Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 4 de outubro de 2009

LUTO NEGRO

Hoje, veste-me um luto negro
como é negro o sentimento de já não haver
quem lhe socorra o sangue de parar,
quem lhe acolha o rosto pesado e grave
do desencanto.
O incontestável da vida calou uma voz
que vinha da terra, das pedras, das raízes das árvores mais velhas,
que gemia a dor e laudava o orgulho de todo aquele
que já pisou sangrando o chão de sua terra.
Essa voz iniciou em mim o amor pela língua espanhola
com sua Volver a los diecisiete bem antes de que eu os tivesse.
Cantou em meu peito o orgulho de um povo que não é o meu, sendo-o.
Mostrou que as raízes de minhas árvores se entrelaçavam com as deles
e que era tudo o mesmo chão.
Todos os que ouviram a voz negra transformar em um povo os massacrados,
os enganados, os desterrados em sua própria pátria,
os pobres, os que têm a si mesmos crianças escondidas de medo
em seus próprios corações duros em face da crueldade do mundo,
todos esses, hoje, choram silenciosamente
nos olhos desses meninos, que tanto se acalantaram,
e se confortaram, e se engrandeceram a homens,
adormecendo em paz com a grave negrura daquela voz.
Os que ficaram sentem
que o mundo ficou pior
irremediavelmente.

Hoje é 4 de outubro de 2009,
e teve fim uma força da natureza
que cantou os desfavorecidos de um continente inteiro,
unindo-os sob a bandeira de seu próprio sangue
e seu coração americano.
Hoje, desapareceu Mercedes Sosa, La Negra.

domingo, 20 de setembro de 2009

INCONTIBLE

(a Joyce Miranda Leão, que lleva la risa en los ojos.)

Hoy, quisiera ser el viento
O um pajarito de los matorrales, selvaje e incontible.
Quisiera mirarte de reojo
Y partir disparado por las ramas,
Escamoteándome y, agazapado,
Robarte la imagen que vive dentro de tu risa.
De soslayos, aquí y allí,
Mis rastros dibujados entre las hojas se te revelarían
— ¿me buscarías?
Yo tendría tu sien capturada
Y la sangre a mover mis alas
Y a bermejear mis luceros
— así como el lucero del alba —
Y a latir en mi pecho.

Al final, en cambio de tu nombre,
Huiría mi corazoncito de ave,
Llevándome junto.
Posaríamos un día donde estuvieras
Y al tu lado, con un silbo suave, selvaje e incontible,
Te haríamos parecer que el viento te conocía
Como conoce el mar y la montaña
Que acaricia y viste, diciendo sus nombres.

20/09/09

OS TEUS CABELOS DE ANÊMONA

Que guardam os teus cabelos de anêmona?
Quem os trança?
Que maré comanda o mar que os ondula?
Qual a exata medida de sal e de tristeza
Que neles dorme?
Qual a medida de dança
E qual a de loucura?
Quem lhes deu as cores
Que se enegrecem ou cintilam
Conforme o teu sorriso?
Por quem sorriem teus cabelos de anêmona?
Por quem?

18/09/09

terça-feira, 1 de setembro de 2009

DO SIGNO DE PEIXES

Eu me vesti de peixe
Com a guelra aberta
O olhar fanático
A escama tersa
E opercular
Eu fui subir o rio
Eu fui brincar de cio
Eu fui fruir a vida
E povoar o mar
Eu me vesti de peixe
Eu me embarquei em mim
Eu decidi destinos
Me espraiei em abismos
E me deitei menino
No leito cristalino
Do morno fundo do mar

01/09/2009

GELOSIA

Deixei a luz entrar
E ela entrou mesmo assim.
Quem a tirou de fora,
De cima das folhas, das asas dos passarinhos,
Do olhar das criancinhas?
Quem te deixou entrar, senão eu, a quem nunca obedeceste?
Vieram junto infinitas particulazinhas flutuantes e prismáticas,
Que ora reluziam ora esvaneciam,
E imitavam fáceis o sim e o não de todas as oportunidades da vida.
A luz entrara, isso era fato.
Com ela, o ar se iluminara de sins e nãos que lindamente se alternavam,
Compondo uma magnífica poeira
Que eu temerosamente inspirava,
Mas que, no fundo, eu sabia, não fazia a mínima diferença.
Porém, onde se firmara que fazer diferença importa?

01/09/09

SONETO DO DESTERRO

Por onde é que estivemos?, eu pergunto.
Olho o que nos era mais precioso
E não está mais lá nem lá eu pouso
Nem olhos nem mãos: nem eu, conjunto.

A quem pertencemos, se não juntos?
Que é da terra? De quem é o corpo esposo?
Pelo que sangramos a dor e o gozo,
Com, por pouco estarmos, amarmos muito?

Aqui não nos há nem lar nem rumo:
Quem nos era irmão, hoje longe e estranho.
Largada, a pátria ao coração cansado.

Estreito, o corpo ao coração tamanho.
O estrangeiro se instalou ao lado
Do que antes fomos, donde hoje sumo.

01/09/09

sábado, 22 de agosto de 2009

TRANSPOSIÇÕES

Ela abandona o galho
E diz adeus com sua queda,
Até que o chão a ampara
No meio do flandre dos carros.

Ele rompe com a carne,
Atravessando o aço divisório
Do vermelho do mar de sangue
E da terra branca prometida.

Ela deixa a mente sair
E, no corpo, a modorra entrar
Em cápsulas desimaginadas
Que a dissolvem para outro lugar.

Ele, cansado de nunca o tempo
Passá-lo de cá pra lá,
Artificia-se em pêndulo
Para que possa ir-se com o tempo dançar.

Ela não quis o pouco que havia
E mais pôs, rápida, a invadir
O que, pelo ouvido, entrasse
E, por onde saísse, levasse-a.

Ele deitou-se espraiado
Debaixo de um céu de brigadeiro
E deixou-se cobrir, confortável,
Por um mar que o adormecesse.

Ela achou-se incontida
Na pressa do dia-a-dia.
Tentou desengarrafar-se
Por um sinal verde que a parasse.

Ele cansou-se de andar: parou.
Sentiu o vento mover-se para fora
De seu peito que o substituiu
Por um gás que mais o ascendesse.

Ela, farta do frio de estar
Exposta à geleira dos outros,
Inflamou-se por completo
Em busca do seu próprio calor.

Ele não gostava do próprio conjunto
De desarmônicas partes: desfê-las
De um golpe, libertando-as para sempre,
Sob e sobre os ferros imperfeitamente paralelos.

Ela conjurou os astros
E persignou-se ao peito manso,
Depois deitou-se com Deus,
Castamente jejuada.

Ele arrastou para fora
O que no ventre lhe tolhia
E parecia encher-lhe,
Esvaziando-se até sumir-se.

Eles demoraram mais. Aguardaram
Pacientemente o trem que, depois de uma vida,
Chegou pontualmente atrasado
Ao que já era o fim da linha.

22/08/09

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MONTAGEM

As palavras são nada.
Elas se enamoram, apaixonam-se, copulam, gestam e parem infinitas palavrinhas que, por sua vez, vivem ou morrem, e, se vivem, repetem a sina da família.
No entanto, a sua alma, o seu espírito, este jaz prestes no limbo das ideias, onde mais ainda se enamoram, apaixonam-se, copulam e parem, à espera de que unamos carne e espírito e as dinamizemos e, finalmente, projetemo-las prontas e cheias ao mundo.
Mundo este que também é um vazio preenchido de sentido pelas palavras que o descrevem.
Mundo: que é mundo, senão uma palavra infestada de palavras infestadas de sentidos que lhes damos?

08/2009

domingo, 9 de agosto de 2009

DÊIXIS PRA CÁ



Deitar-te-ei num campo semântico
E, repleto de onomatopeias e silepses,
Com meu pronome pessoal reto e explicitado,
Introduzirei meu radical latino no teu circunfixo.

Porque tu és minha vogal tônica toda aberta,
Por ti, meu ditongo é sempre crescente,
Tua concordância morfossintática é quase um palíndromo perfeito,
E, sem ti, o mundo é um enunciado pleonástico.

Deixa eu ser a tua epêntese, deixa…
Abre o teu verbo para eu fazer uma mesóclise.
Minha onomástica gira em torno dos teus semas.
O meu estema se mete na sintaxe
Que, sob uma árvore diagrâmica, quero contigo reger.

Junta o teu verbo ao meu e façamos uma locução
Que, hiperbólica, exigirá um craseamento.
Ah, como o teu verbo copulativo deixa o meu pronome reto…
A abundância de teus verbos enche o meu dativo de interesse.

Por ti, minha sinédoque, serei sempre a forma rizotônica inflexionável.
Complementarei o teu nome com a preposição entre,
Articularei minha prosódia em teu pavilhão externo
E meus fonemas africados no fundo de tua glote.

Com métrica em picos ritmados de meu verso sátiro,
Terás oxímoros polissindéticos de tabuísmos repetidos,
Esbaldar-te-ás polissêmica e nada eufêmica
E engasgarás de revirar os pronomes oblíquos de tantas derivações regressivas que faremos.

20/07/08

segunda-feira, 20 de julho de 2009

RECEITA MINHA DE CARNEIRO COM CANELA

Põe-se em fogo baixo um carneiro ao leite com salsa picada, cebola em rodelas grandes, tomate maduro, batata inglesa e pimenta-de-cheiro, e os coalhadores:
Alecrim, para que cheire a dia claro de sol, e orégano, para um quê de frescor de chuvisco;
Uma touceirinha de coentro bem picado — para que cheirem as mãos;
O alho roxo esmagado e com casca, para que se lhe encontre depois a delícia do desmanchar-se à língua com um gosto novo, com um encaminhar-se tranquilo de fera mansa e já dócil ao novo dono;
Alfavaca ou manjericão, para que o coração se abra, mas não muito — esquece-se de comer, de coração escancarado;
Para que o carneiro berre de gozo nos lábios, o sal e a pimenta de costume, contanto que esta seja viva, nunca morta — uma dedo-de-moça vermelha e indecente é a melhor;
Uma coisica de mel de jandaíra, para que se lambam os dedos inconscientemente;
E canela em pó fino, finíssimo, puríssima, em quantidade e aplicação de adorno, simplesmente.

Vai-se primeiro o leite ao carneiro não muito tenro, para que não se desmilingua. Panela não é sítio de borregos.
Melhor é que se deixe o carneiro antes entender-se com o sal a sós, como bons filhos de quem são.
Caso não, acrescente-se este em seguida, mas, adverte-se, pode o leite anojar-se-lhe.
Após, ponham-se juntas e bem picadas as ervas chãs e o orégano, para que o carneiro delas primeiro se farte.
Acompanham-nas a selvageria roxa da cebola e do alho e a pimenta-de-cheiro, para que nos lembremos de quem somos.
Seguintes, o mel e a pimenta, que mais devem se amar no caldo que na carne, como sempre.
A batata e o tomate — a moça em nacos e este último em esguias e oblongas lâminas — devem ser sempre os últimos, chegando à panela quando borbulhe, nunca antes.
Sua presença é por demais egoísta e pode roubar ao carneiro algo de si que ali se pôs e que dali deve somente a língua retirar.
Antes — e muitíssimo importante —, esgueire-se fina e vaporosa a canela mais pura, pisada em pilão de goiabeira, andiroba, gameleira ou juá por quem entende do assunto.
Deve-se pô-la levemente, pois canela é dona que demora a perceber a que vem, e não se envolve assim tão facilmente.
Quando não se dá dos outros, é em si. E assim se sorve. Canela não é boa coisa de se irmanar.
No entanto, uma vez que entra em seu coração o envolver-se, desatina-se e possui a alma do outro, e nela ferve, amadeirando-a docemente.
Rastreiam-se a vida no sabor no caldo, os passos, no cheiro nas guarnições, a memória, no grudado na panela.
Todavia, quando se toca a carne com a língua doida de tantos sabores, percebe-se que é aquele que a justifica.
E, como a do carneiro, perde-se nela a alma da língua, da boca, do estômago, e esse roubar-se de assalto leva, por fim, o corpo todo, que se adoça, que se amadeira, que se languesce.
Fique-se de modo que, então, registramos que canela é coisa de intermédio.
Ponha-se quando se sentir próxima a vontade de pô-la, e saboreie-se tudo com desleixo, como um sono de três horas da tarde.

19/07/2009