Seus olhos aprocelados
De tantas santas-marias
Fingem cerrar, quando dizem
Que são muitas dores em cada presença
— que se esgarçam em suas tessituras
E que nunca alcançam umas às outras,
E que não se dizem,
E que existem sós em sua inexistência.
Dolorosamente chovem,
Indissipadamente crescem,
Enrugando raios, embolsando trovões,
Encrespando de piedade o mar dos seus homens
E afogando todas as almas que perderam,
Que esqueceram de levar às ilhas desertas de seus dias.
Por onde se esparsam, sem se dividir,
Sem nascer nem adolescer em seu envelhecimento
— que é tão comum na resignação parda dos simples —,
Aspergem dolentes, sobre as flores dos homens,
Crescentes de outonos, instâncias de sombras mornas,
Modorras de estios mornos, cadências de mormaços
Que, apenas se iniciam,
Queimam a pele da terra
Como queimam seus cristalinos de pedra, couro de sua pele.
Seus olhos ígneos e amarelos
Defloram os baixios onde casas se amontam,
Onde gentes dormitam e ebulem quietas
— flores cálidas que morrem vivas em suas cores —,
E seus raios choram sua dor,
E sua dor também não os alcança,
Também não os iguala dentro de suas córneas.
Arrebentam na porta dos homens
Seus olhos vítreos e opacos de aluvião:
Não abrem!
Desabalam os cachoeiros cheios de espasmos violentos
De seus olhos de queda-d’água
Suplicantes,
Efusivos de desespero pela infertilidade dos homens:
Não abrem!
Seus olhos afantasmados de vento
Tão-só vestem, invisivelmente comiserados de dor, os homens,
E se apiedam em levantes bafejados de pó
Contra seus corpos, contra seus olhos,
Contra seu caminhar bovino,
Contra sua carne de aço:
Não abrem!
As portas dos homens estão cegas
Aos seus olhos de sol
— portas sem frestas —
Que fazem com que a terra chore na ascensão do vapor que vira nuvem,
E que chore o céu na nuvem que vira rio,
E que sangre a terra no rio que vira mar,
Que o céu veste desveladamente azul de órbitas afadigadas e atentas,
Qual um manto pungentemente vivo
Onde brilha rosa-dourado um camafeu de lua,
Que, em seu brilho, chora.
Como choram seus olhos lácteos nas noites de vigília.
23/06/2009
Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
terça-feira, 23 de junho de 2009
CARIÑO LUCERO
Soy lo que me haces
Estoy donde me piensasTu risa es tu retrato
Mi risa, tu presencia
09/04/2009
sexta-feira, 12 de junho de 2009
MESÓCLISE
e tudo fica assim
torto
cego
.
o momento carne-e-cruz
em cima do morro dos olhares.
extraído, subtraído, substrato.
a fila das horas
s
e
g
u
e
l
e
n
t
a
m
e
n
t
e
de sàrt para frente.
o que é torto e cego descarna-se sobre o morro
e uma pequena mas fatal
mesóclise
explicitar-me-á
diante de todos os outros.
19/01/2006
torto
cego
.
o momento carne-e-cruz
em cima do morro dos olhares.
extraído, subtraído, substrato.
a fila das horas
s
e
g
u
e
l
e
n
t
a
m
e
n
t
e
de sàrt para frente.
o que é torto e cego descarna-se sobre o morro
e uma pequena mas fatal
mesóclise
explicitar-me-á
diante de todos os outros.
19/01/2006
PRÁXIS
Ver na carne a luta de uma vida inteira.
Vê!
E o que se verá é carne-só-carne
porque a fresta que mostra a carne verdadeira
a carne roxa de hematoma
a verde de sal
a negra da ferida
a gris da alma toda suja — suja do mundo
essa só se mostra para além, bem além
do fundo dos olhos.
Essa, não há espelho que exponha.
19/01/2006
Vê!
E o que se verá é carne-só-carne
porque a fresta que mostra a carne verdadeira
a carne roxa de hematoma
a verde de sal
a negra da ferida
a gris da alma toda suja — suja do mundo
essa só se mostra para além, bem além
do fundo dos olhos.
Essa, não há espelho que exponha.
19/01/2006
JÁ NÃO SEI MAIS DANÇAR
Agora, já não me pulsa nas veias o sangue libertador
e o sem-brilho da escuridão forte e determinada
já não flui.
Agora, pedaços de carne se espasmam desencontrados,
perdidos, esquecidos por sobre os ossos sem dia e sem noite.
Por onde andam os espíritos das casas que fui,
onde estão guardadas as horas que passamos juntos?
Já não sei mais dançar.
Só restaram a poeira dos móveis, uns livros velhos e não-lidos,
uma arca de tesouros vazia de valor.
Preciso é acender a luz, descortinar o lume velho,
afogar a abstinência de muitos e muitos anos da fria realidade.
Preciso agora, mais que nunca, enxergar.
Os olhos abertos, no entanto, contam-me novidades desagradáveis,
coisas que penso já haver visto.
Talvez com os olhos antigos, de outros carnavais.
Talvez pressentido, com um sabor às vezes amargo de antigamente,
como se chegado um vento descuidado e fugidio,
um aviso da vida: nos encontraremos.
Hoje choveu e está quente.
Não há música em parte nenhuma da casa nem em mim.
Mesmo se houvesse,
mesmo que girassem de novo as pás do meu velho moinho,
já não danço mais, já não sei mais de nenhum carnaval.
17/03/2007
e o sem-brilho da escuridão forte e determinada
já não flui.
Agora, pedaços de carne se espasmam desencontrados,
perdidos, esquecidos por sobre os ossos sem dia e sem noite.
Por onde andam os espíritos das casas que fui,
onde estão guardadas as horas que passamos juntos?
Já não sei mais dançar.
Só restaram a poeira dos móveis, uns livros velhos e não-lidos,
uma arca de tesouros vazia de valor.
Preciso é acender a luz, descortinar o lume velho,
afogar a abstinência de muitos e muitos anos da fria realidade.
Preciso agora, mais que nunca, enxergar.
Os olhos abertos, no entanto, contam-me novidades desagradáveis,
coisas que penso já haver visto.
Talvez com os olhos antigos, de outros carnavais.
Talvez pressentido, com um sabor às vezes amargo de antigamente,
como se chegado um vento descuidado e fugidio,
um aviso da vida: nos encontraremos.
Hoje choveu e está quente.
Não há música em parte nenhuma da casa nem em mim.
Mesmo se houvesse,
mesmo que girassem de novo as pás do meu velho moinho,
já não danço mais, já não sei mais de nenhum carnaval.
17/03/2007
DA ESPERA DA CONCHA
Espero como a concha espera a onda no mar
Na beira, vem a onda
Ela lambe, afaga e quebra
E traz e leva e salga e fustiga
De carícias conjuntas e infinitas a concha
Que derrete, que dissolve e desaparece
Que, só querendo ser levada para longe, pra longe
É levada pra sempre
Na carne misturada da onda
Que é, na verdade, infinitas conchas
Que ainda esperam, vagando pelo mar
Espero como espera a concha
Que cochicha só, bivalve esquartejada,
Que cochila só no seu ofício de esperar
14/10/2007
Na beira, vem a onda
Ela lambe, afaga e quebra
E traz e leva e salga e fustiga
De carícias conjuntas e infinitas a concha
Que derrete, que dissolve e desaparece
Que, só querendo ser levada para longe, pra longe
É levada pra sempre
Na carne misturada da onda
Que é, na verdade, infinitas conchas
Que ainda esperam, vagando pelo mar
Espero como espera a concha
Que cochicha só, bivalve esquartejada,
Que cochila só no seu ofício de esperar
14/10/2007
NOITE
Nuvens cinza na janela
Passam.
Um morcego grita e a parede responde.
As telhas mal-emparelhadas resmungam
Sobre os caibros e os cérebros que também resmungam,
E as paredes, e os morcegos, e as nuvens,
Todos resmungam.
Assim vive a madrugada
Sem sono ressonante: tudo resmunga.
29/09/2007
Passam.
Um morcego grita e a parede responde.
As telhas mal-emparelhadas resmungam
Sobre os caibros e os cérebros que também resmungam,
E as paredes, e os morcegos, e as nuvens,
Todos resmungam.
Assim vive a madrugada
Sem sono ressonante: tudo resmunga.
29/09/2007
MONTAR-TE
Montar-te peça por peça
E de cada tijolo untar de alma os espaços vazios.
Montar-te muro, quintal e alpendre,
Escadas e salões,
Entradas e saídas,
Montar-te os espaços inúteis
Onde o sol preguiçoso asperge de mormaço e modorra as reentrâncias repletas da desocupação que se instala junto a cada tijolo assentado, a cada gota de suor amalgamada ao reboco mole que espera a maduração seca da areia do tempo.
Montar-te feia, montar-te torta e desajeitada,
Derrubar-te propositalmente em certos pontos,
Fazer-te monturos de teus restos e empilhamentos de arestas arrancadas.
Deixar-te as portas em falso;
Colar-te mal os azulejos, anarquizar-te os mosaicos de abáculos desiguais;
Caotizar-te;
Enlabirintar-te;
Desdimensionar-te;
Montar-te o desmontar-te.
Depois, quando tuas peças de montagem, teus tijolos, teus ladrilhos e porcelanas, teus caibros, teus rodapés, teu chão, teu teto, teu preenchido e teu vazio, teu inespaço,
Quando tu
Estiveres montada,
Morar-te.
Mas morar-te do lado de fora.
À entrada.
Vigiando-te.
18/10/2007
E de cada tijolo untar de alma os espaços vazios.
Montar-te muro, quintal e alpendre,
Escadas e salões,
Entradas e saídas,
Montar-te os espaços inúteis
Onde o sol preguiçoso asperge de mormaço e modorra as reentrâncias repletas da desocupação que se instala junto a cada tijolo assentado, a cada gota de suor amalgamada ao reboco mole que espera a maduração seca da areia do tempo.
Montar-te feia, montar-te torta e desajeitada,
Derrubar-te propositalmente em certos pontos,
Fazer-te monturos de teus restos e empilhamentos de arestas arrancadas.
Deixar-te as portas em falso;
Colar-te mal os azulejos, anarquizar-te os mosaicos de abáculos desiguais;
Caotizar-te;
Enlabirintar-te;
Desdimensionar-te;
Montar-te o desmontar-te.
Depois, quando tuas peças de montagem, teus tijolos, teus ladrilhos e porcelanas, teus caibros, teus rodapés, teu chão, teu teto, teu preenchido e teu vazio, teu inespaço,
Quando tu
Estiveres montada,
Morar-te.
Mas morar-te do lado de fora.
À entrada.
Vigiando-te.
18/10/2007
O IMPOSSÍVEL CARINHO
De manhã na pele, sob as camadas
Intactas dos toques do mundo,
Quando as vias enredadas do sangue doce e férreo
Expandem-se ante pulsos descomprimidos, exortizações lentas
E encarrilamentos e descarrilamentos sincopados e preguiçosos,
Nessa manhã que raia epitelial, venal, capilar, sensorial,
Nessa manhã que geme felina nas células musculares,
Nessa manhã que se encaixa articular, óssea, glandular,
Nessa manhã que grita baixo, quase silente, suas castanhas untadas do grosso mel da vida, o mel que encrespa os olhos e inunda o sexo, e, com ele amalgamada, serve de cimento verde, azul e rosa para os primeiros pensamentos,
Nessa manhã de parto da terra,
Pensei em ti, em tuas mãos, em teus olhos e quadris,
Em tua concha recuada, em teus peitos de manga tímida e doce,
Em tua boca tão cheia de sorrisos e tão vazia de mim,
Pensei em ti toda
E em tua toda ausência e em tua toda presença
E em teu impossível carinho.
07/11/2007
Intactas dos toques do mundo,
Quando as vias enredadas do sangue doce e férreo
Expandem-se ante pulsos descomprimidos, exortizações lentas
E encarrilamentos e descarrilamentos sincopados e preguiçosos,
Nessa manhã que raia epitelial, venal, capilar, sensorial,
Nessa manhã que geme felina nas células musculares,
Nessa manhã que se encaixa articular, óssea, glandular,
Nessa manhã que grita baixo, quase silente, suas castanhas untadas do grosso mel da vida, o mel que encrespa os olhos e inunda o sexo, e, com ele amalgamada, serve de cimento verde, azul e rosa para os primeiros pensamentos,
Nessa manhã de parto da terra,
Pensei em ti, em tuas mãos, em teus olhos e quadris,
Em tua concha recuada, em teus peitos de manga tímida e doce,
Em tua boca tão cheia de sorrisos e tão vazia de mim,
Pensei em ti toda
E em tua toda ausência e em tua toda presença
E em teu impossível carinho.
07/11/2007
MADEIRAS E CORDAS
Eu tenho a alma feita de música
Que o peito acústico esconde
Num instrumento delicadíssimo.
Acontece, meu bem,
Que eu não sei tocar.
24/01/2008
Que o peito acústico esconde
Num instrumento delicadíssimo.
Acontece, meu bem,
Que eu não sei tocar.
24/01/2008
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