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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

NOTURNO EM MI BEMOL MAIOR

O bar fecha as portas,
E as cervejas afogadas dormem
No colo de seus homens.
Um noturno de Chopin diz resignado baixinho
Em pé na plataforma da mesa
Que descansa cabeças, corpos, almas:
“Teus ouvidos são do mundo,
E o mundo te ama,
Mas eu, não!
Eu te suporto e te adormeço
E me esqueço sem que te lembres
De me resgatar os pedaços estuporados
Dentro de teus bolsos,
Sob teus sapatos,
Dentro de teu colchão.
Eu sou teu esquecimento que te diverte,
Tua bailarina puta de porcelana,
Teu vento fresco revigorante.
Eu sou tua volta a casa.
Eu sou teu noturno brumoso
Como a espuma tíbia e desleixada
Nas paredes de teu copo vazio.”
O barulho corrediço e metálico estala percussivo,
Vestindo suas notas de um dourado-verde porta-estandártico,
Enredando-lhe um samba.
Também baixinho, tropeça o noturno alguns passos
Em direção à noite também afogada,
Que o espera de boca entreaberta, meio boba,
Com um sorriso sem inteligência,
Consciente de que já a possuíra.
O bar fecha as portas,
Mas esta, a noite, apenas sorri uma palidez negra
Que antecede malditamente o compasso marcial
Das ruas claras,
Das casas claras,
Das pessoas claras.
Claras dessa mesma claridade medonha que inflama os órgãos,
Tirando do fundo noturno do mar
O esquecimento à luz maquinal,
Que parece ser mais eterna que a noite,
E destituída totalmente da sua complacência.
Dentro dos homens, alguma coisa os esquece
De onde vêm as almas,
Pois é das mães o parto, e das esposas, o rito;
À noite pertencem os homens.

03/11/10

2 comentários:

Eduarda disse...

Fernando,

Fiquei menos aqui quedada a ler este nocturno e a pensar nos homens e nas mulheres das noites.

Forte mas imporegnante texto.

bj

Rebeca Xavier disse...

eu n entendi o comentário acima o.o

enfim...

gostei mt, xuxu.. como sempre (exceto qnd eu n entend nada)

=****