Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 10 de março de 2013

ESTA HORA


Deixa passar esta hora, amor,
que o corpo não sabe do tempo,
nem do que ele faz com a dor;
nem nós, o que ela faz com o tempo,
que te morde a carne, que me tira o ar,
que nos cria um espaço de confinamento

em que nada é foz, e onde nada é mar.

Gritas o nome do diabo,
mas sou eu que chego.
E teu nome rezo, que é o meu apego.
Eu te afago e me aconchego,
e te colho, e rezo o teu nome,
que é tudo que sei quando quero saber de Deus.

Agnus Dei, lembro eu vago,
mas não a sorvo.
E esta hora teima a esfriar lá fora
menos que aqui demora.
Está frio,
está lento,
e o peso do tempo é um agora
que nunca aprendeu a andar.

10/03/13

HALOMANCIA


A saudade é como uma consoante muda,
um H etimológico
que se esconde inaudível por trás de vogais.
Ora, mas o que são horas se, quando oras,
ora te ouvem, ora te ignoram,
ora ficas a ver navios…
Há um cais para cada um de nós
que desespera
de olhar preso num horizonte sem bandeiras,
sem nomes, sem memória,
adivinhando no sal do mar uma pátria que o espera,
um adeus a ser dado,
um abraço que o receba.
A saudade é uma moça sentada
que sabe, acima de tudo,
esperar desesperada,
como uma roupinha velha dela menina,
que nunca mais vai sair para brincar.

10/03/13

NOVAMENTE, EM CASA


Senti falta do teu sorriso,
dos teus olhos grandes,
da tua boca que, entreaberta, diz-me de mim
o oco da ausência de que sempre fui feito.
Sim, que,
embora houvesse panos, estampas,
sobreposições de papéis,
carnes que me enchessem como grãos
a um saco de algodão branco
e me dessem forma e consistência,
sempre fui feito de ausência.
Hoje me voltaste.
Hoje podemos sentar e beber
e silenciar tudo que temos a falar.
Nos quadrantes da casa, a tua pele escura.
Em mim, a noite
e um silêncio que é tão maior que tudo
que é do tamanho exato de mim.

03/03/13

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

3 X 4 ANTIGA


(Para Rafael Escócio, mais meu do que sequer imagina)

Depois que os escrevo, os textos vão por aí, com suas próprias pernas.
Quando vêm me visitar em noites de quarta-feira como esta,
eu quase nem os reconheço mais,
como a um filho que não se vê há muito
ou como uma fotografia velha
em que me olho como se eu fosse uma grande novidade.

27/02/13

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

CLOWN


Um texto amarelo, seco, sem letras, escrito no teu corpo
com o carvão do tempo,
em que se lê o teu papel na vida:

clown.

13/02/13

sábado, 12 de janeiro de 2013

Come Here


Linda canção de Kath Bloom.

Vem cá...

There’s a wind that blows in from the north
And it says that loving takes this course
Come here
Come here
No, I’m not impossible to touch
I have never wanted you so much
Come here
Come here
Have I never laid down by your side
Baby, let’s forget about this pride
Come here
Come here
Well, I’m in no hurry
You don’t have to run away this time
I know you’re timid
But it’s gonna be all right this time
There’s a wind that blows in from the north
And it says that loving takes this course
Come here
Come here

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

RIO JORDÃO


Existirá um céu
onde não entre ninguém,
exceto os distraídos?

Onde abram as portas crianças sujinhas, vestidas de anjo,
bocas-sujas, molecas, originais?
Onde aos originais não seja requerida
mudança,
exceto as naturais, que se dão sem que delas se dê conta?

Existirá um céu onde se adoeça,
se envelheça e até se beire à morte
só para que venham o cuidado fraternal
e o amparo que faltaram?
Existirá um céu onde se brigue, se arengue?
Onde se estapeie um amigo,
com quem depois se farão as pazes
e se beberá junto numa amizade mais mundana que antes?

Existirá um céu onde durmam conosco nossas mulheres,
e, com elas, seus homens, finalmente inteiros,
não-divisíveis
com empregos, desempregos, contas a pagar, inflações, prisões?
Onde uma boa trepada seja o mais sagrado cântico
do nome de Deus,
conjurado das bocas gratas, extasiadas, pacificadas
daqueles que, limpos pelo coito,
viram-se libertos finalmente dos males do mundo
nos braços dos anjos que escolheram?

Existirá um céu onde caibam igualmente as desavenças
sem que desapareçam?
Onde se bata a mão na mesa de um bar,
orgulhoso de si, de seus credos, ideias e convicções,
onde se pinte um quadro de um EU
com pinturas tribais, armas e brasões,
erguendo um flâmula onde se inscrevam
todas as palavras que morreram sementes neste mundo?
Haverá espaço em algum céu para as convicções
que nos tornam distraídos,
desatentos,
transeuntes de uma vida que nos observa como feras à espreita?

Existirá um céu
que seja suficientemente divino
para comportar o homem?

11/01/13

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

1:27


Morrer e nascer de novo são a minha especialidade.
Sempre gostei de tempestades.
E as temi.
Mas nunca disse ao mar: SECA!;
nem, ao vento: ESTANCA!;
tampouco, à chuva: ESTIA!
Sempre tive um quê de náufrago…
Sem pátria, desterrado, como Lilith e Caim,
e ainda à espera da epifania de meus crimes.

E tem chovido!
E estiado…
Sem que eu desejasse um ou pedisse outro.
Aqui, só me restam perguntas: prosseguirei?, resistirei?
Resistir é verbo de que não sou dono: acontece, e eu sofro,
mas sem que possa dizer que padeço.
Padecer seria como dizer à vida: fazes-me mal!,
e a vida é só a vida, é só o jeito de Deus nos lembrar que há.

Mas parece-me mais.
Parecem-me as tempestades ser a maneira que Deus tem
de dizer-Se-me: Pai…;
e sobreviver-lhes é o meu modo humano,
arrogante,
escroto,
de gritar-me-Lhe: FILHO!,
porque, assim, oro, rezo e louvo,
e acredito — só assim acredito —
merecer-Lhe ser imagem
e semelhança.

09/01/13

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

It's the end of the world as we know it (and I feel fine)


R.E.M. - IT'S THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT (AND I FEEL FINE)
(Bill Berry, Peter Buck, Michael Mills & Michael Stipe)

That's great, it starts with an earthquake, birds and snakes, an aeroplane
And Lenny Bruce is not afraid
Eye of a hurricane, listen to yourself churn
World serves its own needs, dummy serve your own needs.
Feed it off an aux speak, grunt
No strength the ladder starts to clatter with the fear, fight down height.
Wire in a fire, representing seven games with a government for hire and a combat site.
Left of West and coming in a hurry with the furies breathing down your neck.
Team by team reporters baffled, trump, tethered crop.
Look at that low playing! Fine then.
Uh oh, overflow, population, common food, but it'll do.
Save yourself, serve yourself.
World serves its own needs, listen to your heart bleed.
Dummy with the rapture and the reverent in the right - right.
You vitriolic, patriotic, slam, fight, bright light,
Feeling pretty psyched.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

Six o'clock - TV hour.
Don't get caught in foreign towers.
Slash and burn, return, listen to yourself churn.
Locking in uniforming, book burning, blood letting.
Every motive escalate. Automotive incinerate.
Light a candle, light a votive.
Step down, step down.
Watch your heel crush, crush. Uh oh,
This means no fear - cavalier.
Renegade, steer clear!
A tournament, a tournament, a tournament of lies.
Offer me solutions, offer me alternatives
And I decline.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

The other night I dreamt of knives, continental drift divide.
Mountains sit in a line
Leonard Bernstein.
Leonid Breshnev, Lester Bangs and Lenny Bruce.
Birthday party, cheesecake, jelly bean, boom!
You symbiotic, patriotic, slam book neck, right?
Right.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine... fine...

(It's time I had some time alone,
It's time I had some time alone,
It's time I had some time alone
I feel fine...)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FODA


“Uma empresa espanhola oferece um curso profissional de prostituição. Por 100 euros, os interessados aprendem a história da mais antiga profissão do mundo, como usar brinquedos eróticos e as posições mais populares contidas no Kama Sutra.
A empresa está sendo processada pelo Governo Regional de Valência por promover a prostituição. O empreendimento tem atraído muitas críticas no País, com muitos dizendo que essa é a maneira errada de tentar ganhar dinheiro. A empresa que criou o curso afirmou ao jornal Daily Mail que não está infringindo nenhuma lei, e as pessoas que procuram o curso sabem o que estão fazendo.
O responsável pelo curso informou que, após a conclusão, é oferecida uma vaga de emprego para se tornar professor da escola.”

(Texto visto em http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/inacreditavel/2012/09/15/308894-empresa-cria-curso-de-prostituicao-na-espanha, no dia 18/12/2012, e transcrito aqui com correções minhas)


Bem que a gente poderia montar uma aqui no Brasil…
Seria ótimo! Inversão total de valores educacionais! Já pensou? As mocinhas que morriam de medo de “levar pau” na prova agora teriam de ralar muito pra levar bem levado. E aquelas que antes davam pros professores pra passar teriam isso como prática curricular (no currículo, é mais gostoso…) e não mais se sobressairiam das outras. “Aluna vagabunda” não seria mais pejorativo! Justiça social, finalmente feita às vagabundas! Elas, as mais vagabundas de todas, antes desprezadas, achincalhadas pelas escolas desse meu Brasil, agora, diplomadas que seriam, poderiam inclusive dar aula!
Caso alguma aluna “aprontasse” (gazeasse aula pra ler Pollyanna, por exemplo), a professora poderia dizer sem medo “vá pra puta que pariu”, e ela iria, embora ressentida (“mas eu tava tão cansada desse nhenhenhém de trepar, e esse era um livro tão bom…”), ter com sua progenitora, também pedagoga da escola puttanesca (sim, porque não haveria mais exclusão universitária no Brasil!), que, com ela, ralharia energicamente:
— Você tá pensando o quê? Quer ser como a sua vó? Podendo ter aprendido a profissão de dar, mas não, foi ser besta! Olha aí! Casou com o primeiro que disse “eu te amo, eu te amo…”. Teu avô, outro imprestável, liso, não soube nem me educar pra putaria. Mas, eu, não, minha filha, comigo, não! Filha minha vai aprender a foder sim, e foder alto! Com tanta puta por aí, a concorrência tá foda! Se Deus quiser, tu vai dar pra ministro, desembargador… Toma, vai estudar! E só me volte aqui quando as pilhas do vibrador descarregarem! E tem mais! Quero tomar a lição! Cadê as revistinhas de sacanagem importadas caríssimas que eu comprei pra senhora, hein? E quero ver fingir que goza igual à Monica Mattos! Olhe lá! Venha você aqui com gemido chocho de Regininha Poltergeist e cara de quem não quer dar de Rita Cadillac, que eu lhe meto a sola, sinha quenga!

E como seria a universidade…?
Venha estudar na FODA – FACULDADE DE ORGIA DANDO ADOIDADO.
A mete..., digo, metodologia consistiria de aulas teóricas e práticas, distribuídas assim no seguinte conteúdo programático:

AULAS TEÓRICAS
  • Introdução à Introdução
  • Anatomia Básica – Cálculos Visuais de Comprimento
  • Anatomia Média – Expansão Vaginal
  • Anatomia Avançada – Alargamento Anal
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival I – Princípios Manuais
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival II – Técnicas Orais
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival III – Técnicas Jedi
  • Aritmética Aplicada ao Comércio Internacional
  • Cálculo Monetário I – As Moedas
  • Cálculo Monetário II – Conversão e Câmbio (Palestras sobre o Tema: “Vale a Pena Dar em Euro?”)
  • Desenvolvimento de Línguas I – Técnicas Rotativas
  • Desenvolvimento de Línguas II – Técnicas de Alongamento
  • Vocabulário Poliglota Básico – Verbetes para Compra e Venda
  • Vocabulário Poliglota Médio – Verbetes para Simulação de Orgasmos
  • Vocabulário Poliglota Avançado – Verbetes para Gang-Bang Multicultural
  • Vocabulário Poliglota Expert – Verbetes para Ressuscitação de Línguas Mortas
  • Teatro e Interpretação I – Técnicas Faciais de Orgasmo (Aulas Teórico-Práticas)
  • Teatro e Interpretação II – Técnicas Físicas e Fisiológicas de Orgasmo (Aulas Teórico-Práticas)
  • Psicologia Familiar I – Interpretação da Problemática do Cliente
  • Psicologia Familiar II – Adaptação à Problemática do Cliente
  • Psicologia Familiar Aplicada às Artes Cênicas I – Fetiches Não-Consanguíneos
  • Psicologia Familiar Aplicada às Artes Cênicas II – Fetiches Consanguíneos
  • Sociolinguística I – Adaptação ao Registro Linguístico (Palestras sobre o Tema: “Foder ou Fuder: Eis a Questão”)
  • Sociolinguística II – O Sexo em LIBRAS (Técnicas de Comunicação Manual durante a Masturbação)
  • Fetichismo Instrumental I – Conhecimento e Domínio de Objetos Não-Eletrônicos
  • Fetichismo Instrumental II – Conhecimento e Domínio de Objetos Eletrônicos
  • Estilística I – Introdução ao Periguetismo
  • Estilística II – Técnicas de Fuga com Saltos Agulha e Plataforma (Aulas Teórico-Práticas)
  • Estilística III – O High-Societysmo

AULAS PRÁTICAS
  • Pompoirismo Básico Vaginal e Anal
  • Massoterapia I – Técnicas Manuais
  • Massoterapia II – Técnicas Mamárias
  • Massoterapia III – Técnicas Vaginais
  • Acrobatismo I – Técnicas Circenses
  • Acrobatismo II – Le Parkour
  • Acrobatismo III – Freestyle
  • Técnicas de Controle Pélvico
  • Técnicas de Primeiros-Socorros I – Socorrendo o Cliente (Aulas Teórico-Práticas sobre o Tema: “Ética na Respiração Boca a Boca – Omissão de Sentimentos”)
  • Técnicas de Primeiros-Socorros II – Redução de Fraturas Penianas
  • Técnicas de Primeiros-Socorros III – Microcirurgias e Sutura Escrotal com Elástico de Peças Íntimas
  • Defesa Pessoal I – Chutes Testiculares
  • Defesa Pessoal II – Esgrima com Vibradores
  • Halterofilismo Defensivo I – Elevação Antissufocamento
  • Halterofilismo Defensivo II – Retirada de Peso Morto
  • Técnicas de Ioga Aplicadas ao Surubismo
  • Técnicas de Canto I – O Orgasmo em Vários Tons
  • Técnicas de Canto II – Extensão Vocal e Vibratos
  • Técnicas de Canto III – A Ópera
  • Ginástica Vaginal Preventiva Básica – Técnicas de Relaxamento e Contração
  • Ginástica Vaginal Preventiva Média – Técnicas de Manutenção
  • Ginástica Vaginal Preventiva Avançada – Técnicas de Recuperação da Virgindade

É, meus caros, essa, sim, seria verdadeiramente uma revolução educacional no Brasil… Finalmente, os filhos da puta teriam orgulho em dizer: “você sabe com quem tá falando?”

18/12/12