Número de sílabas (desde 11/2008)

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sábado, 24 de dezembro de 2011

FREDDY KRUEGER VS. SEU LUNGA

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A MÁSCARA DE APOLO



A noite me agrada porque nela é tudo muito simples.
Não há luzes que me iludam: o céu tem a cor dele, a lua aparece, e as estrelas.
É, e as estrelas…
É simples olhar para elas, pois o que elas são é simples,
como são simples os estilhaços de sol poente — tão diferente de suas irmãs… — na epiderme do mar,
em seu instante mais terno, menos apolíneo:
quando a verdadeira cor das coisas e das pessoas começa a resplandecer
e encher de negro o néon da vida,
mas desse negro de que são feitos os olhos de minha filha,
os cabelos de minha esposa,
o silêncio de meu filho,
a história de minha pele.
O negro transliterado de uma continuidade, de um complexo fio
tramado entre os sons, as pessoas, as palavras e as almas, ligando-os.
Os traços de impessoalidade deixam ao dia o seu anonimato:
somos o que somos somente à noite.
Aquele, intransigente, retira de seu sítio mais íntimo o seu livro de diálogos perdidos e o reexamina escolarmente;
aquela, promíscua, cofia de seus cabelos as imundícies lascivas e se entrega mulher, pura, inteira, a seu homem;
aquele, em mangas de camisa, testosterônico, dança em seus olhos bailes de gala de valsas casticíssimas;
aquelezinho, empedernido em sua resignação humilde ao fel da vida, muda a essência inteira do mundo, dando boa-noite a seu cão;
aqueloutra, doidivanas, sorri pudica diante da ternura pueril de seu pescoço de fêmea;
aquela uma, sem que o nunca lhe houvessem dado, dá de si o mais belo dos sorrisos de “agradecida, senhor” ao lixeiro surdo;
aquele, estroina, olha cheio de amor desesperado o filho, com o pavor absurdo dos que não lhes querem pares de seu futuro;
aquela, burguesa de passamanes de ouro, despe-se da própria pele e se examina só, encastelada em sua tão total ausência;
todos, andrajosos dentro de suas singelezas, cirzem suas verdades
— a única pele que a noite exige, essa noite sem luzes falsas, sem vapores incandescentes de sódio.
Eu, acordado ainda por faróis, desses que salvam navios;
porém eles dormem
como se as máscaras pudessem sonhar os foliões
e os sonhassem.

21/12/11

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ALUMBRAMENTO


A poesia?
A poesia serve para dar corpo ao caos inominável.
Desatar nós não é de sua lavra;
tampouco o é sistematizar, sequer dissecar a vida.
Não se encontram anéis em seus dedos
nem estolas em seus ombros
— seus ombros não suportam o mundo.
A poesia é o conjunto da incontinência, é o mar da água,
é o coração dos sentimentos.
A poesia é o nome que se soprou dos lábios da fera
pouco antes de suas palavras obstruírem-lhe a alma.
O que se diz
está longe de ser poesia;
um pouco mais perto está o que se pensa;
vizinho, o que se sente.
A poesia mesmo
é o alumbramento espantoso de tudo que queremos ser
diante do mundo que queríamos que fosse.

14/12/11

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O LIVRO PERDIDO DE CARINE


Carine queria ter lido Moby Dick. Pedira-me emprestado no início do ano. Prometi, tentei, não cumpri. Havia perdido meu exemplar. Talvez, sob as pilhas de romances empoeirados pela minha preguiça, talvez, sob os mares mesmo, com seu Ahab atado à sua cauda. Contei-lhe um pouco do que sabia: não era um livro sobre uma caçada a uma fera marinha; era uma alegoria da bestialidade humana, destruidora do próprio homem. Ela se encantara. Queria saber mais. É tudo que nós, professores, queremos: que eles queiram saber mais, que seus horizontes cresçam com seus olhos brilhando em sua direção. A partir dali, assim como ela com o conhecimento novo, havia-me eu encantado solidamente com aquele segundo ano, com sua afetuosidade e seu bom humor, e mesmo com o inevitável desinteresse momentâneo tão próprio de seus adolesceres.
Sempre ficam alguns rostos. Aquele, com o seu riso cínico e sua incapacidade de deixar alguém sério por muito tempo; aqueloutro, com sua sinceridade e seu coração estampado na cara de 16 anos, todo coração debaixo de um monte de músculos; já aquela, com sua molecagem tão contagiante, convidando a minha seriedade a ir às favas a todo tempo; aquelinha, com aquele tamanhinho, tão gigante, tão mais que eu… Ficou também o rosto de Carine, os óculos simpáticos, os olhos vivos e meninos, um sorriso desconhecedor e curioso, uma inquietação vaporosa e aromática, uma calma presença. Uma calma presença. Acho que ela teria se identificado muito com Ishmael, o professor-marinheiro, o coração aberto, o cronista de sua tripulação de párias. Não sei dizer dela muito mais que isso… Como pode amarmos tanto nossos alunos, tão em segredo, tão incompletamente, mas tão cheios de ternura, de afilhamento?
Neste domingo, 4 de dezembro de 2011, sua trajetória e as de duas amigas suas foram prematura e violentamente alteradas. Partiu-se ao meio em colisão a um poste o carro em cujo assento traseiro vinham de carona de Aquiraz a Fortaleza buscar um amigo para levá-lo de volta à festa em que estavam. O motorista e a carona feriram-se, socorreram-se, passam bem. Não se falou em fatalidade no noticiário. Foi um desastre causado por direção perigosa. Ou criminosa.
Carine era minha aluna. Eu cuidava para que suas redações dissessem o que ela pensava de mais profundo. Tentava despertar-lhe críticas, questionamentos, senso de organização de ideias… Minha vontade agora é de falar de desmerecimentos, de insanidades, de injustiças. Porém, minha vontade é insuficiente. Minhas abstrações são insuficientes, o que lhe ensinei foi insuficiente, o mundo é insuficiente, as crenças são insuficientes. Carine estava plena de fome de vida. Existira. Brilhara. Iluminara como iluminam, brilham, existem, ardem seus companheiros de segundo ano, de escola, de geração. Falar é insuficiente, então gritemos, inquiramos, podemos, devemos perguntar: como poderia estar certo um mundo onde tantas Carines cada vez mais não encontram lugar para serem como são, jovens, legitimamente radiantes? Como pudemos tê-la perdido? Como pudemos ter sido e podemos continuar sendo tão insuficientes?
Lamentemos, mas lamentemos bastante e de verdade. Por nunca mais ouvirmos sua voz, seu riso, seus gritos de adolescência. Por nunca mais lermos suas mais novas palavras recém-escritas. Por nunca mais a olharmos nos olhos. Por nunca mais nos despedirmos dela. Por nunca mais causarmos aquele muxoxo de reprovação em seu canto de boca por uma molecagem nossa. Por nunca mais rirmos de suas molecagens. Por ser ela uma flor de beleza redentora de um mundo onde se pisoteiam flores. Por nunca mais poder ela nos ouvir dizer (se é que dissemos) como tudo isso nos faria falta. Vamos lamentar pelos que também, da mesma forma, lamentam por suas duas amigas, também jovens, também famintas de vida. E vamos lamentar por nós, meus amigos, por mantermos uma sociedade em que é perigoso sermos bons, felizes e autênticos em nossa fragilidade de existência. Eu, particularmente, acrescentarei mais uma tristeza ao meu já tão carregado Pequod, tão perdido dentro do livro que (lamentarei) nunca mais poderei emprestar-lhe.

05/12/11

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Gambiarra Blues Band - O Blogue

Amigos, este é o blogue da mais nova banda de blues, R&B, country e rock da praça, a Gambiarra Blues Band (obviamente, com esse nome, tinha que ter a ver comigo). Porque é assim que são em geral as coisas de minha vida: entrameladas, cheias de remendos e pontos por coser, cheias de lacunas por onde se pode espiar o que tem por dentro. Mesmo com minha poesia, mesmo com minha música, meu trabalho, meu tudo, acontece assim, um concerto cheio de consertos, vários “jeitinhos” (no bom sentido), como deve ser a de todo bom brasileiro.
Eu e Luíza Carolina, ex-vocalista da Gambiarra,
dona d'O Bazar
e uma de minhas grandes ternuras.
Eu e Rebeca Xavier, 1ª vocalista da Gambiarra,
escritora do livro de contos De Retalhos, dona do blogue Notas de Rodapé
e um de meus grandes amores.
Então, vamos à banda! Estamos ainda em fase de divulgação de material e de batalha por apresentações pelos bares da cidade, em eventos, festivais, lugares de responsa que estejam dispostos a divulgar os gêneros que tocamos (apesar de haver público, vivemos em uma cidade monocultural musicalmente). Nós somos seis: Washington Costa (violão-base e vocais), Naiana Iris (vocais), Antonio Ortiz (bateria e violões), Lucas Teixeira (guitarra-solo e vocais), Thiago Teixeira (baixo) e este que vos escreve, nas gaitas e nos vocais.
Gambiarra Blues Band
Gambiarra Blues Band
Tudo começou com quatro grandes amigos (Rebeca, Ortiz, Washington e eu) se reunindo num fim de semana para estravasar, beber, tocar e cantar, que a rotina de professor é dura… Pois é, somos todos professores na banda, mesmo na atual formação (a quarta), o que, muito curiosamente, é uma coincidência. Foi uma dessas tardes memoráveis, de celebração de amizade. De lá para o estúdio foi um pulo. Queríamos amplificar! Compromissos e impedimentos fizeram amigos entrarem e saírem, até chegarmos à formação atual. Daí, começou a ficar alguma coisa que valia a pena mostrar, e partimos para a primeira apresentação (os vídeos de duas de nossas músicas autorais estão aqui e aqui), a qual nos encheu de coragem. Depois, com a força do Bruno Marques, que veio a ser o nosso produtor, fizemos a segunda em outra cidade, Sobral, e aí acreditamos que a coisa poderia engrenar. E está engrenando.
Concha Acústica da Faculdade de Letras e História
da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA
O que começou como um passatempo entre amigos virou uma banda, e aqui estamos, cantando e tocando o que sentimos, da melhor forma que sabemos. Gostaria muito que vocês dessem uma olhada no nosso trabalho e criticassem, sugerissem, esculhambassem (pero no mucho, please)… ou seja, dessem uma força. Visitem a página completa da gente aqui.
Um abraço a todos, e muito blues para vocês!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ESPAÇOS


A casa ficou maior, e tenho medo
— desses medos físicos —
de perder-me nos cantos, nos vãos que, até agora, desconhecia.
Imagino que crescer do jeito certo seja sobrepujar o espaço que te dão
com o que adéquas ao teu tamanho.
Não sou grande, nunca fui.
Contudo, sim, aumentei o meu espaço.
Enormemente.
Carpi veredas por dentro das capoeiras,
edifiquei pontes, escavei túneis,
pavimentei de sulcos fundíssimos dos sentimentos mais originais
a carne da minha terra,
tudo para que eu coubesse finalmente
numa pátria que reconhecesse
e onde, à noite, não me espantassem as trevas de lugares onde eu não houvesse.
Cresci como um câncer: explodindo e irradiando.
Como um câncer, nunca vi a luz do dia.
Ao meu redor, o Mundo, que me esperava — eu, amedrontado de ter úlceras —,
acolheu selvagem todos, de dentes e garras expostos,
ao passo que eu passava enviesado pelas frestas, entre um canino e um incisivo,
e emaranhava-me com minhas próprias raízes,
e entrava fundo em minha própria terra, de que aprendi a ser telúrico.

Tentara-me o Mundo fazer gente, das que proliferam em shoppings, boates, teatros,
das que superlotam estreias
e manifestam bens-comuns salpicados de vitórias romanas.
Não houve jeito.
Estou fatalmente e para sempre preso ao que me liberta,
ainda que me flagele dentro de ônibus e salas,
oculte-me de olhares — aos quais respondo mentalmente “não estou aqui” —,
e esmoreça paciente à gula do tempo,
sentado sob as mangueiras mortas e assombradas de minha infância.
Não me entrego.
Não pertenço ao que não sou,
não vivo onde não me hei morto e renascido,
seiva desentranhada da terra correndo branca nos folíolos que meu próprio hálito cuida de balançar
e de carregar de volta a mim, que absorvo e revivo.

Porém, angustia-me ainda o tamanho da casa, das pessoas que cresceram do jeito certo, do Mundo.
Ainda sinto o desejo infantil de saltar o gradil da entrada
que faz o limite entre o que sou e o que deveria haver sido.
Olho pelas janelas ocultas para a noite que começou há dois dias
e ainda prenuncia chuva
e desejo-a.
Como desejava visitantes ao berço de minhas palavras
quando elas tinham por quem nascer.
Cresceram. Algumas voaram, outras pastam bovinamente indolentes ao meu redor.
A maioria virou flores, matas, florestas,
produtoras das cores e do oxigênio daqui.

Algumas — as menos minhas — se aventuram
cheias de dentes e intestinos sobre os móveis, os carros e as pessoas porta afora,
dilacerando seus nomes, engolindo seus sentidos.
Observo-as com a adivinhação míope de sabê-las maiores,
bem maiores que eu, com sua fome de Mundo…
Uma vez lá, será que ecoarão de volta?

16/11/11

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

SEIS HORAS



Quantas horas existem dentro de seis horas?
Talvez, o suficiente para afogar-se a noite,
talvez, para resgatar-se o dia.
Certamente, para duvidar-se do mar,
tempo relativo ao homem e à terra,
ao coração e à fogueira morta das certezas,
às cinzas de dias passados
plenos de noites náufragas, infinitos de sal e algas,
onde respirávamos tu e eu, escafandrados nas palavras libertas das cartas,
nas memórias voláteis,
nas atrozes expectativas de que aquelas seis horas não bastassem para nós
para que pudéssemos ser quem éramos:
filhos do tempo urgente,
excertos da roda das almas ígneas,
fragmentos de minutos eviscerados à faca do infinito.

Estar acordado no inútil destas seis horas
com o peito cheio de tosses
e com dores em toda parte onde estiveste
é o pueril romântico dos meus quinze anos
decantado em aulas de Literatura Brasileira:
fulano morreu tuberculoso;
beltrano, de tiro no pé;
sicrano, esse, coitado, suicidou-se sem que se dessem dele.

É dessa época minha lembrança mais triste de morte:
um homem cujo fedor cadavérico só incomodou aos vizinhos meses depois de haver-lhe a morte recendido suas pétalas.
Morrera miseravelmente só e esquecido em sua casa de periferia
sem que lhe soubessem amigos nem relativos,
sem que lhe soubessem nada de dizer
além da manchete de noticiário.
Senti irmandade com aquele homem e pranteei-lhe
com toda a minha verdade e minha cobiça
de desaparecer tal qual, sem palavras de contar quem fui,
sem passado que me diminuísse à condição de fulano:
seria um corpo incômodo, dos que se aproveitam igual aos vermes qual aos estudantes de Medicina e aos alunos moleques secundaristas.

Estar acordado agora é ser aquele sujeito
no interminável de sua última hora:
um lapso do tempo em sua piada de relatividade.
Anônimo como o minuto que acabou de passar.

Porém, dirias, seis horas não é nada.
Um turno. Um quarto.

Um fôlego de náufrago
entre o mergulho e a luz salgada,
coisas de que é feita a rotina das orcas
e dos ponteiros maciços do relógio da torre da praça
onde eu te comprara um sorvete tão saboroso e pobre
como fora aquele dia em que me alumbraste.

09/11/11

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

MANHÃ DE OUTUBRO

 Foto: Nate Ortiz

Ah, quão bom é procurar de uma memória o gosto e descobri-la insípida… Todavia, como se já não bastassem os meus fantasmas que já estiveram vivos, vou eu a engravidar de outros… Já não basta a casa prenhe de espíritos? Já não são suficientes os mortos pelas ruas ao lado de seus vivos?
Devagarzinho, a manhã me encontrou desperto e inteiro, à sua espera. Tenho estado à sua espera durante muito tempo. Tenho procurado por ela em cada ilusão de amor, em cada café desencontrado, em cada instante agudo e viciante de melancolia — a solidão é um bicho quente que seduz e devora a gente ao mesmo tempo. Ao chegar com seus raios e seu chumbo derretendo-se em azul e amarelo, ei-la também inteira, ao seu modo de manhã: a mensageira, a que bate à porta, a que sorri fatalidades.
— Estou pronto — gritei-lhe baixinho para não acordar família, vizinhos e circunstantes —, estou pronto, estou prestes, estou posto! Leva-me!
Ela apenas me olhava, e seus raios e mormaços me respiravam. Sentia-me a respiração com a língua que lhe saltava dos olhos alaranjados — a manhã tem o seu próprio jeito de comer os que estiveram sempre acordados.
Pensei nos meus pais. Quanta espera… Quantos fantasmas de palavras que morreram sementes secas ou podres, que nunca germinaram. Pensei em meu filho, morto feto, como tudo que lhe diria. Pensei em uma ou duas mulheres que amei, e pareceu-me tudo apenas degraus da escada de meu egoísmo que levava unicamente à superfície de mim, e entendi minha profundidade. Percebi-me formado por tudo aquilo que abandonei ou que me abandonou.
— São muitos mortos — disse-me ela. Levarás todos contigo?
— Eles não têm vontade própria?
— Eles não existem.
— Não?
— Sem ti, não. Assim como eu. Assim como toda a tua espera, tua angústia e tudo que me trouxe até aqui. E, assim como eu, não existe nada, nem tu, sem que haja o desejo vão de existir. E o existido é fruto do desejo dos viventes, isso que te prende a mim e a mim, a ti.
— E se eu desejo não existir? E se eu desejo não desejar, mas sim ser objeto de outro desejo que me tire a culpa do próprio desejar, de querer, como dizes, o vão da existência?
— Não é a existência que é vã. O desejo dela é.
— De que adianta existir sem desejá-lo?
— De nada. Por isso, estou aqui.
— Raiarás apenas para mim? Não te alimentarás dos que me cercam, de minha família, meus vizinhos?
— Venho para os que me aguardam, e cada um tem seu próprio alvorecer. Não me quiseste?
— Não. Apenas te esperava. O que eu desejava era a noite, que tu, quando não te fazias, roubavas de mim sem me dar em troca coisa melhor que pesadelos. Viraste-me do avesso com aquilo.
— Germinei em ti a espera por mim.
— Pois não existes sem mim, não o disseste? Não somos eu e o meu desejo vão que te fazem?
— Ainda não o percebeste…
— O quê?
— Não existes.
— Já?
— Continuas não percebendo. Já não se aplica a pessoas como tu. Pergunta a teus fantasmas quem foste. Por mais que tentem, não te saberão dizer nada. O que foste, foste apenas para ti. Não despertaste nada exceto manhãs em teu peito. Não entardeceste como os homens, não anoiteceste como as mulheres. Não criaste, não destruíste, não influenciaste ninguém. Não te manifestaste. Passaste pelos dias como teus fantasmas: seguindo portas claramente abertas, sem chaves, sem vontade de trespassar. Quando olhavas para o céu, vias-me e fingias não me ver. Estava em cada crepúsculo, em cada sombra que estendia diante de ti. Sabia-lo. Nunca te fui surpresa. Observaste os homens e vias a mim. Deitavas-te com tuas mulheres e tocavas minha alva em seus corpos nus. Mesmo em teus mortos eu estava, mesmo quando eram coisa de que te compunhas. Já não se aplica a ti. Apesar de teres vivido o quase, tua palavra é nunca.
— E qual, a tua palavra?
— Agora.

13/10/11

terça-feira, 11 de outubro de 2011

ABDUÇÃO


O amor tirou-me da carne a rosa merencória
E alijou de mim minha tristeza
Em troca, deu-me a incerteza
E o não saber meu nada que não é memória

Roguei-lhe a volta da negrura complacente
Com que misturo o café e a noite sólida
Pois fez-me inquieta a forma estólida
E, a alma escura, a violência incandescente

Ao que, depois, disse-me risonho:
— É bom saber insípida a memória
Em cujo fel o amor se viciara
Cuja hora triste a outra dissipara
E à rosa feia devolvera a glória

09/10/11

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A ALMA DOS GUERREIROS


Estava vendo aqui as modinhas do Facebook e me lembrei de um diálogo de um filme excelente chamado A Alma dos Guerreiros (Once Were Warriors), de 1994 ou 95 (não sei ao certo), dirigido por Lee Tamahori. O filme trata da rotina do povo maori residente nos subúrbios de Auckland, na Nova Zelândia, centralizada na vida de uma família conflituosa. Ao final, um dos filhos, ao ser inquirido sobre o porquê de não usar as tatuagens tribais com que seus amigos demonstram o seu orgulho étnico, responde:
— As minhas são por dentro.
Talvez seja a necessidade moderna de seguir tendências, talvez seja simplesmente uma deficiência de personalidade, talvez seja somente frivolidade… O fato é que as redes sociais fizeram as pessoas viciarem-se em si mesmas. O curioso é que, ao passo que urgem ser raríssimos e individuais como diamantes negros, agrupam-se em tribos de indivíduos igualmente diferentes (ou diferentemente iguais). Não há novidade nisso. O hedonismo “neohippie” (que fique clara a ironia desta adjetivação) destes anos 10, o questionamento presunçoso (visto que fundamentado não na coletividade, mas em si mesmo) dos padrões sociais, a ascensão de uma burguesia mais burra que as suas predecessoras, o egocentrismo, a infanto-adolescência estendida aos limites do que a mídia categoriza como “jovem”, enfim, essas mazelinhas sociais que flagelam essa nova classe média oriunda do conceito do “poder de compra” e da ideia de permanente (e, por que não dizer, obrigatória) felicidade dele advinda trouxeram consigo essas novas autodefinições.
— Eu sou contra os maus-tratos aos animais, logo porei dezenas de postagens com mutilações, seus mutiladores e seus mutilados para que todos saibam como eu sou “antenado” com as injustiças cometidas àquelas pobres almas.
— Eu sou contra a construção da usina de Belo Monte, logo postarei aqui fotos de crianças indígenas para expressar a minha indignação e o meu desejo de justiça.
— Eu sou contra a violência infantil, logo (genial, genial!) mudarei minha foto do perfil do Facebook para a imagem do meu personagem preferido de HQ/cartum/mangá/desenho animado/longa-metragem de animação/etc. para que todos percebam como eu me importo.
Algum problema com as três causas citadas acima? Na minha opinião, com as causas, nenhum. Todavia, é bom ponderarmos sobre que buraco de personalidade é esse que se tem hoje, que se preenche com causas como se fossem modas; com inquietações legítimas como se fossem comunidades orkutianas (indicadores máximos de personalidade na década passada); com almas alheias como se fossem as suas. Caio Fernando Abreu virou o tradutor virtual oficial da liberdade irresponsável que se apregoa hoje aos quatro ventos: a bandeira do “eu mereço ser feliz” (mais uma vez, frise-se aqui a minha ironia).
Qual é, meu povo? Qual é?
Estas últimas décadas parecem mais órfãs que eu e os de minha geração. Perdemos pais, ídolos, referências, mas mantivemos ideais enraizados firmemente. A quem recorrem esses de hoje? Ao Google?
Vou dar um jeito de rever esse filme que mencionei no início… “As minhas são por dentro” é algo que, hoje, faz mais sentido a mim do que nunca.

04/10/11

terça-feira, 27 de setembro de 2011

PARA ALÉM


O que é que tem
Para além?
Um cá no espelho?
Ou é aquém do reflexo
Que jaz morta a luz
Que é nele espírito?

26/09/11

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ENCANDEIA


“Meu amor tá perguntando
Como coisa que eu soubesse
E de lá eu vinha
Se lá estivesse”

Tem uma música hoje no nome da noite
Que não vai deixá-la ir, simplesmente, e virar manhã.
A noite dará algum trabalho às estrelas…
As que se esquecem — em vão — se lembrarão,
E velarão todas pelas janelas dois corpos
Que hão de se entender e que cheiram a seu turno o desejo do outro,
Num dueto bipartido de quatro mãos — e quilômetros de pele —
A tocarem seus corpos pelas partituras mornas e doces
E a buscarem em si o outro,
Que vibra assonantemente.

22/03/11

domingo, 18 de setembro de 2011

IN TRUTINA


(À Alana Vívian Almeida Loiola, que sentiu estes versos junto comigo)

“Porém, escolho o que vejo,
E coloco meu pescoço sob o jugo;
Ao jugo suave, todavia, submeto-me.”

Amo os invisíveis, eu acho. De fato, aos olhos, somos todos invisíveis.
Assim, acho que só amo os substantivos abstratos…
Não pode ser contido nem imaginado, não tem ícone.
Sua imagética depende dos sentidos — o abstrato se sente.
Acho que amo a sensação do talvez…
Uma ária de Puccini, uma Carmem, onde, a forma que a contenha?
Onde, a planura de uma luz que se expande rubra por toda parte em que deito os olhos, ou mesmo os esguelho, à tua procura?
Onde, o descortinado passadiço de sentimentos ao lado do qual, à janela, espero-te passar cheia de mim nos passos, nas pegadas, nas sandálias, no suor amendoado?
Onde, tu?
Não há concretude no esperar-te, e o esperar-te é tudo, em toda parte.
E não o vejo. Percebo-o. Exatamente inconstante como é, e exato como és.

17/09/11

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

UBI EST THESAURUS TUUS, IBI EST COR TUUM


Para quem sente, a verdade não interessa.
Caso se adéque, é apenas uma feliz, ainda que mera coincidência, que se esquece em dois tempos
— um, de perceber, e outro… de quê mesmo?
A verdade não se aplica, é reacionária, coisica fascistinha de merda.
Eu sinto, e tu, por quem sinto, sabes que vivo, e vivo porque sinto.
Que tem a verdade a verdadear sobre isso?
Dirá de mim morto? Dirá de ti sonho? Dirá de si Deus?
Deus não sabe dos homens, homens são de carne.
A Deus vão as almas, os descarnados fumos de Adão sob Seu dedo em riste.
A carne, esta, sim, morde-se, sangra-se, eviscera-se!
Arrebata-se fêmea aos anelos concupiscentes do macho
e, aos pés de ambos, conculca-se, desemaranha-se em fios macerados
para, depois, recoser-se em corpos novos de ardor real, de fúria e paz humanas.
A verdade não se fez para os homens, pelo menos não aos que têm sangue.
Se ela jaz com os mortos, em seus tutanos apodrecidos, isso é entre eles e Deus.
Eu estou vivo e sinto! Que verdade me desmentirá?

15/09/11

SOME SUGAR


I could use some sweet tonight
even though blinks me a glimpse of rain
and I’m made of the sugar of you.

14/09/11

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

DA IMPOSSÍVEL TAXIDERMIA


(À Vívian Rodrigues, mi mariposita del mar)

A liberdade é um bicho sem pele.
Qualquer coisa que a toque machuca.
Muito.
Inclusive e principalmente, outra liberdade.
Por isso, nunca se reproduz.

14/09/11

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

NASCER E SER REFLEXO


Preciso renovar minha fé nos ícones. Acabo de me pegar precisando de uma crença idolátrica, de um bezerro de ouro… qualquer coisa meramente material. O que é a existência de uma matéria sem estado físico? Sim, matéria sim, minha fé é matéria… O objeto dela é matéria. Mais que eu.
Nascer deveria ser para poucos. Não porque se faz o milagre. Nem porque somos muitos. Nascer deveria ser para poucos porque, de onde vimos, deve haver a vontade de não vir, vontade revertida em morte na pedra, no sal. O que há nessas pré-entidades não é a inanimação material: é o retrocesso da vontade. De onde vimos, não há que haver vontade nenhuma. Lá, somos simples, terrenais, mais que aqui, porque aqui o sabemos. Nascer deve ser, não tenho certeza, mas deve ser a vingança de Adão, ao retirar do Paraíso todos os seus filhos, porque são seus, e não d'Ele. Dessa perspectiva, nascer é explodir ao contrário, quer dizer, é reificar-se, é ordenar ultrajantemente o caos perfeito, é sujeitar-se, é submeter-se. É capturar-se a alma em um espelhinho de mão vagabundo, que se trocou pela filigrana fluida nos rios livres e selvagens pré-coloniais. O reflexo determina o refletido por influenciar-lhe a vergonha de perceber-se, dizem. E o que somos, quando nos damos conta do que éramos — de um nunca-mais sem jeito —, quando a matéria do corpo não nos serve mais, quando se percebe a argila como a vil continente da água que aprisiona?
Ontem, procurei um bom-dia que desse a uma dessas obrigações diárias com os vizinhos, registros vivos e aferidores comportamentais de minha sociabilização. Apático, não achei um que desse. Tranquei os cadeados do portão sem me dar deles (já são tantos cadeados…) e me fiz aos rios negros das ruas e das avenidas, até que a amarelidão urbana das lâmpadas de sódio anunciasse a hora de voltar. O poste defronte parece comigo: sustenta fios, não tem luz. À noite, assemelha-se a uma imagem de andor, patinada, envelhecida, de aparência curvada, inane, repleta da fuligem da vida… Na ausência de luz, oferendo-lhe insone meu sono, e ambos vigiamos para que a aurora não nos colha a lágrima seca de nossa liturgia.

08/09/11

terça-feira, 16 de agosto de 2011

MEMOIR


Penso no que dizer
Mas não acho nada bom
E são tantas coisas
Que parecem ser tudo

E tudo comporto obedientemente
A Deus
De que se ocupa minha culpa,
Minha ignomínia.

Solidão é estar só com um deus
Que te é ouvidos
Quando és todo desejo de vozes
Que te digam que és
Além do estares.

07/08/11

UMA SAUDADE SORRI CABISBAIXA


De todas as coisas de que ríamos juntos, mais ríamos do mundo, e ele nem se dava conta de nós quando éramos um par na plateia subversiva de crianças, e ele, a maldade desnuda de sua carne, com os ossos frágeis e quebradiços, marchando cego dentro das noites amarelas de sódio… Para onde foste, não há sódio. Fiquei eu aqui imerso em uma saudade do proibido, de uma liberdade traquina, pura. Hoje, minha saudade sorriu como quando fomos crianças juntos, como quando nossas gargalhadas riam acanalhadas e baixinhas, com medo de acordar o alheio. Pobre alheio, que não podia rir. Mais pobre que nós, pois era para nós como se fosse do mundo. Não era. Era pobre, era triste, triste de nunca ter sido totalmente alegre como fôramos, ainda que brevemente. Com ele, minha saudade entristece um sorriso, talvez mais adulto, talvez mais como aprendi o que é ser homem e a sê-lo. E como é ser assim? Um trazer em si a fugaz e desvairada carreira da liberdade e um atar-lhe correntes tetânicas, que deveriam, mas não dormem juntos? Gostaria, mas como eu gostaria de que sua cama degelasse! De que suas mãos novamente se dessem, de que suas vozes novamente cantassem! Talvez, soltasse-se a minha própria voz e, uma vez aberta e livre a garganta, eu vomitasse tudo o que não sou e, desobrigado de minhas âncoras, encontrasse-os. No almoço fervendo na cozinha, na barba sendo feita no banheiro, em meu próprio espelho. Hoje, meu, como várias outras coisas que não reconheço. Como será, meu Deus, como seria desatrofiar-se?

16/05/11

sexta-feira, 29 de julho de 2011

GAMBIARRA BLUES BAND - RASCUNHO DE BLUES

RASCUNHO DE BLUES

Gambiarra (s.f.) - No Brasil, o significado predominante seria “improvisação”. Em Portugal, o significado predominante seria “extensão de luz”. Entre outros significados, destacam-se “ramificação de luzes” (Ferreira, 1999), “ligação fraudulenta”; “gato” (Houaiss, 2001), “relação extraconjugal” (Navarro, 2004). Um dos sinônimos para o termo “gambiarra” é “jeitinho brasileiro” (Boufleur, 2006). O termo “gambiarra” costuma ser usado também como adjetivo, significando “precário”, “feio”, “tosco”, “mal-acabado”. Inflexões modernas da palavra (gírias), no sentido de improvisação: “gambis”; “gambi”; “gambota”.

Gambiarra Blues Band é uma banda de blues, rock e country formada por professores de diferentes áreas que são apaixonados pela música que fazem. Seu repertório não se restringe apenas a músicas estrangeiras, pelo contrário, como o próprio nome sugere, transformam e adaptam músicas brasileiras de vários estilos à batida do blues. Vale a pena conferir o seu trabalho. A banda é composta por:
Washington Costa (violão e voz)
Naiana Iris (voz)
Fernando de Souza (gaitas e voz)
Lucas Teixeira (guitarra e voz)
Antônio Ortiz (guitarra)
Henrique Bezerra (baixo e voz)
Marcos Davi (bateria)

Link da música no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=tYquCjyGc-o

Contatos no Facebook:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DAGUERREÓTIPOS


E as fotos, assim como os rostos, eram todas as mesmas. Todos sorriam cheios de nada, desse nada que preenche espaços visuais.
Atrás da câmera, uma registradora de toda aquela vanidade, alguém que a procurava, certo de que lá estaria quando se percebesse olhada. Como se enganava! Sempre se percebera olhada, mesmo não o sendo. Sempre se tivera de mostrar, sempre sentira a obrigação de ser vista, percebida, registrada indelevelmente. Adorada. Ela era um sorriso lindo, uns olhos faceiros, um conjunto desarmônico de sardas e covinhas — tudo que achava conjuração de desejo por quem quer que a tivesse. Já ele dera o azar de ter olhos que desejavam vida nas cores e razão nas linhas, nas curvas, nas formas. Ela era anúncio de revista, e só. Ele queria, coitado, uma ilustração de livro — ainda que fosse de uma língua que balbuciasse, que, tartamuda, hesitasse o enredo, ocultasse a personagem…
Fadaram-se ambos aos dois lados da câmera que nunca os retrataria como eram.

06/07/11

sexta-feira, 1 de julho de 2011

TEIMA


Desde que não o tempo me escorrace,
teimo
porque sei e porque posso
acima de tudo que não posso.

17/07/11

SUSPENSÃO


Deixar de ser é mais difícil que mudar.
Portanto, ser não sendo, ou seja,
guardar na estática do ente um outro hesitante,
um ente ausente,
é dormir de um sono que vive entre
as luzes do dia e a hora que se torna
a praça onde brincam os seres que dormem
dentro do que somos.

01/07/11

FOI O QUE TE DEU CONSISTÊNCIA DE MATÉRIA


Até então, eras trigonometria
Abstrações não-táteis como fé ou frio
Um estágio ente no imaginário
Variável da pareidolia.
Saber-te era arriscar-se pio
Na fractária psicodelia
E, lisérgico, conjurar-te a um lio
Quando, erma, eras só poesia.

Daí, súbito, entrou-te um rio
Que de mim veio e a ti corria
No qual, toda vez que te invadia,
Ia eu, diluído em galanteio.
Fiz-te plena, fiz-te cheia
Com o que de mim mais merecias.
Foi o que te deu consistência de matéria:
Sendo lua, dei-te um mar onde reluzias.

29/06/11

terça-feira, 7 de junho de 2011

LINHA DE PASSE

Marcelo Zocchio & Everton Ballardin -

Aquele professor havia pendurado as chuteiras. Alegara que os cartolas do MEC queriam que ele simulasse falta a cada lance, pois diziam que o juiz tinha tentado consecutivamente e sem sucesso todos os ENEM e acabara entrando pelas cotas na plêiade da SEDUC.
Em seu lugar, colocaram prestos um moicano semianalfabeto de 19 anos que engravidara uma menina-maria-chuteira de 17, por representar melhor a cultura de seu país.
E viva o futebol-arte!

07/06/11

domingo, 5 de junho de 2011

DESCAMINHO


Morte é uma coisa que vem vindo, vem vindo, disfarçada de idade, travestida em rugas resignadas, sestrando artrites, acenando doençazinhas… Morte é a idade.
A minha, quando chegar, para seu doce espanto, já vai me encontrar velho.
Terá pouco de fazer: talvez um afagar de cabelos, um beijo nos olhos, talvez só um cafezinho silencioso, amigo — bandeiriano. O silêncio nos colocará no mesmo patamar — também fui eu ao seu encontro e encontrei-a pronta, também eu não desejara a parlenda de uma visitante desconhecida.
No mais, ficam esquecidas as pequenas coisas: os papéis nunca lidos, os sapatos gastos, os porta-retratos ansiosos por reencontros. Ser velho como ela o quer é não precisar. É desfolhar-se um outono na folha, que suicida as árvores que fora e que nunca fora.
Outro dia, disse do ideal ser um pé de vento que me viesse e me desenraizasse, que me morresse uma morte com asas, com ar por todos os lados, arrebatadora. O que não sonham os desvalidos…
Quando ela vier, eu já serei brisa, já terei ido e vindo, já serei descaminho, estrada vicinal que nunca se dera de rodovias.
Quando vier, serei eu quem dirá com um leve meneio de olhos aonde irmos. E ela saberá.

06/05/11

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Viagem de Novembro


VIAGEM DE NOVEMBRO
(Erasmo Disbel)

Foi uma vez
Numa triste tarde de novembro
Logo eu parti
E aos poucos te perdi de vista
E viajar foi como morrer
Só em saber que na manhã seguinte
Estaria assim tão distante
E não veria mais teu sorriso
A morte rondou-me a cabeça
E conter tanta dor foi preciso
Amanheci
Era uma dia triste ainda em novembro
Te busquei em vão
E aos poucos lembrei da viagem
Mas estar aqui é como nem estar
Pois estás sempre comigo
Aqui no meu coração
O pensamento guiando a saudade
Voa qualquer légua
Pra estar com as pessoas
Que mais amo

quinta-feira, 26 de maio de 2011

FÉRTIL


Submerso nos vapores de sódio
e nos mormaços das primeiras águas da tarde,
emerge um poema
que cheira a bosta,
pelo que muito agradece
a semente do meu amor.

25/05/11