Número de sílabas (desde 11/2008)

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sábado, 22 de maio de 2010

Flor de ir embora

(Fátima Guedes)

Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta
Do que a gente chora
Rompe a terra decidida
Flor do meu desejo
De correr o mundo afora

Flor de sentimento
Amadurecendo aos poucos
A minha partida
Quando a flor abrir inteira
Muda a minha vida
Esperei o tempo certo

E lá vou eu
E lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
Agora, esse mundo é meu

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Talvez, de todas as músicas, eu tenha com essa a relação mais intensa, mais verdadeira, mais emocionante.
Hoje, eu a descobri na voz da Negra.
Deixo pra vocês aqui essas duas versões.
Sintam-nas.

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

PARA OS MEUS AMIGOS


um gosto novo de café
um pedaço de filme
uma obra inacabada
uma maré cheia

uma hora bem gasta
uma sorveteria
um acerto de ideias
uma sombra sobre a água

um recado
uma voz
uma janela
uma chuva

um cheiro de manga
uma música
um dia bom
uma cachaça com limão

uma fogueira
uma beira de praia
uma cachoeira
um sol que se põe no mar

uma cavala frita
um sapoti maduro
um passeio de bicicleta
um riachinho

uma duna
um cão
uma história
uma pausa

um cinema
uma luz de vela

e uma flor de mato
desabotoada

21/05/10

TESSITURA

Eu não quero a tessitura
de uma forma presa.
Palavra que se preze
diz.
Entretanto, como as linhas de uma renda,
é preciso que não se saiba
onde começa
e onde termina
o dito.
A palavra boa
não sabe não
a hora de morrer.

21/05/10

domingo, 9 de maio de 2010

É querer demais...

— Ei-las, as palavras. Usa-as bem, meu filho!, disse Deus.
Adão, obviamente:
— Hein?

O CONCRETO DA VIDA DAS LETRAS


Caso essa palavra vida
(com efeito, a das letras)
abandonasse a abstração substantival
e se concretizasse
denotativamente,
como será que se sentiria
a vogal fraca
de um átono e atônito hiato?
Como soaria
um desencontro consonantal
epenteticamente separado?
(de que matéria seria
a vogal amante
pivô de tal desfeitura?)
O diapasão do U
me parece agora,
morto o trema,
um sorriso sem olhos,
e a firmeza do ponto final
é birra solitária,
como já diriam tristemente
as reticências...
Já vejo a vírgula
tropeçando
o caminho natural das sinalefas,
quando as sílabas
percebem aturdidas
que, apesar da caligrafia cursiva de Deus,
letras nascem
e morrem
sós.
Ei-las foneticamente amarradas,
prefixadas, hifenizadas,
germanicamente compostas,
repetidas,
à espera de sua própria voz.
Sequer sussurram suas experimentais
aliterações.
Enlouquecem, formam verbos,
neologizam-se
para que, na ilusão de uma transitividade,
complementem
umas às outras.
A solidão metalinguística das letras
é palavra-ônibus,
é coisa que não tem nome,
tendo-o.
Então, desistem de ser palavras.
Ser palavra é iludir-se
no conjunto formal
de uma significação coletiva,
mas vazia,
visto que a isso
segue-se a morte lexical:
um ultrajante estado de dicionário.
Preferível é
encadaverizar-se, mas de pé,
dignamente, puramente.
Preferível é a tautologia
de ser-se o que se é.
Põem-se lado a lado
crescentemente,
alfabeticamente.
Milhares, milhões
de A enfileirados,
rudes, inefáveis, incaracterizáveis
pelo que não os seja.
Para serem, enfim,
letras,
inanimadas como números,
que se perpetuam
sem a consciência do infinito.

09/05/10