Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 29 de março de 2015

PERNOITE


Os olhos da noite são amarelos.
Bile celeste, mijo de gato,
Bico aberto de bacurau.
Reza na esquina a hora torta:

“Dobrai, que aqui te dobro.”
E dobramos.

Fingem almas fugindo os cães,
E fugimos, por desatentos de nós,
Escorridos na gota amarga e cadente
Que sobe às telhas e gane baixinho
A rima exata da solidão:
“Lua…”

29\03\15

quinta-feira, 26 de março de 2015

VOYEUSE

(Para Mariana Nascimento, voyeuse urbana e dona de olhos que regam olhos)

O artista, baby, sofre de uma maledibênção
que lhe deixa vulneráveis os olhos
àquilo a que os outros olhos são cegos,
e está fadado a passar a vida
regando com sua arte
o agreste de todos os olhos do mundo.
Justo ele, que irrompeu da mais improvável castanha
e vingou-se cajueiro de terra seca,
justo ele, que bebe o pó dos nitratos,
que escava a escuridão com unhas de raiz,
é a quem cabe dar o caju mais doce,
caju que deita o sangue arrancado do sertão
na boca insossa e cega que sequer sabe
o gosto amarelo da luz e o cheiro vermelho do sol.
O artista é uma lágrima que arde sal,
mas chora chuva,
e deixa a vida viver nos olhos dos outros
as flores que só ele vê.
Assim, baby, é que devem ser os seus olhos:
voyeurs que dispam as ruas, os gatos, as gentes
e redigam-nos com as roupas de ruivos ornatos
e rendas brancas
que são a sua própria pele, que o chão fez casca
e que veste a seiva que lhe enche os frutos.
Assim, quando eles olharem,
a objetiva será como uma bandeja oferecida de cajus,
doces e agrestes como convém à carne
de qualquer arte que trague o seu chão
e exulte-o em frutos.

26\03\15

domingo, 22 de março de 2015

DOMINGUINHO

Vou deixar a manhã deste domingo
Me amanhecer devagarinho,
Que hoje eu não tenho pressa de nada
Nem nada me espera no caminho.
Hoje eu começo como um dia
Que se esqueceu na memória:
Estou à disposição do acaso
E da ausência do tempo e das coisas.

22\03\15

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

METÁSTASE

Barra do Rio Pacoti - Ceará

Minha casa cresceu.
Hoje, é mais de duas vezes a casa em que eu nasci,
e somos menos da metade da família
dos incipientes 1974.
Porém, era maior. Como era vasta, como era rica!
A cama em que fui feito tinha dimensões insulares.
Hoje, mal me comporta
— é bote salva-vidas de dois náufragos.
Minha sala, território outrora hostil, mudou.
Hostil agora é a rua, cheia do mundo que inventara
e cresceu não como um corpo metafísico,
mas como um câncer, um cancro, um caranguejo
mais horrendo que os que pescava no Rio Pacoti,
quando o mar que matou meu primo
e ele — o Rio — e eu éramos a mesma coisa:
o encontro em que as coisas proliferam,
o mangue, o búzio e a onda, a maré e o peixe,
e eu e meu grande e verdadeiro mundo.

Sempre fui mais da cozinha que da sala.
O café, o peixe, a laranja-da-terra,
tudo era a ela que me levava.
Deve ser desses ecos de quando era espírito
e habitava pretas ou índias que existiam na fumaça
que jogava vapor na vida colonial e azeda das salas.
Hoje me parece pouca a comida, mesmo sendo mais e diferente.
O sabor verdadeiro é só memória,
e o asso no peito,
num fogão azul de boca preta.

Fazia vento.
O sol era bom e peneirava-se nas telhas erráticas.
A chuva existia em seus dias de existir,
e guardava-nos de não sermos quem não deveríamos
— as goteiras nos lembravam.
Hoje, mesmo quando chove e venta, o que é raro,
pois não só a casa como o mundo cresceram
e empurram o céu como o pus empurra a pele,
tudo parece insuportavelmente incômodo
como um ardor que não sai com sombra.
Hoje até o Sol cresceu,
e brilha porque é sol,
e esqueceu-se de fazer crescerem plantas, sonhos e gentes,
e, porque é sol, não mais aquece — queima.

Minha casa, tão rica, tão pobre!
Portas azuis, janelas abertas, entrecruzes nos entalhes,
pessoas passando, dias de festa, anos-novos, lar e porto.
Hoje é caixa de tijolos que guarda esqueletos de cães enterrados no quintal
e almas limosas, úmidas,
e um pântano de lágrimas que não foram choradas.
Talvez porque, dizem, os olhos não crescem com o tempo
— mas fecham-se com ele,
e olhos fechados não choram.

16/02/15

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

POEMINHO NOSTÁLGICO

O fabuloso destino de Amélie Poulin

Bicha perigosa é a nostalgia,
que rima tanto com alegria
quanto com melancolia,
mas não passa de uma estria
na carne velha e fria
de quem, se pudesse, voltaria,
mesmo que em agonia,
a ver que fora um dia
o que nunca mais poderia
ser.

27/01/15

domingo, 18 de janeiro de 2015

ORAÇÃO PELA PAZ

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Senhor, se existirdes, fazei que eu descreia em Vós
para que os que creem e os que não creem em mim,
herege notório e lasso de coração,
vejam-me sem a sombra da fé
e me deixem em paz.
Amém.

18/01/15

sábado, 17 de janeiro de 2015

O QUE EU SEI DELA

(Clique no nome do artista para acessar a sua página e na imagem, para ampliá-la)

O que eu sei dela
não cabe nem no corpo nem no desejo do corpo,
nem no gozo real nem no imaginário,
tampouco na real ou na imaginária luta
de mim dentro ou debaixo de sua pele branca
e de sua carne vermelha.
O que eu sei dela
liga os átomos das moléculas do seu suor
que provo escorrido e escorreito
de seu buço, de sua borda, de seu borco.
O que eu sei dela sobeja de adeuses
as partidas de todos que fui, reencarnado desde o início;
e de íntimos encontros, os renascimentos sobre seu corpo
de todas as vidas que vivi
em busca da alma que deixaram para mim dentro dela.
O que eu sei dela
mataria mitologias inteiras
pela descoberta estupefata da divindade residente
no ateísmo de comungar da sua carne molhada
o mistério absoluto revelado:
não há deus nenhum,
exceto o que nasça dentro dela.
O que eu sei dela
move a terra de que sou crosta
como um arado ou como um terremoto,
e não sou nada senão uma constante germinação
de magma e húmus, um canteiro que espera,
um planeta em que ela habita e que orbita em torno dela.
O que eu sei dela me translada.
O que eu sei dela me prende, a despeito do vácuo e do caos,
à gravidade da estrela original
que brilha na seiva de que bebo, e de que me alimento,
e que me faz odiar o espaço entre nós
onde não toco, onde não ocupo, onde não preencho.
O que eu sei dela
é que não há ciência ou fé
que coabitem na plenitude que é quando ela está,
porque tudo, então, simplesmente, deixa de ser,
inclusive eu,
que só sou porque sou imaginado e percebido,
que me materializo apenas quando sou tocado
e que vivo apenas porque a como e bebo,
na festa de ser a criatura feita da argila cozida pela gênese de seu ventre;
de ser o filho único de Gaia,
o Urano permanente que inviabilizará todos os deuses
e que escreverá a sua própria Teogonia
no chão de seu corpo,
que sabe tudo de mim e que me explicará
todos os mistérios.

17/01/15



Gaea

domingo, 11 de janeiro de 2015

À BEIRA-MAR

(Clique na foto para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

O que não é feito de saudade é feito de ausência.
Costuma, entretanto, que haja das duas uma inexistência breve, e elas, simplesmente, não sejam.
Aí, tudo é o silêncio que dá e tira nome a todas as coisas.
Tu te chamas… Tu és…
Ah, mas como é relativa e inconstante a brevidade da inexistência…
Como gritam todas as coisas, como as pedras, o chão e as paredes, por que se lhe calem para sempre os nomes pedras, chão e paredes, e que as deixem apenas su e comportar!
Não lhes cabe caber.
Meter-se entre elas e caminhá-las é coisa para itinerantes.
Cabe às coisas, na ausência da saudade delas, apenas não serem, ou serem ignotas como a presença dos átomos.
Há quem sinta falta de algum?
Contudo, ao cabo do lapso, retorna como ondas que não têm culpa de ser mar a saudade que tudo-nada traz e deixa na areia o estado de esta nem ser terra nem mar, mas uma coisa-entre, um silêncio de nomes, uma essência que, quando ia ser… não foi.
É disto que é feito o homem: palavras.
É forte, pois entendeu “força”; vive, pois lhe contaram “vida”.
Saudade é quando tudo foi, e as palavras são.
Como a areia que a onda deixa molhada e sedenta.
Sem o silêncio que lhes esquecia os nomes.
O que partiu existe?
Ah, mas como ele grita alto a sua inexistência…

11/01/15

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

MUTIRÃO

(Clique nas palavras amarelas para abri-las e nas imagens, para ampliá-las)

Pois é, o primeiro filho veio por acidente e foi uma criação coletiva, ainda por sinal. Explico. Há alguns meses, uma grande amiga, Nataly Pinho, escritora e artista plástica, pediu-me que lhe enviasse alguns textos para uma antologia a ser organizada por seu companheiro e comparsa, o Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino, chamada Mutirão.

Mutirão, antologia colaborativa de vários artistas, em muito boa companhia
na Bienal do Livro do Ceará de 2014.

Obviamente, aceitei o pedido e chovi-lhe vários textos para que ela escolhesse os que entrariam no livro. E esqueci. Fazer o quê? Final de ano, provas para elaborar e corrigir, mudanças e preparações por fazer… Esqueci.
Outro grande amigo, o poeta Antônio Ortiz, havia me convidado a escrever uma apresentação para o seu A forma do outro, a ser lançado dia 13 de dezembro último, na Bienal do Livro 2014. Aceitei, também obviamente, porém, por conta dos mesmos motivos, também o esqueci. Deu-se que o livro foi lançado regularmente no dia 13, dia do nascimento do Rei do Baião, e eu estava lá, como bom amigo envergonhado, ajudando-o no que fosse.

A forma do outro, de Antônio Ortiz

Eis aqui o “acidente”. No dia anterior ao do lançamento, Nataly me telefona e me pergunta quando, como e onde eu iria pegar MEUS EXEMPLARES. “Exemplares”? De quê? E no plural? Aí então me dei conta do livro, aí então sobrepus uma vergonha à outra. Eu também estaria na Bienal, mas nem sabia.
Bom, assim foi. Ortiz, Nataly, Aquino e eu (incidentalmente) nos encontramos no Centro de Eventos do Ceará, e nossos livros foram lançados. Entre amigos, foi feito, com amigos, surgiu, e, por amigos, existe este Mutirão. Não poderia ser de outra forma.

05/01/14

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MINAS GERAIS


Neste mundo de cavernas,
Sou uma pedra
Dentro da qual dorme o minério,
O único metal que pode me extrair deste solo-parede
Cheio da história pictográfica dos que abriguei,
Dos que vi virarem fantasmas
Antes que pudessem descobrir o fogo que me derreteria.

02/01/15