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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O FÔLEGO BREVE

Deus que me perdoe,
Mas preciso trancar o vento do lado de fora da casa,
Pois aqui ele tem vítimas frágeis demais.
Meus papéis, meus excertos, minhas imagens…
Não lhes tenho biombos, não sei fazer campânulas.

Vento é feito Deus.
Respiro-o, visto-o, alimento-me d’Ele
Com meu diafragma.
E, em troca, Deus me morde por dentro, na carne de meus pulmões.
Impiedosamente.

Amanhece, e esses dias têm sido tão quentes…
São dias com manhãs de calor sem vento,
Sem pressa e também sem piedade.
Quem se apieda de mim, meu Deus, meu vento, meu calor?
Já me levas pulmões, fôlego, mesmo a música triste com que me envio.
Leva-me também, Deus, alguma consciência,
Para que eu sonhe um pouco mais…
Sabes quão pequenos eles são, tão humildes, tão meninos…
Dá a eles um pouco mais de tempo
Para que cresçam a homens.

Quanto daquela aurora ainda resta
Nas praias da minha infância?
O anzol, o peixe, a onda e a duna
— o que resta deles na minha pele, na minha carne? —,
Esqueci-os?
Mas, esquecer, como?
As chuvas, elas ainda desabam e serenam
No meu telhadinho velho de telhas de barro
Mal-acabadas,
Ainda corro pela casa com panelas para as goteiras!
Esquecer, como, se aquela areia de rio ainda não saiu de meus pés?
Estranho como, nos sonhos, sempre tudo é velho…
Ouço o rádio de pilhas branco,
Ainda há uma laranjeira e um abacateiro no meu quintal…
A casa ainda me aconchega.

Talvez Tu, em Tua sabedoria,
Deixe-los assim: infantes, desprotegidos,
Animaizinhos sem saberem bem o que fazer dos cascos.
Um fôlego breve e puro, um lampejo de inteireza
Em dias tão despedaçados, um Tu que estás
Quando Te tranco do lado de fora de minha casa.
Talvez, meu Deus, sejam as marcas dos Teus dentes
No meus pulmões quando eu Te respiro.

Talvez sejam essas marcas as raízes das minhas árvores,
Talvez seja através das pequenas feridas que me sopres,
Que me ventes, que me vistas, que eu me musique.
Talvez, Deus, Tu sejas menino.
A criança que me olha impertinente
Na folha de papel desenhada de tantos anos atrás,
Quando eu aprendi a adorar os trovões
E a rabiscá-los entre os corredores estreitos dos cadernos de poesia.
Talvez as vítimas nem sejam frágeis, nem sejam vítimas…
Talvez as portas possam dormir abertas essa noite.

08/12/10

2 comentários:

Eduarda disse...

fernando,

respirei fundo para poder comentar, um texto cheio de metáforas, com um belo traço que só mesmo tu consegues.

bj

Shirliane disse...

Aquelas coisas que molham...
Sabes?

Ainda molham a minha saudosa face... São sobras das dores que ainda lutam para que sorrisos (re)nasçam.

Obrigada pelas palavras únicas!

Shy =)