Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
segunda-feira, 25 de março de 2013
DENTRO DA NOITE
Noite afora, as horas rezam caladas nos ponteiros e na alma.
Quando o sono vence o combate, o corpo, esgueirado entre a noite já ida,
sussurra e se rende sossegado, lânguido, suspirado.
No céu, ainda alguns vultos e estrelas. Tu contas as que caem.
Ao meu lado, partículas da noite ainda gemem e suam e se dobram e se unem
onde, há pouco, houve inteira essa mesma noite.
Se estico o braço, ainda toco e sinto o calor que nela deixamos.
Em teu seio, mora aconchegado o som morno do nosso cansaço.
Em teu olhar — esse olhar de gengibre, tão vivo e tão terno —,
estampa-se a entrega do meu:
um beijo que continua o beijo,
ao que me cobre a nudez com que teu olhar me despe.
Em minha boca, o teu gosto doce, amargo, salgado, forte, renitente.
E, nela, ainda um mesmo beijo continua o beijo dado.
Dentro dessa noite, fizemos nascer um calor solar
que aquece todo o espaço frio entre nós e as tantas outras estrelas
que, em suas constelações, observam-nos placidamente adormecer.
E raiam como nós.
E brilham como nós.
03/08/02
domingo, 17 de março de 2013
BIPOLARIDADE
A porta está sempre trancada
Do lado de fora
Ou do lado de dentro:
Nenhuma de suas metades nunca soube o que é passagem.
22/01/13
O ASTRONAUTA
Disse o astronauta quando viu a lua empoeirando suas botas
que nunca pisaram a sujeira terrestre:
— Que flor morrerá agora?
17/03/13
quarta-feira, 13 de março de 2013
DUAS HORAS
Duas horas me separam sempre de alguma coisa.
Um inesperado, uma rotina, uma morte:
uma sombra que me pesa no colo às cinco da manhã.
Bebo da rotina.
Do seu amargo já sei.
Um antiácido me salva de dizer concreto,
ainda que aos pedaços,
o nome da sombra que embalo.
Espero um vento reinventar-me o dia,
mas vendo a alma ao cobrador do ônibus:
tenho sempre a impressão de que ali,
naquela catraca,
eu me divido.
Fico mais velho ali. E sempre menor.
No coletivo, a bovinidade me esquece a alma do corpo,
que grita, esfola, magoa, mas não sozinho!,
e ruminamos todos baixinho nossas sombras,
resmungando-as lisérgicas de um lado ao outro da boca
como cortes maciços de fumo de rolo
— cairia bem mais uma pílula…
Duas horas me ablacionam
como o faz a catraca do ônibus.
De parada em parada, de morte em morte, vou vivendo
e percorrendo a vida meio perdido, meio abandonado,
subtraindo da alma pedacinhos
que deixo caírem pela janela,
que deixo rolarem pela pista,
que deixo o vento levar e virarem sombra
que vá por aí a sentar seu peso sobre colos alheios
como um esmoler fantasmagórico, humilíssimo e sem mãos,
pedindo um corpo onde caiba,
implorando um onde se perca,
fiando um onde se ache,
onde se achem depois seus olhos, seus membros,
seus amuletos de infância,
suas gotas de horas esquecidas nos gumes dos marchantes
que lhe seccionaram as peças,
retiraram-lhe os nervos,
retalharam-lhe os bifes.
A alma é sempre comida para muitos.
Duas horas adiante, a manhã é sólida como uma esquina,
um contratempo que me faz parar e olhar para todos os lados.
À sombra das árvores alamedadas,
sacolejam-se pivetes de vidros amarrados aos tocos dos membros,
fanicos de almas repicando-se, refatiando-se.
Foi nisso que eles deram?
Pareço reconhecer um olhar que já foi meu,
um olhar nu, luzidio e tímido, um que perdi não sei onde…
Encaramo-nos e me envergonho.
Constrangido, enraivecido, baixo os olhos.
Pago impostos, compro a prazo, sustento igrejas, mantenho regimes!
Tenho mesmo de ser constrangido a reencontros indesejados?
Tenho de ser obrigado a ingerir mais antiácidos?
Dá-me ora vontade de voltar, ora ganas de assassínios.
Onde acho a arma definitiva?
E ainda!, esse vento dos infernos me entupindo a garganta
com a poeira onde lazeiram esses vermezinhos, essas amebinhas.
Deixem-me perder-me, deixem-me fragmentar-me ad infinitum,
tirem-me do esôfago essa sombra
que teima, que renite, que não quero!
Além do tempo, há imagens como por trás de uma parede de tijolos de vidro.
Coisas que ainda não sou, espaçadas, lentas, em romagem…
Coisas que me chamam.
Estou cansado não sei onde, não quero ir, quero que me levem.
Ir é dar os pés para que o chão mastigue,
e já nem sei mais se os tenho para comê-los eu mesmo…
Ficar é estar cercado por ilhas.
O que coloquei onde eu havia
pesa demais, não me leva o vento, não me acho vela, não sei mais nadar, afundaria…
O fundo do mar, quem sabe?
Quem sabe, não me cobrem coloridos os corais com seu cálcio,
e durmo de nunca mais ter fome nem sede,
sem frio, sem roupa, vestido de vida que me devora sem me exaurir,
que me dá a possibilidade de encalhar navios?
Os vidros translucidam tudo até que se convertem em retinas sem nervos,
e percebo horrorizado meus olhos novos, duros e frios,
olhos de um não ver, ou de ver-se para dentro, olhos-mágicos!
Olhos como de uma fotografia que o tempo não come.
Olhos de um verde-mar denso, opacos como os gudes de bilha
que deixei perdidos na areia imunda do beco antigo,
onde me esperavam todas as possibilidades desse mundo.
13/03/13
domingo, 10 de março de 2013
ESTA HORA
Deixa passar esta hora, amor,
que o corpo não sabe do tempo,
nem do que ele faz com a dor;
nem nós, o que ela faz com o tempo,
que te morde a carne, que me tira o ar,
que nos cria um espaço de confinamento
em que nada é foz, e onde nada é mar.
Gritas o nome do diabo,
mas sou eu que chego.
E teu nome rezo, que é o meu apego.
Eu te afago e me aconchego,
e te colho, e rezo o teu nome,
que é tudo que sei quando quero saber de Deus.
Agnus Dei, lembro eu vago,
mas não a sorvo.
E esta hora teima a esfriar lá fora
menos que aqui demora.
Está frio,
está lento,
e o peso do tempo é um agora
que nunca aprendeu a andar.
10/03/13
HALOMANCIA
A saudade é como uma consoante muda,
um H etimológico
que se esconde inaudível por trás de vogais.
Ora, mas o que são horas se, quando oras,
ora te ouvem, ora te ignoram,
ora ficas a ver navios…
Há um cais para cada um de nós
que desespera
de olhar preso num horizonte sem bandeiras,
sem nomes, sem memória,
adivinhando no sal do mar uma pátria que o espera,
um adeus a ser dado,
um abraço que o receba.
A saudade é uma moça sentada
que sabe, acima de tudo,
esperar desesperada,
como uma roupinha velha dela menina,
que nunca mais vai sair para brincar.
10/03/13
um H etimológico
que se esconde inaudível por trás de vogais.
Ora, mas o que são horas se, quando oras,
ora te ouvem, ora te ignoram,
ora ficas a ver navios…
Há um cais para cada um de nós
que desespera
de olhar preso num horizonte sem bandeiras,
sem nomes, sem memória,
adivinhando no sal do mar uma pátria que o espera,
um adeus a ser dado,
um abraço que o receba.
A saudade é uma moça sentada
que sabe, acima de tudo,
esperar desesperada,
como uma roupinha velha dela menina,
que nunca mais vai sair para brincar.
10/03/13
NOVAMENTE, EM CASA
Senti falta do teu sorriso,
dos teus olhos grandes,
da tua boca que, entreaberta, diz-me de mim
o oco da ausência de que sempre fui feito.
Sim, que,
embora houvesse panos, estampas,
sobreposições de papéis,
carnes que me enchessem como grãos
a um saco de algodão branco
e me dessem forma e consistência,
sempre fui feito de ausência.
Hoje me voltaste.
Hoje podemos sentar e beber
e silenciar tudo que temos a falar.
Nos quadrantes da casa, a tua pele escura.
Em mim, a noite
e um silêncio que é tão maior que tudo
que é do tamanho exato de mim.
03/03/13
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
3 X 4 ANTIGA
(Para Rafael Escócio, mais meu do que sequer imagina)
Depois que os escrevo, os textos vão por aí, com suas próprias pernas.
Quando vêm me visitar em noites de quarta-feira como esta,
eu quase nem os reconheço mais,
como a um filho que não se vê há muito
ou como uma fotografia velha
em que me olho como se eu fosse uma grande novidade.
27/02/13
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
CLOWN
Um texto amarelo, seco, sem letras, escrito no teu corpo
com o carvão do tempo,
em que se lê o teu papel na vida:
clown.
13/02/13
sábado, 12 de janeiro de 2013
Come Here
Linda canção de Kath Bloom.
Vem cá...
There’s a wind that blows in from the north
And it says that loving takes this course
Come here
Come here
No, I’m not impossible to touch
I have never wanted you so much
Come here
Come here
Have I never laid down by your side
Baby, let’s forget about this pride
Come here
Come here
Well, I’m in no hurry
You don’t have to run away this time
I know you’re timid
But it’s gonna be all right this time
There’s a wind that blows in from the north
And it says that loving takes this course
Come here
Come here
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