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domingo, 25 de junho de 2017

UM OVO CHEIO DE VÁCUO

As cãs, desprotegidas e humilhadas como um cão
de rua,
estéreis:
neve sobre sousas.
Da velhice tudo nasce
ou renasce, porém
sem novidade de vida.
Um cão velho que já errou suicídios
atravessando ruas
não persegue mais a cauda
nem brinca mais com o lixo;
aprendeu já a podridão,
perdeu de si já a curiosidade,
sabe já que é um cão.
Assim, nesse plano sem perguntas,
onde tudo é esconderijo,
retumba enorme o silêncio inventando labirintos.
Todo caminho leva de volta.
Todo pensamento é memória.
Toda criação é distorção de reflexo.

Estar velho é pior que ser velho;
a mão única da transitoriedade
ressignifica o retrovisor
e a poeira
e o mormaço
e o frio da ausência da luz.

Um ovo cheio de vácuo
inclode:
é a vida enganando com a estranheza
e o estranhamento
a expectativa.
O cálcio sem película da casca
perfeitamente involucral
é armadilha semiótica
esquecida na bandeja de ofertório;
não guarda nem esconde nem protege nada;
é o branco de que é feito o glaucoma
destes olhos que a terra há de comer.

23/06/17