Número de sílabas (desde 11/2008)

counter

domingo, 8 de janeiro de 2012

FORMOSA


“Mulher que nega
Não sabe não
Tem uma coisa de menos no seu coração”

Carinho é coisa incompleta.
Por isso mesmo, é nuvem de céu equatorial:
passa, ensombra, esfacela-se meiga e reinventa suas formas
no azul e no negro, igualmente;
porém não chove
e à terra, que sua alma acaricia
— pois a sombra é a alma do que é vazio —,
não lambe a pele com seus rios,
nem se lhe entranha com seus veios.
Não lhe goza na carne triste a renhida temporã
de um amor de macho transformado em força,
em mares despedaçados em partículas de vida.
Carinho é feito moça donzela,
que tem mais valor no guardado da prenda
que têm nas bocetas as humildes prostitutas
que saem pelas esquinas, distribuindo chuvas e sorrisos de meias-noites.
O sazonal da vida do homem
só conhece o beijo lânguido daquela,
ou o outro, negado, desta,
mas, nunca, a primavera!,
quando a terra casa e copula,
e quando nascem dos caroços de manga, enterrados na prenhidão dos amantes,
a doçura de estarem amados
como os amaram no mais profundo de seus corações
suas esperas amargas de tantas e longas estiagens.

08/01/12


Poema escrito em parceria de espírito com minha amiga Daniele Fernandes, que o conheceu talvez até antes de mim. Beijo, Dani.

sábado, 24 de dezembro de 2011

FREDDY KRUEGER VS. SEU LUNGA

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A MÁSCARA DE APOLO



A noite me agrada porque nela é tudo muito simples.
Não há luzes que me iludam: o céu tem a cor dele, a lua aparece, e as estrelas.
É, e as estrelas…
É simples olhar para elas, pois o que elas são é simples,
como são simples os estilhaços de sol poente — tão diferente de suas irmãs… — na epiderme do mar,
em seu instante mais terno, menos apolíneo:
quando a verdadeira cor das coisas e das pessoas começa a resplandecer
e encher de negro o néon da vida,
mas desse negro de que são feitos os olhos de minha filha,
os cabelos de minha esposa,
o silêncio de meu filho,
a história de minha pele.
O negro transliterado de uma continuidade, de um complexo fio
tramado entre os sons, as pessoas, as palavras e as almas, ligando-os.
Os traços de impessoalidade deixam ao dia o seu anonimato:
somos o que somos somente à noite.
Aquele, intransigente, retira de seu sítio mais íntimo o seu livro de diálogos perdidos e o reexamina escolarmente;
aquela, promíscua, cofia de seus cabelos as imundícies lascivas e se entrega mulher, pura, inteira, a seu homem;
aquele, em mangas de camisa, testosterônico, dança em seus olhos bailes de gala de valsas casticíssimas;
aquelezinho, empedernido em sua resignação humilde ao fel da vida, muda a essência inteira do mundo, dando boa-noite a seu cão;
aqueloutra, doidivanas, sorri pudica diante da ternura pueril de seu pescoço de fêmea;
aquela uma, sem que o nunca lhe houvessem dado, dá de si o mais belo dos sorrisos de “agradecida, senhor” ao lixeiro surdo;
aquele, estroina, olha cheio de amor desesperado o filho, com o pavor absurdo dos que não lhes querem pares de seu futuro;
aquela, burguesa de passamanes de ouro, despe-se da própria pele e se examina só, encastelada em sua tão total ausência;
todos, andrajosos dentro de suas singelezas, cirzem suas verdades
— a única pele que a noite exige, essa noite sem luzes falsas, sem vapores incandescentes de sódio.
Eu, acordado ainda por faróis, desses que salvam navios;
porém eles dormem
como se as máscaras pudessem sonhar os foliões
e os sonhassem.

21/12/11

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ALUMBRAMENTO


A poesia?
A poesia serve para dar corpo ao caos inominável.
Desatar nós não é de sua lavra;
tampouco o é sistematizar, sequer dissecar a vida.
Não se encontram anéis em seus dedos
nem estolas em seus ombros
— seus ombros não suportam o mundo.
A poesia é o conjunto da incontinência, é o mar da água,
é o coração dos sentimentos.
A poesia é o nome que se soprou dos lábios da fera
pouco antes de suas palavras obstruírem-lhe a alma.
O que se diz
está longe de ser poesia;
um pouco mais perto está o que se pensa;
vizinho, o que se sente.
A poesia mesmo
é o alumbramento espantoso de tudo que queremos ser
diante do mundo que queríamos que fosse.

14/12/11

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O LIVRO PERDIDO DE CARINE


Carine queria ter lido Moby Dick. Pedira-me emprestado no início do ano. Prometi, tentei, não cumpri. Havia perdido meu exemplar. Talvez, sob as pilhas de romances empoeirados pela minha preguiça, talvez, sob os mares mesmo, com seu Ahab atado à sua cauda. Contei-lhe um pouco do que sabia: não era um livro sobre uma caçada a uma fera marinha; era uma alegoria da bestialidade humana, destruidora do próprio homem. Ela se encantara. Queria saber mais. É tudo que nós, professores, queremos: que eles queiram saber mais, que seus horizontes cresçam com seus olhos brilhando em sua direção. A partir dali, assim como ela com o conhecimento novo, havia-me eu encantado solidamente com aquele segundo ano, com sua afetuosidade e seu bom humor, e mesmo com o inevitável desinteresse momentâneo tão próprio de seus adolesceres.
Sempre ficam alguns rostos. Aquele, com o seu riso cínico e sua incapacidade de deixar alguém sério por muito tempo; aqueloutro, com sua sinceridade e seu coração estampado na cara de 16 anos, todo coração debaixo de um monte de músculos; já aquela, com sua molecagem tão contagiante, convidando a minha seriedade a ir às favas a todo tempo; aquelinha, com aquele tamanhinho, tão gigante, tão mais que eu… Ficou também o rosto de Carine, os óculos simpáticos, os olhos vivos e meninos, um sorriso desconhecedor e curioso, uma inquietação vaporosa e aromática, uma calma presença. Uma calma presença. Acho que ela teria se identificado muito com Ishmael, o professor-marinheiro, o coração aberto, o cronista de sua tripulação de párias. Não sei dizer dela muito mais que isso… Como pode amarmos tanto nossos alunos, tão em segredo, tão incompletamente, mas tão cheios de ternura, de afilhamento?
Neste domingo, 4 de dezembro de 2011, sua trajetória e as de duas amigas suas foram prematura e violentamente alteradas. Partiu-se ao meio em colisão a um poste o carro em cujo assento traseiro vinham de carona de Aquiraz a Fortaleza buscar um amigo para levá-lo de volta à festa em que estavam. O motorista e a carona feriram-se, socorreram-se, passam bem. Não se falou em fatalidade no noticiário. Foi um desastre causado por direção perigosa. Ou criminosa.
Carine era minha aluna. Eu cuidava para que suas redações dissessem o que ela pensava de mais profundo. Tentava despertar-lhe críticas, questionamentos, senso de organização de ideias… Minha vontade agora é de falar de desmerecimentos, de insanidades, de injustiças. Porém, minha vontade é insuficiente. Minhas abstrações são insuficientes, o que lhe ensinei foi insuficiente, o mundo é insuficiente, as crenças são insuficientes. Carine estava plena de fome de vida. Existira. Brilhara. Iluminara como iluminam, brilham, existem, ardem seus companheiros de segundo ano, de escola, de geração. Falar é insuficiente, então gritemos, inquiramos, podemos, devemos perguntar: como poderia estar certo um mundo onde tantas Carines cada vez mais não encontram lugar para serem como são, jovens, legitimamente radiantes? Como pudemos tê-la perdido? Como pudemos ter sido e podemos continuar sendo tão insuficientes?
Lamentemos, mas lamentemos bastante e de verdade. Por nunca mais ouvirmos sua voz, seu riso, seus gritos de adolescência. Por nunca mais lermos suas mais novas palavras recém-escritas. Por nunca mais a olharmos nos olhos. Por nunca mais nos despedirmos dela. Por nunca mais causarmos aquele muxoxo de reprovação em seu canto de boca por uma molecagem nossa. Por nunca mais rirmos de suas molecagens. Por ser ela uma flor de beleza redentora de um mundo onde se pisoteiam flores. Por nunca mais poder ela nos ouvir dizer (se é que dissemos) como tudo isso nos faria falta. Vamos lamentar pelos que também, da mesma forma, lamentam por suas duas amigas, também jovens, também famintas de vida. E vamos lamentar por nós, meus amigos, por mantermos uma sociedade em que é perigoso sermos bons, felizes e autênticos em nossa fragilidade de existência. Eu, particularmente, acrescentarei mais uma tristeza ao meu já tão carregado Pequod, tão perdido dentro do livro que (lamentarei) nunca mais poderei emprestar-lhe.

05/12/11

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Gambiarra Blues Band - O Blogue

Amigos, este é o blogue da mais nova banda de blues, R&B, country e rock da praça, a Gambiarra Blues Band (obviamente, com esse nome, tinha de ter a ver comigo). Porque é assim que são em geral as coisas de minha vida: entrameladas, cheias de remendos e pontos por coser, cheias de lacunas por onde se pode espiar o que tem por dentro. Mesmo com minha poesia, mesmo com minha música, meu trabalho, meu tudo, acontece assim, um concerto cheio de consertos, vários “jeitinhos” (no bom sentido), como deve ser a de todo bom brasileiro.
Eu e Luíza Carolina, ex-vocalista da Gambiarra,
dona d'O Bazar
e uma de minhas grandes ternuras.
Eu e Rebeca Xavier, 1ª vocalista da Gambiarra,
escritora do livro de contos De Retalhos, dona do blogue Notas de Rodapé
e um de meus grandes amores.
Então, vamos à banda! Estamos ainda em fase de divulgação de material e de batalha por apresentações pelos bares da cidade, em eventos, festivais, lugares de responsa que estejam dispostos a divulgar os gêneros que tocamos (apesar de haver público, vivemos em uma cidade monocultural musicalmente). Nós somos seis: Washington Costa (violão-base e vocais), Naiana Iris (vocais), Antonio Ortiz (bateria e violões), Lucas Teixeira (guitarra-solo e vocais), Thiago Teixeira (baixo) e este que vos escreve, nas gaitas e nos vocais.
Gambiarra Blues Band
Gambiarra Blues Band
Tudo começou com quatro grandes amigos (Rebeca, Ortiz, Washington e eu) se reunindo num fim de semana para estravasar, beber, tocar e cantar, que a rotina de professor é dura… Pois é, somos todos professores na banda, mesmo na atual formação (a quarta), o que, muito curiosamente, é uma coincidência. Foi uma dessas tardes memoráveis, de celebração de amizade. De lá para o estúdio foi um pulo. Queríamos amplificar! Compromissos e impedimentos fizeram amigos entrarem e saírem, até chegarmos à formação atual. Daí, começou a ficar alguma coisa que valia a pena mostrar, e partimos para a primeira apresentação (os vídeos de duas de nossas músicas autorais estão aqui e aqui), a qual nos encheu de coragem. Depois, com a força do Bruno Marques, que veio a ser o nosso produtor, fizemos a segunda em outra cidade, Sobral, e aí acreditamos que a coisa poderia engrenar. E está engrenando.
Concha Acústica da Faculdade de Letras e História
da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA
O que começou como um passatempo entre amigos virou uma banda, e aqui estamos, cantando e tocando o que sentimos, da melhor forma que sabemos. Gostaria muito que vocês dessem uma olhada no nosso trabalho e criticassem, sugerissem, esculhambassem (pero no mucho, please)… ou seja, dessem uma força. Visitem a página completa da gente aqui.
Um abraço a todos, e muito blues para vocês!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ESPAÇOS


A casa ficou maior, e tenho medo
— desses medos físicos —
de perder-me nos cantos, nos vãos que, até agora, desconhecia.
Imagino que crescer do jeito certo seja sobrepujar o espaço que te dão
com o que adéquas ao teu tamanho.
Não sou grande, nunca fui.
Contudo, sim, aumentei o meu espaço.
Enormemente.
Carpi veredas por dentro das capoeiras,
edifiquei pontes, escavei túneis,
pavimentei de sulcos fundíssimos dos sentimentos mais originais
a carne da minha terra,
tudo para que eu coubesse finalmente
numa pátria que reconhecesse
e onde, à noite, não me espantassem as trevas de lugares onde eu não houvesse.
Cresci como um câncer: explodindo e irradiando.
Como um câncer, nunca vi a luz do dia.
Ao meu redor, o Mundo, que me esperava — eu, amedrontado de ter úlceras —,
acolheu selvagem todos, de dentes e garras expostos,
ao passo que eu passava enviesado pelas frestas, entre um canino e um incisivo,
e emaranhava-me com minhas próprias raízes,
e entrava fundo em minha própria terra, de que aprendi a ser telúrico.

Tentara-me o Mundo fazer gente, das que proliferam em shoppings, boates, teatros,
das que superlotam estreias
e manifestam bens-comuns salpicados de vitórias romanas.
Não houve jeito.
Estou fatalmente e para sempre preso ao que me liberta,
ainda que me flagele dentro de ônibus e salas,
oculte-me de olhares — aos quais respondo mentalmente “não estou aqui” —,
e esmoreça paciente à gula do tempo,
sentado sob as mangueiras mortas e assombradas de minha infância.
Não me entrego.
Não pertenço ao que não sou,
não vivo onde não me hei morto e renascido,
seiva desentranhada da terra correndo branca nos folíolos que meu próprio hálito cuida de balançar
e de carregar de volta a mim, que absorvo e revivo.

Porém, angustia-me ainda o tamanho da casa, das pessoas que cresceram do jeito certo, do Mundo.
Ainda sinto o desejo infantil de saltar o gradil da entrada
que faz o limite entre o que sou e o que deveria haver sido.
Olho pelas janelas ocultas para a noite que começou há dois dias
e ainda prenuncia chuva
e desejo-a.
Como desejava visitantes ao berço de minhas palavras
quando elas tinham por quem nascer.
Cresceram. Algumas voaram, outras pastam bovinamente indolentes ao meu redor.
A maioria virou flores, matas, florestas,
produtoras das cores e do oxigênio daqui.

Algumas — as menos minhas — se aventuram
cheias de dentes e intestinos sobre os móveis, os carros e as pessoas porta afora,
dilacerando seus nomes, engolindo seus sentidos.
Observo-as com a adivinhação míope de sabê-las maiores,
bem maiores que eu, com sua fome de Mundo…
Uma vez lá, será que ecoarão de volta?

16/11/11

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SEIS HORAS



Quantas horas existem dentro de seis horas?
Talvez, o suficiente para afogar-se a noite,
talvez, para resgatar-se o dia.
Certamente, para duvidar-se do mar,
tempo relativo ao homem e à terra,
ao coração e à fogueira morta das certezas,
às cinzas de dias passados
plenos de noites náufragas, infinitos de sal e algas,
onde respirávamos tu e eu, escafandrados nas palavras libertas das cartas,
nas memórias voláteis,
nas atrozes expectativas de que aquelas seis horas não bastassem para nós
para que pudéssemos ser quem éramos:
filhos do tempo urgente,
excertos da roda das almas ígneas,
fragmentos de minutos eviscerados à faca do infinito.

Estar acordado no inútil destas seis horas
com o peito cheio de tosses
e com dores em toda parte onde estiveste
é o pueril romântico dos meus quinze anos
decantado em aulas de Literatura Brasileira:
fulano morreu tuberculoso;
beltrano, de tiro no pé;
sicrano, esse, coitado, suicidou-se sem que se dessem dele.

É dessa época minha lembrança mais triste de morte:
um homem cujo fedor cadavérico só incomodou aos vizinhos meses depois de haver-lhe a morte recendido suas pétalas.
Morrera miseravelmente só e esquecido em sua casa de periferia
sem que lhe soubessem amigos nem relativos,
sem que lhe soubessem nada de dizer
além da manchete de noticiário.
Senti irmandade com aquele homem e pranteei-lhe
com toda a minha verdade e minha cobiça
de desaparecer tal qual, sem palavras de contar quem fui,
sem passado que me diminuísse à condição de fulano:
seria um corpo incômodo, dos que se aproveitam igual aos vermes qual aos estudantes de Medicina e aos alunos moleques secundaristas.

Estar acordado agora é ser aquele sujeito
no interminável de sua última hora:
um lapso do tempo em sua piada de relatividade.
Anônimo como o minuto que acabou de passar.

Porém, dirias, seis horas não é nada.
Um turno. Um quarto.

Um fôlego de náufrago
entre o mergulho e a luz salgada,
coisas de que é feita a rotina das orcas
e dos ponteiros maciços do relógio da torre da praça
onde eu te comprara um sorvete tão saboroso e pobre
como fora aquele dia em que me alumbraste.

09/11/11

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

MANHÃ DE OUTUBRO

 Foto: Nate Ortiz

Ah, quão bom é procurar de uma memória o gosto e descobri-la insípida… Todavia, como se já não bastassem os meus fantasmas que já estiveram vivos, vou eu a engravidar de outros… Já não basta a casa prenhe de espíritos? Já não são suficientes os mortos pelas ruas ao lado de seus vivos?
Devagarzinho, a manhã me encontrou desperto e inteiro, à sua espera. Tenho estado à sua espera durante muito tempo. Tenho procurado por ela em cada ilusão de amor, em cada café desencontrado, em cada instante agudo e viciante de melancolia — a solidão é um bicho quente que seduz e devora a gente ao mesmo tempo. Ao chegar com seus raios e seu chumbo derretendo-se em azul e amarelo, ei-la também inteira, ao seu modo de manhã: a mensageira, a que bate à porta, a que sorri fatalidades.
— Estou pronto — gritei-lhe baixinho para não acordar família, vizinhos e circunstantes —, estou pronto, estou prestes, estou posto! Leva-me!
Ela apenas me olhava, e seus raios e mormaços me respiravam. Sentia-me a respiração com a língua que lhe saltava dos olhos alaranjados — a manhã tem o seu próprio jeito de comer os que estiveram sempre acordados.
Pensei nos meus pais. Quanta espera… Quantos fantasmas de palavras que morreram sementes secas ou podres, que nunca germinaram. Pensei em meu filho, morto feto, como tudo que lhe diria. Pensei em uma ou duas mulheres que amei, e pareceu-me tudo apenas degraus da escada de meu egoísmo que levava unicamente à superfície de mim, e entendi minha profundidade. Percebi-me formado por tudo aquilo que abandonei ou que me abandonou.
— São muitos mortos — disse-me ela. Levarás todos contigo?
— Eles não têm vontade própria?
— Eles não existem.
— Não?
— Sem ti, não. Assim como eu. Assim como toda a tua espera, tua angústia e tudo que me trouxe até aqui. E, assim como eu, não existe nada, nem tu, sem que haja o desejo vão de existir. E o existido é fruto do desejo dos viventes, isso que te prende a mim e a mim, a ti.
— E se eu desejo não existir? E se eu desejo não desejar, mas sim ser objeto de outro desejo que me tire a culpa do próprio desejar, de querer, como dizes, o vão da existência?
— Não é a existência que é vã. O desejo dela é.
— De que adianta existir sem desejá-lo?
— De nada. Por isso, estou aqui.
— Raiarás apenas para mim? Não te alimentarás dos que me cercam, de minha família, meus vizinhos?
— Venho para os que me aguardam, e cada um tem seu próprio alvorecer. Não me quiseste?
— Não. Apenas te esperava. O que eu desejava era a noite, que tu, quando não te fazias, roubavas de mim sem me dar em troca coisa melhor que pesadelos. Viraste-me do avesso com aquilo.
— Germinei em ti a espera por mim.
— Pois não existes sem mim, não o disseste? Não somos eu e o meu desejo vão que te fazem?
— Ainda não o percebeste…
— O quê?
— Não existes.
— Já?
— Continuas não percebendo. Já não se aplica a pessoas como tu. Pergunta a teus fantasmas quem foste. Por mais que tentem, não te saberão dizer nada. O que foste, foste apenas para ti. Não despertaste nada exceto manhãs em teu peito. Não entardeceste como os homens, não anoiteceste como as mulheres. Não criaste, não destruíste, não influenciaste ninguém. Não te manifestaste. Passaste pelos dias como teus fantasmas: seguindo portas claramente abertas, sem chaves, sem vontade de trespassar. Quando olhavas para o céu, vias-me e fingias não me ver. Estava em cada crepúsculo, em cada sombra que estendia diante de ti. Sabia-lo. Nunca te fui surpresa. Observaste os homens e vias a mim. Deitavas-te com tuas mulheres e tocavas minha alva em seus corpos nus. Mesmo em teus mortos eu estava, mesmo quando eram coisa de que te compunhas. Já não se aplica a ti. Apesar de teres vivido o quase, tua palavra é nunca.
— E qual, a tua palavra?
— Agora.

13/10/11

terça-feira, 11 de outubro de 2011

ABDUÇÃO


O amor tirou-me da carne a rosa merencória
E alijou de mim minha tristeza
Em troca, deu-me a incerteza
E o não saber meu nada que não é memória

Roguei-lhe a volta da negrura complacente
Com que misturo o café e a noite sólida
Pois fez-me inquieta a forma estólida
E, a alma escura, a violência incandescente

Ao que, depois, disse-me risonho:
— É bom saber insípida a memória
Em cujo fel o amor se viciara
Cuja hora triste a outra dissipara
E à rosa feia devolvera a glória

09/10/11