Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
INCONTÍVEL
a quem um passarinho, dentre os galhos de uma cerejeira em flor num final de tarde, roubou a imagem que vive dentro do sorriso.
Gostaria de te olhar de esguelha
e partir disparado pelos galhos,
escamoteando-me, e, escondido,
roubar-te a imagem que vive dentro do teu sorriso.
De soslaios, aqui e ali,
meus rastros desenhados entre as folhas se te revelariam
— me buscarias?
Eu teria tua feição capturada
e o sangue a mover minhas asas
e a avermelhar meus olhos
— assim como a luz da aurora —
e a bater em meu peito.
Ao final, em troca do teu nome,
fugiria meu coraçãozinho de ave,
levando-me junto.
Pousaríamos um dia onde estivesses
e, ao teu lado, com um silvo suave, selvagem e incontível,
te faríamos parecer que o vento te conhecia
como conhece o mar e a montanha
que acaricia e veste, dizendo seus nomes.
20/09/09 (traduzido em 02/04/2010)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
POEMA DE AMOR
(de Rebeca Xavier)
(Clique no nome da autora para acessar a página de origem.)
Gosto muito mais daquela folha que cai
do alto de uma árvore e vai povoar o chão úmido.
Gosto muito mais da sombra mentirosa
que a cadeira do bar lança na parede suja.
Gosto muito mais do pedaço diminuto de pão
que vai na cabeça daquela formiga ali, cansada.
Ainda mais da cachaça com limão e da cerveja quente
que me ferem a garganta e me ajudam a gritar.
E é só. Gosto dos detalhes não-transitórios.
Gosto das persianas perto das quatro da tarde.
Gosto ainda mais da luz das quatro da tarde
que passa pelas persianas e brinca com a poeira.
Gosto do silêncio das conversas e do samba
e daquele violão consertado.
Março/2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
RECOMEÇO
Não adianta estender o sofrimento além dos dias de lágrimas.
Não adianta maldizer a vida ou a condição humana.
Não adianta tentar aprender ou extrair metafísicas.
Também não adianta tentar não sentir.
Assim como respiramos, fazemos compras, perdemos o ônibus, amamos perdidamente, enfim, vivemos, todos terminamos.
E recomeçamos.
25/03/10
sexta-feira, 12 de março de 2010
O FIM DO "PAI" DO GERALDÃO
Tiveram fim na madrugada desta sexta-feira, 12 de março de 2010, as vidas de Glauco Vilas-Boas, cartunista brasileiro, e Raoni, seu filho, que foram vítimas de um assalto em Osasco, São Paulo.Esse é o teor dos informes que encontrei em várias páginas da internet nesta manhã. Fiquei me perguntando: tirando todo o óbvio peso da violência, da morte e do ultraje, seria essa a definição apropriada pro Glauco? Será que a mídia virtual não poderia dedicar algumas linhas a mais com informações mais pertinentes e justas sobre um dos mais irreverentes artistas críticos da sociedade brasileira? Será que não seria melhor pros fãs e pros leigos um texto mais digno, mais completo, até mesmo mais ácido, como era a visão de Glauco, sobre ele próprio? Senti falta disso. A mim, pareceu que o horror do fim das vidas dos dois e o da carreira de Glauco, destinada à reflexão sobre o cotidiano e seus problemas morais, sociais e políticos, importou menos que o laudo da polícia de Osasco. Crime hediondo, sim. Perda ainda mais hedionda pra todos aqueles que têm os olhos tristemente abertos sobre este país.
Glauco foi autor de personagens alegóricos e arquetípicos que representam desde o início dos anos 80 as criaturas urbanas das grandes capitais brasileiras. Com sua visão sarcástica, ele idealizou personagens marginais e cômicas que podem ser identificadas em nós mesmos, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, parentes, conhecidos etc.
Glauco, genialmente, criou uma personagem que expõe um retrato crítico mais ácido sobre a figura humana que as suas charges políticas, mesmo sendo estas sempre muito explícitas, contundentes e revoltantes.
Lamentemos pela perda da sua vida e da de seu filho, sim, muito, enormemente. A violência que, tantas vezes, foi retratada em seus cartuns tirou a sua vida, como a de tantos outros cidadãos de São Paulo, de Fortaleza, de Salvador, do inacreditável Rio de Janeiro. O caos reinou. E reina.
Geraldão teria ficado de cara com isso.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
AS PALAVRAS VERDES
elas são silêncio
(que, palavra já pronta, como numa árvore,
adorna o incipiente e diletante verde).
27/02/2010
sábado, 19 de dezembro de 2009
O MAL DE AMOR
Walter Salles e Daniela Thomas - Terra Estrangeira (1995)
(Clique na imagem para ampliá-la e na legenda, para acessar sua página de origem.)
E chegamos então a essa chave extraordinária da vida, que é a saudade.
A ideia de saudade, que é essa autorização que conferimos a nós próprios pra ficar tristes, se tivermos razão para isto."
Pedro Ayres Magalhães,
in Língua - Vidas em Português
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
PONTO FINAL
E senão é apenas
um caso contrário.
Do meu caminho,
retiro todas as possíveis ocorrências
— não me interessam
as minúcias das coisas
nem seus prós e contras.
De fato, não há nada.
Nem de mito.
Verdade ou mentira,
ambas são vãs possibilidades,
neutras abstrações.
O que me interessa é o concreto
que é que eu te quero
e ponto final.
04/12/09
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
ACORDE
e de ar.
sopro,
e saem as notas tortas
que, meio de esguelha,
meio sei-lá-que-sejam,
dizem o que tenho de mais íntimo:
que o meu peito é cheio de amor e de ar
dissonantemente.
18/11/09





















