônico
que lhe preenche o buraco onde antes lhe houve a alma.

III

Debaixo da mesa,
posta a ceia: sapatos e meias desencontrados
que conversam como condenados
a história da rua
e de seus homens.

IV

Esta chuva é para nós
quando éramos crianças.

Deus,
por que não choveste mais cedo
quando ainda tínhamos tempo de limpar melhor as almas nas calhas
antes das desoladoras horas de desesperação?

14/02/11    03h22min

domingo, 30 de janeiro de 2011

SÓ NOS RESTA ENTREGAR-NOS

Nominuss - Wine Typography

Comentado em Estranho Sentido, de Eduarda Mendes, amiga poetisa que escreve coisas que eu gostaria de ter escrito.

A tua entrega aqui aproximou as nossas tristezas.
Dói exibir-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos.
Dói porque não nos veem, e, dos que veem, poucos discernem, e, destes ainda, só há os que se condoem, servindo-nos de espelho.
E ver-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos dói ainda mais.
Ai de nós, que não sabemos desnudar-nos de mentirinha...

30/01/11

sábado, 29 de janeiro de 2011

A MENINA RUIVA

 Ian Robin MacLaury - Crazy Redhead

“(…) Em tardes assim, queremos fechar os olhos e abrir o relicário de árvores antigas, cheio de mitos e aventuras e casais enamorados; queremos deitar e respirar todas as lembranças alheias, tomando-as para a nossa própria vida, no momento, tão sem significado, tão miúda e sem copa, sem tronco… sem raiz. E parece que nos tornamos parte da tarde, do seu azul infindo, da idade repleta dos cajueiros e das mangueiras, e ganhamos raiz primeiro. Raiz que nos faltava, desequilibrando-nos em sua falta.”

Fragmento de Trecho, de Rebeca Xavier
 

Olharmos para fora e preenchermo-nos com o que refletimos… Parece bom, não é? Parece que tudo ganha voz, tudo se comunica, tudo diz. E ouvimos tudo, e tudo é tanta coisa… Parece que nem o tínhamos dentro de nós, parece que nem nos reconhecemos naquele que olha, mas no chão, nas gretas, nos vincos das folhas, na beleza tão óbvia que lhes conferimos como se houvesse somente fora de nós, somente em nossa imaculadora observação. Já tudo (que é tanto) nos macula com vida, com a sujeira mundana e terrenal da vida. Parece mesmo que a vida precisa de espelhos para existir, como se nossas raízes só crescessem querendo se tocar, querendo ser floresta onde o vento mova-nos a todos, e bailemos, e existamos como um trigal, indissolúveis como a cabeleira vermelha daquela menina que sorri com o rosto sujinho de manga e terra, linda, linda.

29/01/11

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

HISTORIETA EM CLAUSES

Descobre-se a terra
Vêm as naus, as armas e as cruzes
Invade-se
Matam-se os índios
Violentam-se as índias
Coloniza-se
Catequiza-se
Guerreia-se
Trafica-se
Escraviza-se
Matam-se os negros
Violentam-se as negras
Politiza-se
Matam-se nordestinos
Matam-se mais índios
Politizam-se o sertão e o Norte
Policia-se tudo
Rouba-se madeira
Matam-se Chicos
Politiza-se mais
Assoberba-se
Militariza-se
Matam-se estudantes
Violentam-se estudantes
Proctorragia-se a democracia
Trafica-se
Policia-se o tráfico
Corrompe-se
Rouba-se tudo
Teme-se tudo
Catequiza-se nos presídios
Catequiza-se na tevê e na internet
Policia-se mais
Policia-se a polícia
Assemelha-se aos USA
Bigbrotheriza-se
Macaqueiam-se os mangás japoneses
Policia-se ainda mais
Inundam-se as cidades
Diluviam-se as cidades
Resguarde-se a humanidade!
Catequizam-se os mortos
E instaura-se a paz.

28/01/11

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Selo de qualidade

Eu demorei pra entender (segundo a Rebeca Xavier, amiga e escritora, eu tenho delay) a ideia deste selo, embora o nome já diga a que ele vem.
Recebi-o da escritora Carmélia Aragão, minha grande amiga, que, por sua vez, recebeu-o da Fernanda Lym, outra amiga e escritora, e exponho-o aqui com muito orgulho.
Conforme aquela me ensinou, o usuário do selo obedece a duas regras: a primeira, indicar pelo menos 15 blogues de qualidade que também o mereçam; a segunda, responder às perguntas que seguem.
Sendo assim, Carmélia, muito obrigado pela homenagem, pelo carinho e por tudo, que nós sabemos ser muito, e aqui vai o cumprimento das condições:

1ª regra do selo: AS INDICAÇÕES.


2ª regra do selo: O QUESTIONÁRIO

Nome: Fernando de Souza
Uma música: Vou responder com a que mais canto no momento. "Summertime", de George Gershwin, na interpretação de Janis Joplin, Guy Forsyth ou Salt and Pepper Blues Band.
Humor: Sou uma pessoa triste com alguns momentos de alegria, como todos os que vivem nestes tempos.
Uma cor: Duas. A cor das folhas e a cor do mar.
Uma estação: "Um dia de chuva, um dia de sol, e o que sinto não sei dizer."
Como prefere viajar: De ônibus, na poltrona da janela (que tem de abrir), ouvindo música no fone de ouvido e sem ninguém que me perturbe esse momento.
Seriado: Dois. "House" e "Todo Mundo Odeia o Chris".
Frase/palavra mais dita: Puta que o pariu...
O que achou do selo: Uma honra. Principalmente por ter vindo de quem veio.

A FACE GELADA E PÁLIDA DESTA MANHÃ DE QUARTA-FEIRA

(para Carmélia Aragão, por todos os motivos que nos prendem)

A face gelada e pálida
— quando deveria cálida
degelar o frio do tempo,
amansar as runas da história,
convergir-lhe as trajetórias,
montar do tempo um entretempo —

desta manhã de quarta-feira
foi-me à face sobremaneira
que, ao roçar feroz a minha,
deu de longe a tua memória
mais febril e venatória
que tua imagem descaminha.

26/01/11

domingo, 23 de janeiro de 2011

CONGRATULAÇÕES AOS ALUNOS DO CURSINHO XII DE MAIO, DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ


Galera do Cursinho XII de Maio,

Eu quero congratular a todos, sem exceção, por tudo que suportaram durante este ano. Vocês são feitos, acima de qualquer coisa, da substância dos homens e das mulheres de verdade: A GARRA, A PERSEVERANÇA, A NÃO DESISTÊNCIA SOB NENHUMA HIPÓTESE.

Vocês se esforçaram, superaram-se, nadaram contra a corrente, excederam suas próprias expectativas e alargaram seus horizontes. Vocês estiveram muito além, inclusive, é óbvio, dos ultrajes cometidos contra a educação, com a qual vocês se abraçaram e da qual fizeram o que são agora: pessoas melhores.

Vocês, meus queridos, estão além das “competências” que colocaram na sua frente. Vocês são todos vitoriosos.

Nós, seus professores, coordenadores, funcionários e amigos do Cursinho XII de Maio, ficamos felizes por saber que pudemos ajudá-los de alguma forma nas suas caminhadas. No entanto, lembrem-se sempre: o maior mérito é SEU.

Vocês não devem nunca baixar os olhos para ninguém, para nenhuma instituição, para nenhum outro candidato, pois vocês, por serem quem são, apresentam-se em qualquer lugar como os melhores alunos que um professor pode querer: OS INTERESSADOS.

Nossos parabéns a todos. Vocês são o motivo do nosso orgulho.
Apareçam na aula inaugural que acontecerá no dia 11 de fevereiro, para que celebremos juntos. Vai ser muito bom revê-los por lá.

Um abração!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESCAPISMO


Vives una vida principita
por la perspectiva del piloto.

Eres Jonas en la panza de la ballena
y te cagas por la mar.

Eres Don Quijote luchando contra los molinos
conscientemente.

Eres tu propio miedo más oscuro
y huyes falseando sonrisas a tu propio interior
(y, a veces, al de lo ajeno).

No más puedes amar,
más necesitas probarlo.

Cargas piedras al enemigo,
drenas tus más claras corrientes.

Haces juras imposibles,
ya que tu naturaleza es ella misma una promesa rota.

Eres un espadero ciego
arriesgándose en la lámina que has aguzado para si mismo.

Eres un turista imbécil
que finge no estarse en el Saara.

Estás tan lejos
que no te reconoces más mirándote de vuelta.

Estás en una huida,
ahogando suspiros en rincones desconocidos,
pues el mundo es malo,
pues descubristes ser también malo,
pero todavía no discubierto:
pero todavía no.

Traduzido de “Escapism” en 20/01/11

ESCAPISM

 Desague Seco (Chema Madoz)

You live a littleprincian life
by the pilot’s perspective.

You’re Jonah in the belly of the whale
and you’re way scared of the sea.

You’re Don Quijote fighting windmills
consciously.

You’re your own darkest fear
and you run away by faking smiles towards your inside
(and, sometimes, other’s).

You’re not able to love anymore,
but you feel the need to prove it.

You carry stones to the enemy,
you drain down your clearest mainstreams.

You make impossible pledges
for your nature is itself a broken promise.

You’re a blind swordsmaker
gambling on the blade you’ve edged for yourself.

You’re a dumb tourist
who pretends not to be in the Sahara.

You’re so long away
you don’t recognize yourself looking back.

You’re in an escape,
sinking whispers in unknown whereabouts
for the world is evil,
for you’ve found yourself evil too,
but not yet discovered:
but not yet.

20/01/11