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sábado, 22 de abril de 2017

RESSACA

O mar dos meus sonhos
é sempre praia e nunca é calmo.
Quebra alto e breve
cheio de força e fúria,
como um chucro matando a víbora.
Na linha, fico a alguns passos:
o coração, como o dele;
respingos de sangue espumoso e vapores de maresia
espargidos
me completam as narinas.
Sou ali a miniatura de um gigante,
o hipônimo do grande mistério violento
que fustiga as próprias costas
com a mesma grande pergunta cheia de dentes.
Devoro o corpo-chão;
como a minha areia;
salgo minhas entranhas;
erodo-me por completo
antes de me compreender.
Nada navega no mar dos meus sonhos,
exceto meus monstros brutos e inocentes,
em cardumes fraternais e canibalísticos.
Do lado de dentro da onda,
um ódio atlântico,
uma beleza monumental
cai e recai numa preamar vomitória,
como um touro de opala cascando a arena.
A minha onda é murro na mesa,
dentes cerrados e crespos nas pálpebras.
Lá, no meu mar de aquário,
não há tempo nem mundo,
ninguém além de mim:
somente a perfeição da pureza furiosa,
a ausência de tudo
e a impossibilidade da morte por afogamento.

22/04/17