Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
Flor de ir embora É uma flor que se alimenta Do que a gente chora Rompe a terra decidida Flor do meu desejo De correr o mundo afora
Flor de sentimento Amadurecendo aos poucos A minha partida Quando a flor abrir inteira Muda a minha vida Esperei o tempo certo
E lá vou eu E lá vou eu Flor de ir embora, eu vou Agora, esse mundo é meu
Talvez, de todas as músicas, eu tenha com essa a relação mais intensa, mais verdadeira, mais emocionante. Hoje, eu a descobri na voz da Negra. Deixo pra vocês aqui essas duas versões. Sintam-nas.
Eu não quero a tessitura de uma forma presa. Palavra que se preze diz. Entretanto, como as linhas de uma renda, é preciso que não se saiba onde começa e onde termina o dito. A palavra boa não sabe não a hora de morrer.
Caso essa palavra vida
(com efeito, a das letras)
abandonasse a abstração substantival
e se concretizasse
denotativamente,
como será que se sentiria
a vogal fraca
de um átono e atônito hiato?
Como soaria
um desencontro consonantal
epenteticamente separado?
(de que matéria seria
a vogal amante
pivô de tal desfeitura?)
O diapasão do U
me parece agora,
morto o trema,
um sorriso sem olhos,
e a firmeza do ponto final
é birra solitária,
como já diriam tristemente
as reticências...
Já vejo a vírgula
tropeçando
o caminho natural das sinalefas,
quando as sílabas
percebem aturdidas
que, apesar da caligrafia cursiva de Deus,
letras nascem
e morrem
sós.
Ei-las foneticamente amarradas,
prefixadas, hifenizadas,
germanicamente compostas,
repetidas,
à espera de sua própria voz.
Sequer sussurram suas experimentais
aliterações.
Enlouquecem, formam verbos,
neologizam-se
para que, na ilusão de uma transitividade,
complementem
umas às outras.
A solidão metalinguística das letras
é palavra-ônibus,
é coisa que não tem nome,
tendo-o.
Então, desistem de ser palavras.
Ser palavra é iludir-se
no conjunto formal
de uma significação coletiva,
mas vazia,
visto que a isso
segue-se a morte lexical:
um ultrajante estado de dicionário.
Preferível é
encadaverizar-se, mas de pé,
dignamente, puramente.
Preferível é a tautologia
de ser-se o que se é.
Põem-se lado a lado
crescentemente,
alfabeticamente.
Milhares, milhões
de A enfileirados,
rudes, inefáveis, incaracterizáveis
pelo que não os seja.
Para serem, enfim,
letras,
inanimadas como números,
que se perpetuam
sem a consciência do infinito.
09/05/10
A máquina bobina
o que a menina,
traquinando, maquina.
No papel, um raio cai.
No céu, rabisca
da poetisa um haicai.
Da tua respiração,
vivifica-se
a “pura imaginação”.
22/04/2010
a Rebeca Xavier, a quem um passarinho, dentre os galhos de uma cerejeira em flor num final de tarde, roubou a imagem que vive dentro do sorriso.
Hoje, gostaria de ser o vento
ou um passarinho dos matagais, selvagem e incontível. Gostaria de te olhar de esguelha e partir disparado pelos galhos, escamoteando-me, e, escondido, roubar-te a imagem que vive dentro do teu sorriso. De soslaios, aqui e ali, meus rastros desenhados entre as folhas se te revelariam — me buscarias? Eu teria tua feição capturada e o sangue a mover minhas asas e a avermelhar meus olhos — assim como a luz da aurora — e a bater em meu peito.
Ao final, em troca do teu nome, fugiria meu coraçãozinho de ave, levando-me junto. Pousaríamos um dia onde estivesses e, ao teu lado, com um silvo suave, selvagem e incontível, te faríamos parecer que o vento te conhecia como conhece o mar e a montanha que acaricia e veste, dizendo seus nomes.