Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
domingo, 9 de maio de 2010
É QUERER DEMAIS…
Adão, obviamente:
— Hein?
09/05/10
O CONCRETO DA VIDA DAS LETRAS
(com efeito, a das letras)
abandonasse a abstração substantival
e se concretizasse
denotativamente,
como será que se sentiria
a vogal fraca
de um átono e atônito hiato?
Como soaria
um desencontro consonantal
epenteticamente separado?
(de que matéria seria
a vogal amante
pivô de tal desfeitura?)
O diapasão do U
me parece agora,
morto o trema,
um sorriso sem olhos,
e a firmeza do ponto final
é birra solitária,
como já diriam tristemente
as reticências...
Já vejo a vírgula
tropeçando
o caminho natural das sinalefas,
quando as sílabas
percebem aturdidas
que, apesar da caligrafia cursiva de Deus,
letras nascem
e morrem
sós.
Ei-las foneticamente amarradas,
prefixadas, hifenizadas,
germanicamente compostas,
repetidas,
à espera de sua própria voz.
Sequer sussurram suas experimentais
aliterações.
Enlouquecem, formam verbos,
neologizam-se
para que, na ilusão de uma transitividade,
complementem
umas às outras.
A solidão metalinguística das letras
é palavra-ônibus,
é coisa que não tem nome,
tendo-o.
Então, desistem de ser palavras.
Ser palavra é iludir-se
no conjunto formal
de uma significação coletiva,
mas vazia,
visto que a isso
segue-se a morte lexical:
um ultrajante estado de dicionário.
Preferível é
encadaverizar-se, mas de pé,
dignamente, puramente.
Preferível é a tautologia
de ser-se o que se é.
Põem-se lado a lado
crescentemente,
alfabeticamente.
Milhares, milhões
de A enfileirados,
rudes, inefáveis, incaracterizáveis
pelo que não os seja.
Para serem, enfim,
letras,
inanimadas como números,
que se perpetuam
sem a consciência do infinito.
09/05/10
quinta-feira, 22 de abril de 2010
TRÊS HAICAIS
o que a menina,
traquinando, maquina.
No papel, um raio cai.
No céu, rabisca
da poetisa um haicai.
Da tua respiração,
vivifica-se
a “pura imaginação”.
22/04/2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
INCONTÍVEL
a quem um passarinho, dentre os galhos de uma cerejeira em flor num final de tarde, roubou a imagem que vive dentro do sorriso.
Gostaria de te olhar de esguelha
e partir disparado pelos galhos,
escamoteando-me, e, escondido,
roubar-te a imagem que vive dentro do teu sorriso.
De soslaios, aqui e ali,
meus rastros desenhados entre as folhas se te revelariam
— me buscarias?
Eu teria tua feição capturada
e o sangue a mover minhas asas
e a avermelhar meus olhos
— assim como a luz da aurora —
e a bater em meu peito.
Ao final, em troca do teu nome,
fugiria meu coraçãozinho de ave,
levando-me junto.
Pousaríamos um dia onde estivesses
e, ao teu lado, com um silvo suave, selvagem e incontível,
te faríamos parecer que o vento te conhecia
como conhece o mar e a montanha
que acaricia e veste, dizendo seus nomes.
20/09/09 (traduzido em 02/04/2010)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
POEMA DE AMOR
(de Rebeca Xavier)
(Clique no nome da autora para acessar a página de origem.)
Gosto muito mais daquela folha que cai
do alto de uma árvore e vai povoar o chão úmido.
Gosto muito mais da sombra mentirosa
que a cadeira do bar lança na parede suja.
Gosto muito mais do pedaço diminuto de pão
que vai na cabeça daquela formiga ali, cansada.
Ainda mais da cachaça com limão e da cerveja quente
que me ferem a garganta e me ajudam a gritar.
E é só. Gosto dos detalhes não-transitórios.
Gosto das persianas perto das quatro da tarde.
Gosto ainda mais da luz das quatro da tarde
que passa pelas persianas e brinca com a poeira.
Gosto do silêncio das conversas e do samba
e daquele violão consertado.
Março/2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
RECOMEÇO
Não adianta estender o sofrimento além dos dias de lágrimas.
Não adianta maldizer a vida ou a condição humana.
Não adianta tentar aprender ou extrair metafísicas.
Também não adianta tentar não sentir.
Assim como respiramos, fazemos compras, perdemos o ônibus, amamos perdidamente, enfim, vivemos, todos terminamos.
E recomeçamos.
25/03/10
sexta-feira, 12 de março de 2010
O FIM DO "PAI" DO GERALDÃO
Tiveram fim na madrugada desta sexta-feira, 12 de março de 2010, as vidas de Glauco Vilas-Boas, cartunista brasileiro, e Raoni, seu filho, que foram vítimas de um assalto em Osasco, São Paulo.Esse é o teor dos informes que encontrei em várias páginas da internet nesta manhã. Fiquei me perguntando: tirando todo o óbvio peso da violência, da morte e do ultraje, seria essa a definição apropriada pro Glauco? Será que a mídia virtual não poderia dedicar algumas linhas a mais com informações mais pertinentes e justas sobre um dos mais irreverentes artistas críticos da sociedade brasileira? Será que não seria melhor pros fãs e pros leigos um texto mais digno, mais completo, até mesmo mais ácido, como era a visão de Glauco, sobre ele próprio? Senti falta disso. A mim, pareceu que o horror do fim das vidas dos dois e o da carreira de Glauco, destinada à reflexão sobre o cotidiano e seus problemas morais, sociais e políticos, importou menos que o laudo da polícia de Osasco. Crime hediondo, sim. Perda ainda mais hedionda pra todos aqueles que têm os olhos tristemente abertos sobre este país.
Glauco foi autor de personagens alegóricos e arquetípicos que representam desde o início dos anos 80 as criaturas urbanas das grandes capitais brasileiras. Com sua visão sarcástica, ele idealizou personagens marginais e cômicas que podem ser identificadas em nós mesmos, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, parentes, conhecidos etc.
Glauco, genialmente, criou uma personagem que expõe um retrato crítico mais ácido sobre a figura humana que as suas charges políticas, mesmo sendo estas sempre muito explícitas, contundentes e revoltantes.
Lamentemos pela perda da sua vida e da de seu filho, sim, muito, enormemente. A violência que, tantas vezes, foi retratada em seus cartuns tirou a sua vida, como a de tantos outros cidadãos de São Paulo, de Fortaleza, de Salvador, do inacreditável Rio de Janeiro. O caos reinou. E reina.
Geraldão teria ficado de cara com isso.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
AS PALAVRAS VERDES
elas são silêncio
(que, palavra já pronta, como numa árvore,
adorna o incipiente e diletante verde).
27/02/2010






















