Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 9 de maio de 2010

É QUERER DEMAIS…

— Ei-las, as palavras. Usa-as bem, Meu filho!, disse Deus.
Adão, obviamente:
— Hein?

09/05/10

O CONCRETO DA VIDA DAS LETRAS


Caso essa palavra vida
(com efeito, a das letras)
abandonasse a abstração substantival
e se concretizasse
denotativamente,
como será que se sentiria
a vogal fraca
de um átono e atônito hiato?
Como soaria
um desencontro consonantal
epenteticamente separado?
(de que matéria seria
a vogal amante
pivô de tal desfeitura?)
O diapasão do U
me parece agora,
morto o trema,
um sorriso sem olhos,
e a firmeza do ponto final
é birra solitária,
como já diriam tristemente
as reticências...
Já vejo a vírgula
tropeçando
o caminho natural das sinalefas,
quando as sílabas
percebem aturdidas
que, apesar da caligrafia cursiva de Deus,
letras nascem
e morrem
sós.
Ei-las foneticamente amarradas,
prefixadas, hifenizadas,
germanicamente compostas,
repetidas,
à espera de sua própria voz.
Sequer sussurram suas experimentais
aliterações.
Enlouquecem, formam verbos,
neologizam-se
para que, na ilusão de uma transitividade,
complementem
umas às outras.
A solidão metalinguística das letras
é palavra-ônibus,
é coisa que não tem nome,
tendo-o.
Então, desistem de ser palavras.
Ser palavra é iludir-se
no conjunto formal
de uma significação coletiva,
mas vazia,
visto que a isso
segue-se a morte lexical:
um ultrajante estado de dicionário.
Preferível é
encadaverizar-se, mas de pé,
dignamente, puramente.
Preferível é a tautologia
de ser-se o que se é.
Põem-se lado a lado
crescentemente,
alfabeticamente.
Milhares, milhões
de A enfileirados,
rudes, inefáveis, incaracterizáveis
pelo que não os seja.
Para serem, enfim,
letras,
inanimadas como números,
que se perpetuam
sem a consciência do infinito.

09/05/10

quinta-feira, 22 de abril de 2010

TRÊS HAICAIS

A máquina bobina
o que a menina,
traquinando, maquina.

No papel, um raio cai.
No céu, rabisca
da poetisa um haicai.

Da tua respiração,
vivifica-se
a “pura imaginação”.

22/04/2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

INTERLOCUÇAO

sábado, 10 de abril de 2010

"O Aniversário" (Chagall)

Dentro do beijo, ainda um mesmo beijo continua o beijo dado.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

INCONTÍVEL

a Rebeca Xavier,
a quem um passarinho, dentre os galhos de uma cerejeira em flor num final de tarde, roubou a imagem que vive dentro do sorriso.

Hoje, gostaria de ser o vento
ou um passarinho dos matagais, selvagem e incontível.
Gostaria de te olhar de esguelha
e partir disparado pelos galhos,
escamoteando-me, e, escondido,
roubar-te a imagem que vive dentro do teu sorriso.
De soslaios, aqui e ali,
meus rastros desenhados entre as folhas se te revelariam
— me buscarias?
Eu teria tua feição capturada
e o sangue a mover minhas asas
e a avermelhar meus olhos
— assim como a luz da aurora —
e a bater em meu peito.

Ao final, em troca do teu nome,
fugiria meu coraçãozinho de ave,
levando-me junto.
Pousaríamos um dia onde estivesses
e, ao teu lado, com um silvo suave, selvagem e incontível,
te faríamos parecer que o vento te conhecia
como conhece o mar e a montanha
que acaricia e veste, dizendo seus nomes.

20/09/09 (traduzido em 02/04/2010)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

POEMA DE AMOR

(de Rebeca Xavier)
(Clique no nome da autora para acessar a página de origem.)


Gosto muito mais daquela folha que cai
do alto de uma árvore e vai povoar o chão úmido.

Gosto muito mais da sombra mentirosa
que a cadeira do bar lança na parede suja.

Gosto muito mais do pedaço diminuto de pão
que vai na cabeça daquela formiga ali, cansada.

Ainda mais da cachaça com limão e da cerveja quente
que me ferem a garganta e me ajudam a gritar.

E é só. Gosto dos detalhes não-transitórios.
Gosto das persianas perto das quatro da tarde.

Gosto ainda mais da luz das quatro da tarde
que passa pelas persianas e brinca com a poeira.

Gosto do silêncio das conversas e do samba
e daquele violão consertado.

Março/2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

RECOMEÇO

Não adianta se desesperar.
Não adianta estender o sofrimento além dos dias de lágrimas.
Não adianta maldizer a vida ou a condição humana.
Não adianta tentar aprender ou extrair metafísicas.
Também não adianta tentar não sentir.
Assim como respiramos, fazemos compras, perdemos o ônibus, amamos perdidamente, enfim, vivemos, todos terminamos.
E recomeçamos.

25/03/10

sexta-feira, 12 de março de 2010

O FIM DO "PAI" DO GERALDÃO

    Tiveram fim na madrugada desta sexta-feira, 12 de março de 2010, as vidas de Glauco Vilas-Boas, cartunista brasileiro, e Raoni, seu filho, que foram vítimas de um assalto em Osasco, São Paulo.
     Esse é o teor dos informes que encontrei em várias páginas da internet nesta manhã. Fiquei me perguntando: tirando todo o óbvio peso da violência, da morte e do ultraje, seria essa a definição apropriada pro Glauco? Será que a mídia virtual não poderia dedicar algumas linhas a mais com informações mais pertinentes e justas sobre um dos mais irreverentes artistas críticos da sociedade brasileira? Será que não seria melhor pros fãs e pros leigos um texto mais digno, mais completo, até mesmo mais ácido, como era a visão de Glauco, sobre ele próprio? Senti falta disso. A mim, pareceu que o horror do fim das vidas dos dois e o da carreira de Glauco, destinada à reflexão sobre o cotidiano e seus problemas morais, sociais e políticos, importou menos que o laudo da polícia de Osasco. Crime hediondo, sim. Perda ainda mais hedionda pra todos aqueles que têm os olhos tristemente abertos sobre este país.
    Glauco foi autor de personagens alegóricos e arquetípicos que representam desde o início dos anos 80 as criaturas urbanas das grandes capitais brasileiras. Com sua visão sarcástica, ele idealizou personagens marginais e cômicas que podem ser identificadas em nós mesmos, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, parentes, conhecidos etc.










    Geraldão foi, sem dúvida, sua cria mais popular. Glauco criou uma alegoria do homem hedonista dos anos 80, vagabundo por natureza e edipiano de criação. Com cerca de 30 anos e ainda virgem, Geraldão é um dos melhores símbolos do excesso e do consumismo dessas últimas 3 décadas. Sua mãe, personagem que nunca foi nomeada, tem um relacionamento de rejeição, sarcasmo, obsessão e (entende-se) "amor" com o filho. Muitos dos comportamentos de Geraldão são facilmente identificáveis no homem adulto criado "pela TV" nesses últimos 30 anos. O seu relacionamento com a TV, que, por vezes, cria vida e o persegue, não deixando que se livre dela (sim, Geraldão tem lapsos de consciência); suas bonecas infláveis Sônia Braga e Sharon Stone, seus únicos meios de relacionamento próximos de uma transa (ainda assim, semi-impedidos pela mãe), além de objetos domésticos como a batedeira de ovos elétrica; a sua figura, por vezes desenhada com vários braços (cada um com seu excesso, desde big macs a absinto, muitas vezes, empilhados todos juntos) e várias pernas, sempre em movimento caótico, além de uma seringa espetada eternamente em seu nariz e vários cigarros na boca ao mesmo tempo; e o fato de, em sua evolução hedonista, ter sido retratado primeiramente com calças sem elástico para, depois, surgir completa e despudoradamente nu são algumas das metaforizações do homem moderno, perdido, inseguro, viril, porém frustrado sexualmente, usuário de drogas, irresponsável e alienado.
     Glauco, genialmente, criou uma personagem que expõe um retrato crítico mais ácido sobre a figura humana que as suas charges políticas, mesmo sendo estas sempre muito explícitas, contundentes e revoltantes.



Juntamente com Angeli, Laerte e, mais recentemente, Alan Sieber, foi, entre os cartunistas contemporâneos, um dos melhores a criticar o estilo de vida irresponsável e caótico do homem urbano clássico. A ausência de referências ideológicas e mesmo de ideologias, a ignorância, o oportunismo, a reificação, o hedonismo, o excesso, o vício, a inconsistência dos relacionamentos, a banalização da vida, tudo isso foi exposto de maneira firme, cômica, e, muitas vezes, cínica por Glauco.
    Lamentemos pela perda da sua vida e da de seu filho, sim, muito, enormemente. A violência que, tantas vezes, foi retratada em seus cartuns tirou a sua vida, como a de tantos outros cidadãos de São Paulo, de Fortaleza, de Salvador, do inacreditável Rio de Janeiro. O caos reinou. E reina.
    Geraldão teria ficado de cara com isso.
 
12/03/10

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AS PALAVRAS VERDES


Quando as palavras verdes amadurecem,
elas são silêncio
(que, palavra já pronta, como numa árvore,
adorna o incipiente e diletante verde).

27/02/2010