Número de sílabas (desde 11/2008)

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

QUANDO MORRE UM POETA

Fotografia: Don Pajata - Mário Gomes

(Texto antigo, de 2005, tardiamente editado em homenagem à iluminação do poeta Mário Gomes ocorrida hoje, o último dia deste ano tão implacável de 2014)

Quando morre um poeta, é como se, à noite, por um instante, sumissem toda a brancura da lua e o piscar das estrelas. Só por um instante, a noite se apaga totalmente, e o mundo mergulha súbita e desastrosamente num nada, como num espasmo, como num ataque epiléptico. Tudo se apaga, tudo se cala, anjos e demônios se refugiam desgraçados nas sombras do mesmo susto. No fundo dos corações, uma espécie de mágoa ao contrário se instala, e um incêndio é ateado nas gargantas, o sangue ferve, o cérebro ferve, os pulsos se trancam, e o peito, miserável, despedaçado, grita sem sucesso uma dor sem nome.
Quando morre um poeta, morre junto um pedaço do tempo da vida do Homem na Terra. Um pedaço que ainda não viera. Nos jarros secos das mesas de vidro das salas de visitas, nas mesas derramadas de bebida velha, nas vaginas das mulheres da vida, nas varandas suicidas emparelhadas, nos rincões ressuscitados das memórias, nas flores de plástico empoeiradas, nos baixios, nos sorvedouros, nas cruzes de concreto e de argamassa das igrejinhas, no sal das lágrimas, em todos os rastros que ainda não foram trilhados, na tua palavra e na minha, em tudo, morre um pouco, quando morre um poeta.
Tudo morre um pouco, ou morre muito, não sei dizer. Porque é como se morressem toda a beleza do mundo que ainda não foi cantada, todas as coisas que não foram ditas, todos os sentimentos que ainda não haviam sido despertados. Num instante, em que tudo se apaga e a megera de todas as coisas se instaura, gritante, gargalhante, escarnecente, torturante, o espírito do Homem se desguarnece do que lhe sustenta e cai, patético e imoral, objeto de chumbo e palha esfacelado no chão. O chão se abre, engole-o e se fecha, e o mastiga com seus dentes de magma. A humanidade morre junto com o poeta por um instante, mas não a morte deste. Ela morre como quem perde tudo, absolutamente.
Nesse instante, nesse átimo antes das coisas da vida se restaurarem nas veias das cidades, o negror de nossa pequena e frágil condição sobre a Terra nos visita. Porque, sem o poeta, não seríamos mais que relógios, máquinas de ponto, placas de silício e armadilhas para peixes. A nossa ausência nos olha no fundo dos olhos, e essa marca fica. Pesada, cruciforme, cancerosa.
Então, as passadas seguem e a vida volta às suas tramas, voltamos às nossas casas e abrigos. Como se nunca nos houvéssemos visto sem pele sob uma chuva de navalhas. As placas de silício voltam a conduzir impulsos elétricos. As armadilhas capturam normalmente. As máquinas de ponto marcam mais um dia. Os relógios tiquetaqueiam.

31/10/05

Mário Gomes

Texto de Mário Gomes (clique no nome do poeta para acessar sua página).
Fotografia de Mika Holanda (clique no nome do fotógrafo para acessar sua página).

MEDICINA

(Clique na ilustração para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página)

Tenho em mim engasgos de natureza emocional.
Vejo o mundo, e ouço o mundo, e leio o mundo dentro das pessoas,
e o mundo dentro de mim quer irromper em erupções de lavas gástricas,
como Gaia parindo seus monstros.
Porém, como Gaia, que é o próprio mundo,
não consigo parir minhas palavras.
Elas germinam, crescem em textos,
enciclopediam-se em compêndios vermelhos,
encapados de paredes esofagianas
e guardam todos os segredos do mundo.
Sou doente de guardar segredos.

31/12/14

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Saturnália!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CORPO FECHADO


Onde estiveres, não te demores.
O tempo é cruel deste lado.
Posso esperar tanto quanto a própria espera,
Mas não domino mais a arte de me transpor
E me desabitar
E sazonar pelas praias e sertões da infância,
Sendo outro que não neste corpo.
Hoje, aqui, o meu corpo é fechado, trancado,
Sem aldrabas de visitas,
E dele não saio,
E é ele que te espera, duro, rijo, seco.
Por que não deixas de ser nuvem branquinha de longes sombras
E choves?

12/12/14

domingo, 30 de novembro de 2014

GENESIS

Amanheci
Mas já era noite.

Tenho sido escuro desde então.

30\11\14

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PONTO DE FUGA

Foto: João Machado
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do artista, para visitar sua página)

Daqui, donde vejo o mundo,
Eu parto
E fico cada vez mais um ponto distante
De não haver mais
De onde partir.

26/11/14


sábado, 22 de novembro de 2014

Seu Lunga

(Clique no nome do artista para acessar sua página)

Acontece, muito raramente, de um homem virar folclore e ganhar o tamanho de sua gente.
Isso é o máximo que uma pessoa pode desejar ser.



Joaquim Santos Rodrigues, o “Seu Lunga”
* 18/08/1927
+ 22/11/2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

TESTAMENTO


Fique isto posto:
Cumprirei com o acordo
E farei a minha parte
Na reciclagem desta carne.

Darei ao solo os meus nitratos,
E só!
Exigir mais de um homem é desumanidade.

17\11\14

sábado, 8 de novembro de 2014

NOITE POUCA


Tem mais noite dentro de mim do que fora.
Eu preciso de uma noite maior,
e não carece luzirem lua, estrelas nem postes
— durmam todos os vaga-lumes —,
que minha noite é para dormir meu dia,
caberem meus silêncios
e calarem minhas feridas.
Chega de amanhecerem-me gritos
quando me calam finalmente os silêncios.

08/11/14

TANTO


Eu tenho orgulho de não saber tanto
Que não me deixe ser quanto
Queira.

08/11/14

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

DAS PALAVRAS E DOS HOMENS


Lembra como era
quando você não fazia parte de si mesmo
e tinha de pertencer ao mundo?
Não havia ainda as conexões
e suas mãos tocavam as palavras.
As palavras e o mundo por trás delas eram táteis,
e você era lido por si, e não por elas.

Hoje, a palavra é o homem,
e o homem some do écran da vida
como se essa morte-vida repetida
fosse o tempo formatando um espírito sempre ressurgente.

O que fazer num mundo sem indelebilidades?

Você cintila “vc” num monitor preto
e existe enquanto brilhar nessa tela-janela.
Lembra quando éramos estrelas
E brilhávamos mesmo depois de, há muito, extintos?

04\11\14

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ALMA SERTANEJA

(Clique no nome do artista para acessar a página) 

Todos os sentimentos ruins são fortes, fortíssimos.
O amor, a compaixão, o carinho são frágeis, débeis, tíbios.
Na escuridão do corpo, não têm força de engendrar-se. O corpo é forte.
Nele, nas axilas, nas virilhas e nos intestinos, reinam a mágoa, o rancor e o ódio,
Como reina um sol que se emeiodia num chão sertanejo
Assim que nasce
E tiraniza até avermelhar as fúrias do crepúsculo.
A alma, essa coitada, vaga de lá pra cá
Frágil, débil e tíbia
Carregando o espírito do homem sobre o lombo,
Anjinho semimorto e agreste,
Às beiras das poças plúmbeas das águas que os bois sobejaram.
A alma, essa mãe esquálida, não pode com o corpo, potência de fogo e pó,
Mas é ela que anoitece
E dá de beber ao amor, à compaixão e ao carinho
De seu peito murcho, com o leite mais frágil, débil e tíbio,
Até a hora amarela da próxima aurora renascente.

06\11\14

domingo, 2 de novembro de 2014

LIVRAI-ME

Matej Kren - Idiom
Torre em espiral feita com livros abrigada na Biblioteca Municipal de Praga.
(Clique no nome do artista para ver mais sobre seu trabalho)

Eu, que me achava quixotesco,
Acabei me perdendo clariceano…
E, na multipessoa dividido,
Viniciei-me de não me epicurar
De toda essa gullarte cheia de bandeiras
À ribeira ubalda desse jorgeamado mar.

Colhi do povo a rosa drummondiana
E exuperyei-me na dos saaras
Das cobras e raposas escondidas.
Cheguei a rogar à ariana compadecida
Uma audiência com a moça caetana.
Vestida de sol, a onça suassuna
Deu-me a rosinha por que tanto esperara.

Caminhei pelo agreste das escolas normais
E aprendi das florípedes das fêmeas
Que as capitulinas normas lúcias
Das macabeias das terras anas
Diadorim-homem luzia, que as outras, mais.

Fui seco na vida graciliana
E andante nas saavedras,
Mas, por cem anos me gabo,
 
De buendías me arcadio,
Saramago-me lúcido

No ensaio que me engendra.

Bordejei a besta melvilleana
Qual um ulisses despenelopeado.
Embalei árvores unamúnicas,
E entalhei-lhes o nome ASSIS a machado.

Tudo vi e de tudo fui o tamanho,
Tendo por mim um tanto ficado
Num pequod errante engarrafado
Num’água bukowska e caeira,
Cheia de doçura quintana
E de uma elegante dor leminskeira,
Onde nado nonada
E onde, até hoje, guardo meus rebanhos.

02\11\14

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TEMOR

Ilustração: Dran
(Clique no nome do autor para exibir a página)

Minha preocupação maior é que o PSDB retorne ao Governo. Porém, quase proporcionalmente, o que me assusta é o nível de desinformação, de desonestidade intelectual e a existência para mim cada vez mais clara de um projeto fascista, ultradireitista em mobilização: Feliciano reeleito, alertando Aécio contra as forças sindicais; Bolsonaro, também reeleito, acenando concretamente com pretensões governistas e rebocando um sem-número de conservadorismo e reacionarismo consigo; níveis crescentes e alarmantes de xenofobia, homofobia e ufanismo regional sinalizando que o Sudeste está disposto a comprar essas ideias; ascensão de grupos evangélicos neopentecostais (que servem de modelo a outros) direcionando seus fiéis ao obscurantismo comportamental e cultural, além de encabrestar-lhes os votos para aqueles que os "representam", ou seja, os supracitados; e, entre outras coisas, a conivência e/ou coparticipação da mídia aberta, de alguns segmentos artísticos e de pessoas públicas, dos conglomerados e das instituições de ensino.
Isso é mais que assustador, porque não é uma possibilidade, mas sim já uma realidade. Não estamos regredindo somente politicamente, mas humanamente. Ver gente defendendo a ditadura militar, usando levianamente (palavrinha da moda) o termo "ditadura", advogando abertamente contra os menos favorecidos, segregando-se. Isso sim é o meu grande temor.
As manifestações deram uma mensagem clara e algumas subliminares: primeiro, a de que estamos conscientes e fartos da corrupção; segundo, as de que temos uma raiva cega, manipulável, direcionável como uma arma.
A extrema direita, infelizmente, foi quem melhor percebeu isso.

16\10\14

terça-feira, 7 de outubro de 2014

CAJU

Foto: Alber Uchoa.

(Para Alber Uchoa, mestre, acima de tudo, e colega de especulações bosquejantes)

O caju, cá, jura
que ajuda a sede.
Mas, caju,
que, há justos dez minutos,
juntei nos beiços atrás de doçura,
não me disseste tu na mordida
de tua carne agreste
que ajuntas mais sabor
quanto mais sede tiveste?

07/10/14

sábado, 27 de setembro de 2014

DESABAFO

Não é fome, nem sono,
Nem a raiva comum aos que veem no meio de cegos.
Não é sublimação do inalcançado,
Nem recalque do que, por minha culpa, se perdeu.
Não é ser xenofóbico natural,
Tampouco não me ufanar sob bandeiras,
Nem ser, porém, telúrico da casa devastada.
Acontece é que eu não gosto mesmo
É de gente.

27\09\14

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUANDO A VIDA É MAIS BONITA

Há um cadáver lendo outro para um terceiro,
E este último ilude viver
A quem o vê e ouve,
Porque morte mesmo é ter o espírito surdo
Ou não, a ele, dar ouvidos.
Há mais que vida na vida de quem, assim, morre
Ou desfila sua morte,
Porque a vida sem isso é nada mais que estados profundos de distração de si mesmo,
Um coma esfuziante, uma catalepsia epilética.
Viver é mais bonito
Quando a morte bate à porta
E pede licença para dizer o quanto cansa quando as coisas terminam
Depois de já terem tido, há muito, um fim.

25\09\14

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

CORTEJO


Parece que morreu alguém.
Tudo se sente, menos a parte que faz a gente não perceber que sente.
É um acordar definitivo, um desvelar das inocências, uma epifania clariceana.
Falta alguma coisa que era a mais importante, mas o que era?
Quem era?
Um pedaço, um membro amputado?
Deve haver, em algum lugar do coração, pálpebras.
E essa morte de charada mais me parece como se essas minhas pálpebras tivessem sido rasgadas com tesoura cega, e o peito quisesse fechar os olhos, mas não pudesse.
Onde, esse cadáver vivo?
Quando, esse presente morto?

24\09\14

terça-feira, 23 de setembro de 2014

DOS MISTÉRIOS ABSURDOS


Meu espírito é míope: não vê um palmo diante do nariz.
Tateia tudo e sai de narinas ao vento, como uma alma,
Mas sem o azedume religioso das almas.
Meu espírito é homem, feito de terra,
E padece da cegueira solitária dos homens,
Essa cegueira de raiz, que, se enxergasse,
Não enraizaria.
Contudo, mesmo não sabendo, procura, e esse não saber de nada
É que o ala.
Saboreia o mundo, cansa a língua na sensaboria,
À qual prefere, às vezes, o amargor ou a amargura,
Conforme a fonte.
E toda noite, cansado dos sentidos, cala-os,
Abre os olhos negros e estrelados, cegos, vítreos
(Olhos de espelho de cabaré antigo)
E dorme uma escuridão cintilante, salpicada de meteoritos
E outros mistérios absurdos.

23\09\14

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

The cool, cool river

19\09\14

COLEÇÃO


Colecione o mundo com seus olhos, e seu silêncio será repleto das vozes que você quer ouvir. A solidão não é a ausência das gentes, mas sim a cegueira do próprio espírito.

16\09\14

O jardim da alma



(Para Mateus Linhares, poeta e amigo, que tem uma rosa despetalando lindezas no papel)
Tire a alma da gaveta, lave-a e estenda-a no varal, como o fazem as pessoas muito pobres, em fios de arame, à porta de casa. A poesia deve ser limpa e honesta como roupas íntimas balançando no vento coletivo.
Amigos, este é um poeta novo, de uma safra de ótimos corações, que tenho o grande orgulho de conhecer pessoalmente e cujos textos conversam muito bem comigo. Prestigiem, por favor, a sua página, pois é, sem dúvida, um jardim de sentimentos muito bem cuidado: O jardim da alma.

https://www.facebook.com/pages/O-jardim-da-alma/323678117812485?ref=notif&notif_t=fbpage_fan_invite

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CABARET FRANCÊS


Quando amar, deixe o ser amado saber-se.
Esconder o amor sob os véus da prudência
Ou deixar que dele o silêncio contemplativo diga a malha,
O cheiro e o gosto através dos olhos austeros
Não o engrandece,
Nem há fumaça romântica de cabaret francês que lhe heroíze as faces.
Ame às claras, que é no escuro que o amor dorme,
E não há paz maior que um amor de permanente aurora.

27/08/14

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

LITERATURA E LINGUÍSTICA


Comparar Literatura a Linguística é como comparar uma casa às ferramentas que a construíram, ou uma pintura às tintas e aos pincéis. A ferramenta existe para inúmeras tarefas, incluindo a arte. Pessoas que deificam os livros, mas pisoteiam as palavras, sempre me pareceram aquelas caricaturas azedas existentes nas igrejas: adoram o ouro das estátuas e as filigranas dos escapulários, mas afetam-se diante das chinelas roídas dos pobres que ergueram o templo.
Estudantes de Letras, melhorem! Vocês não existem por tributos, não nasceram para adorar um Olimpo de deuses, porque são humanas as palavras, e é suor o que as une nos textos. Escrever, meus caros idiotas, nada mais é do que verbalizar o mundo invisível por trás da mera existência humana, processo no qual as ferramentas e a obra partilham igual importância; e por meio do qual são igualmente sublimes.

21/08/14

sábado, 16 de agosto de 2014

MOIRÃO

Clique no autor para acessar a página e na imagem, para ampliá-la.

Ser a Europa no verão;
No inverno, a Argentina?
Ou subir essa campina,
Seio e braço do sertão,
Que é mãe, e pai, e filho, e irmão,
Que é sede, e fome, e sina,
Mas é mestre que me ensina
Que mais forte é o moirão
Quão mais firme, a areia fina?

16/08/14

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

REGISTRO

O passado, essa coleção de letras, sons e imagens gravados, é o único que me interessa. Porque há um outro, um passado que me bate na porta das experiências presentes, alterando-lhes o sabor, fazendo delas memórias falsas.
Este é nada mais que fantasmas, cadáveres de gaveta que perambulam dentro dos olhos, arrastando correntes, gemendo frases alteradas que se confundem com as minhas, redizendo-as cheias de culpa e rancor.
Quando me sobra o tempo, falta-me; quando sou em paz, amarga-me; feliz, entristece-me. Viver bem é esquecer e lembrar sempre à toa, sempre sem querer, como se lembra e esquece um sonho. O resto é registro e tempo presente, e só.

01/08/14

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ESCOLHAS

Prefiro a implausibilidade da vida
Que me leva de cá para Sabe-Se-Lá
À morte arquimédica, muda e polida
Da certeza de tudo o que se fará:

Uma fila hemofílica de horas contadas,
Em negras cadentes de um dominó
Cujo arranjo esbanja a linha traçada
Na górdia e trançada cegueira de um nó.

Monto na bala de um tiro no escuro;
Nado num ocaso de ocasião.
Tanja-me ao inalcançável dos muros
O gume hidrofóbico vindo do cão!

Prefiro que o olho nublado da morte
Por dentro me olhe em perscrutação
E eu escape por engenho ou por sorte
Na pergunta ou no corte que lhe pare a mão;

Prefiro isso tudo de que é feito o talvez
E que fez o acaso do não e do sim
Pintar-me na pele a insensatez
Com a tinta da alma empoçada em mim;

A ter de meu tempo a carne encarnada
Na carne de um corpo cujo coração,
Pêndulo lógico, máquina inchada,
Não passe de um pulso sem palpitação,

Sem sístole, diástole, sangue nas veias,
A temperatura excitada do amor,
Sem jamais ter jorrado na vida alheia
Nem susto, nem paz, nem espinho, nem flor.

Prefiro ser isto: a quase euforia,
A quase tristeza, a imprecisão;
À sensaboria de achar-me, um dia,
Perdido em viver no miolo de um não.

09/07/14

domingo, 29 de junho de 2014

SOBRESSALÊNCIA

E aqui, neste nada emparedado,
Trancados e sem chave, subsistimos
De roer a parede fina e transparente
Que separa de nós o sobressalente passado.

29/06/14

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PASSADO


Passo a passo, o passado.
Presente, o passado.
Bem pesado e bem medido,
porém pesado,
o passado.

20/06/14

segunda-feira, 16 de junho de 2014

DA DINÂMICA DOS SONHOS

Não me importam quantas nem quais. Qualquer um que realize um sonho sobe um degrau de existência que lhe confere o direito de se sentir bem consigo mesmo a despeito das multidões e das estatísticas. É possível, dessa forma, sair do viver ordinário, esse viver medindo-se e comparando-se a outrem, pois, mesmo em companhia de outro de igual feito, sente a singularidade de seu nome reinventado em sua carne, pela primeira vez, mais que letras impressas numa cédula de identidade ou vocativos de cimento social.
Realizar um sonho é nunca mais precisar do espelho de seu nome para existir.

16/06/14 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

ORAÇÃO


Hei de ser grande para resistir
e pequeno, para evitar.
No meio de todos,
ter o tamanho da prudência e da coragem,
ainda que não caiba no mundo
nem o comporte.
Porém, acima de tudo,
devo me desvencilhar de tudo que não sou,
pois não devo ser estrangeiro
em meu próprio coração.

09/06/14

quarta-feira, 4 de junho de 2014

IDADE


O meu medo é tudo isso se perder.
Tanta coisa se perde…
E não é esse perder de se achar depois, uma geração depois, até;
É esse perder de ter até a memória enterrada,
O nome, comido dos livros pelas traças da imbecilidade.
Eu tenho medo quando me sinto velho,
Porque, quando me sinto velho,
Sou irreconhecível em tudo que me cerca.
Ficar velho é ver, cara a cara, a perdição daquilo que se ama
E não nos ama mais
Porque mais não existe.
Ficamos sós — nós e as febres, ardendo na testa.

28/05/14

O DIA DA SAUDADE PLENA


Amanhã também amanhecerá
O dito que digo hoje dentro da noite destas palavras
Mas talvez de mais tempo precise
A verdade dentro do dito dormente
Para acordar a aurora definitiva
Em que o sol mais não se nuble
E o dia de mim mais não se crispe:

Estou pronto finalmente
Nada mais me falta
E, de tudo, a falta sinto

Os pedaços que apresento, completos!
O sertão deserto, esmiudado!
Estou pronto, meus senhores, e estou prestes!
Nada mais deixo, levo ou trago!

Há de chegar o dia
Em que o amanhã amanhecerá o homem
Em que o dito dirá distinta
A verdade plena desta saudade

04/06/14

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O REGRESSO A ÍTACA


Entrei.
Dei um bom-dia cor de adeus,
abri a carta e li,
diante dos centímanos,
meu Prometeu sem anéis
do cabeçalho ao rodapé,
sem pausas nas vírgulas, sem tons sur tons,
e despachei minha antiga mala de infâncias e ensaios
para a boca aberta de dentes
que sempre me costumou engolir as odisseias.

— Vão!, minhas desgraças…

De página em página, esfreguei a borracha de cinzas
e queimei-as ao contrário,
desfazendo o gozo de fênix em folhas brancas, imaculadas,
inéditas como virgens,
patéticas como virgens,
tristes como virgens.
Morro ao contrário toda vez,
toda vez, desfaço a fiadura da angústia
de construir-me para morrer
fio a fio, trama a trama,
página a página.
E não há Penélopes que me esperem
nas ilhas dos além-gentes
nem nada que me conte
nos portos de aquém de mim.
Junto as laudas raspadas num calhamaço de escolar,
amarro o nó da garganta firme,
espero a primeira vela e volto
— mas tudo já me parece tão novo…

05/05/14