Este blogue se destina ao uso artístico da linguagem e a quaisquer comentários e reflexões sobre esta que é a maior necessidade humana: a comunicação. Sejam todos bem-vindos, participantes ou apenas curiosos (a curiosidade e a necessidade são os principais geradores da evolução). A casa está aberta.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
SPIRITUAL
(Para Camila Rocha, mi demonito de alas dulces)
Entre ter alma e ter espírito, escolho o segundo.
Dos dois, é o único que, como eu, tem os pés sujos e rachados,
e conhece o ar pesado da insônia
de sonhar-se para além daqui.
A alma, esta, jaz sempre dormente, à espera,
Cinderela de um beijo que é só promessa.
A alma é uma rapariga mimada,
inarticulada,
de quem se sabe só que é casa oca,
onde, moleque, ralou-se, destroncou-se, esganiçou-se traquino
o espírito menino
cheio de ranhuras
e de vidas escondidas nas vidas
das árvores mortas espalhadas nos quintais
onde brinquei de ser quem sou.
25/05/12
domingo, 13 de maio de 2012
SAGRADO CORAÇÃO
Se, em teu coração mais íntimo
— dos tantos de que se faz um homem —,
pulsa um
que é maior que tu,
és filho.
13/05/12
terça-feira, 1 de maio de 2012
DO ENCONTRO
Era velho antes
— e nasci!
Sabendo de meu corpo
apenas o útil e necessário
— que métier da carne é donzelar-se
para, só depois, vagabundear-se pela vida —,
esperei por ele e ainda espero
numa dessas confluências,
uma bifurcação,
de cujas estradas uma, de tanto ir e vir,
já sou eu.
Desde sempre, espero-me.
Anseio por dele dizer:
“Eis que o vejo, roto, cambaleante, aleijado…
Eis que lhe ouço o gemer das vozes ósseas
dizendo, rumorejando os nomes de todas as coisas
que o trouxeram até mim.
Eis-te, corpo que agora pareces comigo,
eis-te, marido, eis-te, esposa, eis-vos, filhos, pai, mãe e ignotos avós.”
Que de espera… Que de saudades de casa!
Minh’Aruanda, minha Santa Bárbara,
meu mundo de lugares onde estive e os quais fui.
Minhas serras, meus mares e meus quintais,
minhas árvores, meus rios,
resgatarei ainda algo de meu corpo?
Ou terá tudo sido só a estrada,
só a poeira sulcando nas gretas dos pés
e o negro salgado azulando as unhas das mãos?
Deveria ter-me deixado uma pista quando nasci:
talvez, um borrão na retina,
talvez, uma puxada na perna…
algo que de mim soubesse
para me contar depois.
Acontece que estou cá
e por aí,
certo de unir-me as córneas e o espelho,
e vestir-me enfim
do agasalho de minha pobre e quente pele,
calçar-me de meus pés
e dizer de minha velhice à outra, também minha,
mas mais velha, mais sofrida, tão cheia de tanto do tanto daquele mundo
— que ficara para trás —,
que chegamos, ainda que não juntos,
à gênese de nossas horas, tantas e tão velhas,
tão amontoadas,
tão estranhas às paredes de seus quartos
quanto nos foram os cálices com que nos serviram a vida.
30/04/12
domingo, 15 de abril de 2012
DESABRAÇAR
Livrar-me de ti não é o bastante.
Tenho de matar-me,
Porque se, a ti, retornas,
Ao passo que eu vou.
15/04/12
AUTOFAGIA
Eu solto meus pensamentos como a uma matilha, uma alcateia, uma malta
no meio da noite desabrida.
Eles rasgam o negrume com suas presas e suas garras,
caninos e unhas feitos da têmpera e do aço do desejo e do horror,
do ódio e da loucura das horas enclausuradas
aqui, nas jaulas de seus próprios ossos.
Meus pensamentos saem à caça de carne
vívidarubraflamejantepungente,
mas não se importam de refestelar-se na podridão abandonada
de uma ideia morta e seca no agreste do mundo,
porque a fera que jaz silente no oco desse mundo
deles também se alimenta, neles também se esbalda
e os abandona dentro de mim, perdidos, mutilados, agônicos,
cheios de incompreensão e retroalimentado ódio.
Meus pensamentos também são carne e presa
de tudo aquilo que os corrói
— o homem —,
e vingança é o nome por que atendem.
Às vezes, retornam de mãos vazias,
famintos e cegos, inermes.
São meus.
Estendo-lhes um braço, uma perna,
um naco de minha alma de pai
e deixo que me despedacem friamente,
espoliando-me e consumindo-me o sono, os sonhos
e todas as dores desse mundo que me correm vermelhas sangue adentro.
15/04/12
terça-feira, 10 de abril de 2012
DO TEMPO
I
O futuro é o que vem depois
e simplesmente acaba
antes que chegue.
II
O passado é um morto
de quem se herda
a terra fugente entre os dedos.
III
O presente é uma jaula
que se instala
entre aquele de quem o roubei
e aquele que mo roubou.
09/04/12
domingo, 8 de abril de 2012
ARREBANHAMENTO
Nas salas de janta
e nas cozinhas silentes,
mexem-se as panelas cheias de amarguras,
e leem-se mutuamente
os peitos murchos de textos,
minguados de poesia.
Nos corredores,
as mulheres dos homens
exasperam-se incontidas
sobre o borralho humilhado da simplificação.
Nos quartos,
suas filhas mugem bovinas, incógnitas,
desamparadas pelo isolamento da idade,
ilhadas entre roupas, tintas e sapatos.
Aonde foram os gritos agônicos
forjados dentro das fábricas incendiadas?
Para dentro do oco das malas,
das mochilas, das bolsas, das frasqueiras,
um eco histórico aborrecido
de uma aula de Ciências Humanas
estampado nas vitrines de um feriado comercial?
Ou para dentro de suas almas,
um vento apagando-lhes a chama
que suplantaria o mundo
da luz crucificada?
08/04/12
ALCÂNTARAS
De tempos em tempos,
corre um boato de que o País vai bem.
Dentro das casas,
no meio da rua,
nos ermos,
nos picos e nos abismos,
geralmente, aos feriados santos,
corre à boca miúda que há esperança,
e, dentro das pessoas, nos olhos das crianças,
tremulam chamuscos,
e os dos velhos desopacificam-se
como a timidez do sol no início do estio.
De tempos em tempos,
sonha-se com alcântaras entre os homens,
e anda-se sobre os sonhos.
08/04/12
sexta-feira, 6 de abril de 2012
NOTA DE RODAPÉ
A imaginação liberta mais
do que é capaz o homem
de ser livre.
Daí, prenda-se a imaginação!
Enclausurada em livros,
domada, tolhida,
devidamente codificada,
perdida entre as margens,
emborralhada em rodapés,
resta a ela encontrar-se
nas entrelinhas
e nos borrões marginados
do que escreve a alma
que só se torna espírito
quando se encontra
com o que foi descrito
por outra alma ainda mais pura:
a da criança perdida
cujos olhos grandes
luzem
dentro das palavras
que a prendem.
28/03/12
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