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sábado, 7 de maio de 2011

O 5 DE MAIO


No dia 5 de maio de 2011, por decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF - http://www.stf.jus.br/portal/principal/principal.asp) aprovou a união estável entre pessoas do mesmo sexo (http://www.band.com.br/jornalismo/brasil/conteudo.asp?ID=100000428967). A data é motivo de comemoração por parte não só daqueles que tiveram real ou potencialmente lesados os seus direitos, mas também de toda a sociedade, que, agora, dá um passo adiante no que diz respeito ao princípio da igualdade perante a lei. No entanto, nos últimos anos, tenho visto algumas específicas manifestações que podem ser compreendidas como extremas e perigosas a esse mesmo princípio.
Há uma tentativa de conscientização tácita de conceitos que são contrários ao próprio princípio de igualdades de direitos dentro da heterogeneidade. Imagino ser a ideia que todos devamos abraçar o fato de que somos “diferentemente iguais”, ou seja, todos, quanto ao comportamento sexual (que é heterogêneo), são semelhantes, merecem reconhecimento e respeito no que concerne à sua condição. Porém, vejo campanhas nas redes sociais que pedem a todos que exibam em suas páginas um ícone, uma imagem ou mesmo apenas a mensagem do Projeto Eu Sou Gay (#eusougay - http://projetoeusougay.wordpress.com/), que luta contra a intolerância ao comportamento homossexual. A adesão ao projeto, seja apenas em concordância ou aceitação, seja ativa e propagadora, é extremamente louvável, visto que devemos tentar melhorar a nossa cultura nesse sentido. Devemos mudar os estabelecimentos sociais que rezam uma maldição contra quem é diferente sexual, étnica ou economicamente; na verdade, devemos mudar muito mais que isso. O que eu vejo como problema é o fato de estar havendo uma tentativa de homogeneização comportamental. Levantei esta questão ontem em sala de aula: não seria uma retaliação essa tentativa de tratar a todos igualmente? Retaliação, no sentido de que se tentam tratar os heterossexuais como se não o fossem, ou o fossem mediante uma escolha que poderia deixar de ser feita. Ora, esse pensamento não é o que se tem aplicado sobre os homossexuais todo esse tempo, e que é justamente o que se tenta erradicar? Não é o reconhecimento da relevância social das diferenças o ponto? Não é a justiça quanto ao reconhecimento da isonomia que se busca? Não é um fim à violência implícita e explícita contra aqueles que têm direito de exercer livremente seu comportamento sexual o que se almeja?
Outro dia, estávamos reunidos com um professor que ministrava uma palestra sobre critérios de correção de redação para o (extinto) vestibular, e surgiu o tópico a respeito de comportamento difamatório ou preconceituoso na construção textual. O debate foi ótimo, esclarecedor e descontraído, tal que o palestrante mencionou a sentença que virou bordão tanto dos ativistas de movimentos do segmento lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e simpatizantes (LGBT ou LGBTTTs - http://www.abglt.org.br/port/index.php) quanto de rodas de conversas informais em que surgem brincadeiras sobre o tema: “o mundo é gay”.
Não, o mundo não o é. Não o é como não seria “macho”ou “fêmea”, homo ou heterossexual. Este espaço social que tanto nos esforçamos por destruir e chamamos mundo é o lugar onde todos vivemos igualmente reconhecíveis, igualmente agentes, igualmente indivíduos que têm direitos às suas idiossincrasias, ideias, manifestações, pensamentos, condições sexuais, necessidades, afetividades; direitos que param no ponto onde começam os de nossos semelhantes, que são todos. O mundo não é homogêneo. Sequer o é o indivíduo. Cada um de nós é um universo com forças que lutam contrárias e favoráveis umas às outras. Seria uma atitude adequada tentar imiscuir a ideia de que temos de ser, dessa forma, iguais? Não seria o mesmo que querer que um gênero tenha de ser o outro comportamental ou culturalmente? Mais uma vez, retomo a palavra CULTURA. Nossas interações sociais têm falhas nesse sentido que têm de ser sanadas, ou seja, temos de abandonar essa herança de intolerância ao diferente que recebemos de nossos antepassados. O que eu questiono é: será que temos de abandonar também quem somos? Será que tenho de ter a vergonha de ser quem sou como a sociedade impingiu aos homossexuais que a tivessem? Será que não há espaço nesse “mundo gay” do professor da palestra para os que não o são? E a tão falada tolerância?
Devemos todos mudar os conceitos de uns quanto aos outros. Há falhas conceituais, preconceitos e intolerâncias de ambos os lados. A observação da história nos mostra que, quando se chega ao fim de uma crueldade, abre-se invariavelmente um espaço para um extremismo. Não abracemos isso. Sejamos lúcidos, sejamos conscientes. Reconheçamo-nos como somos, e não como arquétipos; abracemos o nosso irmão que não é gêmeo. Saibamos, acima de tudo, que o nosso caráter não está vinculado às fisiologias biológicas ou comportamentais. Ser um homem ou uma mulher de valor é ter a capacidade de não piorar o mundo em que se vive, é honrar sua existência com a promoção da própria existência, é cuidar do outro, mesmo que seja no menor dos sentidos.
Eu ainda me lembro da vez, em uma das pescarias às quais meu pai sempre me levava, em que eu pesquei de anzol o meu primeiro peixe e comecei a gritar de júbilo, ao que disse com toda a minha alma, e, por isso mesmo, imperceptível e inconscientemente: “eu sou filho do Lourival!”. Eu senti a intensidade daquele momento em que meu pai travou na garganta um nó que só o reconhecimento de seu valor e a retribuição de todo o esforço de uma vida são capazes de atar, e eu também o fiz, mas por ter dito, talvez àquele único momento, o que eu sentia por ele. Quantos são os homens e as mulheres que têm esse direito negado? Assim, eu pergunto: são a biologia ou o retrógrado senso comum que ditam quem pode ser feliz àquele ponto?
Eu compactuo integralmente com a decisão do Supremo, a qual inaugurou um marco histórico. Permitamos que essa felicidade se propague com toda a liberdade que o direito lhe concede, e aprendamos a ser quem somos em relação uns aos outros.

07/05/11
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