Número de sílabas (desde 11/2008)

counter

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DENTE DE LEITE

(Poeminha inspirado por http://bekxavier.blogspot.com/2010/09/liberdade-clandestina.html)
A memória é um dente de leite sobre o telhado,
lá jogado
pelo cadáver de quem somos.
Recordar é puxar novamente a cordinha,
é maltratar a gengiva,
é abrir e fechar a porta da geladeira,
é morder com força os nós dos dedos.
Recordar
é gemer por dentro e sangrar de mentirinha
sobre a toalha de mesa feiinha,
feiíssima,
sujando a camisa mal abotoada
em cujos bolsos jazem crus papéis desencontrados
(cédulas, notas fiscais, anotações do momento presente
que, como uma máquina de engrenagens,
engrimpa entravado por eles).
A memória é um latido
(porque todos os latidos do passado são iguais)
de um cão que afagamos
sobre os pelos de nossos antebraços.
A memória é a esquecida luz acesa
que nos viajou
e não nos trouxe de volta nunca mais.
A memória é o extravio da alma
quando não estávamos suficientemente atentos para viver,
pois que viver é existir, e existir é estar consciente,
e estar consciente é não lembrar.

27/09/10

domingo, 12 de setembro de 2010

April come she will

(Paul Simon & Art Garfunkel)

April, come she will
When streams are ripe and swelled with rain;
May, she will stay,
Resting in my arms again

June, she´ll change her tune,
In restless walks she´ll prowl the night;
July, she will fly
And give no warning to her flight.

August, die she must,
The autumn winds blow chilly and cold;
September, I´ll remember.
A love once new has now grown old.

video

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ALVORADA

Se eu fosse soldado
desses de guerra em paz,
trinaria a Alvorada,
e aceitaria sem saber por quê
o princípio do meu dia;
fosse pescador,
sussurraria o mar
batendo-me no casco da alma
o meu nome na boca do peixe;
fosse ladrão,
o embrulho nas tripas
e a revolta nas mãos
gritariam todos os nomes
— exceto o meu —
e me despertariam;
fosse matemático
ou tísico,
uma catraca na mente
ou no pulmão
rangeria um sol quadrado e verde
que, agudo, moto-continuamente,
diria “Continua…”;
fosse médico,
um sangue alheio
encharcaria os músculos parassimpáticos de meu corpo
e vibraria nos meus tímpanos: “Urgente!”;
fosse a feia enamorada,
uma lua cheia dentro dos olhos
doeria branca em meu fígado,
em meus ossos,
e sua lágrima esperançosa-arrependida,
rasgando minha pele,
doer-me-ia um crepúsculo dentro de minha manhã;
mas eu não sou soldado
e não pesco mais que me traz a onda.
Roubo apenas o que me é dado
e calculo muito mal, apesar de ser meio tísico.
Gostaria de sanar, de curar,
mas nem mesmo me sei inteiros os males,
e tenho eu próprio já minha cota de luar.
Sou poeta, não outro;
e não é outro, senão o coração,
o que me desperta.

08/09/10