Número de sílabas (desde 11/2008)

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

MISTER

Ensinar é a única eternidade que conheço. Além de, talvez, ser pai (especulo). Contudo, boto mais fé na minha gramática que em meus genes. O deeneá do professor é uma coisa que codifica o espírito. A carne que trema, que se estrebuche e goze, mas é em outras almas que eu gozo a engravidá-las. Nelas, vivo como vivem na minha todos os que me ensinaram e os que a estes o fizeram, numa cadeia que reboca o grande início, quando éramos todos menos que promessas, grãos no húmus da mesma gnose, sinapses do mesmo sonho, letras da mesma palavra.
Ensinar é presentar, passadear e futurar. É deixar-se no tempo, sabendo que o tempo apaga a existência, mas esperando que a palavra, como o homem, subsista ao tempo.

22\05\15

sexta-feira, 1 de maio de 2015

SALA DE AULA

Vão costurar tua carne, vão-te banhar o corpo, limpar-te as manchas de gás dos olhos.
Vão-te dar tantos-por-cento, sabatinar-te no domingo do bispo, entregar-te lauréis de bastião e oferecer-te palavra na Câmara.
Vão-te gritar o nome e gritar-te nomes.
Vão-te entregar desfraldada a flâmul'auriverde.
Vão-te chamar num canto, talvez, para um conchavo.
Vão-te comprar. Vão-te vender.
Vão-te em vãos donde serás caminho de reis.
Só não te vão, mestre, limpar a marca da bota na cara que deste a tapa, em troco de verem nela os estigmas do País: fileiras imensas de marginados da Ordem e do Progresso, vidas atrofiadas pelo gás e pelo nó, pela imprensa e pela prensa, pelo baile e pela cela.
Só não te vão dizer que acertaste em educar o filho errado, o bastardo dos sonhos, o aborto ambulante das caravelas fedidas.
Vão-te, sim, pesar os feitos no prato austero da virtude dos que "se entregam" pela educação.
Só não te dirão que se entregar e se render são verbetes gêmeos no que diz respeito a ti e que a bala de borracha em tua costela é para que te cies de teu lugar na cadeia alimentar do Estado: és tu quem prepara os quitutes e as marmitas que alimentam os leões desta nação!

Vai-te, professor, que é hora da merenda, e o País tem pressa!

01\05\15

terça-feira, 28 de abril de 2015

ID

Perder o documento de identidade é como sofrer uma falta de energia elétrica à noite.
Primeiro, uma desorientação e o sentimento de que se foi também desligado do mundo.
Porém, depois, vêm as estrelas.

28\04\15

segunda-feira, 13 de abril de 2015

ASSALTO


Quem anda roubando as minhas horas?
Quem zumbe infinita uma noite cada vez menor
de grilos e buzinas bêbadas?
Quem tirou o vento do ar?
Quem disse à cidade
que aqui já não moram pessoas
— mas sim relógios quebrados
e lâmpadas queimadas,
coisas farsantes em que o tempo e a vida deram defeito?

13\04\15

domingo, 29 de março de 2015

PERNOITE


Os olhos da noite são amarelos.
Bile celeste, mijo de gato,
Bico aberto de bacurau.
Reza na esquina a hora torta:

“Dobrai, que aqui te dobro.”
E dobramos.

Fingem almas fugindo os cães,
E fugimos, por desatentos de nós,
Escorridos na gota amarga e cadente
Que sobe às telhas e gane baixinho
A rima exata da solidão:
“Lua…”

29\03\15

quinta-feira, 26 de março de 2015

VOYEUSE

(Para Mariana Nascimento, voyeuse urbana e dona de olhos que regam olhos)

O artista, baby, sofre de uma maledibênção
que lhe deixa vulneráveis os olhos
àquilo a que os outros olhos são cegos,
e está fadado a passar a vida
regando com sua arte
o agreste de todos os olhos do mundo.
Justo ele, que irrompeu da mais improvável castanha
e vingou-se cajueiro de terra seca,
justo ele, que bebe o pó dos nitratos,
que escava a escuridão com unhas de raiz,
é a quem cabe dar o caju mais doce,
caju que deita o sangue arrancado do sertão
na boca insossa e cega que sequer sabe
o gosto amarelo da luz e o cheiro vermelho do sol.
O artista é uma lágrima que arde sal,
mas chora chuva,
e deixa a vida viver nos olhos dos outros
as flores que só ele vê.
Assim, baby, é que devem ser os seus olhos:
voyeurs que dispam as ruas, os gatos, as gentes
e redigam-nos com as roupas de ruivos ornatos
e rendas brancas
que são a sua própria pele, que o chão fez casca
e que veste a seiva que lhe enche os frutos.
Assim, quando eles olharem,
a objetiva será como uma bandeja oferecida de cajus,
doces e agrestes como convém à carne
de qualquer arte que trague o seu chão
e exulte-o em frutos.

26\03\15

domingo, 22 de março de 2015

DOMINGUINHO

Vou deixar a manhã deste domingo
Me amanhecer devagarinho,
Que hoje eu não tenho pressa de nada
Nem nada me espera no caminho.
Hoje eu começo como um dia
Que se esqueceu na memória:
Estou à disposição do acaso
E da ausência do tempo e das coisas.

22\03\15

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

METÁSTASE

Barra do Rio Pacoti - Ceará

Minha casa cresceu.
Hoje, é mais de duas vezes a casa em que eu nasci,
e somos menos da metade da família
dos incipientes 1974.
Porém, era maior. Como era vasta, como era rica!
A cama em que fui feito tinha dimensões insulares.
Hoje, mal me comporta
— é bote salva-vidas de dois náufragos.
Minha sala, território outrora hostil, mudou.
Hostil agora é a rua, cheia do mundo que inventara
e cresceu não como um corpo metafísico,
mas como um câncer, um cancro, um caranguejo
mais horrendo que os que pescava no Rio Pacoti,
quando o mar que matou meu primo
e ele — o Rio — e eu éramos a mesma coisa:
o encontro em que as coisas proliferam,
o mangue, o búzio e a onda, a maré e o peixe,
e eu e meu grande e verdadeiro mundo.

Sempre fui mais da cozinha que da sala.
O café, o peixe, a laranja-da-terra,
tudo era a ela que me levava.
Deve ser desses ecos de quando era espírito
e habitava pretas ou índias que existiam na fumaça
que jogava vapor na vida colonial e azeda das salas.
Hoje me parece pouca a comida, mesmo sendo mais e diferente.
O sabor verdadeiro é só memória,
e o asso no peito,
num fogão azul de boca preta.

Fazia vento.
O sol era bom e peneirava-se nas telhas erráticas.
A chuva existia em seus dias de existir,
e guardava-nos de não sermos quem não deveríamos
— as goteiras nos lembravam.
Hoje, mesmo quando chove e venta, o que é raro,
pois não só a casa como o mundo cresceram
e empurram o céu como o pus empurra a pele,
tudo parece insuportavelmente incômodo
como um ardor que não sai com sombra.
Hoje até o Sol cresceu,
e brilha porque é sol,
e esqueceu-se de fazer crescerem plantas, sonhos e gentes,
e, porque é sol, não mais aquece — queima.

Minha casa, tão rica, tão pobre!
Portas azuis, janelas abertas, entrecruzes nos entalhes,
pessoas passando, dias de festa, anos-novos, lar e porto.
Hoje é caixa de tijolos que guarda esqueletos de cães enterrados no quintal
e almas limosas, úmidas,
e um pântano de lágrimas que não foram choradas.
Talvez porque, dizem, os olhos não crescem com o tempo
— mas fecham-se com ele,
e olhos fechados não choram.

16/02/15

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

POEMINHO NOSTÁLGICO

O fabuloso destino de Amélie Poulin

Bicha perigosa é a nostalgia,
que rima tanto com alegria
quanto com melancolia,
mas não passa de uma estria
na carne velha e fria
de quem, se pudesse, voltaria,
mesmo que em agonia,
a ver que fora um dia
o que nunca mais poderia
ser.

27/01/15

domingo, 18 de janeiro de 2015

ORAÇÃO PELA PAZ

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Senhor, se existirdes, fazei que eu descreia em Vós
para que os que creem e os que não creem em mim,
herege notório e lasso de coração,
vejam-me sem a sombra da fé
e me deixem em paz.
Amém.

18/01/15