Número de sílabas (desde 11/2008)

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Viagem de Novembro

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VIAGEM DE NOVEMBRO
(Erasmo Disbel)

Foi uma vez
Numa triste tarde de novembro
Logo eu parti
E aos poucos te perdi de vista
E viajar foi como morrer
Só em saber que na manhã seguinte
Estaria assim tão distante
E não veria mais teu sorriso
A morte rondou-me a cabeça
E conter tanta dor foi preciso
Amanheci
Era uma dia triste ainda em novembro
Te busquei em vão
E aos poucos lembrei da viagem
Mas estar aqui é como nem estar
Pois estás sempre comigo
Aqui no meu coração
O pensamento guiando a saudade
Voa qualquer légua
Pra estar com as pessoas
Que mais amo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

FÉRTIL


Submerso nos vapores de sódio
e nos mormaços das primeiras águas da tarde,
emerge um poema
que cheira a bosta,
pelo que muito agradece
a semente do meu amor.

25/05/11

NÃO IMPORTA O QUE DIGAM


Não importa o que digam: escrever é estar perdido. Lá estamos nós, no lugar de onde as palavras vêm, cercados por elas, respirando-as, epiteliando-nos delas. As palavras são a nossa queratina. Escrever é como raspar-se, derreter-se um outro corpo que é mais nosso, mais nós que este. Em seguida, juntam-se as serragens dessa aplanação, põem-se balsâmicas ou acres ou adstringentes ou insalubres em pequeninas fôrmas, microscópicas prisões que lhe amoldam em vocábulos, em clauses, fragmentos paranormais que dialogam animicamente em silêncio. Que mistério, o seu encarrilamento… Quando bom, quando verdadeiramente bom, não se veem as extremidades da composição, e o gemer da bitola sob as rodas de ferro parece deitar aos ouvidos, aos olhos, à pele um esgarçar ou um amaciar de uma roupa tão querida, tão perdida em tantos baús desaparecidos: as palavras são uma lembrança nova, de tão velha, um espelho ao inverso, um labirinto em linha reta.
Depois, o texto!: um mar com cabelos, contrariando o que me advertia meu pai, ao me dizer do mar. O texto é um mar com cabelos de mulher. Trança-se, emaranha-se, agarra-se em espasmos violentos de coito, singelamente se afaga, arrepia-se de medo, e flui, e ondula, e arrasta, e invade, e destrói.
Faz-se um homem ao mar de coragem em borco, de vela prenhe de desejo, a carena em arco retesada de empáfia, o leme ibérico, a carranca horrenda, e vêm-lhe tufões, leviatãs brancos, hidras, Caríbdis… Que pode um homem do mar valer sem bússola, sem estrelas? Quem socorre os náufragos nessa odisseia que é dizer-se homem entranhando-se no meio das palavras? Em contrapartida, quem lhe sabe os sabores da vida? Quem lhe diz do ser-se, além do que mal lhe sabe ele próprio a serventia?
Não importa o que digam: diz-se de escrever ser um deixar-se, um abandonar-se, um libertar-se… não é! Liberta-se mesmo aquele que, em costas e enseadas, crepuscula ou alvorece junto ao sol, ou evola-se anímico com a maresia, carregado pelo vento entre as palmas e os coqueiros. Liberta-se quem colhe do solo pétreo e férreo dos livros o cálcio para o esqueleto de seu espírito. Liberta-se o homem que, tripulante de escuna, passeia em conveses de pés descalços e camisa aberta, cheirando um oceano que sente, mas não toca.
Escrever é calafetar, é macular de piche negro a carne por baixo das unhas até os ossos, é bordejar porque se vive. É não ter a alternativa da ilha, é adivinhar astros, é flertar cego com a morte. Enquanto, nos vagões-restaurantes, leem adolescentes vitorianas seus ais de se perderem, respira chama e manipula cólera o foguista, que dialoga com o inferno e gosta — o mais próximo de Deus que lhe permite o trem.

26/05/11

terça-feira, 24 de maio de 2011

DUAS LUAS




Seus olhos são como luas
cheias, magnéticas
— a coisa mais linda de se ver numa noite sem luzes artificiais.
Se as pessoas soubessem como é o céu à noite,
apagariam as lâmpadas, as velas,
quebrariam o sódio das iluminações públicas.
As melhores noites de minha vida sempre foram a céu aberto,
sem interferência de outras luzes…
Ímã de sonhos, joia branca num manto cravejado de estrelas
feitas de memórias de passados
e de impulsos brandos
que regem o coração que movimenta o espírito.
Ou Luas, no plural mesmo…
Como se uma não bastasse para se perder um poeta.

23/05/11

sábado, 21 de maio de 2011

AS INVASÕES BÁRBARAS

Curiosa, essa discussão que tem mexido os ânimos de professores, alunos e aspirantes a ambas as coisas, e que diz respeito à Língua Portuguesa.
Normalmente, quando se começa uma crônica, um artigo, faz-se isso com ímpeto, gana… vontade de colaborar com uma discussão sobre o objeto do texto. Neste caso, confesso que me dá uma preguiça… A mesma preguiça que se desenha diante da obtusidade das coisas e das pessoas-coisas. Vejo opiniões “apaixonadas”, oriundas de um buraco conteudístico profundíssimo. Nenhum conhecimento do que é uma realidade de sala de aula, em alguns; em outros, já cascudos, um “espírito-de-porquismo” (com hífen mesmo, que é para ficar ainda mais diacronicamente neológico). E todos (meu Deus!) apedrejando os “dinossauros hipócritas”, os “reacionários”, os “empatadores da liberdade”.
Confesso novamente meu cansaço. Todo dia, eu vejo minha cultura fragmentar-se; nossas perspectivas de ascensão de raciocínio minguarem; o individualismo vencer a coletividade… e o monólogo substituir o diálogo. Agora, vejo o pseudointelectualismo proveniente das academias, de suas camadas mais mentalmente indolentes, projetar-se como um guerreiro sumério, espada sangrenta em punho, dentes cerrados travando gritos guturais, sobre livros em bibliotecas, sobre a memória, sobre a ciência…
Que conhecimento do que é Língua Portuguesa têm esses senhores? Posso muito bem dizer qual seja: todos, sem exceção, maldizem seu próprio objeto de estudo. Não por ódio. Por vingança, por recalque, como a raposa que se propõe a desenraizar quantas videiras possa. Será que não há limites para a burrice e a vaidade? É preciso destruir o belo por não compreendê-lo? Ou por ser ignorante quanto a ele? Será que não se enxerga a ineficácia disso?
O que estão fazendo com a Língua Portuguesa é o que a raposa faria com as videiras se tivesse um machado. Quanta burrice, meu Deus, quanta vaidade!!! Cresçam, infelizes, saiam dos casulos coloridos e das nuvens etéreas da maconha universitária e entrem em salas de aula com mais de 60 garotos sem perspectiva, desorientados, para entenderem qual é o real propósito da educação! Não é adoçando a merda que ela vai deixar de ser merda e de feder! O Brasil é o TERCEIRO país do mundo com maior dificuldade em ocupar cargos que exijam cientificidade, operacionalidade, INTELIGÊNCIA!!!! E agora, vêm falar em preconceito linguístico, em constrangimento, em desestratificação social mediante uma prestação histórica de contas consistente em, finalmente, aceitar a valorização do uso de uma variação linguística menos favorecida? Imagina-se, por acaso, que, vestindo-se bem uma criança com fome, enche-se-lhe o bucho?
NÓS, professores, NÓS somos os responsáveis por despertar naqueles garotos a percepção múltipla da realidade, da adequação, da possibilidade do aprimoramento. NÓS somos os que podem, por meio da CAPACITAÇÃO, dar-lhes ferramentas para, verdadeiramente, saírem de uma situação de exclusão social.
Será possível que nunca tenha fim esse afrescalhamento com que se vem tratando a educação no Brasil? Querem maquilá-la até quando? Quando vão ficar contentes? Quando as universidades públicas perderem todos os seus ótimos professores para as privadas (com ambiguidade intencionalíssima), por estes não suportarem mais a defecação intelectual que estão tentando fazer com o Ensino Superior? E que não se tenha dúvida, pois é este o plano: ESTATÍSTICAS. Para os que não o sabem, nos âmbitos do Fundamental e do Médio, já está sendo feito há muito tempo. Não se pode mais reprovar um aluno que não tem condições de passar de ano. Ora, vejam só: MAS QUEM O PROFESSOR PENSA QUE É PARA AFERIR O NÍVEL DE INTELIGÊNCIA DO ESTUDANTE?

Deve haver alguém, algum teórico, tentando encaixar essa tática de aceitação da “informalidade” em outras ciências. História e Matemática, por exemplo:
— Õdi eh q tá u herru na minha resposta???
— Você disse que o Brasil foi invadido pelos ingleses em 13 de maio de 1500, liderados pelo capitão Barbossa e pelo Jack Sparrow.
— Poha, feçora, e pra q merda eu tenho q çabê deças koiza? E as minhidea, num conta?
— É verdade. Tome seu 10.

— I umaizum eh doiz?
— Claro que é.
— + eu soh herrei porum!
— E daí?
— + c ñ tah veno q eu fiz a poha da prova çem meu çelular? Inda keria q assertaci?

Indignação diante das últimas condutas do Ministério da Educação (cadê?) e Cultura (onde?) é pouco. O sentimento que se cria ainda não tem nome, e (eu sei) está fadado ao minguamento, pois, para cada professor e pedagogo indignados, há uma caterva de “defensores do massacre social, emocional e psicológico” que o ensino da língua padrão causa nos alunos. No fundo, o desejo deles talvez se baseie num “flower power” tardio e mal-interpretado, ou seja, talvez queiram um retorno à ignorância feliz e original que só o idioleto e a idiossincrasia absolutos de um bebê possam dar: um estado magnânimo de existência, em que não se tenha nem se precise de nada, exceto que um grande organismo gestor lhe proveja sangue e líquido amniótico em que se misturem fezes e urina, que, de tão doces, serão imperceptíveis.

21/05/11

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ORAÇÃO PELAS ESTRELAS


Meu Deus, tende piedade dos que, fortes, são verdadeiramente frágeis
pelo que os tornam frágeis as obrigações de sua própria força.
Deitai Vossos olhos sobre seu peito,
pois nele sangram dicotomias e paradoxos infernais,
misturam-se ácidos com sais e açúcares, formando um fel
do qual se alimentam todo dia.
Amparai-os, Senhor, recebei-os.
Eles vão a Vós derrotados, humilhados, mastigados e cuspidos pelo mundo
a que nunca foram capazes de adaptar-se.
São seus olhos de órbitas prismáticas que, janelas escancaradas,
aceitam tudo como luz
e não rejeitam nada, e invertem paisagem e casa,
e obrigam-nos à matéria dos corpos, à estrutura dos ossos, à maquiagem do riso,
porque são feitos apenas de vontades, desejos e consciências,
porque a forma é uma donzela de ferro que lhes sangra e sorri.
Assim, deslocados, marginalizados, destruídos sob máscaras de bronze,
armaduras de titânio, escudos e lanças de diamante,
eles se deitam fetais no escuro e choram, e pedem pela morte.
Apiedai-Vos deles. Não é sua culpa serem alados de asas aleijadas,
mondrongos ocultos sob disfarces humanos.
Não é culpa sua não terem fôlego nem terem o medo que leva os ordinários a Vós.
Nem o é o não serem cordeiros, Senhor — a lã os sufocaria à morte.
Lembrai-os do que são feitos: Vossa imagem e semelhança.
E compreendei que, assim, não se poderia esperar-lhes subserviência.
Caso não caibam em Vosso céu, meu Deus, em virtude do ciúme dos santos e dos anjos,
dos que Vos obedeceram cegamente e arderam, e se imolaram, e se flagelaram, e mataram mouros,
guardai-os do lado de fora, em paz.
Deixai-os ser a forma que, aqui, tiveram de ocultar:
concedei-lhes, ó Pai, a distância e a solidão de uma estrela,
das que as crianças contam nas noites interioranas
e nas urbanas em que falta energia elétrica,
quando os homens recolhem-se ao seu medo e recorrem a Vós, acovardados,
pois foram aqueles também crianças,
mas das que não dormem nem temem, embora sonhem secreta, mas concretamente
com o sempre serem-nas.

19/05/11

Agora, eu sou uma estrela

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Poema de Fernando Faro constante do álbum O Trem Azul de Elis Regina.

Agora, o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.
Agora, o braço é uma linha, um traço,
um rastro espelhado e brilhante.
E todas as figuras são assim:
desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas,
um quadro de impulsos, um processamento de sinais.
E assim — dizem — recontam a vida.
Agora, retiram de mim a cobertura da carne,
escorrem todo o sangue,
afinam os ossos em fios luminosos,
e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.
Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.
Como uma estrela. Agora, eu sou uma estrela.

terça-feira, 17 de maio de 2011

ENQUANTO NÃO CHOVE


O Sol já nasceu, parido da Terra, em algum lugar onde não chove nunca.
Em outro, ele prenuncia um dia ausente de si, pois já não importa,
ou já se resignaram sob nuvens de chumbo, ácidas, carbônicas, maciças.
Ali, ele apascenta jovens e perdidos às praias de algas imundas.
Acolá, ele desfaz os planos de um sonhador.
Enquanto não chove, enquanto não se desmancha um dia
cheio de fumaças veiculares e humanas,
e não se derretem ainda todas as gorduras acumuladas nos coletivos,
e não se deixam levar de medo os cães a suicidarem-se de nós no meio das avenidas,
e não destrepam as mães as roupas reluzentes varais adentro,
e não se acumulam transeuntes ao redor do motociclista esmagado,
e não se estouram mais tímpanos e almas sob projéteis sonoros de merda e luz,
enquanto não chove,
reza o dia uma ave-maria — pois no credo não crê o dia — aos que não dormem quando se vai,
de pena, de lamentação, de condolência, de irmandade,
pois sabe o dia da contemplação aos homens sem luz, às mulheres sem alma, aos velhos sem nada,
pois o dia sabe o que é a lavagem da chuva sobre e sob essa terra
onde não há mais o que se ponha em arcas,
nem aonde as arcas irem, nem por quê.

17/05/11

Seleção para as Casas de Cultura da Universidade Federal do Ceará - UFC


ATENÇÃO, RAPAZIADA!

Até o próximo dia 5 de junho, estarão abertas as inscrições para o TESTE DE ADMISSÃO AO SEMESTRE I DAS CASAS DE CULTURA ESTRANGEIRA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ - UFC. São 528 vagas, distribuídas pelas Casas de Cultura Alemã (198), Britânica (88), Francesa (110), Hispânica (44), Italiana (22) e Portuguesa (66). As provas de seleção serão realizadas no dia 19 de junho.

As inscrições serão feitas, exclusivamente, mediante o acesso à página eletrônica da Coordenadoria de Concursos da UFC: http://www.ccv.ufc.br/newpage/cult/cult112/cultu112.php

A previsão de divulgação dos resultados está marcada para o dia 27 de junho. Pode concorrer a uma vaga quem concluiu o Ensino Fundamental.

Os documentos exigidos para a inscrição são os seguintes: formulário de solicitação preenchido, datado e assinado; fotografia 3x4 recente; comprovante de pagamento da taxa de inscrição no valor de R$50,00 (a ser efetuado no Banco do Brasil); e fotocópia frente e verso do CPF e do documento de identidade, ou de outro em que constem a fotografia e o nome completo do candidato.

Provas e gabaritos de seleções anteriores estão disponíveis aqui: http://bit.ly/gsTmYj

Mais informações podem ser obtidas mediante o acesso ao perfil das Casas de Cultura Estrangeira no Twitter: https://twitter.com/CulturaUFC

domingo, 15 de maio de 2011

Sobre todas as coisas

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(Edu Lobo & Chico Buarque)

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado — o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

SOBREVIDA

 
É no cansaço em que se torcem os músculos das pernas e em que os tendões retesam-se sobre os ossos que se curvam em sutis e excruciantes arcos que moram pálidas, macilentas como carrapatos, as perguntas que não se ousam, as críticas de ácido, a ausência abissal, o espelho estilhaçado que fura os olhos, o sal nas feridas expostas, a sobrevida por trás da poesia…
E nos percebemos máquinas velhas e plangentes que guincham metal com metal, com parafusos atarraxados em soldas ferruginosas, em pressões perpétuas, em tensões sem alívios. E trabalhamos, e trabalhamos!
E não sabemos para quem.

15/05/11

sábado, 14 de maio de 2011

POEMA DE ANIVERSÁRIO A SAMILA SOARES


A mim tu me disseste
que poeta não mais és,
que te voltaste ao leste
com um verso de viés
quando, a oeste, o poema
deita um sol de cinema
sobre o mar de teus papéis,
e um céu de pé quebrado
te jaz, crepusculado,
tua verve já sem méis.

Ao que eu te contesto,
pois, a mais, não presto,
que é da arte o teu pensar,
e é do poeta o olhar
que o mundo, em manifesto,
decompõe, pois mais não vê
que a beleza do mirar
é não mais do que um gesto,
um sestro, e diz, de resto,
ser o olhar que o mundo lê.

E assim, moça sestrosa,
de olhos de sorriso,
teu poema é a rosa
que, na greta, diviso
resplandecer pomposa
e murchar sem aviso,
e renascer formosa,
guardando no desvelo
botões ao teu cabelo
no momento preciso.

14/05/11

terça-feira, 10 de maio de 2011

"Light up the darkness"


Neste 11 de maio, faz 30 anos.
Com ele ainda aqui, talvez fôssemos melhores, talvez não.
Porém, é certo que poucos mostraram tão bem o quão melhores poderíamos ser.
“If you get down and if you quarrel everyday
You’re saying prayers to the devil, I say
Why not help one another on the way
Make it much easier
Say you just can’t live that negative way
You know what I mean
Make way for the positive day”

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Bob Marley - Redemption Song

Old pirates, yes, they rob I,
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottomless pit
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly

Won’t you help to sing
These songs of freedom?
‘Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs!

Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy,
‘Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look
Huh, some say it’s just a part of it:
We’ve got to fulfill the Book

Won’t you help to sing
These songs of freedom?
‘Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs,
Redemption songs!

These songs of freedom,
Songs of freedom!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

SONETO ONÍRICO



Com o que devem sonhar os que não dormem,
E vagam nos seus brigues de sapatos,
E, à memória, misturam-lhe seus fatos,
E sonambulam corpos de que somem?

Desaparecerão ali à esquina?
Cairão em abismos? Sumidouros?
Ou, mansos, caminham a matadouros,
Tangidos pelo que lhes abomina?

Eu, que sonho perambuladamente
E não me sei as rotas de retorno,
Esbarro nas suas as minhas fugas,

Ao que me abandona o sono morno,
E me desapareço às contrafugas,
E desperto ao contrário de repente.

09/05/11

sábado, 7 de maio de 2011

O 5 DE MAIO


No dia 5 de maio de 2011, por decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF - http://www.stf.jus.br/portal/principal/principal.asp) aprovou a união estável entre pessoas do mesmo sexo (http://www.band.com.br/jornalismo/brasil/conteudo.asp?ID=100000428967). A data é motivo de comemoração por parte não só daqueles que tiveram real ou potencialmente lesados os seus direitos, mas também de toda a sociedade, que, agora, dá um passo adiante no que diz respeito ao princípio da igualdade perante a lei. No entanto, nos últimos anos, tenho visto algumas específicas manifestações que podem ser compreendidas como extremas e perigosas a esse mesmo princípio.
Há uma tentativa de conscientização tácita de conceitos que são contrários ao próprio princípio de igualdades de direitos dentro da heterogeneidade. Imagino ser a ideia que todos devamos abraçar o fato de que somos “diferentemente iguais”, ou seja, todos, quanto ao comportamento sexual (que é heterogêneo), são semelhantes, merecem reconhecimento e respeito no que concerne à sua condição. Porém, vejo campanhas nas redes sociais que pedem a todos que exibam em suas páginas um ícone, uma imagem ou mesmo apenas a mensagem do Projeto Eu Sou Gay (#eusougay - http://projetoeusougay.wordpress.com/), que luta contra a intolerância ao comportamento homossexual. A adesão ao projeto, seja apenas em concordância ou aceitação, seja ativa e propagadora, é extremamente louvável, visto que devemos tentar melhorar a nossa cultura nesse sentido. Devemos mudar os estabelecimentos sociais que rezam uma maldição contra quem é diferente sexual, étnica ou economicamente; na verdade, devemos mudar muito mais que isso. O que eu vejo como problema é o fato de estar havendo uma tentativa de homogeneização comportamental. Levantei esta questão ontem em sala de aula: não seria uma retaliação essa tentativa de tratar a todos igualmente? Retaliação, no sentido de que se tentam tratar os heterossexuais como se não o fossem, ou o fossem mediante uma escolha que poderia deixar de ser feita. Ora, esse pensamento não é o que se tem aplicado sobre os homossexuais todo esse tempo, e que é justamente o que se tenta erradicar? Não é o reconhecimento da relevância social das diferenças o ponto? Não é a justiça quanto ao reconhecimento da isonomia que se busca? Não é um fim à violência implícita e explícita contra aqueles que têm direito de exercer livremente seu comportamento sexual o que se almeja?
Outro dia, estávamos reunidos com um professor que ministrava uma palestra sobre critérios de correção de redação para o (extinto) vestibular, e surgiu o tópico a respeito de comportamento difamatório ou preconceituoso na construção textual. O debate foi ótimo, esclarecedor e descontraído, tal que o palestrante mencionou a sentença que virou bordão tanto dos ativistas de movimentos do segmento lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e simpatizantes (LGBT ou LGBTTTs - http://www.abglt.org.br/port/index.php) quanto de rodas de conversas informais em que surgem brincadeiras sobre o tema: “o mundo é gay”.
Não, o mundo não o é. Não o é como não seria “macho”ou “fêmea”, homo ou heterossexual. Este espaço social que tanto nos esforçamos por destruir e chamamos mundo é o lugar onde todos vivemos igualmente reconhecíveis, igualmente agentes, igualmente indivíduos que têm direitos às suas idiossincrasias, ideias, manifestações, pensamentos, condições sexuais, necessidades, afetividades; direitos que param no ponto onde começam os de nossos semelhantes, que são todos. O mundo não é homogêneo. Sequer o é o indivíduo. Cada um de nós é um universo com forças que lutam contrárias e favoráveis umas às outras. Seria uma atitude adequada tentar imiscuir a ideia de que temos de ser, dessa forma, iguais? Não seria o mesmo que querer que um gênero tenha de ser o outro comportamental ou culturalmente? Mais uma vez, retomo a palavra CULTURA. Nossas interações sociais têm falhas nesse sentido que têm de ser sanadas, ou seja, temos de abandonar essa herança de intolerância ao diferente que recebemos de nossos antepassados. O que eu questiono é: será que temos de abandonar também quem somos? Será que tenho de ter a vergonha de ser quem sou como a sociedade impingiu aos homossexuais que a tivessem? Será que não há espaço nesse “mundo gay” do professor da palestra para os que não o são? E a tão falada tolerância?
Devemos todos mudar os conceitos de uns quanto aos outros. Há falhas conceituais, preconceitos e intolerâncias de ambos os lados. A observação da história nos mostra que, quando se chega ao fim de uma crueldade, abre-se invariavelmente um espaço para um extremismo. Não abracemos isso. Sejamos lúcidos, sejamos conscientes. Reconheçamo-nos como somos, e não como arquétipos; abracemos o nosso irmão que não é gêmeo. Saibamos, acima de tudo, que o nosso caráter não está vinculado às fisiologias biológicas ou comportamentais. Ser um homem ou uma mulher de valor é ter a capacidade de não piorar o mundo em que se vive, é honrar sua existência com a promoção da própria existência, é cuidar do outro, mesmo que seja no menor dos sentidos.
Eu ainda me lembro da vez, em uma das pescarias às quais meu pai sempre me levava, em que eu pesquei de anzol o meu primeiro peixe e comecei a gritar de júbilo, ao que disse com toda a minha alma, e, por isso mesmo, imperceptível e inconscientemente: “eu sou filho do Lourival!”. Eu senti a intensidade daquele momento em que meu pai travou na garganta um nó que só o reconhecimento de seu valor e a retribuição de todo o esforço de uma vida são capazes de atar, e eu também o fiz, mas por ter dito, talvez àquele único momento, o que eu sentia por ele. Quantos são os homens e as mulheres que têm esse direito negado? Assim, eu pergunto: são a biologia ou o retrógrado senso comum que ditam quem pode ser feliz àquele ponto?
Eu compactuo integralmente com a decisão do Supremo, a qual inaugurou um marco histórico. Permitamos que essa felicidade se propague com toda a liberdade que o direito lhe concede, e aprendamos a ser quem somos em relação uns aos outros.

07/05/11
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

LÍNGUA NACIONAL



Falo, e este é o meu retrato:
cordas que vibram
num peito de madeira e aço.
Mas é de sangue e carne
a voz que me desenha,
e é de brio e sonho
a letra que me diz.
O que me toca
são os dedos de minha língua,
que aportuguesa em notas
uma bandeira cabocla,
multicor, multiforme, partiturada
na clave de sol,
tangendo o vento,
adoçando o dia
e romantizando a noite.
Sou o caos violento das correntes
submersas
das quais ninguém sabe
por ser minha carne de pedra
e fluir minha vida em silêncio.
Sou a balbúrdia mansa,
sou o abismo raso,
sou o pé descalço sobre o vidro colorido
na praça dos meus iguais.
Sou a língua que uso,
rasgando a babel de meus irmãos
num aboio,
enredando-se e emergindo feroz e suave sobre as torres ibéricas:
sou de dentro das cavernas do sertão;
sou dos mares a escama das jangadas;
sou o bicho de Manuel Bandeira
que aprendeu a cantar
e canta!

05/05/11

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sete Cidades

Legião Urbana - As Quatro Estações


Esta música é daquelas que você escuta depois de muitos anos e, depois, fica se perguntando onde foi que se perdeu.
E o pior é que se perdeu mesmo, não há retorno… Lembro perfeitamente do dia em que minha irmã me telefonou no trabalho e me disse que ele havia morrido. Eu poderia, se eu soubesse, desenhar aquele instante. Fiquei anestesiado o dia inteiro. Não tinha concentração, meu pensamento não assimilava que não havia mais, definitivamente, a pessoa que deu corpo aos sentimentos da minha geração, a “Geração Coca-Cola”. Hoje, Primeiro de Maio, uma amiga postou este vídeo com uma gravação exclusiva da música “Sete Cidades” com a incidental “Ruby Tuesday” dos Rolling Stones pra uma campanha promocional do disco As Quatro Estações em uma rádio, coisa que já não faz mais nem sentido numa época de tanta virtualidade, de tanta facilidade de acesso. A “exclusividade” daquela época, ah, aquilo não tinha preço… Brigava-se por fitas K-7 com aquelas coisas. Que valor tem hoje isso, que é tão fácil, tão banal? Uma conexão rápida, alguns minutos, e zás!, a discografia com as raridades que você garimpava aos tapas nos submundos musicais. A transgressão hoje é aos direitos autorais… Sim, sim, a democratização da arte, o ilimitado acesso a ela, mas, e o senso de importância que só se adquire na contemplação da impossibilidade e no subsequente “fazer o impossível”? Meu Deus, quando eu cheguei em casa com meus vinis da Legião… Não há retorno, mas há memória!
Quis postar esta canção aqui por dois motivos: a mais pura nostalgia; e um testemunho de que houve no Brasil uma geração que trazia o “coração perfeito” nas mãos, na boca, sangrento, vivo! Nós tivemos a honra de ter sido contemporâneos de músicos que deram coração, cérebro e alma ao rock brasileiro. Hoje… o que temos hoje?
Meu amor, minha adolescência estão nesta música.
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“Sete Cidades”
Legião Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos, Renato Russo & Marcelo Bonfá

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade

Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu

Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo

Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu

Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe


Goodbye, Ruby Tuesday
Who could hang a name on you?
When you change with every new day
Still I'm gonna miss you...


"Urbana Legio omnia vincit!"