Número de sílabas (desde 11/2008)

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terça-feira, 7 de junho de 2011

LINHA DE PASSE

Marcelo Zocchio & Everton Ballardin -

      Aquele professor havia pendurado as chuteiras. Alegara que os cartolas do MEC queriam que ele simulasse falta a cada lance, pois diziam que o juiz tinha tentado consecutivamente e sem sucesso todos os ENEM e acabara entrando pelas cotas na plêiade da SEDUC.
    Em seu lugar, colocaram prestos um moicano semianalfabeto de 19 anos que engravidara uma menina-maria-chuteira de 17, por representar melhor a cultura de seu país.
      E viva o futebol-arte!

07/06/11

domingo, 5 de junho de 2011

DESCAMINHO


Morte é uma coisa que vem vindo, vem vindo, disfarçada de idade, travestida em rugas resignadas, sestrando artrites, acenando doençazinhas… Morte é a idade.
A minha, quando chegar, para seu doce espanto, já vai me encontrar velho.
Terá pouco de fazer: talvez um afagar de cabelos, um beijo nos olhos, talvez só um cafezinho silencioso, amigo — bandeiriano. O silêncio nos colocará no mesmo patamar — também fui eu ao seu encontro e encontrei-a pronta, também eu não desejara a parlenda de uma visitante desconhecida.
No mais, ficam esquecidas as pequenas coisas: os papéis nunca lidos, os sapatos gastos, os porta-retratos ansiosos por reencontros. Ser velho como ela o quer é não precisar. É desfolhar-se um outono na folha, que suicida as árvores que fora e que nunca fora.
Outro dia, disse do ideal ser um pé de vento que me viesse e me desenraizasse, que me morresse uma morte com asas, com ar por todos os lados, arrebatadora. O que não sonham os desvalidos…
Quando ela vier, eu já serei brisa, já terei ido e vindo, já serei descaminho, estrada vicinal que nunca se dera de rodovias.
Quando vier, serei eu quem dirá com um leve meneio de olhos aonde irmos. E ela saberá.

06/05/11

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Viagem de Novembro


VIAGEM DE NOVEMBRO
(Erasmo Disbel)

Foi uma vez
Numa triste tarde de novembro
Logo eu parti
E aos poucos te perdi de vista
E viajar foi como morrer
Só em saber que na manhã seguinte
Estaria assim tão distante
E não veria mais teu sorriso
A morte rondou-me a cabeça
E conter tanta dor foi preciso
Amanheci
Era uma dia triste ainda em novembro
Te busquei em vão
E aos poucos lembrei da viagem
Mas estar aqui é como nem estar
Pois estás sempre comigo
Aqui no meu coração
O pensamento guiando a saudade
Voa qualquer légua
Pra estar com as pessoas
Que mais amo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

FÉRTIL


Submerso nos vapores de sódio
e nos mormaços das primeiras águas da tarde,
emerge um poema
que cheira a bosta,
pelo que muito agradece
a semente do meu amor.

25/05/11

NÃO IMPORTA O QUE DIGAM


Não importa o que digam: escrever é estar perdido. Lá estamos nós, no lugar de onde as palavras vêm, cercados por elas, respirando-as, epiteliando-nos delas. As palavras são a nossa queratina. Escrever é como raspar-se, derreter-se um outro corpo que é mais nosso, mais nós que este. Em seguida, juntam-se as serragens dessa aplanação, põem-se balsâmicas ou acres ou adstringentes ou insalubres em pequeninas fôrmas, microscópicas prisões que lhe amoldam em vocábulos, em clauses, fragmentos paranormais que dialogam animicamente em silêncio. Que mistério, o seu encarrilamento… Quando bom, quando verdadeiramente bom, não se veem as extremidades da composição, e o gemer da bitola sob as rodas de ferro parece deitar aos ouvidos, aos olhos, à pele um esgarçar ou um amaciar de uma roupa tão querida, tão perdida em tantos baús desaparecidos: as palavras são uma lembrança nova, de tão velha, um espelho ao inverso, um labirinto em linha reta.
Depois, o texto!: um mar com cabelos, contrariando o que me advertia meu pai, ao me dizer do mar. O texto é um mar com cabelos de mulher. Trança-se, emaranha-se, agarra-se em espasmos violentos de coito, singelamente se afaga, arrepia-se de medo, e flui, e ondula, e arrasta, e invade, e destrói.
Faz-se um homem ao mar de coragem em borco, de vela prenhe de desejo, a carena em arco retesada de empáfia, o leme ibérico, a carranca horrenda, e vêm-lhe tufões, leviatãs brancos, hidras, Caríbdis… Que pode um homem do mar valer sem bússola, sem estrelas? Quem socorre os náufragos nessa odisseia que é dizer-se homem entranhando-se no meio das palavras? Em contrapartida, quem lhe sabe os sabores da vida? Quem lhe diz do ser-se, além do que mal lhe sabe ele próprio a serventia?
Não importa o que digam: diz-se de escrever ser um deixar-se, um abandonar-se, um libertar-se… não é! Liberta-se mesmo aquele que, em costas e enseadas, crepuscula ou alvorece junto ao sol, ou evola-se anímico com a maresia, carregado pelo vento entre as palmas e os coqueiros. Liberta-se quem colhe do solo pétreo e férreo dos livros o cálcio para o esqueleto de seu espírito. Liberta-se o homem que, tripulante de escuna, passeia em conveses de pés descalços e camisa aberta, cheirando um oceano que sente, mas não toca.
Escrever é calafetar, é macular de piche negro a carne por baixo das unhas até os ossos, é bordejar porque se vive. É não ter a alternativa da ilha, é adivinhar astros, é flertar cego com a morte. Enquanto, nos vagões-restaurantes, leem adolescentes vitorianas seus ais de se perderem, respira chama e manipula cólera o foguista, que dialoga com o inferno e gosta — o mais próximo de Deus que lhe permite o trem.

26/05/11

terça-feira, 24 de maio de 2011

DUAS LUAS




Seus olhos são como luas
cheias, magnéticas
— a coisa mais linda de se ver numa noite sem luzes artificiais.
Se as pessoas soubessem como é o céu à noite,
apagariam as lâmpadas, as velas,
quebrariam o sódio das iluminações públicas.
As melhores noites de minha vida sempre foram a céu aberto,
sem interferência de outras luzes…
Ímã de sonhos, joia branca num manto cravejado de estrelas
feitas de memórias de passados
e de impulsos brandos
que regem o coração que movimenta o espírito.
Ou Luas, no plural mesmo…
Como se uma não bastasse para se perder um poeta.

23/05/11

sábado, 21 de maio de 2011

AS INVASÕES BÁRBARAS

Curiosa, essa discussão que tem mexido os ânimos de professores, alunos e aspirantes a ambas as coisas, e que diz respeito à Língua Portuguesa.
Normalmente, quando se começa uma crônica, um artigo, faz-se isso com ímpeto, gana… vontade de colaborar com uma discussão sobre o objeto do texto. Neste caso, confesso que me dá uma preguiça… A mesma preguiça que se desenha diante da obtusidade das coisas e das pessoas-coisas. Vejo opiniões “apaixonadas”, oriundas de um buraco conteudístico profundíssimo. Nenhum conhecimento do que é uma realidade de sala de aula, em alguns; em outros, já cascudos, um “espírito-de-porquismo” (com hífen mesmo, que é para ficar ainda mais diacronicamente neológico). E todos (meu Deus!) apedrejando os “dinossauros hipócritas”, os “reacionários”, os “empatadores da liberdade”.
Confesso novamente meu cansaço. Todo dia, eu vejo minha cultura fragmentar-se; nossas perspectivas de ascensão de raciocínio minguarem; o individualismo vencer a coletividade… e o monólogo substituir o diálogo. Agora, vejo o pseudointelectualismo proveniente das academias, de suas camadas mais mentalmente indolentes, projetar-se como um guerreiro sumério, espada sangrenta em punho, dentes cerrados travando gritos guturais, sobre livros em bibliotecas, sobre a memória, sobre a ciência…
Que conhecimento do que é Língua Portuguesa têm esses senhores? Posso muito bem dizer qual seja: todos, sem exceção, maldizem seu próprio objeto de estudo. Não por ódio. Por vingança, por recalque, como a raposa que se propõe a desenraizar quantas videiras possa. Será que não há limites para a burrice e a vaidade? É preciso destruir o belo por não compreendê-lo? Ou por ser ignorante quanto a ele? Será que não se enxerga a ineficácia disso?
O que estão fazendo com a Língua Portuguesa é o que a raposa faria com as videiras se tivesse um machado. Quanta burrice, meu Deus, quanta vaidade!!! Cresçam, infelizes, saiam dos casulos coloridos e das nuvens etéreas da maconha universitária e entrem em salas de aula com mais de 60 garotos sem perspectiva, desorientados, para entenderem qual é o real propósito da educação! Não é adoçando a merda que ela vai deixar de ser merda e de feder! O Brasil é o TERCEIRO país do mundo com maior dificuldade em ocupar cargos que exijam cientificidade, operacionalidade, INTELIGÊNCIA!!!! E agora, vêm falar em preconceito linguístico, em constrangimento, em desestratificação social mediante uma prestação histórica de contas consistente em, finalmente, aceitar a valorização do uso de uma variação linguística menos favorecida? Imagina-se, por acaso, que, vestindo-se bem uma criança com fome, enche-se-lhe o bucho?
NÓS, professores, NÓS somos os responsáveis por despertar naqueles garotos a percepção múltipla da realidade, da adequação, da possibilidade do aprimoramento. NÓS somos os que podem, por meio da CAPACITAÇÃO, dar-lhes ferramentas para, verdadeiramente, saírem de uma situação de exclusão social.
Será possível que nunca tenha fim esse afrescalhamento com que se vem tratando a educação no Brasil? Querem maquilá-la até quando? Quando vão ficar contentes? Quando as universidades públicas perderem todos os seus ótimos professores para as privadas (com ambiguidade intencionalíssima), por estes não suportarem mais a defecação intelectual que estão tentando fazer com o Ensino Superior? E que não se tenha dúvida, pois é este o plano: ESTATÍSTICAS. Para os que não o sabem, nos âmbitos do Fundamental e do Médio, já está sendo feito há muito tempo. Não se pode mais reprovar um aluno que não tem condições de passar de ano. Ora, vejam só: MAS QUEM O PROFESSOR PENSA QUE É PARA AFERIR O NÍVEL DE INTELIGÊNCIA DO ESTUDANTE?

Deve haver alguém, algum teórico, tentando encaixar essa tática de aceitação da “informalidade” em outras ciências. História e Matemática, por exemplo:
— Õdi eh q tá u herru na minha resposta???
— Você disse que o Brasil foi invadido pelos ingleses em 13 de maio de 1500, liderados pelo capitão Barbossa e pelo Jack Sparrow.
— Poha, feçora, e pra q merda eu tenho q çabê deças koiza? E as minhidea, num conta?
— É verdade. Tome seu 10.

— I umaizum eh doiz?
— Claro que é.
— + eu soh herrei porum!
— E daí?
— + c ñ tah veno q eu fiz a poha da prova çem meu çelular? Inda keria q assertaci?

Indignação diante das últimas condutas do Ministério da Educação (cadê?) e Cultura (onde?) é pouco. O sentimento que se cria ainda não tem nome, e (eu sei) está fadado ao minguamento, pois, para cada professor e pedagogo indignados, há uma caterva de “defensores do massacre social, emocional e psicológico” que o ensino da língua padrão causa nos alunos. No fundo, o desejo deles talvez se baseie num “flower power” tardio e mal-interpretado, ou seja, talvez queiram um retorno à ignorância feliz e original que só o idioleto e a idiossincrasia absolutos de um bebê possam dar: um estado magnânimo de existência, em que não se tenha nem se precise de nada, exceto que um grande organismo gestor lhe proveja sangue e líquido amniótico em que se misturem fezes e urina, que, de tão doces, serão imperceptíveis.

21/05/11

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ORAÇÃO PELAS ESTRELAS

Meu Deus, tende piedade dos que, fortes, são verdadeiramente frágeis
pelo que os tornam frágeis as obrigações de sua própria força.
Deitai Vossos olhos sobre seu peito,
pois nele sangram dicotomias e paradoxos infernais,
misturam-se ácidos com sais e açúcares, formando um fel
do qual se alimentam todo dia.
Amparai-os, Senhor, recebei-os.
Eles vão a Vós derrotados, humilhados, mastigados e cuspidos pelo mundo
a que nunca foram capazes de adaptar-se.
São seus olhos de órbitas prismáticas que, janelas escancaradas,
aceitam tudo como luz
e não rejeitam nada, e invertem paisagem e casa,
e obrigam-nos à matéria dos corpos, à estrutura dos ossos, à maquiagem do riso,
porque são feitos apenas de vontades, desejos e consciências,
porque a forma é uma donzela de ferro que lhes sangra e sorri.
Assim, deslocados, marginalizados, destruídos sob máscaras de bronze,
armaduras de titânio, escudos e lanças de diamante,
eles se deitam fetais no escuro e choram, e pedem pela morte.
Apiedai-Vos deles. Não é sua culpa serem alados de asas aleijadas,
mondrongos ocultos sob disfarces humanos.
Não é culpa sua não terem fôlego nem terem o medo que leva os ordinários a Vós.
Nem o é o não serem cordeiros, Senhor — a lã os sufocaria à morte.
Lembrai-os do que são feitos: Vossa imagem e semelhança.
E compreendei que, assim, não se poderia esperar-lhes subserviência.
Caso não caibam em Vosso céu, meu Deus, em virtude do ciúme dos santos e dos anjos,
dos que Vos obedeceram cegamente e arderam, e se imolaram, e se flagelaram, e mataram mouros,
guardai-os do lado de fora, em paz.
Deixai-os ser a forma que, aqui, tiveram de ocultar:
concedei-lhes, ó Pai, a distância e a solidão de uma estrela,
das que as crianças contam nas noites interioranas
e nas urbanas em que falta energia elétrica,
quando os homens recolhem-se ao seu medo e recorrem a Vós, acovardados,
pois foram aqueles também crianças,
mas das que não dormem nem temem, embora sonhem secreta, mas concretamente
com o sempre serem-nas.

19/05/11

Agora, eu sou uma estrela


Poema de Fernando Faro constante do álbum O Trem Azul de Elis Regina.

Agora, o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.
Agora, o braço é uma linha, um traço,
um rastro espelhado e brilhante.
E todas as figuras são assim:
desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas,
um quadro de impulsos, um processamento de sinais.
E assim — dizem — recontam a vida.
Agora, retiram de mim a cobertura da carne,
escorrem todo o sangue,
afinam os ossos em fios luminosos,
e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.
Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.
Como uma estrela. Agora, eu sou uma estrela.

terça-feira, 17 de maio de 2011

ENQUANTO NÃO CHOVE


O Sol já nasceu, parido da Terra, em algum lugar onde não chove nunca.
Em outro, ele prenuncia um dia ausente de si, pois já não importa,
ou já se resignaram sob nuvens de chumbo, ácidas, carbônicas, maciças.
Ali, ele apascenta jovens e perdidos às praias de algas imundas.
Acolá, ele desfaz os planos de um sonhador.
Enquanto não chove, enquanto não se desmancha um dia
cheio de fumaças veiculares e humanas,
e não se derretem ainda todas as gorduras acumuladas nos coletivos,
e não se deixam levar de medo os cães a suicidarem-se de nós no meio das avenidas,
e não destrepam as mães as roupas reluzentes varais adentro,
e não se acumulam transeuntes ao redor do motociclista esmagado,
e não se estouram mais tímpanos e almas sob projéteis sonoros de merda e luz,
enquanto não chove,
reza o dia uma ave-maria — pois no credo não crê o dia — aos que não dormem quando se vai,
de pena, de lamentação, de condolência, de irmandade,
pois sabe o dia da contemplação aos homens sem luz, às mulheres sem alma, aos velhos sem nada,
pois o dia sabe o que é a lavagem da chuva sobre e sob essa terra
onde não há mais o que se ponha em arcas,
nem aonde as arcas irem, nem por quê.

17/05/11