Número de sílabas (desde 11/2008)

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

EUFONIA


O que eu fui já não sou.
Doutra forma, não seria
Quem, de dentro, sairia,
Sendo sempre o mesmo eu
Que ser me permitiria.

Aqui, de onde estou,
Não me vejo, ou sentiria
Que o que me espelharia
Teria sido, embora um eu,
Outro eu que eu não veria.

19/08/10

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro é uma história de uma garota de 10 anos, mimada e um pouco indolente que se vê de repente diante da necessidade de amadurecer, de aprender sobre o bem e o mal, a humildade, o amor e a generosidade. O filme se baseia em lendas japonesas que consistem em haver uma cidade para os espíritos, os deuses e os monstros, onde estes vão descansar de suas tribulações e não permitem a presença de humanos. Chihiro se vê presa nessa cidade, e obrigada a trabalhar como servente para poder sobreviver e salvar seus pais, que, por sua insolência, foram transformados em porcos para servirem de alimento aos espíritos. Durante esse processo, a menina descobre o valor da humildade, do amor, da generosidade e da sabedoria, fazendo-se amada pelos outros serviçais e mesmo pelas entidades que utilizam os serviços da cidade.
A fábula dirigida por Hayao Miyazaki tem o poder de despertar a imaginação e trazer à tona o olhar infantil que, um dia, tivemos sobre a vida e nossa própria evolução, mostrando a mágica que pode ser a transição da infância para a adolescência.
A música que encerra o filme — Itsumo Nando Demo (Sempre Comigo) — é cantada e tocada por Youmi Kimura. Abaixo, estão a letra original e a tradução.
Assistam ao filme, e deixem-se levar pela sua delicadeza.

ITSUMO NANDO DEMO
(Letra de Wakako Kaku e interpretação de Youmi Kimura)

Yondeiru mune no dokoka oku de
Itsumo kokoro odoru yume o mitai.
Kanashimi wa kazoe kirenai keredo
Sono mukou de kitto anata ni aeru.
Kurikaesu ayamachi no sonotabi hito wa
Tada aoi sora no aosa o shiru.
Hateshinaku michi wa tsuzuite mieru keredo
Kono ryoute wa hikari o idakeru.

Sayonara no toki mo shizukana mune
Zero ni naru karada ga mimi o sumaseru.
Ikiteiru fushigi shindeyuku fushigi
Hana mo kaze mo machi mo minna onaji.
La la la la la la...

Yondeiru mune no dokoka oku de
Itsumo nandodemo yume o egakou.
Kanashimi no kazu o itsukusuyori
Onaji kuchibiru de sotto utaou.
Tojiteyuku omoi de mo sono naka ni
Itsumo wasuretakunai sasayaki o kiku.
Konagona ni kudakareta ka ga mi no ue ni mo
Atarashii keshiki ga utsusareru.

Hajimari no asa no shizukana mado
Zero ni naru karada mitasareteyuke.
Umi no kanatani wa mou sagasanai
Kagayakumono wa itsumo koko ni,
Watashi no naka ni mitsukerareta kara.
La la la la la la...

SEMPRE COMIGO

Em algum lugar, uma voz chama do fundo do meu coração
Que eu possa sempre sonhar os sonhos que tocam meu coração
Tantas lágrimas de tristeza, incontáveis lágrimas rolaram
Mas sei que, do outro lado, encontrarei você
Toda vez que caímos no chão, olhamos para o céu lá no alto
E acordamos para a sua imensidão azul, como se fosse a primeira vez
Como o caminho é longo e solitário e não enxergamos o fim
Posso abraçar a luz com meus dois braços

Quando digo adeus, meu coração para, com ternura eu sinto
Que meu corpo silencioso passa a ouvir o que é real
O milagre da vida, o milagre da morte
O vento, a cidade, as flores, todos nós dançamos em união
La la la la la la...

Em algum lugar, uma voz chama, do fundo do meu coração
Continue sonhando seus sonhos, nunca os deixe morrer
Por que falar de sua melancolia ou dos tristes pesares da vida?
Deixe seus lábios cantarem uma linda canção para você
Não esqueceremos a voz sussurrante
Em cada lembrança ela ficará para sempre, para guiar você
Quando um espelho se quebra, estilhaços se espalham pelo chão
Lampejos de uma vida nova refletem-se por toda parte
Janela de um recomeço, silêncio, nova luz da aurora

Deixe que meu corpo vazio e silente seja preenchido e nasça outra vez,
Não é preciso procurar lá fora nem velejar através do mar
Porque brilha aqui dentro de mim, está bem aqui dentro de mim
Encontrei uma luz que está sempre comigo
La la la la la la...





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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DESPERTO

Estamos mesmo invariavelmente sozinhos.
Nascemos sós,
e ninguém se nos incorpora durante nossos espasmos,
e nada nos é fora de nós.
Inevitavelmente, aproximamo-nos
numa tentativa desordenada de ser dois,
de viver dois, de morrer dois.
Porém, morremos somente, e sós.
Muito fortuitamente, caso não despertemos,
também não desperta em nossos dias
de homens sobre a Terra
a consciência.
Teria sonhado em outra vida
ser como os vegetais
que se enxertam e ramificam,
que confundem suas raízes,
que, simbiontes, cooperam,
que formam uma massa verde
onde vivem bichos que cantam e voam.
Ou um coral
e, em colônias, afundar navios de guerra
e abrigar todas as cores bailantes do mundo.
Mas, quis Deus que fosse só um homem,
dessa espécie que sobe montanhas,
bebe café amargo, afasta o que ama
e codifica outro,
na esperança de sê-lo.
Quis Deus que eu vivesse acordado.
De que serve a poesia
se, com tentar sê-la,
percebe-se o seu tamanho real e inalcançável?

09/08/10

SALA DE ESTAR


Tenho saudades de esperar esperando
pelos ausentes da casa.
Hoje, espero sem esperar
pelos presentes que, em todo lugar,
ausentam-se.
Ninguém está
na sala de estar.
Não se espera nada
das salas de espera.
A casa se desabitou dos fantasmas
que a vivificavam,
e só sobramos os vivos perambulantes
e os inóspitos.
Talvez o problema seja estarmos.
Talvez estejamos demais.

09/08/10

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Asas do desejo

Quando assisti a esse filme pela primeira, vez, eu fui muito mais atingido pelas falas do que, propriamente, pelo enredo em si. Trata-se da história de um anjo que deseja ser mortal, desejo que põe em prática após a paixão repentina de que ele é acometido ao observar Marion, uma trapezista que se apresenta com asas de anjo em um circo em Berlim.
O fantástico desse filme, que é intimista, filosófico, romântico, e, por incrível que pareça, laico, visto que não trata de princípios religiosos de nenhuma espécie, é o fato de boa parte de suas falas serem, na realidade, pensamentos que são lidos pelos anjos. Revela-se aí a essência das personagens, ideias que não poderiam ser expressas em diálogos, talvez pelos fato de serem mais princípios e reflexões que ideias. Os poucos diálogos que acontecem são extremamente casuais, o que não tira deles a profundidade, mas, ao contrário, acentua-a graças ao amparo dos monólogos imaginativos que permeiam o filme.
Há também um poema ("Canção da Infância", de Peter Handke) com que o filme se inicia, e que vai sendo recitado no seu decorrer. Um texto que compilei e pus no início desta compilação maior do que considero serem as melhores falas do filme. Existe algo de primário, de original, de pertinência nessas falas que faz com que nós, espectadores, digamos: "eu penso assim".
Também outro algo que, em nós, acolhe esse filme, abraça-o, na solidariedade de quem se percebe irmão, parceiro dele. Talvez seja uma certeza de que a superficialidade das coisas só seja possível aceitar-se graças à consciência da profundidade delas, à reflexão sobre si e sobre o mundo, para que entendamos que somos não somente matéria, que o tempo e as coisas não são somente matéria, mas que de tudo, absolutamente tudo, devemos tentar extrair a essência e a poesia.
Leiam.
Assistam.
Experienciem.

CANÇÃO DA INFÂNCIA
(Peter Handke)

Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.

Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.

Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.

Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?

Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.

Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.

Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.

Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.

Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.

Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.

ASAS DO DESEJO (DER HIMMEL ÜBER BERLIN), de Win Wenders - compilação de falas.

"Olhe.
O consolo de levantar a cabeça à luz...
de ver as cores iluminadas
pelo sol...
nos olhos dos homens.
Enfim louca, não mais sozinha.
Enfim louca, enfim redimida.
Enfim louca, enfim em paz.
Enfim uma luz interna."

"Ainda o mesmo cheiro. Mais empoeirado, apenas.
Ela colecionava de tudo.
Selos, cartões-postais.
Até bilhetes de metrô.
Ela nunca jogava nada fora.
Mãe. Minha mãe.
Ela nunca foi uma mãe.
Meu pai...
Meu pai foi um pai.
Ela está morta.
Sem lágrimas, sem pesar. Talvez depois.
Deus, como estou velho!
Minha irmã. Tenho de sair daqui.
Ela nunca me amou.
E você também. Só finge.
Fique feliz que todos esqueceram você.
Agora é livre.
"Quero morrer agora mesmo
e logo viver para sempre", ela me disse."

"Bem?
Nascer do sol às 7.22 am, pôr do sol às 4.28 pm.
A lua sobe às 7.04 pm, a lua desce...
O nível dos rios Havel e Spree...
Hoje faz 20 anos, um jato soviético
caiu num lago em Spandau.
50 anos atrás, aconteceram...
- As Olimpíadas.
200 anos atrás, N. F. Blanchard
sobrevoou a cidade num balão.
Como fizeram os refugiados do outro dia.
- E hoje...
Na calçada Lilienthaler:
Um homem desacelera o andar...
até que olha sobre o ombro,
para o vazio.
No posto de correio 44, um homem
que queria dar um fim em tudo...
coloca em cada uma
de suas cartas de despedida,
um selo comemorativo diferente.
Na praça Mariannen
falou em inglês com um soldado americano
pela primeira vez desde seus
dias de estudante, e soou fluente.
No presídio de Plotzensee, um preso antes de bater a
cabeça contra a parede disse: "agora".
No metrô, um funcionário, em vez de falar o nome da
estação em que paravam, a do Zoológico,
de repente, gritou: "Terra do Fogo. "
- Hilário!
Em Rehbergen, um homem mais velho lia a
"A Odisséia" para uma criança...
e o jovem ouvinte
não piscava nem os olhos.
E você, o que tem para contar?"

"Uma mulher fechou seu guarda-chuva
sob a chuva, ficando ensopada.
Um estudante descreveu o crescimento
de uma planta ao seu professor,
que ficou surpreso.
Uma mulher cega que pegou no relógio,
sentindo minha presença.
É fabuloso viver só em espírito,
dia a dia, eternamente...
testemunhar o que é espiritual nas pessoas.
Mas às vezes fico farto
com a minha existência espiritual...
Gostaria de deixar de flutuar
eternamente nas alturas.
Gostaria de sentir um certo peso...
acabar com a ausência de
fronteiras e me unir à Terra.
Gostaria de a cada passo,
a cada lufada de vento,
ser capaz de dizer:
"Agora, agora e agora. "
Não mais:
"Para sempre" e "Pela eternidade".
Sentar no lugar vago da mesa de cartas,
sem dinheiro, e ser cumprimentado
mesmo que por um
pequeno gesto de cabeça.
Sempre que participamos de algo,
foi fingindo.
Fingimos que numa luta,
deslocamos o quadril...
fingimos pescar um peixe.
Fingimos sentar à mesa,
beber e comer.
Cordeiros tostados e vinho servidos
nas tendas do deserto...
apenas um fingimento.
Não quero gerar uma criança
ou plantar uma árvore...
mas seria bom, chegar em
casa depois de um longo dia...
e alimentar o gato,
como faz Philip Marlowe...
ter uma febre, melar os dedos
de preto com o jornal.
Se entusiasmar não só com coisas
espirituais, mas com uma refeição,
com o contorno de um
pescoço, com uma orelha.
Mentir deslavadamente.
Sentir o sorriso de alguém.
Ao andar, sentir os ossos
se movimentando.
Por fim "achar"
ao invés de "saber".
Poder dizer:
"Ah" e "Oh" e "Ei"...
ao invés de: "Sim" e "amém.""

"- Sim.
Poder, pelo menos uma vez,
se entusiasmar com o mal.
Atrair para si os demônios
dos transeuntes...
e caçá-los no mundo.
Ser selvagem.
Ou por fim sentir como seria tirar
os sapatos debaixo da mesa...
e, descalço, mover os dedos assim...
Ficar sozinho.
Deixar as coisas acontecerem.
Ser sério.
Só podemos ser selvagens
na medida em que formos sérios.
Não fazer nada além de olhar.
Reunir, testemunhar, dar fé, proteger...
Permanecer sendo espírito.
Manter-se à distância. Ficar na palavra."

"Fale-me, musa,
sobre o contador de estórias...
que foi empurrado
à beira do mundo...
que tanto é uma criança quanto um velho,
em que nele se revela o homem comum.
Com o tempo, aqueles que me escutavam
se tornaram meus leitores.
Não se sentam mais em círculos,
mas separados...
e um não sabe nada
sobre o outro.
Sou um homem velho,
com a voz quebrada...
mas a estória ainda se
levanta das profundezas...
e a boca entreaberta...
a repete poderosamente
mas sem esforço,
Como uma liturgia na qual
ninguém precisa ser iniciado...
no significado
das palavras e das frases."

"Por que estou vivendo?
Por que estou vivendo?
Como vou pagar?
Com a minha pensão de miséria...
Você está perdido,
e isto pode durar muito.
Abandonado pelos pais,
traído pela esposa.
O amigo em outra cidade,
seus filhos só lembram do seu silêncio.
Poderia bater em mim mesmo
enquanto me olho no espelho.
O que é isso?
O que está acontecendo?
Mas continuo aqui.
Querer é poder...
É uma questão de querer,
para poder me levantar deste poço.
Me deixei afundar,
mas com esforço posso me levantar.
Claro, mamãe estava certa...
Não adianta se entregar."

"Está acabado. Nem sequer um temporada.
Mais uma vez,
sem tempo para terminar algo.
Esta noite será a última do meu velho número.
E é lua cheia.
E a trapezista vai cambaleante...
Quieta.
Nunca imaginei que o adeus ao circo seria assim.
Na noite passada ninguém apareceu
e vocês se apresentaram como uns tolos...
e eu voei pelo picadeiro
como uma pobre galinha.
E agora voltarei a ser garçonete.
Merda.
Momentos como aquele,
como este de agora...
serão uma bela memória
dentro de 10 anos.
O tempo curará tudo,
mas e se o tempo for a doença?
Como se às vezes temos de nos
inclinar para continuar vivendo.
Viver... Uma olhada é o bastante.
O circo... Terei saudades.
Engraçado.
É o fim e não sinto nada.
Um anjo passa...
Devo parar de ter
maus pensamentos.
Como se a dor não tivesse passado.
Tudo se acaba quando está apenas começando
a ser bom demais para ser verdade.
Enfim fora, na cidade.
Descobrir quem sou,
quem me tornei.
Na maior parte do tempo,
estou muito consciente para estar triste.
Esperei uma eternidade
para ouvir uma palavra amorosa.
Então viajei.
Alguém que dissesse:
"Te amo tanto hoje."
Seria maravilhoso.
Eu olho para cima e o mundo
aparece diante dos meus olhos...
e preenche meu coração.
Quando criança,
queria viver numa ilha.
Uma mulher sozinha,
gloriosamente sozinha.
Sim, é isso.
Tudo tão vazio, incompatível.
O vazio, o medo.
O medo, o medo, o medo...
O Medo.
Como um pequeno animal,
perdido nos bosques.
Quem é você?
Já não sei mais.
Mas disso sei:
Não serei mais uma trapezista.
Não devo chorar. As coisas são como são.
Acontece,
nem sempre como se deseja.
O vazio, tamanho vazio...
O que devo fazer?
Não mais pensar.
Apenas estar.
Berlin... Aqui sou uma estranha,
e ainda assim tudo é tão familiar.
Você pode se perder,
que sempre vai parar na Parede.
Espero por minha foto na máquina,
e ela vem com outro rosto.
Este pode ser o início de uma estória...
Os rostos... Gostaria de ver rostos.
Talvez encontre emprego como garçonete.
Esta noite me assusta.
É bobo, mas o medo me faz sentir doente.
Apenas parte de mim se preocupa,
a outra parte não acredita.
Como devo viver?
Talvez esta não seja a pergunta.
Como devo pensar?
Sei tão pouco. Talvez
porque seja sempre só curiosa.
Algumas me equivoco pensando...
porque penso como se estivesse falando com outra pessoa.
Abro os olhos fechados,
fecho os olhos de novo.
Então até as pedras criam vida.
Estar com as cores.
As cores.
Luzes de neon no céu da noite,
o metrô vermelho e amarelo.
Desejando... Desejando.
Só preciso estar preparada.
Desejo uma onda de amor
que me balance.
É isto que me faz desastrada,
a ausência de desejo.
Desejo de amar.
Desejo de amar."

"Não olhe.
Nunca viu ninguém morrer?
Merda, cheiro de gasolina.
Não posso... Tudo estava claro.
Estão de pé parados,
me olhando.
Deveria ter dito a ela ontem
o que sentia...
Karin! Não posso ir assim...
Tenho ainda tanto para fazer...
Enquanto subia a montanha deixando
o vale nebuloso em direção ao sol...
A carne no fogo,
as batatas nas cinzas...
a casa flutuante no lago.
A Cruz do Sol. O Leste Distante.
O Grande Norte. O Oeste Selvagem.
O Lago do Grande Urso.
A Ilha de Tristan de Cunha.
O Delta do Mississippi. Stromboli.
As velhas casas de Charlottenburg.
Albert Camus.
A Luz da manhã, que as fadas fizeram... Os olhos de uma criança... -O que fazem aí parados?-
Chamaram uma ambulância, ao menos? - Nadar perto de uma cachoeira.
As primeiras gotas de chuva.
O sol.
O pão e o vinho. Ter esperança.
Páscoa. As veias das folhas.
A grama ao vento.
A cor das pedras.
As pedrinhas no leito do rio.
A toalha de mesa lá fora.
O sonho da casa dentro de casa.
O ente querido dormindo
no quarto ao lado.
O domingo pacífico.
O horizonte.
A luz do quarto
no jardim.
O vôo noturno.
Andar de bicicleta sem as mãos.
A bela estranha.
Meu pai.
Minha mãe.
Minha esposa.
Meu filho."

"O mundo some no crepúsculo...
Mas continuo narrando
como no início...
Na minha voz cantante
que me sustenta.
Este relato me exime dos
problemas do presente...
e me salva do futuro.
Chega de pensar nos séculos
passados e futuros...
Eu agora só penso num dia de cada vez.
Minha admiração não mais pertence
aos guerreiros e reis...
mas sim aos objetos de paz,
todos igualmente válidos.
A cebola seca é tão válida quanto a carcaça de árvore
que atravessa o pântano.
Mas ninguém conseguiu ainda
cantar um épico sobre a paz.
O que há de errado com a paz
que sua inspiração não dura
tempo suficiente para ter
a estória contada?
Devo desistir?
Se eu desistir, então a humanidade
perderá seu contador de estórias.
E, se isso acontecer,
a humanidade também perderá sua infância.
Não consigo achar a Praça Potsdamer.
Aqui? Não pode ser aqui.
A Praça Potsdamer...
Era onde o Café Josti costumava ficar.
Nas tardes, costumava ir
lá para conversar e tomar café...
e observar a multidão.
Antes disso eu fumava meu cigarro
na Loese e Wolf...
uma renomada tabacaria.
Ali do outro lado.
Esta não pode ser a Praça Potsdamer.
E não tem ninguém para perguntar.
Era um lugar alegre.
Com bondes e carruagens
e dois carros:
o meu e o da loja de chocolates.
A loja Wertheim ficava lá, também.
E de repente,
as bandeiras apareceram.
Aqui...
Toda a Praça
ficou coberta com elas.
E as pessoas já não eram mais amigáveis...
nem a polícia.
Não irei desistir
enquanto não encontrar
a Praça Potsdamer.
Onde estão meus heróis?
Onde estão eles, minhas crianças?
Onde está minha gente, os teimosos, os originais,
os que eram daqui?
Me recorde, musa,
do nome do cantor imortal
que, abandonado pela platéia mortal,
perdeu sua voz.
Ele que, de anjo de poesia que era,
se tornou o tocador de
órgão ignorado e ridicularizado
lá fora, nos limites da terra de ninguém."

"Ainda existem fronteiras?
Mais do que nunca.
Cada rua tem sua própria fronteira.
Entre cada lote existe um pedaço
de terra que não pertence a ninguém...
escondido pelo mato ou por uma vala.
Quem se atrever a ir lá,
cairá numa armadilha...
ou será atingido por raios laser.
As trutas na água
são na verdade torpedos.
Cada proprietário, ou mesmo inquilino...
mostra seu nome na placa da porta
como se fosse um escudo...
e estuda o jornal
como se fosse um líder mundial.
Na Alemanha, cada indivíduo é um estado próprio.
E estes pequenos estados são móveis.
Cada um leva o seu consigo...
e exige um pedágio quando outro quer entrar em suas fronteiras.
Para entrar, o outro deve pagar tributos impossíveis,
como uma mosca presa no âmbar ou uma tira de couro.
E isso só com relação às fronteiras...
Porque só se pode entrar nos estados
portando as senhas corretas.
A atual alma alemã só pode
ser conquistada e governada...
por aquele que chegar em
cada estado com a senha correta.
Por sorte, ninguém até agora
conseguiu tal façanha.
Então todos imigram e levantam
suas próprias bandeiras ao redor do mundo.
Até seus filhos demarcam domínios...
espalhando sua própria
sujeira ao redor de si.

"A única coisa da qual
sentirei falta lá de fora,
do reino da luz,
serão os pardais."

"A vida?
"Se não a tivesse, sentiria falta".
Disse o general à puta.
Ou a puta ao general, tanto faz..."

"Você lembra da sua primeira visita aqui?
A História ainda não havia começado.
Deixamos as manhãs e as noites passarem,
e esperamos.
Demorou muito para o rio encontrar seu
leito e para a água estanque começar a jorrar.
O vale do rio primitivo.
Um dia, ainda lembro...
as geleiras se derreteram
e os icebergs foram para o norte.
Uma árvore passou, ainda verde,
com o ninho vazio de um pássaro.
Apenas os peixes saltaram
durante uma miríade de anos.
Então veio o momento
quando as abelhas se afogaram.
Algum tempo depois,
dois cervos brigaram na margem.
Depois a nuvem de moscas.
E os chifres, como galhos, flutuando rio abaixo.
Só o mato voltou a crescer,
cobrindo as carcaças dos
gatos selvagens, javalis e búfalos.
Lembras...
daquela manhã na savana,
quando ainda sujo de grama na testa...
apareceu o bípede, à nossa imagem,
tão esperado?
Lembras que a sua
primeira palavra foi um grito?
Ele disse "Ah", "Oh",
ou foi simplesmente um grunhido?
Por fim podíamos rir dos
homens pela primeira vez.
E através do seu grito, e dos gritos
de seus sucessores, aprendemos a falar.
Uma longa estória!
O sol,
os relâmpagos e os trovões no céu.
E na Terra, as
fogueiras, os saltos no ar,
as danças em círculo,
os sinais, a escrita.
Mas então, de repente, um deles
rompeu o círculo e começou a correr.
Enquanto corria em linha reta,
às vezes se virando, talvez devido à alegria,
parecia livre,
e nós pudemos rir de novo com ele.
Entretanto, de repente,
começou a corer em ziguezague
e as pedras voaram.
Com isto começou outra história,
a história da guerra.
Que dura até hoje.
Mas a primeira história,
a da grama, a do sol,
a dos saltos
e a dos gritos, continua também.
Lembras como abriram o caminho
por onde, no dia seguinte,
o exército napoleônico se retirou?
Logo o pavimentaram.
E hoje está comberto pelo mato,
enterrado como uma calçada romana,
junto aos rastros dos tanques.
Mas não éramos nem espectadores.
Até para isso éramos poucos.
- E você realmente quer...?
- Sim.
Conquistar uma história própria.
Me transmutar...
Fazer o que minha eterna observação me ensinou,
como dar um olhar que se sustenta,
dar um grito curto,
sentir um odor azedo.
Já estive fora tempo suficiente,
ausente tempo suficiente.
Tempo suficiente fora do mundo.
Quero entrar na história do mundo.
Ou apenas segurar uma maçã na mão.
Veja, as penas na água,
já se foram.
Veja,
as marcas de pneus no asfalto,
a piúba de cigarro que rola.
O rio primitivo secou,
e só restam as
gotas de chuva do presente.
Adeus ao mundo por trás do mundo!"

"Só as calçadas romanas levam mais além.
Só as ruas antigas levam mais além.
Onde fica a passagem
destas montanhas?
Berlim e as colinas também
possuem passagens secretas,
e só ali que começa a minha terra,
a terra do conto.
Por que todos não enxergam, tal qual as crianças,
os portos, os portais e as aberturas
que existem abaixo na terra
e acima, no céu?
se todos os vissem,
haveria uma história
sem assassinatos e sem guerra."

"Não irei conseguir esta noite. Nas noites de
lua cheia, nada de trapézio.
Mesmo que seja a última vez.
A última vez de todas.
Preciso despertar deste sonho.
O circo acabou! Fim.
Mais uma vez é como se a
noite caísse dentro de mim.
O medo... medo da morte.
Por que não a morte?
Às vezes, só o que importa é ser bela.
Fora isso, nada.
Olhar alguém no espelho
é como ver alguém pensar.
Então, o que estás pensando?
Penso que tenho o direito de ter medo,
sem ter de falar sobre isso.
Entretanto não está cega.
Seu coração ainda bate.
E agora chora.
Gostaria de chorar como uma
garotinha com uma grande tristeza.
Sabe por que chora?
E por quem? Não por mim.
Não sei por quem.
Gostaria de saber.
Não sei nada.
Tenho um pouco de medo...
Já se foi, está distante.
Mas com certeza vai voltar. Não importa.
Poder dizer simplesmente, como agora:
"Estou feliz".
"Tenho uma história,
e continuarei a tê-la".
O que estou fazendo?
Olho à minha frente e me deixo
arrastar ao espaço universal.
De novo este
sentimento de bem-estar!
Como se dentro do corpo,
uma mão se fechasse suavemente."

"Não posso vê-lo,
mas sei que está aí.
Eu posso sentir.
Está por aqui desde o dia
em que cheguei.
Gostaria de poder ver seu rosto,
apenas olhar nos seus olhos,
e dizer o quanto é bom "ser".
Apenas tocar algo.
"Como isto é frio!". "Isto é bom!"
Veja. Fumar, tomar um café.
E os dois juntos é fantástico.
Ou desenhar.
Você pega um lápis e faz um ponto,
depois uma linha reta,
e juntas formam uma boa linha.
Ah, e se suas mãos estiverem frias,
você as esfrega.
Vê? É muito agradável.
Existem tantas coisas boas!
Mas você não está aqui. Eu sim.
Gostaria que você estivesse aqui.
Gostaria que você pudesse falar comigo.
Porque em mim você tem um amigo.
Companheiro."

"- E então?
- Vou me jogar no rio.
É uma velha expressão humana
que só compreendi hoje.
Agora ou nunca. A hora da vau.
Mas não existe a outra margem:
só existe a vau enquanto estamos no rio
Entrarei na vau do tempo,
na vau da morte.
Nós ainda não nascemos: então irei descer.
Olhar de cima não é olhar.
Devemos olhar na altura de outros olhos.
Primeiro, vou tomar um banho.
Depois irei me barbear.
Possivelmente vou procurar um barbeiro turco
que também me dará uma massagem
até a ponta dos dedos.
Depois irei comprar um jornal, o qual
lerei das manchetes ao horóscopo.
No primeiro dia, desejo ser servido.
Se alguém quiser algo de mim,
mandarei procurar outra pessoa.
Se alguém tropeçar nas minhas pernas esticadas,
receberá minhas desculpas.
Permitirei que me empurrem,
e devolverei os empurrões.
Num estabelecimento lotado,
o garçom irá me conseguir uma mesa.
Na rua, o prefeito vai parar o carro oficial e me oferecer uma carona.
Serei familiar a todos,
supeito para ninguém.
Não direi uma palavra,
e entenderei todas as línguas.
Assim será meu primeiro dia.
Mas nada disso será verdade.
Irei tomá-la em meus braços,
e ela me tomará em seus braços.
- Parece que está bêbado.
- Sim.
Vamos!
Tem sabor.
Agora começo a compreender.
- Isto é vermelho?
- Sim.
- Está ferido?
- Hoje é um bom dia?
- Regular.
- E os canos?
- Os canos são amarelos.
- Amarelos.
- E aquele ali?
- Cinza azulado.
- Cinza azulado.
- E aquele?
- Violeta.
- E aquele?
- Laranja. Ocre.
- Ocre ou laranja?
- Ocre.
- Amarelo, vermelho.
- E aquele?
- Aquele é verde.
- Verde. E o dos olhos?
- É azul.
- Azul. Azul!
- Está muito frio, hoje?
- Vai logo passar.
- Gostaria de tomar um café.
- Tem dinheiro?
- Sim. Não!
- Fico feliz de que tudo esteja bem, hoje.
- Obrigado.
- Muito bonito!
- Um café.
- Com leite e açúcar?
- Puro.
- Ok."

"Não saberia dizer quem sou.
Não tenho a menor ideia.
sou uma pessoa sem raízes,
sem história, sem país.
Sempre insisto no mesmo.
Estou aqui, sou livre...
Posso imaginar o que quiser.
Tudo é possível.
Basta apenas levantar os olhos,
E me converto novamente no mundo.
Agora. Aqui mesmo.
Uma sensação de felicidade
que poderia durar para sempre..."

"Ela não se foi, Cassiel.
Eu sei.
Você irá encontrá-la novamente.
Esta noite, algo muito
importante irá acontecer.
Cassiel.
Ela vai me ensinar tudo.
Existem outros sóis além
daquele do céu, Cassiel.
Hoje, na noite profunda,
começará a primavera.
Outras asas irão crescer em mim,
muito diferentes daquelas a que estava acostumado.
Asas que finalmente me impressionarão."

"Devo finalmente procurar algo sério.
Já estive sozinha por muito tempo,
mas nunca vivi sozinha.
Quando estava com alguém,
quase sempre era feliz.
Mas, ao mesmo tempo,
me parecia só coincidência.
Aquelas pessoas eram meus pais,
mas podiam ter sido outras pessoas.
Por que meu irmão era o
garoto de olhos castanhos,
e não o garoto de olhos verdes
do outro lado da rua?
A filha do taxista era uma amiga minha,
Mas em vez do táxi, poderia ter
andado à cavalo.
Estava apaixonada por um homem,
mas poderia tê-lo deixado
para ir com o primeiro estranho que
se cruzasse conosco na rua.
Me olhe, ou não me olhe.
Dê-me a mão, ou não me dê.
Não.
Não me dê a mão.
E olhe para o outro lado.
Acho que hoje é lua nova.
A noite não poderia ser mais calma.
Por toda a cidade não correrá sangue.
Nunca brinquei com ninguém.
Mas também nunca abri.
Agora é sério.
Até que enfim é sério.
Então comecei a envelhecer.
Era a única que não tinha algo sério?
Será a época em que
vivemos pouco séria?
Nunca estive sozinha
Nem com os demais,
nem comigo mesma.
Mas teria gostado de estar sozinha.
A solidão significa ser,
por inteiro, um só.
Agora posso dizer:
finalmente estou só esta noite.
Devo colocar um fim
na coincidência.
A lua nova da decisão!
Não sei se existe o destino,
mas sei que existem decisões.
Decida.
Agora somos o tempo.
Não só toda a cidade,
mas o mundo inteiro
participa de nossa decisão.
Agoras somos mais do que apenas "nós".
Encarnamos algo.
Estamos sentados na praça do povo,
e a praça está repleta de pessoas,
que desejam a mesma coisa que nós.
Nós decidimos o jogo de todos.
Estou pronta.
Agora... é a sua vez.
Tens as cartas na mão.
Agora...
ou nunca.
Você precisa de mim.
Você irá precisar de mim.
Não existe nenhuma história mais
importante do que a nossa.
A do homem e da mulher.
Será uma história de gigantes.
Invisível,
traduzível,
a história
de novos ancestrais.
Olhe.
Meus ohos.
São a imagem da necessidade,
do futuro de todos
que estão nesta praça.
A noite passada
sonhei com um estranho,
com meu homem.
Só com ele podia estar sozinha.
Abrir-me com ele.
Abrir-me totalmente.
Para ele totalmente.
Recebê-lo totalmente em mim
como algo completo.
Cercá-lo no labirinto
da felicidade compartilhada.
Sei...
que é você."

"Algo aconteceu
e continua acontecendo...
Algo que compromete.
Foi assim à noite, e segue
sendo durante o dia.
Agora mais do que nunca.
Quem era quem?
Eu estava nela, e ela me envolvia.
Quem, neste mundo, pode afirmar
ter se unido a outra pessoa?
Mas eu me uni a ela.
Não geramos nenhum mortal,
apenas uma imagem comum imortal.
Nesta noite aprendi o
que é o total espanto.
Ela veio me levar para casa.
E ali encontrei meu lar.
Aconteceu uma vez.
Aconteceu uma vez e seguirá ocorrendo.
A imagem que criamos me acompanhará
até o momento da morte.
Terei vivido em seu interior.
O total espanto causado por nós dois,
o total espanto causado
pelo homem e pela mulher,
fez de mim um ser humano.
Agora sei
o que
nenhum
anjo
sabe."

"Me mostre os homens, as mulheres e as
crianças que procurarão a mim
a mim, seu narrador, seu cantor,
aquele que lhes dá o tom,
porque precisam mais de mim do
que de qualquer outra coisa no mundo.
Nós embarcamos!"

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