Número de sílabas (desde 11/2008)

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sábado, 30 de outubro de 2010

Amor de Conuco

(Juan Luis Guerra)

Dime si me va a querer
Soy hombre de poco hablar, Consuelo
No tengo na' que ofrecer
Un conuco, un gallo y un lucero
Y la luz de la mañana
Que entra por mi ventana, cielo
Y los rios y la montaña
Y el viento que peina tu pelo
Yo quisiera ofrecerte el mundo y no puedo

Na' me tienes que ofrecer
Tu mirada es lo único que quiero
Dormiremos cuando el dia
Se acueste encima del potrero
Y los grillos harán su canto
Y entre hierba y pasto soñaremos
Y de tanto amor tu cuerpo
Hará de mi vientre lo que espero
Un retrato de tu cariño, te quiero


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DELICADA

Ainda não sei atinar ao certo nas linhas do seu rosto
nem exatamente na cor dos seus olhos, ou no tamanho do seu cabelo.
Não sei direito, são indefinidos pontos no meio da névoa da minha lembrança.
Mas eu me lembro das suas mãos.
Lembro o cheiro de amêndoas que recendia da sua pele.
Lembro o cheiro e o sabor do seu hálito e como eram delicadas as suas mãos.
Lembro o quanto elas trabalhavam e como, ainda assim, eram delicadas.
As mãos que, nas minhas, disseram: "preciso ir";
e, delicadas como asas de borboletas, partiram.
Se não lhe desenho os traços exatos na necessidade de sua construção,
Se não lhe resguardei a exata figura,
ainda assim a tenho inteira, indissipável:
a sua delicadeza é o que me corre nas veias.

05/02/05

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DE LO QUE LO TIENE UNO

Eu tinha tanta vontade de ir à Espanha
Beijar a alma dos castelos, roubar uma espada de Toledo
Imiscuir-me en la sangre de la gente, de las calles y de la lengua
Trilhar quixotesco até o mar de Cádiz
E, fazendo-me de lança e moinho, honrar dulcineas
Mas a Espanha não me quis

Eu tinha também vontade
De fazer-me ao mar marinheiro
E apresentar-me homem diante dos ventos
E meu corpo, aos seus corpos, e meu espírito, aos seus
E, se face ao leito, tocá-lo encantado
E virar tritão, titã, leviatã
Mas o mar também não me quis
Exceto pela onda em meus pés como que me dizendo
“De mim, só tens o sal”
E o vento só me veste e me vibra um frio de ostra morta

Também tinha vontade de prender-me à terra
E criar raízes como a mangueira
E, telúrico, tirar da matéria a matéria para também ser terra, rocha, húmus e cachoeira
Numa casa pequena e amarela de porta e janela
E num quintal sem fronteira, de onde partisse o mundo
Mas a terra me tem outros planos

Quis muito; tive outros muitos

Tive desertos entre as gentes e mares ilhando-as
Malgrado seus olhos, que nunca me deixaram de atingir

Tive uma pátria vastíssima, mas idioletal
Onde era povo e rei, nuca e guilhotina

Tive jardins, tive céus abertos, tive chuvas, ventos, ondas, relâmpagos, trovões
Tive o chão e tive o peixe, tive a terra firme e cheia de saudade
Tive o cansaço da vida e o medo da morte
E tive a mim, tendo eu a possibilidade de não ter tido

Mas não tive a Espanha, não tive o mar e não tive a terra
Esses restam longe, muito além das sombras de minhas mãos
Num intermédio vago entre mim e aquilo que temo

21/10/10

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SONETO DA CARNE REVELADA

Dos rios todos que brotavam dela,
Da fenda selvagem a seiva agridoce
Tingiu-me a língua da fêmea que pôs-se
Recôndita e vasta, puta e donzela.

Fizeram-se meus o que era seu corpo
— a nádega branca, o seio convulso —
E, à minha mão de homem, o seu pulso,
Que livrara-lhe exangue o próprio corpo.

Gravara-me às costas a fêmea que era
E seu verdadeiro nome ao meu peito.
Em troca, escrevi-lhe à carne inteira

O homem que seu sexo havia feito,
O macho cuja carne ela comera,
O verão de que fora primavera.

13/10/10

RASCUNHO

Já faz tempo que não rasgo uma folha de papel
em rascunho.
É bom rasgar uma folha de papel.
Vê-se um estágio passado, pretérito, morto
por um melhor.
Livra-se.
As linhas, como degraus descendentes,
jazendo rotas e despedaçadas
— e daí? o verso já descera
dos telhados olímpicos.
Todavia, está lá a matéria morta:
um cão atropelado, uma árvore queimada.
O novo cão latirá o seu mesmo latido?
O cinamomo vicejado recenderá novamente aquele cheiro?

13/10/10

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

INÍCIO

A mesa com as cadeiras, quatro, ladeando.
A rua entrando pela janela,
e um pardal imundo
que foge gritando sem desespero nenhum
em sua direção.
Lá fora, acima, nuvens também fogem esparsas;
há carros e motos, mas são apenas cinematográficos:
lá fora é como uma lembrança de bêbado.

12/07/10

LAGOA

O mar se faz presente como um trovão sem chuva.
O céu se desenha e se desdesenha e se redesenha em nuvens leves e escuras
— mantos de deuses meninos
embalados pelos galos apressados e pelos cães sempre expeditos.
Um trovão eterno, sem descanso.
Um tom mais forte e depois outro ainda mais
cobrindo a lagoa que, plácida,
dormita como uma tia
que recebeu bem as visitas queridas em sua vastidão de casa.
Até as estrelas dormem,
até a lua dorme.
Não fosse o mar
a arengar com os cães e com os galos
com seus resmungos de assuntagem,
o mundo inteiro pareceria dormir essa noite.

02/01/10

GRITAR

“Lutar com as palavras é a luta mais vã.
(…) São muitas; eu, pouco.”

Gritar. Gritar como a pedra.
Como a terra, com a semente.
Gritar além
do que já sonhara
Deus os homens.
Gritar todas as palavras
esquálidas e moribundas,
as que não mais se imaginam
além do sussurro fúnebre dos dicionários.
Gritar os pobres da terra,
cujos nomes, ainda mais pobres, morrem desinventados
nas bocas escorbúticas como um lamento miserável,
desculpando-se por existir.
Gritar a criança muda de alma muda,
apavorada de estupros,
retinta de hematomas,
desabitada em si como uma casa de portas e janelas arrombadas
por onde tudo passa como um vento quente de mormaço.
Gritar a pedra da alma do homem,
que o homem tem gretas assombradas
por magmas infernais.
Gritar a terra, que ela é grito
na carne das árvores,
no fluxo das ondas,
na revolta do mar.
Gritar como se não houvesse
quem mais gritasse.

12/09/10

MAIS

Perhaps it's not a life.
Maybe it is another thing.

09/01/10

MINA DOUTRAS PRECIOSIDADES

Teu corpo abriu no solo do meu
A mina de todas as minhas preciosidades.
Garimpaste com todo o teu ardor
Até chegar ao coração de pedra de rio, coração sem portas.

Mas, ao nele tocares,
Abriram-se os veios,
E, sem te pasmares,
Encontraste a ti mesma.

02/02/00

domingo, 3 de outubro de 2010

Mary & Max

Um roteiro que poderia ter sido desperdiçado em um daqueles filmes que insultam a inteligência e a paciência nas sessões noturnas dos sábados ou em um drama pseudointelectualoide hollywoodiano é a consistência e a força desta animação australiana.
Mary and Max é a história de uma garota australiana que, devido a um acaso, resolve corresponder-se com um homem nova-iorquino que tem síndrome de Asperger. Sobre o roteiro, não vou mais além. Não porque não queira descrevê-lo, mas porque esse filme merece algo que eu não posso dar com minhas palavras.
Sou fã de animações que vão além dos estereótipos próprios do gênero, o que exclui obviamente os ultrajes mickeymouseanos e os seus macaqueamentos (estes, seguramente, têm o seu lugar no mundo do entretenimento, mas não no da arte), resguardando minhas desculpas às brilhantes exceções como Fantasia. Tenho visto coisas ótimas nesses últimos anos, algumas realmente tocantes e delicadas como Wall.E e Up, dos estúdios Pixar. Gosto também de algumas outras incursões como As Bicicletas de Belleville ou A Viagem de Chihiro, filme que já comentei aqui.
No entanto, o objetivo deste texto é dizer o seguinte: não me lembro de ter visto um filme como Mary and Max. Não vou usar o rótulo animação, e sim FILME. Não por demérito do primeiro em relação ao segundo, de qualquer natureza, mas pelo fato de ter esse filme fugido tanto das características do seu gênero às quais estamos acostumados que não posso classificá-lo junto aos seus irmãos.
Mary and Max é algo como eu nunca vi antes. Eu o divulgo aqui não como uma dica, mas como a finalidade de um pedido: por favor, assistam a ele. Seremos todos melhores depois disso.