Número de sílabas (desde 11/2008)

counter

terça-feira, 17 de julho de 2012

COMPARTILHAR

(Para Angícia Gomes, amiga querida que inspirou esta crônica, sob cujo tema desejava há muito escrever)

Esta é uma sociedade de emoções intermediadas, o que significa que as pessoas tendem a ser náufragos solitários que só experienciam as mensagens nas garrafas e só se veem por binóculos e lunetas. Talvez, porque temos os meios tecnológicos de manifestar nosso egocentrismo, talvez, porque somos uma geração que cresceu aprendendo que o medo do outro (o diferente) é a regra; o fato é que somos filhos da “guerra fria” interpessoal.
Até o sexo, depois do pavor da AIDS, obrigou-se com a intermediação dos preservativos, e passamos a diferenciar definitivamente dois tipos de amor: o carnal, que vem a ser manifestações polares de relacionamento que se tocam por todas as partes, menos as genitais; e o reprodutivo, este que depende de uma série de exames laboratoriais e comportamentais, submetendo-se, assim, ao microscópio que nos impuseram a ciência e a religião — finalmente juntas num ponto — para determinar se somos dignos de um coito asséptico, higiênico e deificadamente aprovado. Outro dia, vi numa entrevista um sujeito dizer que, sem camisinha, não sentia tesão. “Não endurece”, mencionou. Adulto, nível superior, CASADO.
Quando vou a espetáculos musicais, presencio também um exemplo interessante dessa intermediação. Nasci na metade dos anos 70, cresci embalado pelo bom e velho rock ‘n roll que meus irmãos escutavam na vitrola e pelas serestas dos meus pais, até caminhar com minhas próprias claves. Sempre sonhei VER minhas bandas e meus cantores preferidos, mas a época, o local e o contexto em que vivia mo impossibilitavam. Hoje, podendo, vou a shows, canto, grito, embriago-me de música cercado por um novo tipo de apreciador: jovens, em sua maioria, de celulares à mão, ou câmeras digitais, filmando a apresentação e assistindo a ela pelo écran do aparelho (talvez, haja um paralelo com as infinitas fotos solitárias capturadas nos espelhos…).
Talvez, sejam os mesmos que acabaram de baixar em emepetrês os últimos discos de suas bandas preferidas — os quais, provavelmente, ouviram enquanto sentenciavam no Twitter, navegavam no Facebook ou papeavam no MSN — junto a raridades as quais tive de bater muita perna para encontrar em sebos e, por isso, valorizava como tesouros. Para eles, não sei o que venham a ser. Sim, também baixo discos, vasculho a rede à procura de raridades e as ouço enquanto trabalho ou me locomovo de ônibus pela minha cidade — na qual a tranquilidade seria impossível sem meus fones de ouvido. Sei também do isolamento que isso configura. Contudo, duvido bastante que eles e eu saibamos da mesma forma o valor de “Dos Cruces”, “Bohemian Rhapsody” ou “20 Anos Blues”.
Medo, selfism, talvez. A História nos mostra que, sempre depois de uma longa repressão, a liberdade traz consequências reversas à sanidade social. Talvez, não tenhamos tido antes a possibilidade de autoidolatria generalizada que temos hoje, sequer meios para isso. O fato é que nós nos insulamos por trás de um emaranhado psicológico que se reflete em nossas afeições, nossos comportamentos interativos e desempenhos profissionais. Somos todos sentenciadores de verdades, prestadores de conta de rotinas que são projetadas para supostos “fãs” ou seguidores do Twitter, além de nos sentirmos um tanto nauseados pelas marolas que nos custam as travessias por esse eixo real-virtual.
Eu, que soltei arraia, joguei bila e pião e puxei carrinho de corda na infância — com extensões para a adolescência —, estranho ver tanta precocidade, tanto mal-amadismo, tanta defesa e exposição de bandeiras, kilts, pinturas tribais, definidores de clãs. Quando crianças, nós defendíamos nosso bairro, nossa bandeira se misturava à dos meninos da rua do Seu Sebastião em celebrações de nossas igualdades (nos campinhos, nos terrenos baldios, nas calçadas de pedra) por meio de disputas por bola, por supremacia de nossas arraias no céu. Terminávamos todos sob o pé de jambo ou os algodoeiros, os pés sujos, as almas lavadas, as mães chamando para dentro de casa. E assim foi por muito tempo.
Talvez, seja hora de procuramos numa infância que tivemos (pelo menos, eu tive) a desnecessidade do medo e da coragem, num tempo em que sermos nós mesmos em companhia era a regra. Talvez, precisemos mais de campinhos que de iPhones…

Ajuda bastante fazer aqui uma analogia ao espírito de liberdade que se atribui às motocicletas. As primeiras edições da Harley-Davidson Indian, por exemplo, e muitos outros modelos não têm assento para o carona. Você pode viajar, sentir o vento vestir-lhe a pele, mas nunca acompanhado. Estará sempre só. Poderoso, absoluto, independente, autoafirmativo. Não obstante, só. Lembrei-me agora de um trechinho de uma das pérolas da burrice contemporânea: “quem tem sorte é ‘solteiro’” (SIC). Quem a compôs talvez não soubesse que “solteiro” é uma corruptela de “solitário”. Estamos mais solitários do que nunca. Talvez, também por isso, venha a valer uma ida a um dicionário etimológico e uma procura pelos significados dos morfemas do verbo “compartilhar”.

17/07/12

Nenhum comentário: