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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ALVORADA

Se eu fosse soldado
desses de guerra em paz,
trinaria a Alvorada,
e aceitaria sem saber por quê
o princípio do meu dia;
fosse pescador,
sussurraria o mar
batendo-me no casco da alma
o meu nome na boca do peixe;
fosse ladrão,
o embrulho nas tripas
e a revolta nas mãos
gritariam todos os nomes
— exceto o meu —
e me despertariam;
fosse matemático
ou tísico,
uma catraca na mente
ou no pulmão
rangeria um sol quadrado e verde
que, agudo, moto-continuamente,
diria “Continua…”;
fosse médico,
um sangue alheio
encharcaria os músculos parassimpáticos de meu corpo
e vibraria nos meus tímpanos: “Urgente!”;
fosse a feia enamorada,
uma lua cheia dentro dos olhos
doeria branca em meu fígado,
em meus ossos,
e sua lágrima esperançosa-arrependida,
rasgando minha pele,
doer-me-ia um crepúsculo dentro de minha manhã;
mas eu não sou soldado
e não pesco mais que me traz a onda.
Roubo apenas o que me é dado
e calculo muito mal, apesar de ser meio tísico.
Gostaria de sanar, de curar,
mas nem mesmo me sei inteiros os males,
e tenho eu próprio já minha cota de luar.
Sou poeta, não outro;
e não é outro, senão o coração,
o que me desperta.

08/09/10

2 comentários:

Rebeca Xavier disse...

ciclico.

Daniel Pacheco Figueiredo disse...

E sendo poeta, és todos.. que mais poemas alvoreçam!