Número de sílabas (desde 11/2008)

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sábado, 31 de julho de 2010

POSSE

Tens uns quereres de lua
quando não te és.
E, quando és,
és a lua que quero.

Tens uma voz de vento
e uma fala de riacho
que me navega as margens ao mar,
que não é mais
que tu, plena, farta, cheia de ti.

Tens essa coisa toda,
essa onipresença!
Tens esses cabelos de dilúvio
que me fazem único
— um Noé perdido,
naufragado no teu Mundo Novo.

Tens um pássaro canoro
que diz teu nome de manhã
no beiral de minha janela.
Tens esse jeito
de fazer-te em mim,
violentando-me, engravidando-me
de ti inteira.

Tens esse sorriso
que me desmancha o ódio,
que, submetendo-se, subjuga-me.
Ah, como odeio o teu sorriso,
sem o qual nada que não és
faz sentido.

Tens essa roupa de mulher ausente
que mal te toca,
enevoando-te no meio do concreto
das pessoas ordinárias.
Tens esses pés e essas mãos
de caminhar sonhos e tecer almas.
Tosaste a minha,
e é feito dela esse vestido de alças
que mal te toca.

Tens-me inteiro
e, ainda assim,
despedaças-me,
rateias-me,
até que eu, estrela enorme,
sinta-me grão de pó
perdido em teu lençol.

Tens um não estar
que, quando estás,
sou.
E, com não ser-te,
com não ter-te,
acabo sendo a tua presença
que nunca me deste,
porquanto nunca a tiveste.

31/07/2010

Você, Você (Canção Edipiana)

(Guinga e Chico Buarque)

Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?

Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?

Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?

Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

Para quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça?
E à noite, para quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga, que horas, me diga
Que horas você volta?

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Outro dia, papeando com meu amigo Washington, falei dessa música e de como os versos "Que bicho feroz são seus cabelos | Que à noite você solta?" são fortes. De fato, fizeram parte de um momento de minha vida, e eu lhes atribuí a interpretação mais óbvia: a de um homem que se pasma diante da beleza e da força da mulher que ama, sem ser por ela correspondido.
Nesse dia, eu me lembro de que o Washington me chamou a atenção ao subtítulo (Canção Edipiana), de que me havia esquecido, e me revelou a intenção do Chico na gênese da letra: uma canção que falasse do amor de um filho por sua mãe.
A genialidade de Chico Buarque na construção dessa letra, criando, a partir da observação de uma realidade pessoal, uma outra freudianamente paralela, revela-se (ainda conforme Washington) como uma chuva após uma longa estiagem criativa, pelo menos no que concerne ao grau de metaforização. O caso é que, como não vejo há algum tempo, Chico cifra, codifica, sobrepõe semas de uma maneira que as interpretações possíveis não se anulam, mas, ao contrário, somam-se uma à outra, levando o ouvinte atento a muitas outras interpretações individuais.
Descubram-na e redescubram-na.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uns Versos

(Adriana Calcanhotto)

Sou sua noite, sou seu quarto
se você quiser dormir
eu me despeço
eu em pedaços
como um silêncio ao contrário
enquanto espero
escrevo uns versos
depois rasgo

Sou seu fado, sou seu bardo
se você quiser ouvir
o seu eunuco, o seu soprano
um seu arauto
eu sou o sol da sua noite em claro, um rádio
eu sou pelo avesso sua pele, o seu casaco
se você vai sair
o seu asfalto
se você vai sair
eu chovo
sobre o seu cabelo
pelo seu itinerário
sou eu o seu paradeiro
em uns versos que eu escrevo
depois rasgo

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Porque me bateu uma certa melancolia.
Porque a melancolia é uma mulher,
e em mulher não se bate
nem com saudade.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Muerte en el olvido

(Ángel González)Yo sé que existo
porque tú me imaginas.
Soy alto porque tú me crees
alto, y limpio porque tú me miras
con buenos ojos,
con mirada limpia.
Tu pensamiento me hace
inteligente, y en tu sencilla
ternura, yo soy también sencillo
y bondadoso.
Pero si tú me olvidas
quedaré muerto sin que nadie
lo sepa. Verán viva
mi carne, pero será otro hombre
— oscuro, torpe, malo — el que la habita…


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terça-feira, 27 de julho de 2010

INDIGESTÃO

Tem essas palavras
que embrulham o estômago.
Pra elas,
um silêncio de boldo
e um sorriso de magnésio.

27/07/10

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Deve ser assim...

PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

domingo, 18 de julho de 2010

O OUTRO LADO DA PORTA

Nesse breve instante que ocupa o espaço entre mim e minhas memórias,
Quando estou desguarnecido das outras ocupações do dia
E ouvindo os sons distantes dos passos do outro lado da porta,
Procurei pela pessoa deixada para trás, esquecida em algum ponto do caminhar diário.

Terá se perdido? Terá parado no meio do caminho?
Cansou-se de não conseguir acompanhar
Ou se cansou de, ao acompanhar, deixar a si mesma para trás?
Por que se terá deixado tão distante, mesmo nesse instante que é tão breve entre mim e minhas memórias?

Procurei pelos pedaços, pelos cantos, por aquelas coisas velhas e empoeiradas,
Livros e pequenas estátuas, objetos testemunhas desses caminhos.
Procurei pelos antigos espaços, pelas melodias tão antigas…
E esquecidas.

Então, o mundo era grande, e as coisas, mágicas.
As samambaias suspensas, a enorme vitrola, a casinha da bomba d’água,
Os armadores de rede, o chão de tacos, o falso rodapé dos quartos,
A lembrança dos cheiros de tudo, lembrança que carregava comigo.

Procurei pelo primeiro beijo, que roubei, pelo sabor da primeira festa,
Quis ouvir de novo o grito dado quando pesquei o primeiro peixinho.
As pedras e os morros e as serras e as dunas, por que não continuaram tão altas,
E as vitórias, tão valorosas?

A primeira bicicleta. A primeira queda. A primeira dor.
Os quadros pintados com tinta guache. As máquinas fabulosas.
Onde estão todas as noites que me iniciaram na solidão aguda das horas?
Por que o sono tinha de me abandonar naquelas noites?
Por que não posso finalmente dormi-las?


Procurei pelos primeiros papéis, ah, os primeiros sonhos transcritos,
As primeiras mistificações, onde deixei?
Um dia de chuva, outro de sol, uma tarde brincando na minúscula horta
E as sombras feitas de vela na parede.

Procurei pela espera das Festas. A arrumação da casa.
O chão encerado, os móveis polidos, as portas abertas em noites de Ano.
Procurei também pelos talheres na mesa, minha cadeirinha mais alta do que todas.
Os melhores sonhos, as noites de filmes e de jogos de cartas.

Procurei por todos juntos em volta de qualquer novidade na casa.
Todos juntos na mesa, todos juntos nas viagens, todos juntos nas lembranças.
Todos juntos.
Por que não podemos todos estar de novo juntos?

Ainda me lembro, isso sem muito esforço,
De como era bom quando faltava, por algum motivo, energia elétrica.
Era tempo de velas espalhadas na casa,
E os espaços eram particularmente dotados de personalidade. Cada canto com o seu espírito.
Havia noites que eu queria que durassem pra sempre.
Noites em que, na mesa, ao redor da vela acesa, todos juntos celebrávamos sem saber
A alegria de estarmos todos juntos.

29/04/03

LONGE DO MAR


Estive fora e longe do mar,
Como se não fora o mar meu velho vizinho.
Como se os horizontes espraiados na forte aurora
Não fossem esse sentimento de perda, de desassossego, de distância de tudo, aos poucos
— Como quando as coisas vão-se despedaçando,
E vai-se ficando só, intranquilo, no mormaço tranquilo do isolamento —,
Essa dor inexplicável do adeus sabido, mas não dito,
Essa certeza que armazena, e estipula, e relaciona, e destila, e faz a conta certa
Das vezes em que se sabe nos olhos o sorriso profundo, sincero,
Comparsa da vida.
Essa vida que nos mira tão pouco atentamente
E que se esvai aqui e ali
No desenlaçar de uma amizade, no alicerçar de um rancor,
No abandonar de um sonho…
Estive fora e longe do mar… Estive longe de tudo…

08/02/02

Mais ou menos assim.