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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DE LO QUE LO TIENE UNO

Eu tinha tanta vontade de ir à Espanha
Beijar a alma dos castelos, roubar uma espada de Toledo
Imiscuir-me en la sangre de la gente, de las calles y de la lengua
Trilhar quixotesco até o mar de Cádiz
E, fazendo-me de lança e moinho, honrar dulcineas
Mas a Espanha não me quis

Eu tinha também vontade
De fazer-me ao mar marinheiro
E apresentar-me homem diante dos ventos
E meu corpo, aos seus corpos, e meu espírito, aos seus
E, se face ao leito, tocá-lo encantado
E virar tritão, titã, leviatã
Mas o mar também não me quis
Exceto pela onda em meus pés como que me dizendo
“De mim, só tens o sal”
E o vento só me veste e me vibra um frio de ostra morta

Também tinha vontade de prender-me à terra
E criar raízes como a mangueira
E, telúrico, tirar da matéria a matéria para também ser terra, rocha, húmus e cachoeira
Numa casa pequena e amarela de porta e janela
E num quintal sem fronteira, de onde partisse o mundo
Mas a terra me tem outros planos

Quis muito; tive outros muitos

Tive desertos entre as gentes e mares ilhando-as
Malgrado seus olhos, que nunca me deixaram de atingir

Tive uma pátria vastíssima, mas idioletal
Onde era povo e rei, nuca e guilhotina

Tive jardins, tive céus abertos, tive chuvas, ventos, ondas, relâmpagos, trovões
Tive o chão e tive o peixe, tive a terra firme e cheia de saudade
Tive o cansaço da vida e o medo da morte
E tive a mim, tendo eu a possibilidade de não ter tido

Mas não tive a Espanha, não tive o mar e não tive a terra
Esses restam longe, muito além das sombras de minhas mãos
Num intermédio vago entre mim e aquilo que temo

21/10/10

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