Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 18 de julho de 2010

O OUTRO LADO DA PORTA

Nesse breve instante que ocupa o espaço entre mim e minhas memórias,
Quando estou desguarnecido das outras ocupações do dia
E ouvindo os sons distantes dos passos do outro lado da porta,
Procurei pela pessoa deixada para trás, esquecida em algum ponto do caminhar diário.

Terá se perdido? Terá parado no meio do caminho?
Cansou-se de não conseguir acompanhar
Ou se cansou de, ao acompanhar, deixar a si mesma para trás?
Por que se terá deixado tão distante, mesmo nesse instante que é tão breve entre mim e minhas memórias?

Procurei pelos pedaços, pelos cantos, por aquelas coisas velhas e empoeiradas,
Livros e pequenas estátuas, objetos testemunhas desses caminhos.
Procurei pelos antigos espaços, pelas melodias tão antigas…
E esquecidas.

Então, o mundo era grande, e as coisas, mágicas.
As samambaias suspensas, a enorme vitrola, a casinha da bomba d’água,
Os armadores de rede, o chão de tacos, o falso rodapé dos quartos,
A lembrança dos cheiros de tudo, lembrança que carregava comigo.

Procurei pelo primeiro beijo, que roubei, pelo sabor da primeira festa,
Quis ouvir de novo o grito dado quando pesquei o primeiro peixinho.
As pedras e os morros e as serras e as dunas, por que não continuaram tão altas,
E as vitórias, tão valorosas?

A primeira bicicleta. A primeira queda. A primeira dor.
Os quadros pintados com tinta guache. As máquinas fabulosas.
Onde estão todas as noites que me iniciaram na solidão aguda das horas?
Por que o sono tinha de me abandonar naquelas noites?
Por que não posso finalmente dormi-las?

Procurei pelos primeiros papéis, ah, os primeiros sonhos transcritos,
As primeiras mistificações, onde deixei?
Um dia de chuva, outro de sol, uma tarde brincando na minúscula horta
E as sombras feitas de vela na parede.

Procurei pela espera das Festas. A arrumação da casa.
O chão encerado, os móveis polidos, as portas abertas em noites de Ano.
Procurei também pelos talheres na mesa, minha cadeirinha mais alta do que todas.
Os melhores sonhos, as noites de filmes e de jogos de cartas.

Procurei por todos juntos em volta de qualquer novidade na casa.
Todos juntos na mesa, todos juntos nas viagens, todos juntos nas lembranças.
Todos juntos.
Por que não podemos todos estar de novo juntos?

Ainda me lembro, isso sem muito esforço,
De como era bom quando faltava, por algum motivo, energia elétrica.
Era tempo de velas espalhadas na casa,
E os espaços eram particularmente dotados de personalidade. Cada canto com o seu espírito.
Havia noites que eu queria que durassem pra sempre.
Noites em que, na mesa, ao redor da vela acesa, todos juntos celebrávamos sem saber
A alegria de estarmos todos juntos.

29/04/03

LONGE DO MAR


Estive fora e longe do mar,
Como se não fora o mar meu velho vizinho.
Como se os horizontes espraiados na forte aurora
Não fossem esse sentimento de perda, de desassossego, de distância de tudo, aos poucos
— Como quando as coisas vão-se despedaçando,
E vai-se ficando só, intranquilo, no mormaço tranquilo do isolamento —,
Essa dor inexplicável do adeus sabido, mas não dito,
Essa certeza que armazena, e estipula, e relaciona, e destila, e faz a conta certa
Das vezes em que se sabe nos olhos o sorriso profundo, sincero,
Comparsa da vida.
Essa vida que nos mira tão pouco atentamente
E que se esvai aqui e ali
No desenlaçar de uma amizade, no alicerçar de um rancor,
No abandonar de um sonho…
Estive fora e longe do mar… Estive longe de tudo…

08/02/02

Mais ou menos assim.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

SONETO À QUE É INCONTÍVEL

(a Lidiane Lima)

Não há guardar em que se guarde o amor.
Ele é vivo e largo mais que a vida,
Pois, quando chega, já é só partida,
Mas partir não vai, sem no viver se pôr.

Viver que se faz, no teu, a se compor:
Como o amor que se esvai da mão perdida
Que, por retê-lo, espasma, espavorida,
Sem ver que, em se perder, já é só amor.

Assim tu és, sólida evanescência,
Que vive o dar-se, mas não o se entregar,
E, em contraste, tocas e é intangível.

Porque em ti, o amor é o verdadeiro amar,
Pois não se pode ter o incontível,
Como, do amor, raptar a extrema essência.

01/05/06

     Quando escrevi esse texto, eu tinha um projeto de elaborar um livro de sonetos em que cada um fosse dedicado a um dos meus melhores amigos. O projeto ainda existe, ainda que engavetado. Um dia, ele gritará em mim a sua conclusão.
    Esse soneto, eu o fiz àquela de quem costumo dizer ser a única pessoa no mundo todo que sabe abraçar-me "direito". Porque quando ela o faz, não é com os braços, não é com o corpo nem com a amizade. É com a alma inteira, que a minha embraça e veste, e, por ela, é também vestida.
    Nenhuma declaração de amor é o suficiente pra expressar essa identidade, esse olhar que é o meu dentro do meu, dentro do dela, essa compreensão, essa valorização.
    Ela é uma flor que eu vi crescer e desabrochar, petalando-se e perfumando a si e, graças a Deus, aos que têm sensibilidade às flores (Deus sabe que há flores que não se dão).
     Há muito, eu procurava um substantivo que pudesse descrevê-la como eu a via: um pulso de luz, uma intensidade intermitente, um iluminar e escurecer, um dia de sol e uma noite negra alternada, crescente e eternamente.
    Parece que ela o achou antes de mim, e perfeitamente: Lampejos
    Pulse, minha linda. Encandeie!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

MOTO-CONTÍNUO

E assim, veio a distância.
Ora o tempo se estria ao tato,
e o espaço se sente papilarmente.
Os pés percebem o que andaram
e param, cheirando o chão,
lambendo o gosto terrenal novo,
os dedos mastigando os grãos
que sequer prenunciam:
o chão novo não prediz nada.
Atrás, na memória esburacada,
as notas das pegadas se deixaram impressas
na partitura da estrada.
Só na morte, pode-se ler a canção.
Do alto.
“Quando comecei a cantar?”, perguntam-se os pés.
“Quem me ouvira? Eu, não.”
Os calcanhares secos e os tornozelos inchados,
os dedos tortos, as unhas deformadas e negras de fungos,
a estrada por dentro,
o caminho sulcado nos ossos
como na pedra o açoite do mar,
o couro lanhado pelo gume do tempo.
E a distância tão clara, tão certa,
tão havida quanto percebida
como as gretas de sol na pele do rosto.
O corpo, parado, sente o hálito esquerdo do vento:
um pilar separando as onipresenças
do sol e da estrada.
Um moto-contínuo. Um pêndulo perfeito.
Os pés se perguntam:
“Ainda soo, mesmo parado?
É isto um longo agudo?”
A estrada nova não parece nova,
assim mostra a consciência do caminhar.
Dentro, na alma pergaminhada,
a máquina engendra os arcos, as cordas,
os sopros e as baquetas,
como um mecanismo de corda,
confirmando o automatismo da música.
Os pés lhe são moucos.
Imperceptivelmente, a partitura flui,
e gretam-se novas notas,
os sentidos se desalinham,
o engenho range.
Os pés, doloridos e inconscientes,
voltam à composição que só se ouvirá
quando forem asas.

10/06/10

sábado, 22 de maio de 2010

Flor de ir embora

(Fátima Guedes)

Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta
Do que a gente chora
Rompe a terra decidida
Flor do meu desejo
De correr o mundo afora

Flor de sentimento
Amadurecendo aos poucos
A minha partida
Quando a flor abrir inteira
Muda a minha vida
Esperei o tempo certo

E lá vou eu
E lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
Agora, esse mundo é meu



Talvez, de todas as músicas, eu tenha com essa a relação mais intensa, mais verdadeira, mais emocionante.
Hoje, eu a descobri na voz da Negra.
Deixo pra vocês aqui essas duas versões.
Sintam-nas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

PARA OS MEUS AMIGOS


um gosto novo de café
um pedaço de filme
uma obra inacabada
uma maré cheia

uma hora bem gasta
uma sorveteria
um acerto de ideias
uma sombra sobre a água

um recado
uma voz
uma janela
uma chuva

um cheiro de manga
uma música
um dia bom
uma cachaça com limão

uma fogueira
uma beira de praia
uma cachoeira
um sol que se põe no mar

uma cavala frita
um sapoti maduro
um passeio de bicicleta
um riachinho

uma duna
um cão
uma história
uma pausa

um cinema
uma luz de vela

e uma flor de mato
desabotoada

21/05/10

TESSITURA

Eu não quero a tessitura
de uma forma presa.
Palavra que se preze
diz.
Entretanto, como as linhas de uma renda,
é preciso que não se saiba
onde começa
e onde termina
o dito.
A palavra boa
não sabe não
a hora de morrer.

21/05/10

domingo, 9 de maio de 2010

É QUERER DEMAIS…

— Ei-las, as palavras. Usa-as bem, Meu filho!, disse Deus.
Adão, obviamente:
— Hein?

09/05/10

O CONCRETO DA VIDA DAS LETRAS


Caso essa palavra vida
(com efeito, a das letras)
abandonasse a abstração substantival
e se concretizasse
denotativamente,
como será que se sentiria
a vogal fraca
de um átono e atônito hiato?
Como soaria
um desencontro consonantal
epenteticamente separado?
(de que matéria seria
a vogal amante
pivô de tal desfeitura?)
O diapasão do U
me parece agora,
morto o trema,
um sorriso sem olhos,
e a firmeza do ponto final
é birra solitária,
como já diriam tristemente
as reticências...
Já vejo a vírgula
tropeçando
o caminho natural das sinalefas,
quando as sílabas
percebem aturdidas
que, apesar da caligrafia cursiva de Deus,
letras nascem
e morrem
sós.
Ei-las foneticamente amarradas,
prefixadas, hifenizadas,
germanicamente compostas,
repetidas,
à espera de sua própria voz.
Sequer sussurram suas experimentais
aliterações.
Enlouquecem, formam verbos,
neologizam-se
para que, na ilusão de uma transitividade,
complementem
umas às outras.
A solidão metalinguística das letras
é palavra-ônibus,
é coisa que não tem nome,
tendo-o.
Então, desistem de ser palavras.
Ser palavra é iludir-se
no conjunto formal
de uma significação coletiva,
mas vazia,
visto que a isso
segue-se a morte lexical:
um ultrajante estado de dicionário.
Preferível é
encadaverizar-se, mas de pé,
dignamente, puramente.
Preferível é a tautologia
de ser-se o que se é.
Põem-se lado a lado
crescentemente,
alfabeticamente.
Milhares, milhões
de A enfileirados,
rudes, inefáveis, incaracterizáveis
pelo que não os seja.
Para serem, enfim,
letras,
inanimadas como números,
que se perpetuam
sem a consciência do infinito.

09/05/10