Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
SE EU MORRER HOJE, ENTERREM-ME EM SEGREDO
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo
para que não me achem o corpo, este corpo em que nunca coube inteiro,
nem meu espírito, nem minha alma.
Corpo, não te reconheço! Tampouco quero reconheçam-me na pedra fria!
Deixem-me indigente, anônimo, ignoto, um pedaço sem inteiro, uma peça sem artefato.
Também não me cheguem ao peito em prostrações nem me olhem muito
para que não me achem no estômago as palavras apodrecidas
que não disse nem ouvi, mas engoli secas, a vida inteira, por via errática.
Enterrem-me em segredo, sem lápide, sem reza, sem a lágrima amante desesperada,
para que não me venham depois os anjos — do céu ou do inferno —
murmurar-me o nome que nunca quis.
Memórias, castiçais, choramingos, não os quero.
Declino de todas as palavras, sobretudo as sinceras.
De verdade, quero só o peso definitivo da terra
que me há de livrar os ombros do peso terrível do céu.
Se eu morrer hoje,
deixem-me escoar o sangue todo, não tapem os buracos.
Deixem-me ir, que é por onde partirei.
Deixem-me como estou, com o que estou: comigo, e só comigo.
Eu mesmo me tomarei pela mão e me guiarei por entre os fugentes, os invisíveis, os clandestinos.
Não me permitirei mais neles esbarrar. Sei por onde ir.
Não se importem com os andrajos nem com as mortalhas clownescas.
Deixem-me descalço mesmo. Meus verdadeiros pés não doem.
Minhas mãos de verdade são feitas de sereno,
e o que sou sopra fácil pelo meio das árvores, que nem suas folhas mais maliciosas me sentem.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
para que não me venham amigos, ex-amigos, ex-patrões, ex-tudo,
esfoliando-se obrigados a seus ternos,
ou roupas alugadas,
ou roupas horrendamente falsas ao que são,
fingindo à minha efígie murmúrios pestanejados
— “coitado”, “viveu bem?”, “Deus é que sabe a hora” —,
entre bocejos verdadeiros e falsos abraços.
Deixem que o segredo de minha ausência diga-lhes melhor
que a verdade da morte é que são todos os próximos,
e que da minha não soube, como não saberão as suas,
e que não há nisso espetáculo de heróis, nem éter, nem constrangimentos, nem vergonhas inomináveis.
Há a morte como há a vida,
e ambas há identicamente sem batismo, sem hóstia nem bênção,
sem o ceifeiro negro, sem o fluvial vime messiânico,
sem Ilítia nem Caronte,
sem a prece ao anjo da guarda e sem a incelência merencória.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
porque estou farto da partilha da vida,
em que, ao nos darmos a fórceps,
não mais nos sabemos e somos outros, indecifráveis,
esfíngicos de enigmas que nos levam a própria vida a resolver, tais como
“quanto valho?”, “onde caibo?”, “a quem me confiarei?”…
E morrer compartilhado, repartido em lágrimas e lamentações,
isso eu não quero, isso eu não mereço!
Eu quero a integridade de minha partida, sendo ela só minha,
minha para que eu me veja na estação,
parado na plataforma,
como sempre fui e sempre desconheci:
o eu-morto que me acompanhou cabisbaixo, passo a passo,
magicando por que aceitava eu a vida forçar-me a ir buscá-lo.
Se eu morrer hoje, enterrem-me, por favor, em segredo,
para que eu possa me despedir sozinho de mim num abraço que nunca me dei,
e me beije os olhos, e diga-me de mim, finalmente, aonde ir.
26/11/12
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
LUZ AUSENTE
Raquel Rodrigues - São
(Para Raquel Rodrigues, cuja arte me ilumina)
O sol é mais poético à noite,
quando ele só pode ser imaginado.
E quem imagina sente
com o fantasma de uma presença
lhe cantando verdades mágicas
ao ouvido da alma.
18/11/12
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
NÃO QUIS COISAR… OU “FIFTY SHADES OF VANITY”
O tabloide britânico Daily Mail publicou hoje, dia 14 de novembro, que uma senhora londrina de 41 anos, empresária bem-sucedida (tem renda anual de £400,000), decide pedir divórcio por seu marido não corresponder às suas fantasias sexuais liberadas depois da leitura do best-seller Cinquenta tons de cinza, de Erika Leonard James, publicado no ano passado (leia o artigo em inglês aqui). Não o li. Não por ideologia (ou falta dela) ou coisa que o valha, mas por minha preguiça literária, mazela que admito envergonhadamente. Tenho preguiça de ler como tenho preguiça de tantas outras coisas que me são deliciosas, como pescar, subir serra, tomar banho de chuva. Talvez, tivesse preguiça de pensar em fazer sexo como essa senhora pensou. O seu infeliz (será?) marido não quis praticar com ela o sadomasoquismo e o bondage, o que se tornou o motivo do litígio. Porém, não tive preguiça de pensar nessas pobres criaturas. Uma, pega de surpresa pelo desejo inédito da outra, a qual desenterrou uma fêmea inventada das páginas de uma obra comercial. E o amor, minha gente?
Não quis coisar… Agora, sem brincadeiras! Apesar de não podermos conjeturar sobre o relacionamento dessa égua com esse bocó, esse é um fato sintomático de uma constante nos relacionamentos contemporâneos, que é o vínculo da sua existência à satisfação egoísta dos membros. Talvez seja a pior herança do hedonismo da minha geração (os nascidos ou adolescidos entre 1970-80): a defesa intolerante e acéfala da “bandeira do eu”.
Quando vamos parar com essa sala de espelhos? Viver, meus caros, só é bom quando usamos o prefixo alomorfe “con”. Entretanto, o sexo freudiano, que tanto povoou a mente dos teóricos em educação, deu cria: o sexo cinematográfico (ou, no caso, o literário).
Não basta amar. Tem de amar e foder como um sátiro, uma ninfa ou (o ápice da competência!) os dois ao mesmo tempo. Às vezes, amar é até mesmo descartável. Amar incomoda, gera expectativas, rugas, refluxos. Ah, quem nos dera, apesar dos joanetes entalados em scarpins e cromos alemães, esses amores italianos ou argentinos, macarronados num tango e saboreados em cafés franceses. Estes, tudo bem! O que incomoda mesmo é o amor na pia de lavar louça, o amor posto à prova no espaço enorme entre as presenças e, nelas, no suportar o ronco, o peido, a TPM, as acnes, os fios da barba mal varridos. Quem há de se comprometer em amar desconsiderando a si mesmo? Quem haveria de amar alguém que requeresse o supremo esforço da compreensão abnegada em tal parceria?
Imaginemos um caso não totalmente ficcional. Ela se apaixona, depois ama. Ele era tudo, tão bonito, tão macho, tão parecido ao seu pai… Supriu-lhe tudo: o ombro, o peito, o pênis, os ouvidos e os lábios eram seus. Entregou-se, lavou-lhe as cuecas, preparou-lhe lambedores nas gripes, amou-o calma e febrilmente. Só não contava com o mundo inteiro lhe zumbindo nos ouvidos como ele deveria ser: um deus grego de boca e pênis invencíveis, de corpo forte e acrobático, de olhar cafajeste e canino. Um desses homens de propaganda de uísque. Com o tempo, esse novo homem que ele, covardemente, negava-se a ser aparecia-lhe nos lugares mais inóspitos, mais inexplorados: as suas expectativas. Sua condição de fêmea foi finalmente despertada! Mas, como vivê-la, com esse homem arremedado que se tem em casa? Ela merecia o homem da propaganda do carro utilitário-esportivo, o homem que escala a montanha e cheira a amêndoas e loção pós-barba, aquele que acredita piamente, a despeito de sua própria magnífica superioridade física, ser ela a encarnação de Diana, a caçadora, a amazona cuja função única é escravizá-lo e devorá-lo tiranamente, coisa pela qual ele espera desde que se apaixonara por ela à primeira vista.
O que faz seu pobre homem? Lê também o livro e se redime, entra no bisturi e na academia, fica magicamente mais jovem, implanta cabelos, compra prótese peniana, na impossibilidade de ter sua vergonhosa humanidade genital convertida no deus Falo que ela merece?
Há uma infinidade de crônicas a respeito de mulheres objetificadas por seus homens, e outras tantas sobre as que sofrem o diabo em bullyings pela inadequação ao modelo midiático. Devem estar, em sua maioria, corretíssimas. Historicamente, não há nada mais hediondo que o sofrimento imposto às mulheres pela dominação masculina. Porém, contemporaneamente, estamos abrindo os olhos para o outro viés: essa objetificação não seria para os dois gêneros ou, pelo menos, não o tem sido?
Não vou entrar aqui no labirinto das causas. O comércio de imagens, o modismo, o conceito grego da coisa, são tudo conjeturas válidas. Prefiro a isso falar da mais triste das consequências: a morte do amor. Como se espera que dois egoístas vivam juntos? Como se satisfarão? Onde estará a alegria da entrega sem motivos que não sejam a própria entrega e o que esta causa em quem recebe a doação?
Fico feliz que se esteja lendo tanto. No Brasil, certamente, nunca se leu tanto. Entendo a leitura clariceanamente: a deflagradora da “felicidade clandestina”, embora eu ache que não deva ser tão clandestina assim. Louvo, ainda que carrancudo, meus alunos virarem devoradores de best-sellers, pois sei que não existe teletransporte para a intelectualização — hão de se respeitar os degraus. Contudo, temo muito pela desorientação tão característica deles e deste início de século, de uma maneira geral. Será que levamos mesmo tanto tempo para adolescer? A senhora litigante do divórcio tem 41 anos, é banqueira, deve ter lido e vivido o suficiente para entender os limites da ficção. Custava crescer?
14/11/12
Não quis coisar… Agora, sem brincadeiras! Apesar de não podermos conjeturar sobre o relacionamento dessa égua com esse bocó, esse é um fato sintomático de uma constante nos relacionamentos contemporâneos, que é o vínculo da sua existência à satisfação egoísta dos membros. Talvez seja a pior herança do hedonismo da minha geração (os nascidos ou adolescidos entre 1970-80): a defesa intolerante e acéfala da “bandeira do eu”.
Quando vamos parar com essa sala de espelhos? Viver, meus caros, só é bom quando usamos o prefixo alomorfe “con”. Entretanto, o sexo freudiano, que tanto povoou a mente dos teóricos em educação, deu cria: o sexo cinematográfico (ou, no caso, o literário).
Não basta amar. Tem de amar e foder como um sátiro, uma ninfa ou (o ápice da competência!) os dois ao mesmo tempo. Às vezes, amar é até mesmo descartável. Amar incomoda, gera expectativas, rugas, refluxos. Ah, quem nos dera, apesar dos joanetes entalados em scarpins e cromos alemães, esses amores italianos ou argentinos, macarronados num tango e saboreados em cafés franceses. Estes, tudo bem! O que incomoda mesmo é o amor na pia de lavar louça, o amor posto à prova no espaço enorme entre as presenças e, nelas, no suportar o ronco, o peido, a TPM, as acnes, os fios da barba mal varridos. Quem há de se comprometer em amar desconsiderando a si mesmo? Quem haveria de amar alguém que requeresse o supremo esforço da compreensão abnegada em tal parceria?
Imaginemos um caso não totalmente ficcional. Ela se apaixona, depois ama. Ele era tudo, tão bonito, tão macho, tão parecido ao seu pai… Supriu-lhe tudo: o ombro, o peito, o pênis, os ouvidos e os lábios eram seus. Entregou-se, lavou-lhe as cuecas, preparou-lhe lambedores nas gripes, amou-o calma e febrilmente. Só não contava com o mundo inteiro lhe zumbindo nos ouvidos como ele deveria ser: um deus grego de boca e pênis invencíveis, de corpo forte e acrobático, de olhar cafajeste e canino. Um desses homens de propaganda de uísque. Com o tempo, esse novo homem que ele, covardemente, negava-se a ser aparecia-lhe nos lugares mais inóspitos, mais inexplorados: as suas expectativas. Sua condição de fêmea foi finalmente despertada! Mas, como vivê-la, com esse homem arremedado que se tem em casa? Ela merecia o homem da propaganda do carro utilitário-esportivo, o homem que escala a montanha e cheira a amêndoas e loção pós-barba, aquele que acredita piamente, a despeito de sua própria magnífica superioridade física, ser ela a encarnação de Diana, a caçadora, a amazona cuja função única é escravizá-lo e devorá-lo tiranamente, coisa pela qual ele espera desde que se apaixonara por ela à primeira vista.
O que faz seu pobre homem? Lê também o livro e se redime, entra no bisturi e na academia, fica magicamente mais jovem, implanta cabelos, compra prótese peniana, na impossibilidade de ter sua vergonhosa humanidade genital convertida no deus Falo que ela merece?
Há uma infinidade de crônicas a respeito de mulheres objetificadas por seus homens, e outras tantas sobre as que sofrem o diabo em bullyings pela inadequação ao modelo midiático. Devem estar, em sua maioria, corretíssimas. Historicamente, não há nada mais hediondo que o sofrimento imposto às mulheres pela dominação masculina. Porém, contemporaneamente, estamos abrindo os olhos para o outro viés: essa objetificação não seria para os dois gêneros ou, pelo menos, não o tem sido?
Não vou entrar aqui no labirinto das causas. O comércio de imagens, o modismo, o conceito grego da coisa, são tudo conjeturas válidas. Prefiro a isso falar da mais triste das consequências: a morte do amor. Como se espera que dois egoístas vivam juntos? Como se satisfarão? Onde estará a alegria da entrega sem motivos que não sejam a própria entrega e o que esta causa em quem recebe a doação?
Fico feliz que se esteja lendo tanto. No Brasil, certamente, nunca se leu tanto. Entendo a leitura clariceanamente: a deflagradora da “felicidade clandestina”, embora eu ache que não deva ser tão clandestina assim. Louvo, ainda que carrancudo, meus alunos virarem devoradores de best-sellers, pois sei que não existe teletransporte para a intelectualização — hão de se respeitar os degraus. Contudo, temo muito pela desorientação tão característica deles e deste início de século, de uma maneira geral. Será que levamos mesmo tanto tempo para adolescer? A senhora litigante do divórcio tem 41 anos, é banqueira, deve ter lido e vivido o suficiente para entender os limites da ficção. Custava crescer?
14/11/12
terça-feira, 6 de novembro de 2012
DO QUE FOI EMBORA
Foto: Andre Beltrame
(Para Carmélia Maria Aragão, que é outra de minhas saudades de retrato)
De ti tenho dessas saudades de retrato.
Um eu-menino que a vida pegou para criar
e criou à custa de metáforas.
Tu querias ser mineiro,
querias ser das pedras, do vento e do mar,
mas só foste terra, dessa terra onde um se deita semente
e não tem vontade de nascer.
Tenho tantas saudades de ti.
Dos teus tantos nascimentos.
Da tua esfinge indígena na face.
Das tuas cicatrizes-distintivo.
Da tua alma velha.
Quê de tuas pinturas? Onde foram parar os teus dois livros?
E os teus tesouros animados, cadê?
Tua história é o meu retrato, mas não é a foto.
É o cromo que se perdeu, mas se faz saber no monocromático do vermelho-telha.
É a cor que me roubaram do sorriso, do olho, do espírito.
Tua história, eu-menino, ficou no ar, no zingue de uma pedra de baladeira
que nunca matou ninguém
e por isso se perdeu.
06/11/12
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
AÑORANZA
Dom Quixote de La Parnahyba
(Para Camila Rocha y Renata Abreu Silvério, regalos de la vida)
Este poco que extraño
se hace mucho,
se hace mucho,
pues que se vuelve ahora
en todo lo que hay.
02/11/12
en todo lo que hay.
02/11/12
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
DEBAIXO DOS ARCOS
Há sempre dois túmulos no coração de um homem.
Abertos. Sem lápides. Idênticos.
Um lhe serve de sala. Limpo, fremido em seu desejo de imaculação.
Acumulam-se esperas onde se esparramam as visitas no sofá,
e horas tiquetaqueiam-se ordenadas, sem retorno — não há passado na sala de espera.
Nas paredes, não se veem o sangue apodrecido que se esvaíra dos dedos
nem as unhas arrancadas que enlouqueceram nas pedras as urgências do escape.
Argamassaram-se, rebocaram-se, pintaram-se e envernizaram-se as paredes
em papéis de parede, tudo, diligentemente, que a aparência é tudo.
Debaixo dos arcos, tudo é triunfo.
O outro é cova rasa, não dá meio metro.
A terra diz das árvores ancestrais, cujas almas ainda a perfumam.
É macia, sem pedras, plena de vermes férteis — cheira a vida.
Nele, a morte ressona menina, infante, fetal.
Jaz plácida ao lado da desesperação
e sonha consigo mesma, branda e silfídica, a cortejar os minutos que lhe passam ao largo.
Acena-lhes pueril com mãos, olhos e sorriso cheios de ternura e curiosidade.
Ao lado, festas irrompem hipócritas em madrugadas opiáceas,
convivas desfazem-se em mesuras e tédios pela sala entorpecida.
A assepsia encobre totalmente a vivacidade morta e putrefata,
muito bem cofiada nos penduricalhos contíguos ao peito,
aos pulsos e aos tornozelos.
Só não é possível arrancar dos olhos o fedor da morte
que teima em ser-se, despudoradamente.
Essa morte adulta, heféstica, insaciável,
outra que não a que lhe dorme ao lado, sonhando vida.
Aquela, a de dedo em riste, perscruta, por trás das retinas de suas montarias,
todos os vãos possíveis da sala, à cura de sonhos.
Quando encontra um, aristocraticamente, conduz seu cavalo à marcha e pisoteia-o.
Os sonhos só marejam no túmulo ao lado, orgânicos, originais,
onde o leviatã do destino do homem
ainda sequer sabe que o ovo do tempo lhe eclode no peito a prospectora definitiva
que arrastará consigo a cadeia das horas e seus passageiros distraídos.
No coração do homem, jazem duas mortes os seus labores,
pulsando sistólicas o discurso imemorial da consciência.
A consciência, essa máquina humana de matar sonhos,
dessas mortes que defloram a terra em covas onde morrem as almas, eternamente.
10/10/12
terça-feira, 18 de setembro de 2012
HOJE
(À Lidiane Lima, minha parceirinha desta e de outras vidas)
Hoje, eu estou para tragédias hepáticas
e óperas cardíacas.
Hoje, só o fundo do copo me conhece,
me entende,
esse fundo de copo americano sujo de bocal partido,
tão meu, tão noturno, tão moto-contínuo.
Hoje, nem o diabo me salva de ser eu.
18/09/12
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
TRISTE FIM DE UM ABRIDOR DE HORIZONTES
Desde que me lembro, sondo o mundo ao meu redor. No início, coisas elementares, alimentos, móveis… De onde terá vindo a palavra “bifê”? Na minha casa, havia um, azulejado, dormia nele quando criança. E a garrafa de vidro, que alguém dormiu, sonhou e realizou da areia — vira em um almanaque —, e a de plástico, que já foi um dinossauro? Me encantava tanto o mistério por trás das palavras! E me encantavam, consequentemente, a sintaxe das coisas, a relação da nuvem com a chuva, a da Lua com a maré, o porquê de o vento, o raio e o trovão me maravilharem…
Na minha maletinha de tintas guache, jazia das ferramentas mais esmero que uso, que é coisa que também me conta: pincéis, tubinhos multicores deitados em coleção pouquíssimo usada. Coleção, como foi a de tanta coisa… Pedras, às quais atribuía magia, búzios, bilas, achados de praia, toda sorte de bugigangas… Um inverso da trilha de miolos de pão do meu livrinho de contos, que hoje está nu de capas e de sonhos. Sonhara-me ele, talvez, e eu o abandonei. Triste fim de um abridor de horizontes…
Assim tem sido, talvez, com as abstrações superiores: minhas ferramentas se multifacetaram, tornaram-se pequenas como as de um relojoeiro, porém, a despeito de minha exímia com elas, não devo ter construído ou consertado totalmente nada em minha vida inteira. Também não sou bom em desusos: as tarefas inacabadas se empilham sobre meu peito, que sofre por respirar à noite, sempre amarrado, atado por essas cintas de livros que se usavam antigamente.
Antigamente, queria entender a sintaxe do mundo. Na minha inocência, confundia o mundo com as palavras. Vim descobrindo que a sintaxe do mundo é irritantemente ordenada. Previsível. A ela, prefiro quase religiosamente a liberdade caótica das palavras. O lé com cré de rimar saudade com maldade me faz mais sentido que o bom-dia das manhãs de segunda-feira.
Uma denúncia leva a um encobrimento, um jogo de interesses a procrastina, e uma manutenção da ordem a executa. Vive-se por consecução. Encaixa-se aqui. Engrena-se acolá. Como na máquina de Carlitos.
12/09/12
Na minha maletinha de tintas guache, jazia das ferramentas mais esmero que uso, que é coisa que também me conta: pincéis, tubinhos multicores deitados em coleção pouquíssimo usada. Coleção, como foi a de tanta coisa… Pedras, às quais atribuía magia, búzios, bilas, achados de praia, toda sorte de bugigangas… Um inverso da trilha de miolos de pão do meu livrinho de contos, que hoje está nu de capas e de sonhos. Sonhara-me ele, talvez, e eu o abandonei. Triste fim de um abridor de horizontes…
Assim tem sido, talvez, com as abstrações superiores: minhas ferramentas se multifacetaram, tornaram-se pequenas como as de um relojoeiro, porém, a despeito de minha exímia com elas, não devo ter construído ou consertado totalmente nada em minha vida inteira. Também não sou bom em desusos: as tarefas inacabadas se empilham sobre meu peito, que sofre por respirar à noite, sempre amarrado, atado por essas cintas de livros que se usavam antigamente.
Antigamente, queria entender a sintaxe do mundo. Na minha inocência, confundia o mundo com as palavras. Vim descobrindo que a sintaxe do mundo é irritantemente ordenada. Previsível. A ela, prefiro quase religiosamente a liberdade caótica das palavras. O lé com cré de rimar saudade com maldade me faz mais sentido que o bom-dia das manhãs de segunda-feira.
Uma denúncia leva a um encobrimento, um jogo de interesses a procrastina, e uma manutenção da ordem a executa. Vive-se por consecução. Encaixa-se aqui. Engrena-se acolá. Como na máquina de Carlitos.
Tempos Modernos
Ser uma peça sem encaixe não é de todo mau. Não! Ocorreu-me agora! Também o eram as coisinhas que eu achava no chão e colecionava! Também o era meu livro nu! Todos, testemunhas de minhas tentativas de compreensão do que o compreender-se o mundo não dá conta nem nunca deu! Um, cá, outro, lá, vieram me montando, arborescendo-me de diagramas, estames, pedúnculos. Minha sintaxe é a mesma das palavras cujos significados só sonhei. Ou teriam sido elas que me sonharam?12/09/12
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
KABUKI
Sei que errei.
Sei que são minhas as tuas vontades
e que não dizes sozinha de ti.
Sei que tua roupa me reflete,
que teu paladar me saboreia
e que tua noite tem a minha cor.
Onde estive, quando te perdeste?
Eu, centrado, esclarecido… Eu, senhor.
Tu…
Tu te largaste. Saltaste cega em meu cavalo
e cega foste a um dia de faca
que te arrancaria os olhos,
esses olhos de kabuki…
Vidrados no além do amor, no que não é amor:
no que é a terra do horizonte desgraçado dos náufragos,
no que é a conjuração da água ilusória do deserto.
Onde estive, que não te estapeei a cara
para acordar-te?
Meus afagos te fizeram mais mal que uma boa surra!
Ou que a mim me dessem uma boa surra,
e eu, estropiado, diante de ti, fizesse-me eu,
o eu que te comeu os sonhos e arrotou bufando,
de mão na boca, contido, entediado,
este eu que te rasgou inteira
sem que reclamasses, sem que te desses conta,
com os talheres baratos dos almoços de domingo,
sobre a mesa amarela,
a carne perfumada, o arroz fragrante…
Quando, adorada, quando foi que te perdeste
sem que eu junto contigo me achasse?
Onde estive, quando estiveste linda,
inteira, entregue, totalmente minha?
Onde estive, quando te perdi?
05/09/12
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