Número de sílabas (desde 11/2008)

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segunda-feira, 28 de março de 2011

ROMANCE CAÓTICO

José Barbosa - Caos e Cor

Era tudo assim:
um contrário cheio de sensos;
um destarte desastrado a caminho de casa;
uma rua no meio do mar;

uma rota para a Austrália;
um porto seguro no sertão;
uma garrafa de tiquira;
um perder de rostos nas janelas dos ônibus;

uma mistura de coloides
em camas negras de cansaço;
uma hora bem perdida
entre tantas encontradas;

uma fome e um siri;
uma quentura morta n’água.
Era tudo meio assim,
meio ermo, meio espasmo.
Meias-noites espalhadas,
meias-luzes de manhã,

que a manhã, gritando, esfaima,
que a faina e a chicotada
rasgam vermelhas num mormaço
que deixa tudo como está:
no que fora um nunca mais,
uns talvezes mornos de domingos.

26/03/11

sexta-feira, 25 de março de 2011

JOANA


Clarice Lispector quando criança

Lidiane, citando Clarice, postou o seguinte diálogo constante de Perto do Coração Selvagem:
“— O que é que se consegue quando se fica feliz? — sua voz era uma seta clara e fina.
(…)
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que ideia!  Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia!  Faça a mesma pergunta com outras palavras…
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
(…)
— Sente-se… Brincou muito?
— Um pouco…
— Que é que você vai ser quando for grande?
— Não sei.
— Bem.  Olhe, eu tive uma ideia — corou.
— Pegue num pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo.  Quando você for grande leia-a de novo — olhou-a —. Quem sabe?  Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo… — perdeu o ar sério, corou —. Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com…
— Não.
— Não o quê? — perguntou surpresa a professora.
— Não gosto de me divertir — disse Joana com orgulho.”

A mim, só me veio à mente o que vejo todo dia, como professor, e vou dizê-lo em inglês, para que eles entendam: satisfaction generation
Claro, a menina Joana, de Clarice, não era uma amostra das Joanas de hoje. A Joana de Clarice era um fragmento de Clarice…
As de hoje são só fragmentos.
Porém, tentando responder bonito: ser feliz é para justificar-se a vida, e, depois, continua-se vivendo!
E o que é a vida, para ter-se de justificar?
A vida, digo eu, a vida é criar rosas, ou mangas, ou fazer café, ou ir ao cinema, ou dar bom-dia.
A vida é criar sem perceber a felicidade pela qual se vive.
A vida é você e o outro, quando não são nem um nem outro.

25/03/11

sábado, 19 de março de 2011

CHEIA DE ALEGRIA

 
(a Laryssa Garcia, que me ilumina o pensamento com o sorriso)

Seria grande, se fosse grande o mundo
mas, em vez de grande, é pequena
e, ainda assim, nele não cabe
sequer o seu sorriso.

Entra, tens a porta aberta.
Vem cá dentro
e deixa o espaço brincar contigo
e deixa isso de ser moça grande pra mais tarde
e seja.

19/03/11

domingo, 13 de março de 2011

O ESQUIFE

Carybé - Rebeca Buendía

Há o cadáver de uma lembrança num esquife de vidro sem alças bem no meio da sala de minha casa. Não adiantam panos nem enfeites: é um cadáver num esquife bem aqui, no meio de minha sala onde entram as visitas, que, educadamente, ignoram o que a mim me pesa — o seu cadáver esquifado neste féretro vítreo de vergonha.
Conferi-lhe matéria. Criei-a. Matei-a. Mas, com o diabo, quem a leva de volta ao inferno em que me deixou, e donde de volta me arrastei para esta minha incômoda sala decorada com um corpo encaixotado?
Devo, necrófago, devorá-la? Cremá-la ao Ganges, mergulhar-me num autoflagelativo ritual no fétido das águas que dissolvem suas cinzas? Devo fazer como Rebeca Buendía e carregá-la comigo eternamente num saco de ossos? Devo dar um festim hitchcockiano na ilusão de ser descoberto? Não creio. Porém, quisera — ainda que não me pareça crime matar uma lembrança ou, muito menos, ocultar-lhe o cadáver — flagrarem-me à mão, estripando-a violentamente, violando-a à faca para retirar-lhe do útero as letras do meu nome.
O corpo recende a lençóis e mar, a almíscar e cabelos. Disforma-se esguio e moreno, incólume e inexato, ainda vivaz e concupiscível. Sei-o de cor, em sua toda plena irrealidade.
Tiro as nesgas de sua mortalha transparente, estriando o tecido que sobrou, e dobro-as. Lembram-me os lenços marrons e tristes de meu pai que eu furtava quando criança. Lembro-me bem de guardar as roupas velhas, não sei para quê. Talvez, na esperança de vestir-me do mundo que lhe era cenário, quando, inocente, sentia-o sem percebê-lo. Lembro-me da necessidade tardia de aprender a remendá-las como uniformes de honras e batalhas. Ainda sobram algumas nas gavetas da cômoda. Assemelham-se às dela.
Observo-a. Parece dormir. Pior: dormitar. Parece capaz de acordar com um bocejo a qualquer momento. Tremo intimamente com a ideia, enquanto lhe sinto o insinuar de um pulso. Nesse momento, venta uma lua pela janela com gotículas de uma chuvinha incipiente, e ronda um negrume espesso rua abaixo, sobre as folhas cheirosas dos jambos. A noite assume e se faz tarde. Meus olhos ardem abertos como chagas. Não sei das coisas da noite, não sei ir ou ficar. Não sou diferente dos pensamentos mortos que me visitam limpos a éter depois do terceiro dia.

13/03/11

domingo, 6 de março de 2011

DIÁLOGO (COM INÊS) SOBRE A POESIA


Disse Inês:
“(…) perambular pela diversidade musical que de convergente e uniformizador tem apenas o pretérito perfeito e meu velho coração, cansado de guerra!
(…) repito uma postagem anterior:
‘— Possível, mas não interessante — respondeu Lönnrot . O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode… prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.’ (Borges, é claro)”

Concordo e vou além: a realidade é fruto das escolhas, que são filhas das hipóteses, que, por sua vez, são amantes da imaginação, que é onde vive a poesia.
A lógica, que é tão pragmática, não tem como não se curvar à ausência de sua própria forma, quando ela é apenas uma promessa distante e cheia só de esperança e imaginação, como o aço das cordas de um violão vive dentro de uma rocha ou uma jangada dorme dentro de uma semente.
A poesia é o que nos faz sermos. Pena que muitos não são... Apenas existem.

06/03/11

QUIJOTE

Gustave Doré - Don Quijote en Sierra Morena

(para Isabel Moreno, que me armou cavaleiro e mostrou-me os moinhos)
 

Morde teu nome até sangrar,
até tua pele enxergar os sons das palavras
suando de dor sobre as linhas
e recontando-te como sempre foste:
o andrajoso cavaleiro sem pátria,
de coração na mão
e lança nos olhos.

06/03/11

terça-feira, 1 de março de 2011

ABOIO DE LAMENTAÇÃO


É de minha natureza perder-me dos demais.
Precisando do bando, desgarrar-me;
ruminando, desaparecer-me.
É ser manada em mim
que me coletiva e me despedaça
em reses fragmentadas que pastam do mesmo mato,
que se esfolam da mesma faca,
que se convertem em sandálias e tamboretes
que calço e onde sento
a esperar o aboio de lamentação
cujo mote é o meu nome.

01/03/11

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