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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

It's the end of the world as we know it (and I feel fine)

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R.E.M. - IT'S THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT (AND I FEEL FINE)
(Bill Berry, Peter Buck, Michael Mills & Michael Stipe)

That's great, it starts with an earthquake, birds and snakes, an aeroplane
And Lenny Bruce is not afraid
Eye of a hurricane, listen to yourself churn
World serves its own needs, dummy serve your own needs.
Feed it off an aux speak, grunt
No strength the ladder starts to clatter with the fear, fight down height.
Wire in a fire, representing seven games with a government for hire and a combat site.
Left of West and coming in a hurry with the furies breathing down your neck.
Team by team reporters baffled, trump, tethered crop.
Look at that low playing! Fine then.
Uh oh, overflow, population, common food, but it'll do.
Save yourself, serve yourself.
World serves its own needs, listen to your heart bleed.
Dummy with the rapture and the reverent in the right - right.
You vitriolic, patriotic, slam, fight, bright light,
Feeling pretty psyched.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

Six o'clock - TV hour.
Don't get caught in foreign towers.
Slash and burn, return, listen to yourself churn.
Locking in uniforming, book burning, blood letting.
Every motive escalate. Automotive incinerate.
Light a candle, light a votive.
Step down, step down.
Watch your heel crush, crush. Uh oh,
This means no fear - cavalier.
Renegade, steer clear!
A tournament, a tournament, a tournament of lies.
Offer me solutions, offer me alternatives
And I decline.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

The other night I dreamt of knives, continental drift divide.
Mountains sit in a line
Leonard Bernstein.
Leonid Breshnev, Lester Bangs and Lenny Bruce.
Birthday party, cheesecake, jelly bean, boom!
You symbiotic, patriotic, slam book neck, right?
Right.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine... fine...

(It's time I had some time alone,
It's time I had some time alone,
It's time I had some time alone
I feel fine...)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FODA


“Uma empresa espanhola oferece um curso profissional de prostituição. Por 100 euros, os interessados aprendem a história da mais antiga profissão do mundo, como usar brinquedos eróticos e as posições mais populares contidas no Kama Sutra.
A empresa está sendo processada pelo Governo Regional de Valência por promover a prostituição. O empreendimento tem atraído muitas críticas no País, com muitos dizendo que essa é a maneira errada de tentar ganhar dinheiro. A empresa que criou o curso afirmou ao jornal Daily Mail que não está infringindo nenhuma lei, e as pessoas que procuram o curso sabem o que estão fazendo.
O responsável pelo curso informou que, após a conclusão, é oferecida uma vaga de emprego para se tornar professor da escola.”

(Texto visto em http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/inacreditavel/2012/09/15/308894-empresa-cria-curso-de-prostituicao-na-espanha, no dia 18/12/2012, e transcrito aqui com correções minhas)


Bem que a gente poderia montar uma aqui no Brasil…
Seria ótimo! Inversão total de valores educacionais! Já pensou? As mocinhas que morriam de medo de “levar pau” na prova agora teriam de ralar muito pra levar bem levado. E aquelas que antes davam pros professores pra passar teriam isso como prática curricular (no currículo, é mais gostoso…) e não mais se sobressairiam das outras. “Aluna vagabunda” não seria mais pejorativo! Justiça social, finalmente feita às vagabundas! Elas, as mais vagabundas de todas, antes desprezadas, achincalhadas pelas escolas desse meu Brasil, agora, diplomadas que seriam, poderiam inclusive dar aula!
Caso alguma aluna “aprontasse” (gazeasse aula pra ler Pollyanna, por exemplo), a professora poderia dizer sem medo “vá pra puta que pariu”, e ela iria, embora ressentida (“mas eu tava tão cansada desse nhenhenhém de trepar, e esse era um livro tão bom…”), ter com sua progenitora, também pedagoga da escola puttanesca (sim, porque não haveria mais exclusão universitária no Brasil!), que, com ela, ralharia energicamente:
— Você tá pensando o quê? Quer ser como a sua vó? Podendo ter aprendido a profissão de dar, mas não, foi ser besta! Olha aí! Casou com o primeiro que disse “eu te amo, eu te amo…”. Teu avô, outro imprestável, liso, não soube nem me educar pra putaria. Mas, eu, não, minha filha, comigo, não! Filha minha vai aprender a foder sim, e foder alto! Com tanta puta por aí, a concorrência tá foda! Se Deus quiser, tu vai dar pra ministro, desembargador… Toma, vai estudar! E só me volte aqui quando as pilhas do vibrador descarregarem! E tem mais! Quero tomar a lição! Cadê as revistinhas de sacanagem importadas caríssimas que eu comprei pra senhora, hein? E quero ver fingir que goza igual à Monica Mattos! Olhe lá! Venha você aqui com gemido chocho de Regininha Poltergeist e cara de quem não quer dar de Rita Cadillac, que eu lhe meto a sola, sinha quenga!

E como seria a universidade…?
Venha estudar na FODA – FACULDADE DE ORGIA DANDO ADOIDADO.
A mete..., digo, metodologia consistiria de aulas teóricas e práticas, distribuídas assim no seguinte conteúdo programático:

AULAS TEÓRICAS
  • Introdução à Introdução
  • Anatomia Básica – Cálculos Visuais de Comprimento
  • Anatomia Média – Expansão Vaginal
  • Anatomia Avançada – Alargamento Anal
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival I – Princípios Manuais
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival II – Técnicas Orais
  • Metodologia do Encapsulamento Preservatival III – Técnicas Jedi
  • Aritmética Aplicada ao Comércio Internacional
  • Cálculo Monetário I – As Moedas
  • Cálculo Monetário II – Conversão e Câmbio (Palestras sobre o Tema: “Vale a Pena Dar em Euro?”)
  • Desenvolvimento de Línguas I – Técnicas Rotativas
  • Desenvolvimento de Línguas II – Técnicas de Alongamento
  • Vocabulário Poliglota Básico – Verbetes para Compra e Venda
  • Vocabulário Poliglota Médio – Verbetes para Simulação de Orgasmos
  • Vocabulário Poliglota Avançado – Verbetes para Gang-Bang Multicultural
  • Vocabulário Poliglota Expert – Verbetes para Ressuscitação de Línguas Mortas
  • Teatro e Interpretação I – Técnicas Faciais de Orgasmo (Aulas Teórico-Práticas)
  • Teatro e Interpretação II – Técnicas Físicas e Fisiológicas de Orgasmo (Aulas Teórico-Práticas)
  • Psicologia Familiar I – Interpretação da Problemática do Cliente
  • Psicologia Familiar II – Adaptação à Problemática do Cliente
  • Psicologia Familiar Aplicada às Artes Cênicas I – Fetiches Não-Consanguíneos
  • Psicologia Familiar Aplicada às Artes Cênicas II – Fetiches Consanguíneos
  • Sociolinguística I – Adaptação ao Registro Linguístico (Palestras sobre o Tema: “Foder ou Fuder: Eis a Questão”)
  • Sociolinguística II – O Sexo em LIBRAS (Técnicas de Comunicação Manual durante a Masturbação)
  • Fetichismo Instrumental I – Conhecimento e Domínio de Objetos Não-Eletrônicos
  • Fetichismo Instrumental II – Conhecimento e Domínio de Objetos Eletrônicos
  • Estilística I – Introdução ao Periguetismo
  • Estilística II – Técnicas de Fuga com Saltos Agulha e Plataforma (Aulas Teórico-Práticas)
  • Estilística III – O High-Societysmo

AULAS PRÁTICAS
  • Pompoirismo Básico Vaginal e Anal
  • Massoterapia I – Técnicas Manuais
  • Massoterapia II – Técnicas Mamárias
  • Massoterapia III – Técnicas Vaginais
  • Acrobatismo I – Técnicas Circenses
  • Acrobatismo II – Le Parkour
  • Acrobatismo III – Freestyle
  • Técnicas de Controle Pélvico
  • Técnicas de Primeiros-Socorros I – Socorrendo o Cliente (Aulas Teórico-Práticas sobre o Tema: “Ética na Respiração Boca a Boca – Omissão de Sentimentos)
  • Técnicas de Primeiros-Socorros II – Redução de Fraturas Penianas
  • Técnicas de Primeiros-Socorros III – Microcirurgias e Sutura Escrotal com Elástico de Peças Íntimas
  • Defesa Pessoal I – Chutes Testiculares
  • Defesa Pessoal II – Esgrima com Vibradores
  • Halterofilismo Defensivo I – Elevação Antissufocamento
  • Halterofilismo Defensivo II – Retirada de Peso Morto
  • Técnicas de Ioga Aplicadas ao Surubismo
  • Técnicas de Canto I – O Orgasmo em Vários Tons
  • Técnicas de Canto II – Extensão Vocal e Vibratos
  • Técnicas de Canto III – A Ópera
  • Ginástica Vaginal Preventiva Básica – Técnicas de Relaxamento e Contração
  • Ginástica Vaginal Preventiva Média – Técnicas de Manutenção
  • Ginástica Vaginal Preventiva Avançada – Técnicas de Recuperação da Virgindade

É, meus caros, essa, sim, seria verdadeiramente uma revolução educacional no Brasil… Finalmente, os filhos da puta teriam orgulho em dizer: “você sabe com quem tá falando?”

18/12/12

domingo, 16 de dezembro de 2012

VÉIO


Ninguém sabe do fantasma da sombra do cajueiro morto
nem de que suas folhas bailaram
nem do travor que terrenou o céu de sua doçura.

Do cajueiro morto,
não se sabe da volatina das aves, também mortas
— de baladeira, ou de carcará, ou de cobra,
que bicho avoante não morre de Deus,
morre da mão, da garra e do dente.

Uma castanha, herança queimada do seco da vida,
jaz esquecida dos moleques do fogaréu:
ali, repousa a força das almas
vividas no oco daquela terra,
gente, bicho e flor, maturis negados pela estiagem
que é chão branco, chão onde tudo se esquece.

16/12/12

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

ASSIM NASCEU O PEIDO


13/12/12

OS BECOS


Os becos são ruas
feitas só para homens
que sabem para onde fugir.

13/12/12

FISGADA


O melhor dos paraísos se destina
a quem morre pela boca.

13/12/12

A SUPERFÍCIE EM FUGA


Ando mesmo precisando
ver águas diferentes sob as pontes
passarem correntes
que me libertem daqui.

13/12/12

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

GLOBO DA MORTE

Calendula officinalis

Andava meio assim: “basta me chamarem, que eu vou”. A tormenta dos trinta anos soprada pela calmaria dos quarenta, um emprego no bolso, um homem a tiracolo. Não era de todo seu, sabia, mas não importava. Dava-lhe gozo e ombro, gostava de estar com ela. Todos gostavam de estar com ela, mas nenhum ficava. A cama tinha lençóis trocados de ano em ano, com raras demoras além disso.
Ela iria. Olhava a porta que separava dois mundos iguais — não entrava nem saía em lugar algum. Quando criança — e isso a assombrara muito! — vira um globo da morte num cirquinho de bairro. Pequeno, só duas motos. “Ele e eu”, pensou. Giros, vertigens, sustos, caos ordenado!, mas, depois, os dois saíam, o casal, tiravam os capacetes e faziam a reverência do espetáculo. Ela nunca os aplaudira em todas as noites que os vira desafiarem a morte. Sabia que não havia desafio. Tempo, marcas, velocidade, rotas, tudo predeterminado, uma morte ou um aleijão, sim, viriam se ousassem ir contra a coreografia. Estava farta de parceiros de dança… “Ele, não! Eles! Eles e eu…” Iria para onde a levassem.
Cortou os cabelos, calçou sandálias novas, planejou Franças e Espanhas, procurou por Deus na igreja, na Bíblia, na Cabala, nas mitologias pré-colombianas, cansou, fez tatuagem, o clichê da borboleta, mesmo estilizada em notas musicais, paquerou canalhas, deu, curtiu S & M, amarraram-na, gozou mais, fez ménage, grupal, tântrico, o tradicional romantiquinho num chalé em Blumenau com fondue e lareira… Ao chegar ao apartamento, não sentia nos pés descalços sobre o mosaico que mandara vir de Alcântara a gratidão do lar. Achou outro apartamento. Acarpetado, periférico, condomínio de luxo, térreo, frente para um átrio, estilo mediterrâneo. Covarde, não vendeu o seu. Alugou os dois, pagando um com o apurado do outro. Tentou preencher o novo consigo mesma. Inventou um self, um id, uma nova Madalena que nunca mais se arrependeria. Criou calêndulas porque gostava da sonoridade do nome e de Drummond. Pensou na família, “onde estão?”, convidaria para churrascos de domingos? Haveria de fazê-los?
Deu-se um mês, logo, um ano. O trabalho lhe exigia pouco. Geriatra bem-sucedida, montara uma clínica que levava seu nome e computava ótimos respaldo, qualidade e quadro de funcionários. Estava bem, gerenciava, apenas. Velhos, eram todos velhos, os pacientes e os médicos. Dera a dois de meia-idade de uma vez só, em sua cama, gritos, ótima noite, depois, amigável rescisão de contrato. “Médicos me saem melhor que prostitutos”, resolvera.
Naquela manhã, acordou, sentiu náuseas, “deve ter sido a vodca”, caminhou o corpo nu pela casa a esmo, meio perdida. Uma memória que achava ter deixado nos azulejos de Alcântara lhe servia de sombra pelo carpete branco. Perguntava-lhe… “iria?”. Foi ao lavabo, viu-se no espelho, não se viu em si. Um minuto, dez, meia-hora, celular tocando inaudível, mil mensagens, meio-dia, ela, estática, indo, indo… Sentou-se na cama do lado da edícula que trouxera de Aparecida, olhou a santa negra, beijou-lhe o manto azul, rezou maquinalmente a ave-maria como fizera lá, deitou-se fetal entre as seis almofadas de diferentes fronhas, indianas, sólidas, florais, abraçou-se à única que trouxera da velha cama, pôs entre as pernas outra, a mais dura, que, sob o quadril, arqueou-lhe a bunda tantas vezes para o seu gozo preferido, com as pernas abertas e o corpo descendente, como se estivesse sendo enfiada na cama pelos paus de seus canalhas ocasionais, o último, quando fora, não se lembrava… Como seria se os parceiros largassem o guidão e deixassem-se ao acaso? Iriam como ela? Perdeu-se nisso dando voltas, perseguindo-se, perdendo-se.
Encontraram-na pela denúncia do mau cheiro por parte dos vizinhos ao síndico e dono de seu apartamento e pela subsequente visita de um oficial de justiça como efeito da ação judicial perpetrada por ele junto ao Tribunal de Pequenas Causas. Morta, havia semanas. Nunca lhe bateram à porta, mas “quem era?”, “coitada”, “alguém conhece a família?”. Por interferência do filho do desembargador fulano, morador do mesmo bloco, cobertura, que promovia bacanais perdulários com putas e michês pré-adolescentes encharcados de heroína e crack, encerrou-se rápida a investigação e deu-se o laudo de morte acidental por apneia.
Porém, houve, ainda que nunca se descobrisse, quem não deixasse morrerem as calêndulas que habitavam o átrio comunal junto a samambaias, comigo-ninguém-pode, espadas-de-são-jorge e várias outras flores, dentre as quais, algumas humildes boas-noites-brancas, que, a despeito de sua simples beleza malgaxe, não eram, por ignorância de sua dona, bem-vindas ao requinte proparoxítono de suas flores.

06/12/12

COMO ENSINARAM SEXO PARA NOSSAS VOVÓS

Aula de Educação Sexual, em 1929.
Imagem original: Educação Sexual.
06/12/12

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O TEMPO É A MEMÓRIA DE DEUS


O tempo é a memória de Deus.

05/12/12

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

CONJURAÇÃO


Às vezes,
é preciso
escrever algo
para que o tudo
que esse algo
significa
torne-se verdade.

03/12/12

OCULTAÇÃO


Se todos os meus amigos soubessem o quanto são queridos
e o quanto o são mesmo a distância,
mesmo em silêncio, inclusive o silêncio de minha presença,
se todos soubessem o quanto os amo,
talvez amá-los perdesse um pouco do sentido,
talvez, desfeito o mistério da ignorância do amor,
este se apagasse um pouco, ou pouco a pouco,
até sumir-se.
Se todos soubessem tudo,
não haveria por que havê-lo.
Talvez sobrevivamos — ou talvez seja só eu —
no mistério do querer oculto,
esse desejo de ser ignoto em sentimentos
e de esconder-se em esquinas,
observando, de esguelhas, a beleza da vida
como a nudez proibida de uma mulher.

Gosto da vida como um voyeur: clandestinamente.

03/12/12

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

SE EU MORRER HOJE, ENTERREM-ME EM SEGREDO


Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo
para que não me achem o corpo, este corpo em que nunca coube inteiro,
nem meu espírito, nem minha alma.
Corpo, não te reconheço! Tampouco quero reconheçam-me na pedra fria!
Deixem-me indigente, anônimo, ignoto, um pedaço sem inteiro, uma peça sem artefato.
Também não me cheguem ao peito em prostrações nem me olhem muito
para que não me achem no estômago as palavras apodrecidas
que não disse nem ouvi, mas engoli secas, a vida inteira, por via errática.
Enterrem-me em segredo, sem lápide, sem reza, sem a lágrima amante desesperada,
para que não me venham depois os anjos — do céu ou do inferno —
murmurar-me o nome que nunca quis.
Memórias, castiçais, choramingos, não os quero.
Declino de todas as palavras, sobretudo as sinceras.
De verdade, quero só o peso definitivo da terra
que me há de livrar os ombros do peso terrível do céu.
Se eu morrer hoje,
deixem-me escoar o sangue todo, não tapem os buracos.
Deixem-me ir, que é por onde partirei.
Deixem-me como estou, com o que estou: comigo, e só comigo.
Eu mesmo me tomarei pela mão e me guiarei por entre os fugentes, os invisíveis, os clandestinos.
Não me permitirei mais neles esbarrar. Sei por onde ir.
Não se importem com os andrajos nem com as mortalhas clownescas.
Deixem-me descalço mesmo. Meus verdadeiros pés não doem.
Minhas mãos de verdade são feitas de sereno,
e o que sou sopra fácil pelo meio das árvores, que nem suas folhas mais maliciosas me sentem.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
para que não me venham amigos, ex-amigos, ex-patrões, ex-tudo,
esfoliando-se obrigados a seus ternos,
ou roupas alugadas,
ou roupas horrendamente falsas ao que são,
fingindo à minha efígie murmúrios pestanejados
— “coitado”, “viveu bem?”, “Deus é que sabe a hora” —,
entre bocejos verdadeiros e falsos abraços.
Deixem que o segredo de minha ausência diga-lhes melhor
que a verdade da morte é que são todos os próximos,
e que da minha não soube, como não saberão as suas,
e que não há nisso espetáculo de heróis, nem éter, nem constrangimentos, nem vergonhas inomináveis.
Há a morte como há a vida,
e ambas há identicamente sem batismo, sem hóstia nem bênção,
sem o ceifeiro negro, sem o fluvial vime messiânico,
sem Ilítia nem Caronte,
sem a prece ao anjo da guarda e sem a incelência merencória.
Se eu morrer hoje,
enterrem-me em segredo,
porque estou farto da partilha da vida,
em que, ao nos darmos a fórceps,
não mais nos sabemos e somos outros, indecifráveis,
esfíngicos de enigmas que nos levam a própria vida a resolver, tais como
“quanto valho?”, “onde caibo?”, “a quem me confiarei?”…
E morrer compartilhado, repartido em lágrimas e lamentações,
isso eu não quero, isso eu não mereço!
Eu quero a integridade de minha partida, sendo ela só minha,
minha para que eu me veja na estação,
parado na plataforma,
como sempre fui e sempre desconheci:
o eu-morto que me acompanhou cabisbaixo, passo a passo,
magicando por que aceitava eu a vida forçar-me a ir buscá-lo.
Se eu morrer hoje, enterrem-me, por favor, em segredo,
para que eu possa me despedir sozinho de mim num abraço que nunca me dei,
e me beije os olhos, e diga-me de mim, finalmente, aonde ir.

26/11/12

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CALIGRAFIA


Teu corpo é o meu livro,
e nele me escrevo




                          e te leio.

22/11/12

domingo, 18 de novembro de 2012

LUZ AUSENTE

Raquel Rodrigues - São

(Para Raquel Rodrigues, cuja arte me ilumina)

O sol é mais poético à noite,
quando ele só pode ser imaginado.
E quem imagina sente
com o fantasma de uma presença
lhe cantando verdades mágicas
ao ouvido da alma.

18/11/12

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

NÃO QUIS COISAR… OU “FIFTY SHADES OF VANITY”

O tabloide britânico Daily Mail publicou hoje, dia 14 de novembro, que uma senhora londrina de 41 anos, empresária bem-sucedida (tem renda anual de £400,000), decide pedir divórcio por seu marido não corresponder às suas fantasias sexuais liberadas depois da leitura do best-seller Cinquenta tons de cinza, de Erika Leonard James, publicado no ano passado (leia o artigo em inglês aqui). Não o li. Não por ideologia (ou falta dela) ou coisa que o valha, mas por minha preguiça literária, mazela que admito envergonhadamente. Tenho preguiça de ler como tenho preguiça de tantas outras coisas que me são deliciosas, como pescar, subir serra, tomar banho de chuva. Talvez, tivesse preguiça de pensar em fazer sexo como essa senhora pensou. O seu infeliz (será?) marido não quis praticar com ela o sadomasoquismo e o bondage, o que se tornou o motivo do litígio. Porém, não tive preguiça de pensar nessas pobres criaturas. Uma, pega de surpresa pelo desejo inédito da outra, a qual desenterrou uma fêmea inventada das páginas de uma obra comercial. E o amor, minha gente?
Não quis coisar… Agora, sem brincadeiras! Apesar de não podermos conjeturar sobre o relacionamento dessa égua com esse bocó, esse é um fato sintomático de uma constante nos relacionamentos contemporâneos, que é o vínculo da sua existência à satisfação egoísta dos membros. Talvez seja a pior herança do hedonismo da minha geração (os nascidos ou adolescidos entre 1970-80): a defesa intolerante e acéfala da “bandeira do eu”.
Quando vamos parar com essa sala de espelhos? Viver, meus caros, só é bom quando usamos o prefixo alomorfe “con”. Entretanto, o sexo freudiano, que tanto povoou a mente dos teóricos em educação, deu cria: o sexo cinematográfico (ou, no caso, o literário).
Não basta amar. Tem de amar e foder como um sátiro, uma ninfa ou (o ápice da competência!) os dois ao mesmo tempo. Às vezes, amar é até mesmo descartável. Amar incomoda, gera expectativas, rugas, refluxos. Ah, quem nos dera, apesar dos joanetes entalados em scarpins e cromos alemães, esses amores italianos ou argentinos, macarronados num tango e saboreados em cafés franceses. Estes, tudo bem! O que incomoda mesmo é o amor na pia de lavar louça, o amor posto à prova no espaço enorme entre as presenças e, nelas, no suportar o ronco, o peido, a TPM, as acnes, os fios da barba mal varridos. Quem há de se comprometer em amar desconsiderando a si mesmo? Quem haveria de amar alguém que requeresse o supremo esforço da compreensão abnegada em tal parceria?
Imaginemos um caso não totalmente ficcional. Ela se apaixona, depois ama. Ele era tudo, tão bonito, tão macho, tão parecido ao seu pai… Supriu-lhe tudo: o ombro, o peito, o pênis, os ouvidos e os lábios eram seus. Entregou-se, lavou-lhe as cuecas, preparou-lhe lambedores nas gripes, amou-o calma e febrilmente. Só não contava com o mundo inteiro lhe zumbindo nos ouvidos como ele deveria ser: um deus grego de boca e pênis invencíveis, de corpo forte e acrobático, de olhar cafajeste e canino. Um desses homens de propaganda de uísque. Com o tempo, esse novo homem que ele, covardemente, negava-se a ser aparecia-lhe nos lugares mais inóspitos, mais inexplorados: as suas expectativas. Sua condição de fêmea foi finalmente despertada! Mas, como vivê-la, com esse homem arremedado que se tem em casa? Ela merecia o homem da propaganda do carro utilitário-esportivo, o homem que escala a montanha e cheira a amêndoas e loção pós-barba, aquele que acredita piamente, a despeito de sua própria magnífica superioridade física, ser ela a encarnação de Diana, a caçadora, a amazona cuja função única é escravizá-lo e devorá-lo tiranamente, coisa pela qual ele espera desde que se apaixonara por ela à primeira vista.
O que faz seu pobre homem? Lê também o livro e se redime, entra no bisturi e na academia, fica magicamente mais jovem, implanta cabelos, compra prótese peniana, na impossibilidade de ter sua vergonhosa humanidade genital convertida no deus Falo que ela merece?
Há uma infinidade de crônicas a respeito de mulheres objetificadas por seus homens, e outras tantas sobre as que sofrem o diabo em bullyings pela inadequação ao modelo midiático. Devem estar, em sua maioria, corretíssimas. Historicamente, não há nada mais hediondo que o sofrimento imposto às mulheres pela dominação masculina. Porém, contemporaneamente, estamos abrindo os olhos para o outro viés: essa objetificação não seria para os dois gêneros ou, pelo menos, não o tem sido?
Não vou entrar aqui no labirinto das causas. O comércio de imagens, o modismo, o conceito grego da coisa, são tudo conjeturas válidas. Prefiro a isso falar da mais triste das consequências: a morte do amor. Como se espera que dois egoístas vivam juntos? Como se satisfarão? Onde estará a alegria da entrega sem motivos que não sejam a própria entrega e o que esta causa em quem recebe a doação?
Fico feliz que se esteja lendo tanto. No Brasil, certamente, nunca se leu tanto. Entendo a leitura clariceanamente: a deflagradora da “felicidade clandestina”, embora eu ache que não deva ser tão clandestina assim. Louvo, ainda que carrancudo, meus alunos virarem devoradores de best-sellers, pois sei que não existe teletransporte para a intelectualização — hão de se respeitar os degraus. Contudo, temo muito pela desorientação tão característica deles e deste início de século, de uma maneira geral. Será que levamos mesmo tanto tempo para adolescer? A senhora litigante do divórcio tem 41 anos, é banqueira, deve ter lido e vivido o suficiente para entender os limites da ficção. Custava crescer?

14/11/12

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DO QUE FOI EMBORA


(Para Carmélia Maria Aragão, que é outra de minhas saudades de retrato)

De ti tenho dessas saudades de retrato.
Um eu-menino que a vida pegou para criar
e criou à custa de metáforas.
Tu querias ser mineiro,
querias ser das pedras, do vento e do mar,
mas só foste terra, dessa terra onde um se deita semente
e não tem vontade de nascer.
Tenho tantas saudades de ti.
Dos teus tantos nascimentos.
Da tua esfinge indígena na face.
Das tuas cicatrizes-distintivo.
Da tua alma velha.
Quê de tuas pinturas? Onde foram parar os teus dois livros?
E os teus tesouros animados, cadê?
Tua história é o meu retrato, mas não é a foto.
É o cromo que se perdeu, mas se faz saber no monocromático do vermelho-telha.
É a cor que me roubaram do sorriso, do olho, do espírito.
Tua história, eu-menino, ficou no ar, no zingue de uma pedra de baladeira
que nunca matou ninguém
e por isso se perdeu.

06/11/12

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AÑORANZA


Dom Quixote de La Parnahyba

(Para Camila Rocha y Renata Abreu Silvério, regalos de la vida)

Este poco que extraño
se hace mucho,
pues que se vuelve ahora
en todo lo que hay.

02/11/12

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

DEBAIXO DOS ARCOS


Há sempre dois túmulos no coração de um homem.
Abertos. Sem lápides. Idênticos.
Um lhe serve de sala. Limpo, fremido em seu desejo de imaculação.
Acumulam-se esperas onde se esparramam as visitas no sofá,
e horas tiquetaqueiam-se ordenadas, sem retorno — não há passado na sala de espera.
Nas paredes, não se veem o sangue apodrecido que se esvaíra dos dedos
nem as unhas arrancadas que enlouqueceram nas pedras as urgências do escape.
Argamassaram-se, rebocaram-se, pintaram-se e envernizaram-se as paredes
em papéis de parede, tudo, diligentemente, que a aparência é tudo.
Debaixo dos arcos, tudo é triunfo.

O outro é cova rasa, não dá meio metro.
A terra diz das árvores ancestrais, cujas almas ainda a perfumam.
É macia, sem pedras, plena de vermes férteis — cheira a vida.
Nele, a morte ressona menina, infante, fetal.
Jaz plácida ao lado da desesperação
e sonha consigo mesma, branda e silfídica, a cortejar os minutos que lhe passam ao largo.
Acena-lhes pueril com mãos, olhos e sorriso cheios de ternura e curiosidade.

Ao lado, festas irrompem hipócritas em madrugadas opiáceas,
convivas desfazem-se em mesuras e tédios pela sala entorpecida.
A assepsia encobre totalmente a vivacidade morta e putrefata,
muito bem cofiada nos penduricalhos contíguos ao peito,
aos pulsos e aos tornozelos.
Só não é possível arrancar dos olhos o fedor da morte
que teima em ser-se, despudoradamente.
Essa morte adulta, heféstica, insaciável,
outra que não a que lhe dorme ao lado, sonhando vida.
Aquela, a de dedo em riste, perscruta, por trás das retinas de suas montarias,
todos os vãos possíveis da sala, à cura de sonhos.
Quando encontra um, aristocraticamente, conduz seu cavalo à marcha e pisoteia-o.

Os sonhos só marejam no túmulo ao lado, orgânicos, originais,
onde o leviatã do destino do homem
ainda sequer sabe que o ovo do tempo lhe eclode no peito a prospectora definitiva
que arrastará consigo a cadeia das horas e seus passageiros distraídos.

No coração do homem, jazem duas mortes os seus labores,
pulsando sistólicas o discurso imemorial da consciência.
A consciência, essa máquina humana de matar sonhos,
dessas mortes que defloram a terra em covas onde morrem as almas, eternamente.

10/10/12

terça-feira, 18 de setembro de 2012

HOJE


(À Lidiane Lima, minha parceirinha desta e de outras vidas)


Hoje, eu estou para tragédias hepáticas
e óperas cardíacas.
Hoje, só o fundo do copo me conhece,
me entende,
esse fundo de copo americano sujo de bocal partido,
tão meu, tão noturno, tão moto-contínuo.
Hoje, nem o diabo me salva de ser eu.

18/09/12

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

TRISTE FIM DE UM ABRIDOR DE HORIZONTES



Desde que me lembro, sondo o mundo ao meu redor. No início, coisas elementares, alimentos, móveis… De onde terá vindo a palavra “bifê”? Na minha casa, havia um, azulejado, dormia nele quando criança. E a garrafa de vidro, que alguém dormiu, sonhou e realizou da areia — vira em um almanaque —, e a de plástico, que já foi um dinossauro? Me encantava tanto o mistério por trás das palavras! E me encantavam, consequentemente, a sintaxe das coisas, a relação da nuvem com a chuva, a da Lua com a maré, o porquê de o vento, o raio e o trovão me maravilharem…
Na minha maletinha de tintas guache, jazia das ferramentas mais esmero que uso, que é coisa que também me conta: pincéis, tubinhos multicores deitados em coleção pouquíssimo usada. Coleção, como foi a de tanta coisa… Pedras, às quais atribuía magia, búzios, bilas, achados de praia, toda sorte de bugigangas… Um inverso da trilha de miolos de pão do meu livrinho de contos, que hoje está nu de capas e de sonhos. Sonhara-me ele, talvez, e eu o abandonei. Triste fim de um abridor de horizontes…
Assim tem sido, talvez, com as abstrações superiores: minhas ferramentas se multifacetaram, tornaram-se pequenas como as de um relojoeiro, porém, a despeito de minha exímia com elas, não devo ter construído ou consertado totalmente nada em minha vida inteira. Também não sou bom em desusos: as tarefas inacabadas se empilham sobre meu peito, que sofre por respirar à noite, sempre amarrado, atado por essas cintas de livros que se usavam antigamente.
Antigamente, queria entender a sintaxe do mundo. Na minha inocência, confundia o mundo com as palavras. Vim descobrindo que a sintaxe do mundo é irritantemente ordenada. Previsível. A ela, prefiro quase religiosamente a liberdade caótica das palavras. O lé com cré de rimar saudade com maldade me faz mais sentido que o bom-dia das manhãs de segunda-feira.
Uma denúncia leva a um encobrimento, um jogo de interesses a procrastina, e uma manutenção da ordem a executa. Vive-se por consecução. Encaixa-se aqui. Engrena-se acolá. Como na máquina de Carlitos.


Tempos Modernos
Ser uma peça sem encaixe não é de todo mau. Não! Ocorreu-me agora! Também o eram as coisinhas que eu achava no chão e colecionava! Também o era meu livro nu! Todos, testemunhas de minhas tentativas de compreensão do que o compreender-se o mundo não dá conta nem nunca deu! Um, cá, outro, lá, vieram me montando, arborescendo-me de diagramas, estames, pedúnculos. Minha sintaxe é a mesma das palavras cujos significados só sonhei. Ou teriam sido elas que me sonharam?

12/09/12

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

KABUKI


Sei que errei.
Sei que são minhas as tuas vontades
e que não dizes sozinha de ti.
Sei que tua roupa me reflete,
que teu paladar me saboreia
e que tua noite tem a minha cor.
Onde estive, quando te perdeste?
Eu, centrado, esclarecido… Eu, senhor.
Tu…
Tu te largaste. Saltaste cega em meu cavalo
e cega foste a um dia de faca
que te arrancaria os olhos,
esses olhos de kabuki
Vidrados no além do amor, no que não é amor:
no que é a terra do horizonte desgraçado dos náufragos,
no que é a conjuração da água ilusória do deserto.
Onde estive, que não te estapeei a cara
para acordar-te?
Meus afagos te fizeram mais mal que uma boa surra!
Ou que a mim me dessem uma boa surra,
e eu, estropiado, diante de ti, fizesse-me eu,
o eu que te comeu os sonhos e arrotou bufando,
de mão na boca, contido, entediado,
este eu que te rasgou inteira
sem que reclamasses, sem que te desses conta,
com os talheres baratos dos almoços de domingo,
sobre a mesa amarela,
a carne perfumada, o arroz fragrante…
Quando, adorada, quando foi que te perdeste
sem que eu junto contigo me achasse?
Onde estive, quando estiveste linda,
inteira, entregue, totalmente minha?
Onde estive, quando te perdi?

05/09/12

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

BARRO DE LOUÇA


Ando cansado de porcelanas.
Sei que são lindas, brancas, imaculadas
e delicadas ao toque
e aos acidentes.
Mas, ando mesmo é com saudade do barro de louça
que se romantiza entre meus dedos dos pés
encharcados de uma chuva de infância
num interior de terra branca, fina,
de bichos-de-pé coçados gostoso
em amores de rede e varanda.
Não quero mais chás,
nunca gostei de chá!
Menos ainda, os calmantes.
Anda-me a vida já muito lassa, amofinada.
Sinto saudades do café forte de minha mãe
servido na caneca de aço,
em cujo fundo havia timbrado o nome da Santa Casa de Misericórdia;
que pertencia a meu pai
e cuja história desconheço...
Não quero mais as louçanias de namoricos vestidos de branco!
Quero mesmo é me sujar na lama boa
na lama cor de terra, cor de mim,
na lama faceira e escorrente de um quintal
onde já estive outrora,
quando fui terra brava, batida e pisada
de bichos de sertão,
terra aquela que conheceu chuva de renascimento
e me germinou
em manhãs de casamento de raposa.

22\08\12