Número de sílabas (desde 11/2008)

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

MUNDO VASTO

Redemoinho, xilogravura de Arlindo Daibert
(Clique no nome do artista para abrir sua página e na imagem, para ampliá-la)
 
Mundo vasto, mundinho vasto
Tu és tão pequeno
Tu tens horizontes tão longes
Que, de tão longes, somem como se não existissem
Por isso és miúdo, derramadinho de não ter limites

O que nos faz grandes, mundo, é o que nos contém
O que não nos deixa derramar
O que nos embarreira líquidos dentro do açude útil
Banhando a vida de benevolência
Guardando peixes
E sangrando debaixo da chuva

Tu és mar de fragatas
Onde deita o sol e caem raios
Tu és o mundo da baleia branca
Que cabe direitinho no coração doente da palavra única:
ONDE?

Tu não és grande
Nunca saberás o que é contarem contigo
Mais que se um deus fosse, monumental como a necessidade
E certo como a morte
Dentro das dimensões emparedadas da vida

Tu és pequeno e inútil
Como todo o espaço entre as estrelas
E todas elas juntas num céu esparramadinho
Desfraldadinho de negro
Tu és ínfimo e inútil como a noite
Que só serve para se dormir
— O que é nada mais que se esgueirar
Em filetes metafísicos para dentro de um vazio
Que só não é menor que a própria noite

Eu, mundo, sou água também
Também me vaporizo em perdigotículas
E me enamoro do ar
Mas aqui, na terra, eu molho
Eu lavo e banho, eu sacio e margeio
Eu comporto almas que vão e vêm
E que em mim dormem o sono dos que nasceram para viver
Eu sou a angústia da existência
O dia a dia da sede
E o plicar agudo do vinco na lama

Sou grande como um grito
Que se enormiza na parede da voz
Duro o infinito do instante em que existo
E sou maior que a própria vida enquanto isso
Sou, mundo, a parte de dentro da pedra
Que germina o aço
E que esconde a história
Sou o portal da porta trancada
E todo o mistério por trás das sombras

Não sou como tu
Que és perdido no oco do eco
— Uma Eco sem Narciso —
E que te vês borracho em teu universo de movências
Sem saber se vais ou vens
Sou firme, sou farto e sou forte
No meu estar que é sempre pleno de mim mesmo

Eu sou o que serias se te abrisses para dentro
E te inclodisses
Num antimóvito real, numa antinuvem, numa antionda
Eu sou, mundo, o antimundo
Que te devora de uma bocada só
E arrota redemunhos.

29/09/15

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

TRÊS IRMÃS

Num dia de festa em meu coração,
o Amor se casou com a Tristeza,
a qual pariu nas águas três filhas:
a Saudade, diplomata inata, sempre a mediar
os estertores da mãe com os afagos do pai;
a Melancolia, que herdou da mãe a cáustica
e inabalável certeza de sua avó, a Morte,
ainda que, da Vida, mãe de seu pai,
transviara o embornal da esperança;
e a Ternura, moça muito quieta, morena,
destoante da brancura das irmãs,
que levava os dias cosendo-lhes roupas
para o frio que suavam e lhes queimava a pele.

Todas amavam os homens.
A Saudade queria-os para si, possessiva e extenuante,
e roubava-lhes o coração com as armas mais feminis,
ao que lhes depositava em troca no peito,
a fim de confundi-los,
um labirinto de nomes mortos
que lhes soprava aos ouvidos
como se vivos estivessem.
Não sabia nada além disso,
atrapalhada que fora pela mãe
quanto aos ensinamentos de seu pai.

A Melancolia, esguia, quase esquálida como a avó materna,
vivia para tê-los na cama, chupar-lhes o sangue pelos poros
em beijos firmes, como lhe ensinara a mãe,
atada à crença de que tudo é consumição.
Ardia gélida no coração dos homens
e invernava-lhes tudo o que era verão,
temendo perdê-los por não lhes saber
os verdadeiros desejos.

A terceira, mais jovem, não tinha pressa
e fazia-se rara nos salões.
Não carecia dos homens nem, muito menos, procurava-os,
o que a fizera quase desconhecida por eles.
Vira muito na mãe a ausência de corpo e alma
que semeava nos campos dos sonhos humanos,
sua matéria-prima preferida.
Porém, amava-os, mas não perdida como as irmãs.
Era-lhes devota. Cultuava-os.
Conhecia seus desejos, onde não se intrometia.
Sabia-lhes a força, a fraqueza e a necessidade:
a necessidade, acima de tudo.

Aparecia entre eles sempre com simplicidade
e se doía muito quando ignorada,
o que lhe deixava a morenice ainda mais bela.
O pai lhe dera a imensa capacidade da paciência,
temperada que fora pela teimosia da mãe.
A Ternura era a única das três que não desistia dos homens.
Logo essa, que era sua principal virtude,
fazia acharem-na tola, tíbia,
maternal demais para ser amante.
Os homens não sabiam nada de seu pai.
Não entendiam a intensidade de sua febre
nem as chamas de seu sexo.

Aos olhos dos homens, era infantil
como quem dá seu tempo a um gato
ou põe guarda-sóis sobre roseiras.
Era a menor das três.
Não era sólida nem tinha a onipresença da Saudade
nem era elegante ou vaporosa como a Melancolia.
A Ternura destoava daquilo a que se acostumaram os homens.

Conheci todos, cortejei todos.
O pai ensinou-me a coexistir com a mãe,
que me serviu de amante por muito tempo.
Deitei-me com as duas mais velhas,
que me levaram alguns anos de vida e saúde
e me deram nada além de frio e arritmias,
memórias com que me cortejam de volta até hoje.
Porém, veio-me cedo, de contrabando,
oculta num peixe pescado, num livro lido,
numa noite, entre as estrelas, num desenho feito
com lápis de cor,
no sorriso mais lindo,
a mais jovem.

Por causa dela, sorrio
e me faço entender com os olhos.
Nunca me deu nem me tirou nada;
apenas, com a mão estendida,
conduziu-me até a água onde nasceu
e me deixou ali também, finalmente, nascer.
Abraçou-me sem desejo de posse,
e nunca em minha vida me senti mais querido.
Hoje, vive comigo,
aparando-me as unhas e cerzindo-me as meias.
Beija-me bons-dias, mesmo sendo noite em toda parte,
e ferve águas para meus pés cansados,
quebrados pelas outras mulheres da família.
Quando a desejo, ela sorri
e se deixa amar,
única semelhança que observo herdada de sua mãe,
mas, ao contrário desta, cuja ausência me continha,
deixa-me esvaziar-me, como eu sempre quis,
no gozo da mais absoluta liberdade.

01/09/15

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OXUM


(Para Talita Laila, minha mulher.)

Tanta coisa muda um rio…
Assoreia-lhe o leito o aço da draga,
curva-lhe a margem o aluvião.
Mas o que muda mesmo um rio,
de um modo que dele se toma o curso
e corre-o nas veias como seu,
de uma forma que se faça o próprio rio
um mar a amar-se em seu infinito particular
livre de todas as correntes,
é como nele (como a primeira vez fosse)
nos banhamos.

31/08/15

sexta-feira, 3 de julho de 2015

PARADEIRO

Tem um pouco de mim em toda parte,
e é por isto que sempre me perco:
tudo me parece espelho
no mundo das pátinas argentinas,
e em todos me procuro.

Tem também um pouco de toda parte em mim,
e é por isto que tenho sempre a sensação
de nunca estar limpo:
a memória do mundo apodrece e fede
em cada canto de mim onde o mundo esteve
e me deixou esta roupa de camuflagem
para que eu nunca mais me ache.

03/07/15

segunda-feira, 22 de junho de 2015

JANTAR


— Minha filha, que queres de entrada?
— Uma saída…

22/06/15

DESEMBARQUE

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Deixar, leixar, desleixar, desdeixar…
Eu me desleixei de ti
e não posso te desdeixar.

Se volto atrás e te desabandono
(não sou mais dono),
sou despartida, sou desnavio, sou desmar…

Se fui, fui solto,
mas, se deixei, sou descarnar
de alma em corpo presente,
um pingente sem colar.

Deixa o mar conter o porto,
que meu norte foi navegar.

22/06/15

ABLAÇÃO


Deixa o espaço entre ti e a outra em paz.
Não o molestes, não dialogues com ele.
Há mais ali que houvera
quando éreis juntos, e isso não é para que meças ou compares,
que hoje e ontem nunca foram teus
para que legisles.

Simplesmente, reconhece-o.
Como se contempla um abismo, como se olha para um céu.
Não te dês arrojos de Ícaro.
O teu labirinto é que é sagrado.

Escapa de ti, o teu labirinto.
Empareda-se de veias e lágrimas,
curva e ilude, irrompe e eclode numa saída
que nem sonhas.

Deixa o teu mistério em paz, homem,
que tirar e dar-ta é a própria razão de ser
do espaço entre ti
e a outra.

22/06/15

quarta-feira, 10 de junho de 2015

VINGANÇA

(Para Ana Virgínia Torres, que, como eu, traz punhos cerrados e dentes trincados)

O problema da arte
É que ela é em toda parte,
Enquanto se é só um,
E um só não basta.
Fosse uma a arte
E tivesse corpo,
Dar-lhe-ia na cara
De tirar sangue
Até ela ficar parecida comigo
E lhe diria:
Estamos quites, minha cara.

10\06\15

sábado, 6 de junho de 2015

O OUTRO MUNDO

De tanto existir, eis o mundo:
teu espaço preso entre as hastes dos óculos.
Não vingou; não espasmou e morreu; não fugiu.
Fingiu, contudo.

Nele, cresceram coisas que não vistes:
árvores e gentes sem ti.
E tudo que foi sem ti vingou, fugiu, espasmou e morreu; só não fingiu.

Por isso, não soubeste do mundo, do verdadeiro mundo,
livre, fugidio
e inchado, pleno, repleto da ausência de ti:
tudo que não foste te espreita
porque, somente sem ti, existe
e perde-se.

Ao teu redor, amontam sinais, pegadas:
um vestido vermelho, um salto espacate,
todos desaparecidos quando chegaste.

Ali houve um tropel; mais lá, pés macios.
Tudo, rastros de um presente entalhado no chão,
marcas de um tempo agora,
embora pretérito sempre para ti,
sempre quando estás.

De tanto existir, o teu mundo vítreo e opacento
escondeu-te tudo
que sempre estivera lá, à espreita,
a ver se o verias, finalmente.

06\06\15

terça-feira, 2 de junho de 2015

CHEIRO

Cheiro de café e das manhãs em que fui feito
Cheiro de mato e de bosta de vaca
Cheiro de mar, cheiro de peixe
E do sargaço branco na pele
Cheiro de sol na pele
Cheiro de sabão e alvejante
Cheiro de flor de laranjeira (mas não qualquer, de outros quintais; a que nasceu todos os dias de sua vida por mim)
Cheiro de manga-rosa-espada-tamaracá, da honesta, porém mais, muito mais da roubada das freiras
Cheiro de jambo, de chuva, de reboco molhado
Cheiro de castanhola e de jasmim salvando o pátio dos eucaliptos
Cheiro de pano limpo
De casa limpa, de chão encerado, de pão
Cheiro de cheiro-verde, de chão, de horta
De baião e peixe frito
Cheiro de desenvelhecer os olhos
E de amanheceres

02\06\15