Número de sílabas (desde 11/2008)

counter

domingo, 30 de janeiro de 2011

SÓ NOS RESTA ENTREGAR-NOS

Nominuss - Wine Typography

Comentado em Estranho Sentido, de Eduarda Mendes, amiga poetisa que escreve coisas que eu gostaria de ter escrito.

A tua entrega aqui aproximou as nossas tristezas.
Dói exibir-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos.
Dói porque não nos veem, e, dos que veem, poucos discernem, e, destes ainda, só há os que se condoem, servindo-nos de espelho.
E ver-se sem a pele, a carne, os órgãos e os ossos dói ainda mais.
Ai de nós, que não sabemos desnudar-nos de mentirinha...

30/01/11

sábado, 29 de janeiro de 2011

A MENINA RUIVA

 Ian Robin MacLaury - Crazy Redhead

“(…) Em tardes assim, queremos fechar os olhos e abrir o relicário de árvores antigas, cheio de mitos e aventuras e casais enamorados; queremos deitar e respirar todas as lembranças alheias, tomando-as para a nossa própria vida, no momento, tão sem significado, tão miúda e sem copa, sem tronco… sem raiz. E parece que nos tornamos parte da tarde, do seu azul infindo, da idade repleta dos cajueiros e das mangueiras, e ganhamos raiz primeiro. Raiz que nos faltava, desequilibrando-nos em sua falta.”

Fragmento de Trecho, de Rebeca Xavier
 

Olharmos para fora e preenchermo-nos com o que refletimos… Parece bom, não é? Parece que tudo ganha voz, tudo se comunica, tudo diz. E ouvimos tudo, e tudo é tanta coisa… Parece que nem o tínhamos dentro de nós, parece que nem nos reconhecemos naquele que olha, mas no chão, nas gretas, nos vincos das folhas, na beleza tão óbvia que lhes conferimos como se houvesse somente fora de nós, somente em nossa imaculadora observação. Já tudo (que é tanto) nos macula com vida, com a sujeira mundana e terrenal da vida. Parece mesmo que a vida precisa de espelhos para existir, como se nossas raízes só crescessem querendo se tocar, querendo ser floresta onde o vento mova-nos a todos, e bailemos, e existamos como um trigal, indissolúveis como a cabeleira vermelha daquela menina que sorri com o rosto sujinho de manga e terra, linda, linda.

29/01/11

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

HISTORIETA EM CLAUSES

Descobre-se a terra
Vêm as naus, as armas e as cruzes
Invade-se
Matam-se os índios
Violentam-se as índias
Coloniza-se
Catequiza-se
Guerreia-se
Trafica-se
Escraviza-se
Matam-se os negros
Violentam-se as negras
Politiza-se
Matam-se nordestinos
Matam-se mais índios
Politizam-se o sertão e o Norte
Policia-se tudo
Rouba-se madeira
Matam-se Chicos
Politiza-se mais
Assoberba-se
Militariza-se
Matam-se estudantes
Violentam-se estudantes
Proctorragia-se a democracia
Trafica-se
Policia-se o tráfico
Corrompe-se
Rouba-se tudo
Teme-se tudo
Catequiza-se nos presídios
Catequiza-se na tevê e na internet
Policia-se mais
Policia-se a polícia
Assemelha-se aos USA
Bigbrotheriza-se
Macaqueiam-se os mangás japoneses
Policia-se ainda mais
Inundam-se as cidades
Diluviam-se as cidades
Resguarde-se a humanidade!
Catequizam-se os mortos
E instaura-se a paz.

28/01/11

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Selo de qualidade

Eu demorei pra entender (segundo a Rebeca Xavier, amiga e escritora, eu tenho delay) a ideia deste selo, embora o nome já diga a que ele vem.
Recebi-o da escritora Carmélia Aragão, minha grande amiga, que, por sua vez, recebeu-o da Fernanda Lym, outra amiga e escritora, e exponho-o aqui com muito orgulho.
Conforme aquela me ensinou, o usuário do selo obedece a duas regras: a primeira, indicar pelo menos 15 blogues de qualidade que também o mereçam; a segunda, responder às perguntas que seguem.
Sendo assim, Carmélia, muito obrigado pela homenagem, pelo carinho e por tudo, que nós sabemos ser muito, e aqui vai o cumprimento das condições:

1ª regra do selo: AS INDICAÇÕES.


2ª regra do selo: O QUESTIONÁRIO

Nome: Fernando de Souza
Uma música: Vou responder com a que mais canto no momento. "Summertime", de George Gershwin, na interpretação de Janis Joplin, Guy Forsyth ou Salt and Pepper Blues Band.
Humor: Sou uma pessoa triste com alguns momentos de alegria, como todos os que vivem nestes tempos.
Uma cor: Duas. A cor das folhas e a cor do mar.
Uma estação: "Um dia de chuva, um dia de sol, e o que sinto não sei dizer."
Como prefere viajar: De ônibus, na poltrona da janela (que tem de abrir), ouvindo música no fone de ouvido e sem ninguém que me perturbe esse momento.
Seriado: Dois. "House" e "Todo Mundo Odeia o Chris".
Frase/palavra mais dita: Puta que o pariu...
O que achou do selo: Uma honra. Principalmente por ter vindo de quem veio.

A FACE GELADA E PÁLIDA DESTA MANHÃ DE QUARTA-FEIRA

(para Carmélia Aragão, por todos os motivos que nos prendem)

A face gelada e pálida
— quando deveria cálida
degelar o frio do tempo,
amansar as runas da história,
convergir-lhe as trajetórias,
montar do tempo um entretempo —

desta manhã de quarta-feira
foi-me à face sobremaneira
que, ao roçar feroz a minha,
deu de longe a tua memória
mais febril e venatória
que tua imagem descaminha.

26/01/11

domingo, 23 de janeiro de 2011

CONGRATULAÇÕES AOS ALUNOS DO CURSINHO XII DE MAIO, DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ


Galera do Cursinho XII de Maio,

Eu quero congratular a todos, sem exceção, por tudo que suportaram durante este ano. Vocês são feitos, acima de qualquer coisa, da substância dos homens e das mulheres de verdade: A GARRA, A PERSEVERANÇA, A NÃO DESISTÊNCIA SOB NENHUMA HIPÓTESE.

Vocês se esforçaram, superaram-se, nadaram contra a corrente, excederam suas próprias expectativas e alargaram seus horizontes. Vocês estiveram muito além, inclusive, é óbvio, dos ultrajes cometidos contra a educação, com a qual vocês se abraçaram e da qual fizeram o que são agora: pessoas melhores.

Vocês, meus queridos, estão além das “competências” que colocaram na sua frente. Vocês são todos vitoriosos.

Nós, seus professores, coordenadores, funcionários e amigos do Cursinho XII de Maio, ficamos felizes por saber que pudemos ajudá-los de alguma forma nas suas caminhadas. No entanto, lembrem-se sempre: o maior mérito é SEU.

Vocês não devem nunca baixar os olhos para ninguém, para nenhuma instituição, para nenhum outro candidato, pois vocês, por serem quem são, apresentam-se em qualquer lugar como os melhores alunos que um professor pode querer: OS INTERESSADOS.

Nossos parabéns a todos. Vocês são o motivo do nosso orgulho.
Apareçam na aula inaugural que acontecerá no dia 11 de fevereiro, para que celebremos juntos. Vai ser muito bom revê-los por lá.

Um abração!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESCAPISMO


Vives una vida principita
por la perspectiva del piloto.

Eres Jonas en la panza de la ballena
y te cagas por la mar.

Eres Don Quijote luchando contra los molinos
conscientemente.

Eres tu propio miedo más oscuro
y huyes falseando sonrisas a tu propio interior
(y, a veces, al de lo ajeno).

No más puedes amar,
más necesitas probarlo.

Cargas piedras al enemigo,
drenas tus más claras corrientes.

Haces juras imposibles,
ya que tu naturaleza es ella misma una promesa rota.

Eres un espadero ciego
arriesgándose en la lámina que has aguzado para si mismo.

Eres un turista imbécil
que finge no estarse en el Saara.

Estás tan lejos
que no te reconoces más mirándote de vuelta.

Estás en una huida,
ahogando suspiros en rincones desconocidos,
pues el mundo es malo,
pues descubristes ser también malo,
pero aún no discubierto:
pero no aún.

Traduzido de “Escapism” en 20/01/11

ESCAPISM

 Desague Seco (Chema Madoz)

You live a littleprincian life
by the pilot’s perspective.

You’re Jonah in the belly of the whale
and you’re way scared of the sea.

You’re Don Quixote fighting windmills
consciously.

You’re your own darkest fear
and you run away by faking smiles towards your inside
(and, sometimes, other’s).

You’re not able to love anymore,
but you feel the need to prove it.

You carry stones to the enemy,
you drain down your clearest mainstreams.

You make impossible pledges
for your nature is itself a broken promise.

You’re a blind swordsmaker
gambling on the blade you’ve edged for yourself.

You’re a dumb tourist
who pretends not to be in the Sahara.

You’re so long away
you don’t recognize yourself looking back.

You’re in an escape,
sinking whispers in unknown whereabouts
for the world is evil,
for you’ve found yourself evil too,
but not yet discovered:
but not yet.

20/01/11

Te Desejo Vida

Composição: Flávia Wenceslau

Eu te desejo vida, longa vida
Te desejo a sorte de tudo que é bom
De toda alegria ter a companhia
Colorindo a estrada em seu mais belo tom

Eu te desejo a chuva na varanda
Molhando a roseira pra desabrochar
E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar

E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar

Eu te desejo a paz de uma andorinha
No voo perfeito contemplando o mar
E que a fé movedora de qualquer montanha
Te renove sempre, te faça sonhar

Mas se vierem as horas de melancolia
Que a lua tão meiga venha te afagar
E a mais doce estrela seja tua guia
Como mãe singela a te orientar

Eu te desejo mais que mil amigos
A poesia que todo poeta esperou
Coração de menino cheio de esperança
Voz de pai amigo e olhar de avô

Coração de menino cheio de esperança
Voz de pai amigo e olhar de avô

Eu te desejo vida, longa vida
Te desejo a sorte de tudo que é bom
De toda alegria ter a companhia
Colorindo a estrada em seu mais belo tom

Eu te desejo a chuva na varanda
Molhando a roseira pra desabrochar
E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar

Eu te desejo a paz de uma andorinha
No voo perfeito contemplando o mar
E que a fé movedora de qualquer montanha
Te renove sempre, te faça sonhar

Mas se vierem as horas de melancolia
Que a lua tão meiga venha te afagar
E que a mais doce estrela seja tua guia
Como mãe singela a te orientar

Eu te desejo mais que mil amigos
A poesia que todo poeta esperou
Coração de menino cheio de esperança
Voz de pai amigo e olhar de avô

Eu te desejo a chuva na varanda
Molhando a roseira pra desabrochar
E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar

E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar
E dias de sol pra fazer os teus planos
Nas coisas mais simples que se imaginar...


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PALAVRAS SÃO SAZONAIS



(para Lidiane, meu lampejo de vida e inspiração, este poema-diálogo com fragmento de Samba da Bênção, do nosso mestre em comum Vinicius de Moraes)


Palavras são sazonais, meu bem.
Elas estiam,
depois chovem
e não se dão de nenhuma primavera.
São filhas temporãs da prenhidão perene
de uma deusa preguiçosa, sestrosa e boa,
que nos irmana a todos em seus filhos,
para devorar-nos incestuosamente,
levando-nos de volta à mansidão primitiva
de uma pré-existência ideal:
um verbo que chove e tudo origina.
Por entre as ruas, os esgotos e as almas,
arrastam pelas cidades do espírito a secura e o mormaço,
travam gargantas,
rompem pontes,
enxurram tudo com correntes que só respeitam
barquinhos de papel.
Elas, as palavras, são ateias
e, sem que se por elas ore,
vêm diluviosas e pagãs,
irresistíveis, magníficas, heréticas,
feminis "como a pele macia de Oxum".
Meu bem,
as palavras, quando te faltam,
são o que teu corpo usa para vestir o mundo de ti;
são além:
a erma promessa de te dizeres imaginação,
que é a carne do lindo sonho que és.


18/01/11

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

P


Fiquei preso num intervalo
Na letra central de um palíndromo perfeito:
“Ame o poema”.
Um “ame-o” indo que jamais encontrará o que é vindo.

16/01/11

domingo, 16 de janeiro de 2011

O SiSU!



Uma geração inteira usada como cobaia do MEC. Para muitos, um ano jogado fora. Sequer se pode dizer que houve uma experiência com a qual se aprenda algo, exceto a própria e total ineficiência da própria experiência. Desde a imposição do processo, passando pela irresponsabilidade, pelo descaso, pelo desrespeito e pela total falta de lisura na aplicação das provas, até isto: o Sistema de Seleção Unificada (SiSU)! Este é o mais novo martírio que flagela o pobre candidato à tão sonhada "inclusão" no Ensino Superior mediante o que ele acredita ser a premiação pelo esforço de toda a sua vida pré-acadêmica. Um dia inteiro (de outros que virão, certamente) gasto na frente de um computador, humilhando-se virtualmente à ingerência e à inépcia do INEP, do MEC e afins.

Adeptos e defensores da tal da "nova Pedagogia" (todo o meu respeito aos pedagogos de verdade, aqueles que ENSINAM), aplaudam! Aí está o outro lado da corrente, a consequência de todo o afrescalhamento do método de ensino paulofreireano (totalmente desvirtuado!) que vocês tanto apregoaram como a salvação da educação brasileira: um arremedo de faz de conta que só serviu para as estatísticas positivas em um relatório a ser entregue a quem realmente manda, e que nem sequer está neste país.

Alunos, professores, aplaudamos também, pois ou fizemos pouco ou não fizemos nada!

Colocamos narizes de palhaço em passeatas pacíficas, crentes que estivemos no mundo cor de rosa panfletário dessa geração colorida, tão inepta, tão alienada do que é necessário para que se ouça algo no Brasil. Nossa história nos ensinou, se é que ainda sabemos o que é história, que o grito é pouco. A última grande mobilização popular que tivemos (“Fora, Collor”) ocorreu somente depois de haverem confiscado a poupança, mexendo, assim, na única razão que parece nos mobilizar em massa depois do fim da ditadura: o dinheiro. Desesperemos, pois aqui está a pergunta: que importa se milhões de candidatos (entendam-se milhões de sonhos, de projetos, anseios inocentes etc.) foram lesados pelo ENEM se, de acordo com o MEC, o processo foi um sucesso? Financeiramente, inclusive?

Nós estamos em um estágio interessantíssimo de sociedade. Nós elegemos o Tiririca, aplaudimos a farsa da comprovação de seu letramento, já havíamos mandado o supracitado Collor de Melo de volta a uma tetinha da mãe República, reelegeríamos Sarneys, Malufs e corroboraríamos inclusive a volta do demônio militar, devido ao altíssimo índice de violência que nós mesmos criamos e à solução fácil de colocar alguém de farda no comando de uma sociedade que vive e sobrevive pelo medo (os EUA finalmente abriram uma filial aqui). Suportamos rindo (ora, isso não é nada…) o racismo patente entre as nossas regiões, apoiamos alegremente a morte paulatina de nossa cultura em função de algo que sequer tem nome!

Em contrapartida, causam-nos uma indignação, ainda que comportadinha, o ENEM e o Haddad e os fiscais de prova que não sabiam sequer a diferença entre um relógio e um aparelho celular, o vazamento da prova de redação em Pernambuco, o INEP, seu presidente, Joaquim José Soares Neto, as provas erradas (palmas merecidas para a ação civil pública do MPF do Ceará em contrário ao absurdo que se cometeu, e para a juíza da 7ª Vara Federal, Karla de Almeida Miranda Maia, que a aceitou), enfim, causa-nos indignação sermos tratados como gado, e gado do alheio, visto que o nosso governo parece se portar como “pastor” de um pecuarista que fala outra língua.

Que dizer disso? Que sorte de povo é esta, que convive na fossa séptica social em que foi jogada, mas exige guardanapos de seda branca?

Talvez só saibamos daqui a uns dez anos, quando quase todos os desta geração já tenham saído ou estejam saindo de suas respectivas faculdades, de canudinho na mão.

Que cantiga irão eles cantar? Que universidade pública ficará depois disso?

16/01/2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ILUMINAÇÃO


Ilustração de Daniel Danger

A sermos loucos, sejamos antes iluminados.
Com não o sermos, finjamos irradiar loucura,
para que ela se vá
e refrate-se no gentio ocupado e vítreo,
para que, ao voltar pródiga, ilumine-nos enfim
com a mesma loucura de uma mãe por seu filho,
de uma raiz por sua terra,
de uma vida por seu fio.
A sermos loucos, sejamo-lo assim
como o são as coisas mais simples e estúpidas:
a gargalhada de uma velha,
o espatifar de uma garrafa,
o espraiar-se da espuma de uma onda.
Sejamos opacos e obtusos e frágeis, muito frágeis.
Os frágeis sempre perduram,
porque vive neles o segredo da inefabilidade da vida.
Deixemos o diamante ser-se e cortar vidros
— sejamos a esparsa terra onde tudo vive e tudo morre.
Morramos, inclusive.
Em nós, não haverá tal que não nos seja
quando estivermos findos e idos e livres.
Não haverá coisa em nós que não enlouqueça
da suprema liberdade de não haver mais alma que nos contenha o espírito.
A sermos loucos, sejamo-lo direito.
Cuidemos. Sejamos ciosos com as asas de nossos sonhos.
Deixemos o ar frio da noite enclausurar-nos no escuro
para que um dia raie vingativo e bom
espaldado em nossas cadeiras de cipó
onde nossas histórias nos balancem divertidas,
contando-nos quem nós fomos.
O que fomos, é preciso esquecermos
para que nos soe novo e outro e tão alheio que,
desesperados de rir,
arquejemos como crianças sujas: “somos nós!”

12/01/11

JANELA DO QUARTO DE DORMIR


Poema-irmão de Quarto de Dormir, de Rebeca Xavier.

E a menina trouxe o céu pra dentro
e chovia, e raiava, e entardecia, e crepusculava
ao seu bel-prazer.
Até que, um dia, fez-se a noite,
e uma estrela linda e solitária refletiu-se
numa colcha de retalhos estendida
entre os dois céus:
um que o outro continuava
num fluido desapego de madrugada.

12/01/11

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

THE OVERDRIVE HAIKAI


This is the life's overdrive:
Instead of flowers,
We’d rather be the beehive.

06/01/11


O HAICAI DO EXCESSO

É o excesso da vida:
Fica a colmeia
Pela flor, que é banida.

06/01/11

domingo, 2 de janeiro de 2011

DA TERRA

Foto: Sara Marques

Era um solo comum
Desses de horta e de cova
Que me recebia.

Era um laço firme entre a carne e a pedra
Que se formava.

À margem da casa,
Animais de carga e seus donos e
Moleques livres
— os filhos naturais daquele úbere.

Eu, adotado, fui aos poucos me desguarnecendo
E me tornando simples
— uma pedra de rio, um seixo ovalado —
E me fazendo irmão
Dos que se lembram dos nomes das coisas.

31/12/2010

sábado, 1 de janeiro de 2011

PARA INÊS


Que essa felicidade toda,
De repente, exploda,
E respiremos o pó
Do que, um dia, sonhamos estrelas.

01/01/11

O FADO DO AMOR EM NOVE HAICAIS

Ele a cobriu de estrelas,
E a noite, nua,
Não mais pôde contê-las.

E a lua, desolada,
Jaz atônita:
Pérola almiscarada.

A iluminada moça,
Com uma troça,
Pisa a lua na poça

E, displicentemente,
Ignora o céu
Vaidosa e cruelmente.

Não mais se faz presente
O amor do amante;
Fora estrela cadente

Ao fulgurar valente
Por entre os zelos
De amor incandescente.

Fora astro vanecente:
A casa ígnea
Da cinza penitente.

É o manto saqueado
Do alado negro
Que ora lhe veste o fado

De contemplar o vácuo:
Nunca fora luz
O amor de fogo-fátuo.

01/01/11

DOIS HAICAIS DE DEZEMBRO



I

Descortinadamente,
Um sorriso só
Raia sóis no poente.

II

O laço repartido
Rompe a luz tíbia
Do amor desfalecido.

12/10